Vistos os argumentos daqueles que defendem a irresponsabilidade do Estado-Juiz, passaremos à análise de seus principais fundamentos. Esta teoria defende a idéia de que a atividade judiciária danosa enseja responsabilização por seus atos, permitindo, inclusive, ação regressiva contra o magistrado, quando este agir com culpa ou dolo.
Em princípio, o fato jurisdicional regular não gera a responsabilidade civil do Estado. Anota Caio Mário da Silva Pereira:
força é concluir que o fato jurisdicional regular não gera responsabilidade civil do juiz, e portanto ele é imune o Estado. Daí a sentença de Aguiar Dias, que bem o resume ao dizer que, segundo a doutrina corrente, os atos derivados da função jurisdicional ‘não emprenham a responsabilidade do Estado, salvo as exceções expressamente estabelecidas em lei’ (‘Da Responsabilidade Civil’vol II, n 214). Neste sentido decidiu o Tribunal de Justiça de São Paulo (v. ulderico Pires dos Santos, ‘Responsabilidade Civil na Doutrina e na Jurisprudência’, n 67, p 124).
Assim, o simples fato de alguém perder uma demanda em juízo e com isso sofrer prejuízo, sem que tenha havido erro, falha ou demora na prestação jurisdicional não autoriza a responsabilização do Estado por atos jurisdicionais.
A responsabilidade do Estado por atos judiciais encontra respaldo no artigo 37, § 6º da Carta Constitucional, que dispões que “as pessoas jurídicas de direito público e as de direito privado prestadoras de
qualidade, causarem a terceiro, assegurado o direito de regresso contra o responsável nos casos de dolo ou culpa”.
O poder constituinte não excepcionou a atividade judiciária desta regra, não podendo o intérprete e o aplicador da lei assim fazê- lo. “Não se prevendo exceção, não é licito ao intérprete criá-la, ao arrepio de toda a sistemática constitucional, o que equivaleria a provocar uma fissura num edifício íntegro e harmônico, no qual ela não surgiria de modo natural” (SILVA, 1985, p. 185).
A responsabilidade estatal decorre da noção de Estado de Direito, em que o Poder Público submete-se ao Direito. O Poder Judiciário, assim como os demais poderes, engendram, portanto, a responsabilidade estatal por suas atividades.
Transcreveremos abaixo a síntese conclusiva de José Cretella Junior, ao sustentar a tese da responsabilidade do Estado por atos judiciais em sentido amplo, dando como válida as seguintes proposições:
a) a responsabilidade do Estado por atos judiciais é espécie do gênero responsabilidade do Estado por atos decorrentes do serviço público; b) as funções do Estado são funções públicas, exercendo-se pelos três poderes; c) o magistrado é órgão do Estado; ao agir, não age em seu nome, mas em nome do Estado, do qual é representante; d)o serviço público judiciário pode causar danos às partes que vão à juízo pleitear seus direitos, propondo ou contestando ações; e)o julgamento, quer no crime, quer no cível, pode consubstanciar-se no erro judiciário, motivado pela falibilidade humana na decisão; f) por meio dos institutos rescisório e revisionista é possível atacar-se o erro judiciário, de acordo com as formas e o modo que a lei prescrever, mas, se o equívoco já produziu danos, cabe ao Estado o dever de repara-los; g) voluntário ou involuntário, o erro de conseqüências danosas exige reparação, respondendo o Estado civilmente pelos prejuízos causados; se o erro foi motivado por falta pessoal do órgão judicante, o Estado responde patrimonialmente pelos prejuízos causados, fundamentando-se a responsabilidade do Poder Público, ora na culpa administrativa, o que envolve também a responsabilidade pessoal do juiz, ora no acidente administrativo, o que exclui o julgador, mas empenha o Estado, por falha técnica do aparelhamento do Estado, ora no risco integral, o que empenha também o Estado, de acordo com o princípio solidarista dos ônus e dos encargos públicos”. (Responsabilidade do Estado por atos judiciais, RF, 230:46).
Discorrendo sobre o tema, em artigo publicado na RT, 652:29, José Guilherme de Souza também concorda em que:
seja voluntário ou involuntário, todo erro que produza conseqüências danosas – em outras palavras, toda atividade judiciária danosa-deve ser reparado, respondendo o Estado civilmente pelos prejuízos, a ele assegurado o direito de regresso contra o agente público responsável pela prática do ato.
Maria Sylvia Zanella Di Pietro também entende inadmissível afastar-se a responsabilidade do Estado por atos judiciais danosos, “porque podem existir erros flagrantes não só em decisões criminais, em relação às quais a Constituição adotou a tese da responsabilidade, como também nas áreas cível e trabalhista. Pode até ocorrer o caso em que o juiz tenha decidido com dolo ou culpa. (cit., p. 364).
4 DANOS DECORRENTES DA ATIVIDADE JUDICIÁRIA
A irresponsabilidade do Estado por danos causados pelos atos judiciais constitui o último reduto da teoria da irresponsabilidade civil do Estado, apesar de haver expressiva manifestação doutrinária no sentido de reconhecimento da responsabilidade do Estado pelos danos conseqüentes de suas falhas e omissões na prestação jurisdicional.
A atividade jurisdicional pode se configurar como danosa em diversos casos, pois é impossível exercer a jurisdição sem eventuais erros. O juiz, ao decidir, está sujeito a erros de julgamento e de raciocínio, de fato ou de direito.
Entretanto, como já mencionado, não são todos os atos praticados pelos magistrados que os julgadores brasileiros consideram como passíveis de indenização por parte do Estado. Nesse sentido preceitua o Ministro Carlos Mário Velloso (apud Oreste Nestor de Souza Laspro, 2000, p. 95):
A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal é no sentido de que o Estado não é civilmente responsável pelos atos dos juízes, a não ser nos casos expressamente declarados em lei: em tema criminal prevalece o art. 639 do Código de Processo Penal, que prevê responsabilidade civil que surge com a revisão criminal, que reconhece o referido erro. De outro lado, o juiz responderá, pessoalmente, por perdas e danos quando, no exercício de suas funções, proceder com dolo ou fraude, ou quando recusar, omitir ou retardar, sem justo motivo, providência que deva ordenar de ofício, ou a requerimento da parte (Código de Processo Civil, art 133; Lei Complementar 35/79, art. 49).
Neste diapasão tratar-se-á, dos atos jurisdicionais danosos reconhecidos pela jurisprudência pátria, bem como da denegação de justiça, na qual se enquadra a morosidade na prestação jurisdicional.