2. HUME’UN YETER NEDEN İLKESİNİ REDDETMESİ
1.4. Kant’ın Neden Kavramıyla İlişkili Cevher ve Kuvvet Kavramları
Os termos de uma leitura assim procedida seriam inócuos se desconsiderassem ao menos dois aspectos que, na poesia de João Cabral, nada têm de circunstanciais, não sendo demais reiterá-los. Em primeiro lugar, está a singular impessoalidade cabralina, que, manifestando-se por meio de uma regulação sistemática da criação poética, como foi visto no capítulo anterior, faz com que a recusa à expressão subjetiva implique também, de modo paradoxal, uma recusa em fazer da experiência da linguagem um ato de pura exterioridade, uma experiência desmedida, errante, que corresponderia à perda de controle e de identidade, característica da atividade erótica.
Em segundo lugar, está a indissociabilidade entre a atividade poética – a nem sempre transitiva proposta comunicativa do poema – e a expressão da experiência histórica e concreta. De outro modo, a leitura de um poema como “História natural”, a pretexto de uma conformação a esta ou aquela perspectiva teórica, acabaria deixando de lado elementos fundamentais do texto, como o tom anedótico, marcadamente irônico, que esvazia a suposta gravidade daquilo que é dito e, recorrendo ao objeto de estudo da história natural, os reinos animal, vegetal e mineral, opõe-se à idealização do amor, que, no poema, nada tem de eterno ou espiritualizado.
À luz dessas particularidades, pode-se, enfim, ter uma visão mais ampla do que está em jogo no erotismo cabralino. De um lado, a falta, o excesso, a animalidade; figurações do feminino articuladas à passionalidade da faca; o impulso, o risco, a vertigem como contrapartes fundamentais do cálculo, da construtividade racional, do controle sobre a expressão. De outro, a tentativa imperiosa e mesmo passional, obsessiva, de subordinar a expressão das emoções à disciplina formal, ao rigor intelectual e à técnica poética, fazendo com que a abstração das emoções esteja condicionada a formas concretas e definidas, num procedimento que Haroldo de Campos (1970) identificou como análogo ao dos poetas metafísicos ingleses do século XVII.
À maneira do que ocorre com a morte e o Nordeste, o espaço mais próprio do erotismo cabralino assim considerado é a Espanha, ou de modo mais preciso, a Andaluzia,
paradigmaticamente representada por Sevilha. E à maneira do que se dá com o espaço nordestino, não se trata somente de uma delimitação geográfica, tampouco de um espaço de relevância biográfica para o poeta, mas, antes, de um verdadeiro topos poético, responsável não somente por configurar as mais significativas diretrizes do peculiar pathos na poesia de João Cabral, mas também por delinear concepções, referências e procedimentos poéticos que seriam integrados de modo pleno aos mais amplos estratos (formais, temáticos, intertextuais, éticos etc.) da poética cabralina.
A partir de Paisagem com figuras, de 1956, essas “duas paisagens”, a nordestina e a espanhola, passarão a integrar em definitivo o horizonte da poesia cabralina. “Duas paisagens”, não sem razão, é o título do poema de encerramento de Paisagem com figuras, o que, desde já, evidencia a incidência dessa dualidade sobre um determinado projeto estético: de um lado, a paisagem acolhedora que se apresenta “em termos de mulher”, com sua “sóbria harmonia”, “sem régua e sem compasso”, “funda e instintiva” e “seu ritmo feminino”; de outro, Pernambuco, “um Estado masculino / e de ossos à mostra” (2008, p. 142). Levando-se em consideração as figurações da faca, pode-se perceber como é forte a sugestão de uma complementaridade entre esses dois espaços, o espanhol e o pernambucano. Este é:
Lúcido não por cultura, medido, mas não por ciência: sua lucidez vem da fome
e a medida, da carência (2008, p. 143).
Lucidez e medida – atributos pernambucanos (da pedra) – são determinados pela fome e carência – atributos da faca – ligados ao feminino, à passionalidade e, portanto, ao espaço espanhol. Com efeito, não se trata de uma aproximação eventual. Em “Autocrítica”, poema de encerramento de A escola das facas, publicado quase 30 anos depois, em 1980, a relação Pernambuco/Andaluzia, Sertão/Sevilha é apresentada de modo ainda mais claro:
Só duas coisas conseguiram (des)feri-lo até a poesia: o Pernambuco de onde veio e o aonde foi, a Andaluzia. Um, o vacinou do falar rico e deu-lhe a outra, fêmea e viva, desafio demente: em verso
dar a ver Sertão e Sevilha (2008, p. 430).
A potencial ressignificação que essa relação opera na obra cabralina, sobretudo no contexto memorialístico de A escola das facas, será melhor discutida logo adiante. Antes
disso, faz-se necessário um exame mais apurado desse erotizado espaço andaluz. De imediato, é importante observar que é da experiência andaluza, “fêmea e viva”, que parte o desafio de “dar a ver” o Sertão (masculino e subvivo, hostil e sobrevivente). Aqui, “ferir” e “desferir” são ações recíprocas, associadas tanto à faca cabralina (que é ferida interiorizada que se exterioriza como arma), quanto à pedra (indicativa de uma relação com a perda, exteriorizada de maneira não menos agressiva do que a faca). Ao mesmo tempo, “ferir” e “desferir” são ações que podem variar significativamente de acordo com a diferença entre esses dois lugares-textos de que partem e aos quais retornam sob a forma de imagens. O que fere e (se) desfere em Sevilha seduz. No Sertão, agride.
Na “autocrítica” à sua maneira, em terceira pessoa, o poeta se detém sobre duas das inúmeras modulações possíveis em torno desses dois espaços aos quais atribui a razão de ser de sua atividade poética. De Pernambuco, vem um modo de falar, seco, duro, áspero, como o petrificado espaço sertanejo. Da Andaluzia, vem o “desafio demente” que, dando origem ao motivo mesmo pelo qual se escreve – “dar a ver” –, coloca-se no âmago do fazer poético de João Cabral. Mas, então, o que vem a ser esse desafio? Como sua realização se inscreve no domínio do erótico-feminino?