Este manual abrange dois períodos da história da URSS – o do imperialismo e o da passagem para o socialismo. São dois momentos essencialmente diferentes na história, cujo separador de águas foi a Revolução de Outubro. Contudo, segundo os autores do livro didáctico, estes dois períodos encontram-se unidos por uma relação de causa-efeito. Assim, o imperialismo gerou as condições que se transformaram em causas possíveis e inevitáveis da revolução e da transição da Rússia para um regime de tipo socialista.
As acções políticas deste período foram claramente condicionadas por um
corpus de princípios axiomáticos. Esses princípios foram irreversivelmente modelados pela doutrina leninista sobre o imperialismo e pelas respostas dos bolcheviques aos acontecimentos internos e internacionais que se registaram entre 1918 e 1922. Sobre a base da concepção leninista e da experiência concreta adquirida durante o período revolucionário e na guerra civil, o livro mostra os bolcheviques como os protagonistas de uma época caracterizada por revoltas e guerras. A visão que eles tinham da guerra civil internacional ditou o imperativo de adoptar uma estratégia de sobrevivência para a Rússia revolucionária, essencial para manter vivo o projecto de “mundo novo” que os havia orientado desde 1917. Este período corresponde a uma maior actividade revolucionária dos marxistas, liderados por Lenine e outros revolucionários e activistas que desempenharam um papel heróico, que tornou inevitável a sua presença no manual de história e na memória colectiva do povo da URSS.
A época pré-revolucionária descrita no manual B dá-nos a conhecer, de certa forma, o perfil do revolucionário marxista cujas melhores características se encontram
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reunidas na figura de Lenine – protagonista do livro, herói principal, um modelo a seguir, em todos os sentidos. A análise de conteúdo feita ao texto do manual B permitiu identificar 528 referências a Lenine, feitas nas 383 páginas do livro. Este número, que aumentou significativamente, em relação ao Livro A, na verdade corresponde logicamente às inúmeras funções desempenhadas por Lenine, conforme os autores. Este facto encontra uma fácil explicação, uma vez que se trata do período preparatório de revolução, cujo pensamento, organização e realização teve como protagonista Lenine, apresentado sempre como infalível e agindo da maneira mais adequada.
Pela sua acção Lenine consegue: a unidade do partido em torno dos objectivos e
valores marxistas; encontrar e tomar decisões políticas adequadas face a qualquer problema que surgisse; manter a ordem e o controle de todas as situações; comunicar
com as massas, fortalecendo assim a conexão política e emocional. A sua percepção pessoal das ideias do marxismo é particularmente importante para a superação de toda a possível desconfiança que pudesse manifestar-se em relação às mesmas, para formar uma população de consciência marxista; gerar optimismo e energia social, mobilizando as massas para a implementação dos objectivos políticos, incutindo nelas a crença nos valores sociais e ideais do comunismo.
Utilizando-se da ideia bem enraizada nos livros didácticos, de que a história pode ser transmitida melhor ao leitor se usar o método biográfico (Matos, 1988), despertando mais intensamente a sua imaginação e sensibilidade, tornando a história mais “real”, o livro começa com uma grande reprodução do jovem Lenine acompanhada pelos dados da sua biografia, relativos ao período pré-revolucionário. Assim, nesta época, em que é notória uma grande debilidade da Rússia, devido à emergência do imperialismo, conhecido como a “última fase do capitalismo” graças a Lenine, apesar do miserável estado em que se encontrava o povo russo, uma figura do herói soviético tinha começado desenhar-se.
[…] a energia, expressividade, originalidade e simplicidade do discurso de Lenine, […] a calma magnífica e o sorriso de Lenine, a sua simplicidade impressionante no que diz respeito aos camaradas [...] um prazer supremo e alegria com que ele se dedicou ao trabalho, sem ceder um único grão de tempo à vida privada e sem levar em conta as ligações pessoais e simpatias […] assim era Lenine (B, p. 31).
Evidentemente, estamos perante o estabelecimento de uma visão imaculada, estereotipada e extremamente idealista do grande homem, de tipo hagiográfico; um modelo exemplar, um ideal a seguir. Aliás, todo o período revolucionário da década de
153 20 é caracterizado por aspectos predominantemente heróicos. A posição exaltada de Lenine não deixa dúvida de que ele é uma fonte de inspiração para os revolucionários russos:
[…] na estação, ele foi esperado com amor e entusiasmo por dezenas de milhares de trabalhadores, soldados e marinheiros. Na praça em frente à estação, levantaram-no e colocaram-no em cima dum veículo blindado. Holofotes potentes iluminavam a figura do líder […] (B, p. 140).
[…] sob a orientação de Lenine, os bolcheviques estavam a preparar forças para o assalto ao velho mundo” (B, p. 164).
Quando Lenine apareceu no pódio [...] a plateia levantou -se e dirigiu-se para o pódio onde ele estava. Ele não pôde começar o seu discurso por causa de tantos aplausos e gritos: “Viva Lenine!” […] Pessoas subiam ao peitoril da janela, cadeiras, só para ver Lenine na tribuna […]. No ar atiravam-se chapéus, bonés […] assim, de pé, o Congresso ouviu o discurso de Lenine (B, p. 169.)
Neste contexto, torna-se clara a distinção feita no manual, entre um número grande de “irmãos” iguais (revolucionários-marxistas, proletariado e camponeses) e a figura do “pai”93 que tem a sabedoria e autoridade para gerir as pessoas. Lenine,
enquanto vivo, ensina, indica, avalia, cria, educa, dirige, apresenta propostas únicas e
sábias:
[…] tudo que há de verdadeiramente grande e heróico no proletariado – inteligência intrépida, uma vontade inflexível, persistente, […] um ódio sagrado até à morte para com a escravatura e opressão, paixão revolucionária que move montanhas, fé sem limite, poder criativo de massas, génio organizacional enorme – tudo isto encontrou a sua personificação em Lenine, cujo nome se tornou o sinónimo do mundo novo, de norte a sul, de oeste a este (B, p. 288)
As ideias e mensagens que o manual tenta passar sobre o papel de Lenine foram consolidadas nos anos 30-40, ou seja, durante os anos de ouro de Estaline. A idealização de Lenine esconde, sob o discurso do triunfo de leninismo, a verdadeira situação – o culto de personalidade de Estaline. Enquanto Estaline era o “autor intelectual”, o “líder” e o “organizador” das vitórias do socialismo, Lenine era um líder dotado de extraordinária habilidade profética (Günther, 2006a). Contudo, o objectivo do livro de história era fornecer as representações de uma sociedade quase perfeita, isenta de contradições e problemas graves, pois na crença dos comunistas, esta sociedade estava ao alcance da humanidade. A sua realização era garantida e mesmo comprovada pela doutrina leninista, pela marcha dos acontecimentos e pelas “leis” da história (Ferreira, 1998).
93 No sentido arquetípico de Jung – como certas estruturas míticas básicas comuns à experiência humana,
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O culto continuou com Lenine morto94. Numa das páginas do livro B encontra- se uma reprodução do profeta que partiu, sob a forma de uma estátua de pedra, em cinza, mas com posição corporal expressiva, orientada para “lá”, para o futuro:
Lenine morreu mas a sua causa é imortal […] sem Lenine mas pelo caminho de Lenine […] (B, p. 289).
Esta idealização e sacralização de Lenine permite-nos identificar, nas suas múltiplas manifestações no livro em análise, as estruturas de uma “máquina mitológica”95 que produziu vários mitos fundamentais no plano ideológico e político e
exerceu uma grande influência sobre a formação do núcleo identitário e a consciência dos cidadãos da União Soviética (Günther, Hänsgen, 2006). O mito do herói é um dos mais importantes, porque este último sempre foi uma figura de grande dinamismo na mitologia soviética (Idem), e, porque segundo Fabre, o herói possui um carácter nacional, ele é uma representação do espírito do povo, fixando-se nele e na sua imagem, a consciência colectiva procura garantir a continuidade histórica (Fabre, 1998).
A reflexão de Durkheim sobre a religião e os ascetas pode-nos servir como instrumento de interpretação das funções deste herói-revolucionário (ou herói- comunista, mais tarde), protagonista do manual de história, como um ideal. Um herói soviético em muitos aspectos, pode ser comparável a um tipo racional de ascetismo, definido na sua prática pela repressão dos prazeres da vida, principalmente materiais, em nome do objectivo da grande espiritualidade. Ao falar da importância dos modelos
exemplares, Durkheim sublinha:
É bom que o ideal venha a encarnar-se eminentemente em personagens particulares, cuja especialidade, por assim dizer, é representar, chegando quase ao excesso, esse aspecto da vida ritual; pois eles são como que modelos vivos que incitam ao esforço. Eis o papel histórico dos grandes ascetas” (Durkheim, 2002, p. 452).
Na análise dos factos e atitudes dos heróis do manual, ressalta o desprezo que estes professam por tudo o que normalmente torna a vida dos homens cómoda e agradável:
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O rito de mumificação do corpo de Lenine e sua colocação no centro da cidade, na Praça Vermelha para a adoração pública está ligado claramente a uma deificação dos “heróis culturais”, característica da consciência mitológica. A colocação de Lenine em Moscovo, exactamente no centro, está directamente relacionado com a ideia mitológica da diferenciação de espaços e do centro geográfico sagrado: o centro de toda a humanidade progressista é a URSS, na União Soviética o centro é Moscovo, no coração de Moscovo está a Praça Vermelha, no coração da Praça Vermelha - o Mausoléu, contendo o corpo de Lenine (Forest, Johnson, 2002).
155 [… Lenine] ocupava um pequeno apartamento, comendo mal, à noite limitava-se apenas a chá […] contudo realizando trabalho árduo de preparação do 1º Jornal” (B, p. 27). É possível destacar aqui uma das direcções em torno das quais foi construído o sistema de valores soviéticos socialmente aceite – a contraposição do material e
espiritual, direcção esta posteriormente desenvolvida e alargada para um confronto entre os altos ideais do socialismo e o conforto desprezível do capitalismo96. Da ascese ao martírio vai um passo. De facto, os autores do manual fazem um esforço considerável para inspirar nos alunos a ideia, de forma hiperbólica, de que a vida só faz sentido quando uma pessoa procura a realização de ideais, de preferência comunistas e luta por eles, mesmo sendo vítima de vários tipos de violência e opressão:
[…] Os comunistas não devem poupar nem a sua própria saúde para as conquistas da revolução (B, p. 236);
[…] nenhum lutador se abalou, apesar do frio, da fome, da sede, do cansaço mortal e da exaustão, vivia neles uma inflexível consciência da vontade bolchevique, batia um coração bolchevique […] a maioria perecia […] mas ninguém recuou (B, p. 252); […] vou ser enforcada dentro de 24 horas […] deixo a minha vida com plena consciência do dever cumprido para com a revolução[…] Viva a Revolução Comunista! (B, p. 254).
O tom de exagero com que os heróis, heróis-vítimas e heróis-revolucionários são descritos tem várias explicações. Para a história e para a cultura soviéticas, demasiado recentes para a “mitologização” de personagens ancestrais, o uso da hipérbole, juntamente com a manipulação dos factos, era um mecanismo que permitia “comprimir” o indivíduo no paradigma de herói e de modelo. Porém, esses exageros também eram necessários para incutir nos alunos uma vontade de viver a vida abdicando dos prazeres fáceis e comuns, e subordinando a sua via a bem-estar individuais aos colectivos. Assim, o objectivo para ser alcançado era colocado numa bitola extremamente alta para estes heróis. Como escreveu Durkheim: “É preciso que alguns exagerem para que a média permaneça no nível que convém” (Durkheim, 2002, p. 452).
O tempo da revolução faz emergir no livro novos heróis que não eram movidos pela defesa da pátria contra os inimigos estrangeiros; os seus valores prendiam-se com os da revolução, da justiça, da igualdade para o seu povo. Por isso, esses homens revolucionários passaram a ser celebrados não só pelas suas qualidades superiores mas
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Conforme Magun, não se trata aqui de uma oposição simples de material e espiritual, mas de oposição entre atitude para com o trabalho, compreendido como uma fonte de aquisição de meios de consumo (principalmente materiais) e atitude para com o trabalho possuidor de um valor intrínseco, que leva à satisfação em relação ao próprio processo e aos seus resultados significativos (Magun, 2005).
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pelo contributo que tinham dado para a causa de revolução e, consequentemente, para o progresso dos povos em todo o mundo. Não eram valores nacionais, mas o mérito revolucionário, o contributo para a realização de uma ideia, que estava no centro da concepção de grandes homens, que eram uma espécie de heróis novos:
[…] levantou bem alto a bandeira vermelha em frente de fileiras dos soldados armados: “Era o momento supremo de felicidade na minha vida (B, p. 23).
Eram pessoas muito exigentes para consigo próprias, porque acreditavam na sua missão, no seu papel histórico. Dzerjinski explicou a propósito dos revolucionários/comunistas que o seu autocontrole era uma maneira de provar que eram dignos de exercer um papel de líderes dos outros97.A razão do esforço admitido por estes homens-modelo – usando a terminologia de Foucault – era governarem-se a si mesmos para poderem governar os outros:
O controlo de si é uma maneira de ser homem em relação a si mesmo, isto é, de comandar aquele que deve ser comandado, de obrigar à obediência aquele que não é capaz de se governar por si mesmo, de impor os princípios da razão àquele que é desprovido dela (Foucault, 1977, p. 98).
É por isso que Lenine exige dos membros do partido, para além da partilha dos objectivos comuns, uma “disciplina de ferro” (B, p. 32), dos trabalhadores – “disciplina rigorosa de trabalho”98 (B, p. 265), enquanto ele próprio, em toda a
sua vida:
[…] subordinava tudo a um único grande objectivo – a luta pela vitoria do socialismo […] era […] alheio aos sentimentos mesquinhos, inveja, maldade, vaidade, vingança (B, p. 289),
O que se reflectia na sua maneira de viver, de construir a sua vida e de comunicar: Era atento às pessoas, “falava pouco” e com “atenção ardente” ouvia, mas quando falava:
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Numa das cartas escritas na prisão, Dzerjinski esclarece o seu papel e dos outros como ele, que estão escolhidos pela vida: “[…] ganhar força física e mental para estar preparado quando chegar a hora. É verdade que poucos têm inveja do nosso destino, mas nós, conscientes do futuro brilhante da nossa causa, da sua força, conscientes que a vida nos escolheu como lutadores, ao lutar pelo futuro jamais trocaríamos esta vida pela prosperidade inútil. Não ligamos às dificuldades da vida, uma vez que a nossa vida é a nossa causa que está acima do bem-estar quotidiano…A nossa vida obriga-nos a superar os nossos sentimentos e sujeita-los à razão fria. Mas graças a nós o destino, que as (pessoas) espera, será melhor, poderão viver livremente ” (Dzerjinski, 1984, p. 36-37).
98 As ideias de Lenine sobre a organização do partido como uma máquina foram criticadas por Rosa
Luxemburgo, que acusa Lenine ter uma visão de disciplina e de ordem inculcada pelo Estado burguês centralizado (Fausto, 2008).
157 “ […] com energia incrível, pesando cada palavra, filtrando as frases dos adversários, contrariando-lhes com argumentos de peso […] era tudo espectacular e dizia-se como se não tivesse vindo dele, mas fosse de facto a vontade da história” (B, p. 73)99.
O mito de herói revolucionário encontra a sua continuação lógica na plêiade de heróis-guerreiros da Guerra Civil e da resistência à intervenção estrangeira após a Revolução de Outubro – guerreiros do Exército Vermelho que triunfam sobre o mal interno e o externo, unidos contra o poder soviético. Esta dupla ameaça serviu, para os autores do manual, para explicar a natureza do patriotismo socialista, um novo tipo de patriotismo profundamente diferente do tradicional:
[…]emergiu um tipo novo de patriotismo – o patriotismo socialista […] que fez com que trabalhadores e camponeses se tornassem invencíveis (B, p. 212).
É comum definir o patriotismo como uma disposição especial do espírito humano que motiva emocionalmente comportamentos de pessoas em momentos difíceis do seu país. Trata-se de um estado emocional cujo núcleo é a transformação do bem comum em algo profundamente pessoal, ou mesmo sacrificial. Desde a Primeira Guerra Mundial que os apelos patrióticos tradicionais, como “Defenda a sua pátria!”, foram considerados, por Lenine e outros marxistas, como defesa do czarismo e do
imperialismo europeu. Enquanto uma verdadeira defesa da pátria, na opinião destes, significava:
[…]lutar com todos os meios revolucionários contra a monarquia, os senhores da terra e os capitalistas da sua pátria, ou seja, os piores100 inimigos da nossa pátria (Lenine,
citado no livro B, p. 108).
Os interesses da Rússia eram compreendidos pelos bolcheviques de forma muito peculiar; motivos sociais e políticos superavam a importância da vitória da Rússia na guerra, a racionalidade da sua derrota justificava-se pela necessidade de construir um novo país101.
99 É difícil resistir à tentação de lembrar o que Arendt escreveu em Origens do totalitarismo sobre o
feitiço, o estranho magnetismo com que Hitler dominava os seus ouvintes, que foram atribuídos à crença
fanática que ele tinha em si mesmo (Arendt, 2006, p. 355). Enquanto Lenine, segundo Arendt, era “desprovido do instinto de um líder de massas - pois não era orador e tinha o vezo de confessar e analisar publicamente os próprios erros, o que atentava contra as regras da demagogia (Idem. p. 367).
100 Itálico no original. 101
No entanto, o mesmo motivo não impediu o general Denikin, um adversário intransigente do poder soviético, derrotado na Guerra Civil russa, exilado em França, de recusar participar na propaganda anti- soviética dos nazis e ajudar aos ex-militares do Exército Branco a juntarem-se na luta contra o fascismo na Jugoslávia, ao lado de Tito (Smolensky, 2008)
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Nos tempos soviéticos, começou a cultivar-se um patriotismo novo, socialista, com aspecto de classe muito pronunciado e com uma componente internacional. Assim, o patriotismo, pelo menos no período desde a Revolução até à II Guerra Mundial, tornou-se algo pragmático e com funções que se resumiam ao seguinte: o povo deve amar a sua pátria liderada pelos bolcheviques e pelo seu líder, lutar contra os seus opressores, odiar os seus inimigos, tanto internos como externos. A pátria, basicamente, resumia-se a um lugar onde o patriota vivia e cuja prosperidade deveria estar constantemente nos pensamentos deste. A ligação genética para as gerações anteriores era expulsa e não era aceite qualquer expressão de amor por estas gerações da parte do patriota (Shnirelman, 1996).
O mito de herói-guerreiro do livro personifica uma consciente mobilização de forças, concentração e consolidação individual em situações difíceis, para superar a resistência externa e interna. À medida que as ameaças e o perigo de eliminação física dos soviéticos diminuem, a necessidade da personagem heróica não se reduz, mas altera-se o seu tipo para o do herói do trabalho socialista. Esta insistência na usurpação da energia do mito heróico, a fim de usá-la para os seus próprios propósitos, parece ser própria da cultura totalitária. A identificação maciça com o herói e a sua imitação passam a desempenhar tarefas de serviço público; a função mobilizadora de heroísmo carismático encontra o seu reflexo no heroísmo institucionalizado. Consequentemente, todas as esferas da vida se transformam numa arena de luta, em cujas frentes se dão as batalhas e se alcançam brilhantes vitórias.
O culto dos heróis-trabalhadores soviéticos remonta à segunda metade da década de 1920:
[…] excelente exemplo de heroísmo de trabalho dos trabalhadores eram subotniki102
comunistas […]durante o trabalho nocturno não remunerado, 15 trabalhadores ferroviários repararam três locomotivas e atingiram o dobro de produtividade normal […] ,Lenine elogiou esta iniciativa ” (B, p. 232);
mas atingiu o seu pleno florescimento na época de Estaline, somente em 1935 com o registo do movimento de Stakhanov:
Na noite de 31 de Agosto de 1935, o mineiro da mina “Central” […] Alexei Stakhanov [… ] durante 6 horas de trabalho […] ultrapassou a norma em 14,5 vezes [… ]. A notícia dos feitos gloriosos dos mineiros de Donetsk espalhou-se pelo país e provocou um movimento de massas de trabalhadores pelo [...] aumento de produtividade do
159 trabalho […]. Em 1970 Stakhanov foi condecorado com o título de “Herói de Trabalho socialista (B, p. 348).
O tipo de heróis-trabalhadores incluía outros subtipos de heróis culturais – que dão às pessoas as suas realizações técnicas, científicas, artísticas e outras. Um exemplo disso é o salvamento por pilotos soviéticos da expedição polar presa no gelo em 1934, tendo sido o início da institucionalização do heroísmo soviético, traduzida no estabelecimento do título oficial de “Herói da União Soviética”:
[…] depararam-se com circunstâncias extremamente difíceis, mas não desanimaram, não se atemorizaram, e continuaram a conduzir pesquisas. Eles acreditavam que a sua Pátria os iria salvar. E não se enganaram (B, p. 372).
No modelo deste exemplo de heroísmo, é possível distinguir algo qualitativamente novo, feminino e maternal: a “mãe” Pátria, um factor de estabilidade,