2. PROBLEMLERİN TANIMLANMASI VE KARMAŞIKLIK ANALİZİ
2.2. Kanser Verilerinde Sağkalım ile İlişkili Alt-Ağların Belirlenmesi
Puccini morreu antes de completar a partitura de sua última ópera, estrea- da em 1926, com libreto de Giuseppe Adami e Renato Simoni. A primeira frase do libreto, baseado em um conto escrito a partir de antiga lenda oriental, am- bienta a ópera e já adianta que centrará seu enredo em uma norma. Ao abrir-se o pano, o coro, introduzido por fanfarras, anuncia:
Povo de Pequim! A lei é esta:
Turandot, a pura, esposa será de quem, de sangue real, resolver três enigmas que ela proporá.
Não chega a ser bem uma lei. É uma espécie de édito, oferta pública, um compromisso, sancionado pelo imperador e que obriga à sua filha; mas que também comina uma sanção:
Quem enfrentar o desafio e for vencido, entregue ao machado a cabeça orgulhosa.
Exposto publicamente o desafio, começa a se desenvolver o enredo fáti- co que dele decorre. Em meio à multidão que circula pela praça, um homem encontra seu velho pai, cego, acompanhado de uma jovem. O velho é Timur, rei destronado e tornado fugitivo em consequência de uma guerra. A jovem que o acompanha é Liú, sua leal e dedicada escrava. O filho do rei, é Calaf, por quem Liú confessa-se apaixonada, dizendo que o único motivo pelo qual divi- diu com Timur tanto sofrimento foi porque, um dia, no reino, Calaf sorriu para ela. O reencontro e a troca de relatos ainda estão se processando, quando a multidão anuncia aos gritos que está prestes a começar mais uma execução. A música afetuosa do trio Calaf, Timur, Liú, é abruptamente sufocada pelo som forte do coro, o alarido dos metais e um ruído estranho de fricção de lâmina contra pedra.
Mais um príncipe tentou e não conseguiu resolver os enigmas da prin- cesa Turandot e o carrasco já afia a longa espada com que cortará a cabeça do derrotado. O sol se põe lentamente. Surge a lua no céu; faz-se um quase silêncio, a música reduz-se a um suave trinado de cordas. Banhada de sua luz prateada, a princesa aparece em uma sacada. A multidão, em coro, pede a ela que conceda graça ao condenado. A princesa, com um gesto firme, manda que se complete a execução. O cortejo de guardas, carrasco e condenado se afasta lentamente; logo, ouve-se uma voz que grita em desespero o nome da princesa. Um segundo chamado é interrompido por um baque surdo. Mais uma cabeça foi cortada.
Todos se retiram, deixando em cena apenas Calaf, Timur e Liu. Calaf está fascinado pela aparição de Turandot; quer soar o gongo aceitar o desafio e ten- tar resolver os enigmas da princesa. Timur, Liu, e mais três personagens, Ping, Pang e Pong, identificados como ministros da corte, e finalmente o próprio coro tentam dissuadir Calaf de seu intento. A música vai aumentando de tom e de velocidade opondo a pressão de todos à teimosia do príncipe.
Inútil esforço. Calaf está verdadeiramente enfeitiçado, compelido por uma força irresistível. Em um delírio, faz soar três vezes o enorme gongo no meio da praça. Está lançado o desafio.
No segundo ato, serão apresentados os enigmas. Novamente a multidão está reunida na praça. Desfilam em festa, mandarins e estandartes, ao som de acordes brilhantes. Saudado pelo povo, o imperador aparece no alto do palco e senta-se em seu trono, no topo de uma enorme escadaria. Por três vezes, Calaf confirma a ele o pedido de enfrentar a prova. Aparece finalmente Turandot, que ao lado de seu pai, explica, em uma ária, as razões de sua lei. Há milênios sua avó foi violentada por bárbaros invasores e ela vinga hoje a pureza ultra- jada. Nenhum homem jamais a terá. Dirige-se finalmente a Calaf e adverte-o: Estrangeiro, não tente tua sorte.
Por três vezes, cada uma delas em um tom mais alto, a Princesa repete a Calaf: Os enigmas são três, a morte é uma. E, também por três vezes e tam- bém elevando o tom a cada uma, ele responde: Os enigmas são três, uma é a vida.
O compromisso, assumido com três batidas no gongo, confirmado três vezes após a advertência do imperador, está agora selado definitivamente, quando, também por três vezes, Calaf recusa a sugestão de Turandot. Compro- missos graves são, desde sempre, associados no imaginário humano a rituais solenes.
Em crescente tensão, os enigmas, a rigor verdadeiras adivinhas — o que é o que é? — são propostos e, um a um, resolvidos por Calaf. Turandot, vencida, entra em desespero. Suplica ao pai que não a entregue, vencida e humilhada, nos braços de um estrangeiro. O Imperador serenamente recusa. O juramento é sagrado. Não pode ser descumprido. Fosse ele imperador da Roma antiga, não da China, talvez repetisse, como tantas vezes um jurista de hoje: pacta sunt servanda (os contratos têm que ser cumpridos), ou, talvez, o tão conhecido dura lex sed lex. A princesa dirige-se então, em desespero, ao próprio Calaf.
— Queres-me em teus braços à força, relutante e trêmula? — Não, princesa orgulhosa, quero-te toda ardente de amor. O povo aclama, a orquestra altera acordes estridentes com instantes de total silêncio, expressando um clima de tensão.
Calaf oferece então a Turandot um novo pacto:
— Três enigmas me propuseste. E três enigmas resolvi. A ti propo- nho apenas um. Não sabes o meu nome. Dize-me meu nome antes da aurora, e, ao nascer do sol, eu morrerei.
Começam as buscas para descobrir o nome do príncipe que resolveu os enigmas. A lei original não mais está em vigor. Na mais famosa ária da ópe- ra — Nessun dorma — ninguém durma — Calaf repete os termos do comando imperial. Naquela noite ninguém dormirá em Pequim. Em sucessivos agudos terminando com um esperado e espetacular dó, o príncipe mostra confiança de que vai vencer:
Liú é localizada e trazida à força diante da princesa. Alguém a viu falar com o príncipe e a denunciou. O coro sugere que seja posta sob tortura para que revele o nome do príncipe desconhecido. Em um gesto furtivo e rápido, Liú consegue subtrair o punhal de um dos guardas que a seguram e apunhala-se. Antes de morrer, em mais uma ária famosa, diz que morre feliz por saber que
dá a vida pelo homem que ama. E ainda tem tempo de dizer a Turandot: Tu, que és envolta de gelo, tu também o amarás.
No último ato, cuja partitura, como foi dito, Puccini não chegou a terminar antes de morrer, já começam a aparecer os primeiros sinais da aurora. Turandot ainda não conseguiu descobrir o nome do desconhecido. Desesperada, confes- sa a Calaf que, por ele, havia sentido uma emoção diferente, que, ao mesmo tempo em que temia, chegou desejar que ele resolvesse os enigmas; e pede, como se ordenasse:
— Foge estrangeiro, vai-te embora com teu mistério!
A resposta de Calaf, em frases musicalmente exaltadas, é emocionante: Meu mistério? Não mais o tenho.
Tu que tremes se te toco, que, se te beijo, empalideces, o meu nome e a minha vida juntos te dou:
eu sou Calaf, filho de Timur.
Nos termos estritos do pacto, Turandot tem agora o direito, ou melhor, a faculdade, de mandar que Calaf seja decapitado, tal como os pretendentes anteriores.
Começa a surgir o sol, e, aos primeiros raios, entra em cena o imperador. Turandot prostra-se diante do pai e anuncia.
Pai augusto, Conheço o nome do estrangeiro. Seu nome é... Amor.
Calaf e Turandot se abraçam, o coro explode em uma celebração jubilosa e a ópera termina.
Esse enredo simbólico é literalmente milenar. O texto base, sobre o qual foi composto o libreto, deriva de uma das muitas lendas narradas por Schera- zade nas Mil e Uma Noites, coletânea da cultura muçulmana, cujas raízes se lo- calizam no século XI. As indagações que provoca levam a reflexões profundas sobre um tema essencial e eterno das relações humanas — o amor.
Será possível encontrar, nessa lenda antiga, contada com palavras e mú- sica tão belas, algum tema que possa ser chamado propriamente de jurídico? Um teórico do direito poderia talvez especular, com elaboradas construções, sobre a exata natureza jurídica da suposta lei, anunciada ao povo de Pequim, na primeira frase da ópera; ou, talvez, sobre o complicado ritual de expressar o consentimento, soando um gongo e ainda reafirmá-lo depois, solenemente por
três vezes. Seria talvez um exercício plausível, mas certamente árido, como são, de resto muitas outras teorizações sobre natureza jurídica de qualquer relação ou instituto.
Turandot fala mais ao sentimento que à razão. A coragem e a ousadia de Calaf vencem o ódio, enraizado no inconsciente da Princesa, derretem o gelo que a envolve, acordam o desejo reprimido, anunciando, com acordes deslum- brantes de triunfo, uma consumação sensual de completa entrega. O suicídio de Liú, para permitir a vitória de Calaf, afirma a força do amor puramente espi- ritual: porque um dia o príncipe sorriu para ela, Liú renuncia à própria vida para que seu amado triunfe.
Tudo isso busca e toca o inconsciente. E, no inconsciente de um jurista, há de estar sempre o direito. Esse direito, encrustado no fundo da alma, como o desejo em Turandot, gera, na mente inquieta, analogias e símiles, percebe paralelos e faz comparações — divaga talvez. No processo pode-se produzir, quando mais não seja, alimento para o pensamento, associado talvez a alguma espécie de prazer estético.
Todos os seres humanos aspiram ao amor, têm esperança de que possa existir, às vezes até acreditam que exista; muitos, como Calaf estão dispostos, para conquistá-lo, a arriscar-se até a derramar, na busca, o próprio sangue. Os cultores do direito também aspiram e lutam também por um ideal abstrato, que não sabem exatamente definir e que não chegam sequer a ter certeza de que possa realmente existir, a que dão o nome de justiça. Não têm, por certo, a ousadia extrema do príncipe, mas alguns riscos, por certo, hão de estar dis- postos a assumir.
Dentro desse ideal abstrato de justiça está a construção de uma sociedade equânime, pacífica e ordeira, onde vivam felizes, gentes e rebanhos, em casas campos e vilas, exatamente como Fausto vislumbrava em sua antevisão do pa- raíso. Uma das ferramentas mais utilizadas pelo direito no intuito de aproximar- -se de um tal cenário é a repressão direta ao comportamento individual que o contradiga ou perturbe. Viola a paz quem mata? Puna-se o assassino. É infeliz quem se aliena consumindo drogas? Reprima-se o tráfico. Corre e provoca ris- cos para si e para outrem quem dirige embriagado? Institua-se a lei seca. O preconceito de raça ou de gênero contraria a equidade e causa desconforto injusto a minorias? Criminalize-se o racismo e a homofobia.
Infelizmente, porém, a lei não tem como modificar a vontade; pode, com sua força e seu peso, modelar a conduta, não pode controlar o desejo. A ver- dade é que todos os códigos penais ficariam mais de acordo com seus pró- prios fundamentos e teriam cumprido seus objetivos se não precisassem ser aplicados. Muito melhor que punir quem mata, é que não ocorram assassinatos e não existam assassinos a punir. Que o sentimento de fraternidade humana