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2. PROBLEMLERİN TANIMLANMASI VE KARMAŞIKLIK ANALİZİ

2.1. Ağ Modüllerinin Ortaya Çıkarılması

2.1.4. Değerlendirme ölçütleri

Outro tema jurídico eterno é o confronto entre normas emanadas de culturas distintas e como esse confronto cria situações de tensão quando se relacionam entre si nacionais dessas culturas.

Madame Butterfly, obra que, segundo se diz, era aquela que o próprio Puc- cini mais gostava dentre as muitas que compôs, é um exemplo perfeito desse tipo de situação. A ópera, estreada já no século XX, em 1904, com libreto de Luigi Illica e Giuseppe Giacosa, é extremamente romântica; o tocante drama humano de seu enredo, aliado à música de beleza comovente provoca, até hoje, lágrimas de emoção em quem a assiste ou escuta.

A história é estruturalmente simples: a personagem título é uma moça ja- ponesa, com quinze anos de idade, quase, portanto, uma menina, originária de família importante, mas que tinha sido obrigada trabalhar como gueixa, para sustentar a si mesma e a sua mãe, depois que seu pai foi convidado pelo go- verno a suicidar-se.

Entre parêntesis, já aparece aqui um primeiro tema lateral para reflexão: um evento ocorrido em um tempo passado, anterior aos fatos do enredo e re- ferido no libreto como uma informação. Estranha instituição, pelos parâmetros ocidentais, a prática, que estaria em vigor na cultura japonesa no início do sécu- lo passado, de enviar delicadamente a alguém, supostamente considerado um inimigo do estado, um rico estojo de laca trabalhada, contendo uma espada e um bilhete: morre com honra, quem não pode com honra conservar a vida. Uma sentença de morte, sem acusação, sem defesa, sem julgamento e executada pelo próprio condenado.

Voltando ao enredo: Benjamim Franklin Pinkerton, um oficial da marinha americana, estacionado em Nagasaki, por intermédio de um agente matrimo- nial, contrata casamento com Butterfly. Logo ao início da ópera, Pinkerton conversa com seu amigo Sharpless, cônsul americano na cidade. O cônsul dis- se que, dois dias antes, Butterfly tinha ido visitar o consulado; ele não tinha chegado a vê-la, mas ouvira-a falar. O mistério de sua voz — diz ao amigo, impressionou-me. Certamente o amor fala assim, quando é sincero. E acrescen- ta: Cuidado! Ela acredita.

Pinkerton não se impressiona. Meu caro cônsul, tenha calma; na sua idade fica-se mal humorado. Não há mal algum em querer abrir aquelas asas aos do- ces voos do amor. Pinkerton oferece um whisky a seu compatriota. Tinindo os copos Sharpless brinda à família distante de Pinkerton, enquanto a orquestra executa acordes do hino dos Estados Unidos. Ao que oficial acrescenta: E ao dia em que eu me casarei, em núpcias verdadeiras, com uma esposa verdadei- ra— americana.

Chega logo depois a personagem título. Em um curto diálogo com Pinker- ton, mostra-se respeitosa, verdadeiramente submissa. Diz inclusive que foi na véspera à missão para converter-se ao cristianismo. Com minha nova vida pos- so adotar uma nova religião e ao Deus de B.F.Pinkerton me inclino. Contem- plando-a, Pinkerton murmura para si mesmo: Com esse jeito de boneca, quan- do ela fala me inflama.

Realiza-se a cerimônia do casamento; a família e as amigas de Butterfly er- guem brindes. A alegria da festa é interrompida abruptamente. Um tio de But- terfly, monge budista, irrompe em cena e anuncia furioso a todos que a moça se converteu ao cristianismo, que renegou o culto antigo dos avós. E amaldiçoa a sobrinha. Parentes e amigos, indignados, vão imediatamente embora, deixan-

do Butterfly, como ela mesma se descreve em frases musicalmente pungentes, só e renegada, renegada e feliz.

Um lindíssimo dueto de amor termina o primeiro ato. O ato seguinte ocorre três anos depois. PInkerton já foi embora. Butterfly continua, porém, fielmente a esperá-lo. No final do ato, Butterfly, alertada pelo canhão do porto da chega- da de um navio, vê pelo óculo de alcance, que é um navio de guerra, americano — o Abraham Lincoln, o navio de Pinderkon. Butterfly rejubila-se. Arranca todas as flores do jardim e derrama suas pétalas por toda a casa. Veste a roupa com que se casou, e, junto com o filho que teve de Pinkerton, cuja existência o pai ainda ignora, faz dois furinhos na parede de papel da casa e põe-se a esperar.

Ao raiar do dia, aparece Sharpless. Butterfly está finalmente adormecida. O cônsul é recebido por Suzuki, criada e companheira de Butterfly, que a acom- panhou sempre ao longo dos três anos de espera. Diz que veio de propósito, de manhã bem cedo, para encontrar-se, a sós, com Suzuki. É preciso preparar But- terfly para a triste noticia. Pinkerton chegou, sim, em seu navio. Mas não veio para ficar com sua esposa japonesa. Está casado com uma moça americana que trouxe junto com ele. E, continua Sharpless, Pinkerton, já foi informado da existência do filho; quer pedir a Butterfly que o entregue a ele para que possa ser criado nos Estados Unidos.

O final já se advinha. Butterfly aceita o pedido, diz que continua tendo que obedecer a seu marido. Mas só a ele entregará filho, se ele vier pessoalmente busca-lo. Prepara o menino, beija-o efusivamente, venda seus olhos, abre a caixa de laca que guarda a espada com que seu pai se matara, e, com gestos rituais, mata-se também. Já está morta, quando Pinkerton chega para buscar o filho.

Essa tragédia, linear e simples, contada com um libreto sóbrio e bem cons- truído e acompanhada de música deslumbrante, produz emoções fundas, cau- sa impacto. Os espectadores ocidentais, comovidos pela devoção amorosa de Butterfly, por sua morte, pelo destino do menino órfão, geralmente apontam para Pinkerton dedos acusadores, reprovando-o moralmente. É um sentimento quase instintivo de não aceitação, análogo ao que se percebe tantas vezes no noticiário cotidiano, quando populares, indignados com algum crime bradam por justiça, querendo dizer vingança.

O libretista e música, romântica ao extremo, ajudam na formação desse tipo de clima. Sharpless, desde o início adverte Pinkerton: Butterfly de fato, ama você sinceramente. Ela acredita... E Pinkerton ri, diz que um ianque como ele, que vagueia pelo mundo não se satisfaz na vida se não faz seu tesouro as flores de todas as plagas e o amor de todas as belas. Quando Butterfly se prepara para a primeira noite de amor, Pinkerton a olha despir o pomposo traje nupcial e compara seus movimentos aos de um esquilo. E monologa em- bevecido: Pensar que esse brinquedo é minha mulher! Minha mulher! Mas é tão

graciosa que eu me sinto arder de desejo. Ao retornar ao Japão, com sua ver- dadeira esposa americana, não tem sequer a hombridade de ir ele mesmo pedir a Butterfly que lhe entregue o filho; encarrega o cônsul da espinhosa missão.

Juridicamente, porém, o comportamento de Pinkerton é irrepreensível. Se- gue estritamente as leis do lugar onde se encontra, que não só permitem como estimulam atitudes como a sua. Aproveita-se apenas, para seu prazer e gozo, dos parâmetros morais das normas jurídicas de uma sociedade que confere à mulher um papel submisso. Neste país, diz ele, os contratos, como as casas, são elásticos. Comprei uma casa por 999 anos, mas posso rescindir o contrato a qualquer tempo. E Sharpless observa que o homem o homem esperto disso se aproveita. Em qualquer sociedade, em qualquer tempo, o homem esperto sabe aproveitar brechas ou espaços das leis, para sua vantagem pessoal.

Também quase instintiva nas plateias ocidentais, após uma récita da Ma- dame Butterfly, é proclamar uma alegada inferioridade cultural das leis japone- sas que permitiam como prática legítima que mulheres fossem vendidas, como objetos, para casamentos, que podiam ser dissolvidos pelo marido a qualquer tempo e não eram sequer monogâmicos. O mesmo agente matrimonial que contratou o casamento de Butterfly para Pinkerton diz que, se ele assim de- sejar, dispõe ainda de um apreciável sortimento, supõe-se que de esposas — e por quase nada, só cem ienes.

Uma mente juridicamente treinada necessariamente escapará a essas po- sições emocionais extremadas. Em primeiro lugar, relembrando friamente que tanto as leis como a própria moral são relativas, variam no tempo e no espaço. A cultura japonesa do inicio do século não reprovaria Pinkerton. Ao contrário, reprovaria talvez Butterfly, como de resto faz seu próprio tio, por renegar a reli- gião dos ancestrais. A própria Butterfly usa para matar-se a espada com que se matou o próprio pai; e antes de praticar o suicídio, lê pausadamente, como quem se resigna ao próprio destino, a frase escrita na caixa de laca em que a arma era guardada: Morre com honra, quem não pode com honra conservar a vida.

A tragédia de Butterfly, afinal, é produto da imaginação romântica de um escritor ocidental, que utiliza sua imaginação para fantasiar um drama, tocante, sim, mas, na vida real, certamente muito exagerado senão de todo improvável.

A ordem jurídica normalmente acompanha a ordem moral da cultura onde é gerada à qual se aplica. E, presumidamente é compartilhada pelos indivíduos que as formaram e que e nelas estão inseridos.

Um curto diálogo do libreto ilustra o ponto.

Percebendo que Pinkerton não deve mais voltar, o agente matrimonial que atuou no casamento dele com Butterfly quer aproveitar para conseguir para a moça um novo marido. Butterfly insiste que não quer noivo nenhum, que é casada, que não é mais Madame Butterfly e sim Madame Pinkerton. E, quando

o zeloso agente observa que a lei equiparou ao divórcio o abandono da mulher pelo marido, a moça irritada diz que esta é a lei japonesa, e que o Japão não é mais o seu país. Diz ela:

Sabe-se que aqui, o marido abrir a porta e mandar embora a mu- lher se chama divórcio. Mas, lá América, não é assim. Lá, um com- petente juiz, sério, empertigado, diz ao marido: o senhor que ir embora, vejamos por que. — Estou cansado o matrimônio, diz o marido. E o magistrado: Ah! Safado! Já para a cadeia.

Ao fim e ao cabo o drama de Butterfly, triste e comovente o quanto possa ser, é comparável ao drama de qualquer indivíduo que não aceita ou não se ajusta ao contexto jurídico a que está sujeito. Comparável talvez às tristezas so- fridas, até bem pouco tempo atrás, por homossexuais no ocidente preconceitu- oso. Graças, de resto, a indivíduos assim, é que a lei os costumes se transformam e evoluem. O homossexualismo já foi crime, no Ocidente; hoje estamos perto de criminalizar a homofobia. Talvez a cultura japonesa atual possa ainda a ser considerada machista, se olhada pelos padrões ocidentais. Mas certamente não existirão mais mulheres com o mesmo nível de submissão de Madame Butterfly.

Cultura, moral, costumes, direito e sociedade estão em perpétuo movi- mento. A ópera e todas as artes integram a força que produz esse movimento.