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2. HUME’UN YETER NEDEN İLKESİNİ REDDETMESİ

1.1. Kant’a Göre Yargılar

Para além de uma questão temática, mais ou menos circunscrita a referências hedonistas à sexualidade, ao corpo e aos afetos, a consideração dessa passionalidade constitutiva do fazer poético cabralino conduz ao domínio do erótico em sentido lato. E aqui, a exemplo do que ocorre com a morte, com a qual se encontra invariavelmente ligado, o erotismo designa mais do que modos de representação do desejo, do sexo e do amor, noções estas, em si mesmas, vastas e indelineáveis. Como a morte, que indica mais do que “cessação da vida”, o erotismo, em um sentido mais amplo, indica uma multiplicidade de relações possíveis com a linguagem, a imagem, a subjetividade, multiplicidade da qual parte o ato mesmo de criação, que, sob uma ótica mais ampla, não é senão erótico.

Por isso, o cotejamento de definições de erotismo talvez conduza menos ao cerne de um conceito do que a sucessivos desdobramentos em outras questões. De todo modo, a disparidade entre esta ou aquela conceituação não impede o reconhecimento de pontos de tangência que, se, por um lado, evidenciam a impossibilidade de uma definição precisa – o erotismo “é incapturável” (BRANCO, 1991, p. 66) –, por outro, apontam as direções em que se formulam as questões-chave do problema: “O erotismo é a infinita riqueza de formas que o espírito empresta à sexualidade (JASPERS, 2005, p. 119). “Tudo o que é erótico é necessariamente pornográfico, com alguma coisa a mais” (ALEXANDRIAN, 1993, p. 8).“O grande erotismo” implica levar “ao extremo o que é específico do próprio sexo e do sexo do outro. Tem-se então a sucessão contínua das revelações. Tem-se então a interminável aparição do novo” (ALBERONI, 1987, p. 28). “O erotismo é a sexualidade reintegrada em uma ampla variedade de propósitos emocionais, entre os quais o mais importante é a comunicação” (GIDDENS, 1993, p. 220).

Quando se tem em vista um conjunto aleatório, ainda que restrito, de definições sobre o tema, pode-se perceber que, se há um ponto em comum entre perspectivas tão diversas, ele passa pela remissão à atividade sexual humana. Com efeito, nada há de fortuito na impossibilidade de dissociar o conceito de erotismo do campo da sexualidade. Porém, ainda nesse caso, há de se levar em conta o fato de o erotismo, como propõe Octavio Paz (1994), atuar como metáfora – e, portanto, deslocamento – da sexualidade em si, sexualidade que, na atividade erótica, transfigura-se. Daí a estreita relação entre o erótico e o poético: em ambos os casos, há um desvio em relação a uma finalidade primeira:

A relação entre erotismo e poesia é tal que se pode dizer, sem afetação, que o primeiro é uma poética corporal e a segunda uma erótica verbal. Ambos são feitos de uma oposição complementar. A linguagem – som que emite sentido, traço material que denota ideias corpóreas – é capaz de dar nome ao mais fugaz e evanescente: a sensação; por sua vez, o erotismo não é mera sexualidade animal – é cerimônia, representação. O erotismo é sexualidade transfigurada: metáfora. [...] A relação da poesia com a linguagem é semelhante à do erotismo com a sexualidade. Também no poema – cristalização verbal – a linguagem se desvia de seu fim natural: a comunicação (PAZ, 1994, p. 12-13).

Trata-se de uma concepção que, em mais de um aspecto, remete à abordagem daquele que, provavelmente, é o maior teórico do erotismo do século XX, Georges Bataille, autor que parte justo da mudança de finalidade que o erotismo imprime sobre a atividade sexual. No erotismo, suspende-se a função de reprodução da espécie, pois o erótico justifica-se por si e em si mesmo. A partir disso, Bataille (2013, p. 35) amplia consideravelmente a noção de erotismo, pensando-a como “aprovação da vida até na morte”, indissociável do interdito e da

transgressão, do limite e da violência, das regras e exceções impostas pelas esferas sagrada e profana da vida humana.

Poesia e erotismo, para Bataille, têm muitos pontos em comum. Ambos são atividades improdutivas, sem outra finalidade que não a de sua própria realização; ambos pressupõem uma certa identidade entre destruição e criação, morte e gênese, desejo de continuidade e percepção da abissal descontinuidade da condição humana, fadada à solidão absoluta do corpo. Por essa razão, “a poesia conduz ao mesmo ponto que cada forma do erotismo, à indistinção, à confusão dos objetos distintos. Ela nos conduz à eternidade, nos conduz à morte e, pela morte, à continuidade” (2013, p. 48).

Além disso, tanto a poesia quanto o erotismo pressupõem uma transgressão ao interdito: da língua, destinada ao entendimento; do corpo, destinado ao trabalho. E onde há violação – o erótico e o poético são vistos como ameaças à ordem do discurso e da produtividade – há algo relativo ao sacrifício. Por isso, a poesia, à maneira do que ocorre na atividade erótica, compromete, de fato, a vida de quem a realiza. Trata-se de uma “criação por meio da perda”, dirá Bataille (1975, p. 23), criação cujo “sentido é vizinho do de sacrifício”, na medida em que postula uma radical abdicação de si.

Tal abdicação, por sua vez, reconduz o problema do erotismo à dualidade entre o visível e o invisível, que, para Bataille, constituem-se mutuamente. Neste ponto, pode-se traçar um interessante paralelo com a solaridade cabralina, tão intensamente relacionada às figurações – diga-se: sacrificiais – do sujeito no poema. João Cabral fala do “mistério maior do sol da luz da saúde”, em nome do qual a obscura interioridade do sujeito há de ser suprimida, anulada, como a flauta de Anfion, que silencia sob o sol do deserto. Contudo, ao fazer do poema um espaço de lucidez “onde nada existe / em que a noite pouse” (2008, p. 67), o poeta reafirmaria a atuação da obscuridade e do ofuscamento sobre aquilo que quer “dar a ver”.

A busca pelo sol conduz à cegueira e aponta para o que há de loucura e desrazão na idealização da lucidez. E “para Bataille, a vontade de ‘ver mais’ abandona o domínio do visível para arriscar-se na escuridão do olhar interior, onde a ‘visão’ reencontra a sua orientação sensual numa experiência incomunicável” (SCHØLLHAMMER, 2007, p. 86). Algo semelhante foi dito por Lauro Escorel (1973), em sua leitura jungiana da obra de João Cabral:

A parábola descrita pelo símbolo do Sol, na poesia de Cabral de Melo merece ser destacada, de forma especial, pela sugestividade do mito solar. O Sol, na verdade, “pai visível do mundo’, identificado com o intelecto, começa a ser venerado como símbolo de lucidez e esterilização emocional, a partir do momento em que o espírito do poeta se desprende, ao sair da adolescência, do mundo noturno, onírico e lunar

[...]. Esse sol da atenção intelectual permanecerá, durante anos, brilhando como a divindade inspiradora da criação poética cabralina [...]. Ao chegar, porém, à sua última etapa, verifica-se que, a par daquela tendência à retroversão uterina, o Sol parece perder sua força de sedução intelectual, como se baixasse sobre o espírito alumbrado do poeta a nostalgia da treva original. (ESCOREL, 1973, p. 109).

Essa constatação acerca da solaridade do intelecto conduz a um ponto importante em relação ao erotismo cabralino: ante a intenção reguladora do poeta cerebral sobre a expressão poética, o erotismo se dará sob o signo da recusa, da contenção e mesmo de uma negação mais contundente de aspectos diretamente relacionados ao campo do erótico. De imediato, isso ocorre porque a “perda da individualidade”, comum tanto à atividade erótica quanto à poética, estaria não no controle racional sobre a expressão, como defende a proposta estética (ascética) de João Cabral, mas justamente no polo oposto, da desordem e do descontrole, ou, para utilizar um termo caro a Bataille, do excesso. Essa, provavelmente, é uma das razões que fazem com que o erotismo cabralino, mesmo quando explicitamente integrado ao propósito comunicativo do poema, jamais se encaminhe para um erotismo desbragado e suas formas correlatas, como o amor lascivo e libertino, ou o que seja considerado obsceno, licencioso, pornográfico74.

Ao que tudo indica, ainda que se possa pensar essa particularidade do erotismo cabralino como manifestação residual de uma tradição lírica que tende a manifestar sua idealização do sexo em um erotismo “bem comportado”, como observou Eliane Robert Moraes (1997), a contenção do erótico na poesia de João Cabral não parece resultar em uma limitação de seu alcance sobre a atividade poética. Pelo contrário, trata-se, antes, de um erotismo que, em mais de um aspecto, assemelha-se às figurações do sujeito e da morte, apresentando-se como um não-dito que a todo instante se insinua, dissimulando-se naquilo que “não está” no que o poeta “dá a ver”. Como a subjetividade, como a morte, o erotismo cabralino apresenta-se enquanto falta, ausência, figuração do vazio que, paradoxalmente, se traduz em um excesso que o controle racional não pode de todo conter.

Diante desse aspecto, é oportuno observar que “falta”, “ausência” e “vazio” são atributos daquilo que uma longa tradição filosófica entende por desejo75 e estão presentes

74Felipe Fortuna (1989) sintetizou com precisão essa particularidade do discurso erótico cabralino: “Não existe na poesia de João Cabral de Melo Neto o erotismo físico, de dois ou mais corpos humanos, nem mesmo comparação à relação concreta entre duas pessoas. Na verdade, o seu erotismo representa bem uma psicologia da composição: é um erotismo que estrutura realidades, que metaforiza corporalmente as realidades não-corporais. Ele é, muitas vezes, conotação do processo vital, mas nunca é o processo em si: trata-se de um erotismo alusivo, difuso, mas, ao mesmo tempo, totalizante – uma vez que ele ordena o mundo”.

75Na filosofia aristotélica, “o desejo (oréxis), presente onde está a sensação, triparte-se em impulso (thymos), apetite (epithymía) e vontade (boulésis). Prazer e dor, fome e sede, são todas estas atrações e repulsas,

desde a origem mítica de Eros, cuja mãe, Pênia, personifica a privação, a pobreza, a escassez76. E não menos insinuantes são as relações entre desejo e fome, bem como entre desejo e violência, ímpeto, agressividade77. Não por acaso tudo o que se diz sobre o desejo é, de algum modo, aplicável com a mesma pertinência ao que se diz sobre a faca na poesia de João Cabral. Não por acaso, isso é igualmente válido para a singular referencialidade cabralina, que, ao se voltar para a realidade histórico-social e/ou para a própria linguagem, o faz com a violência da faca para acusar a falta, o corte, a fome, a privação.

Se se trata de uma questão endereçada ao que o texto busca tornar visível, na plasticidade do poema reside, talvez, a possibilidade de compreender melhor essa dimensão do desejo em uma escrita que faz da falta sua força-motriz.