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Já foi abordado anteriormente que a Constituição Federal de 1988 foi formulada após o fim do regime militar, e que buscou atender aos anseios de uma sociedade civil farta de autoritarismo, e ansiosa por abertura e redemocratização. Durante os trabalhos da Assembleia Constituinte, diversos grupos e representantes dos mais variados setores da sociedade civil colaboraram nas discussões e estudos, de modo que foi possível incluir no texto parte das propostas e reivindicações, tais como as relativas ao ambiente e aos direitos dos povos indígenas.

Com a promulgação do documento em 1988, o país passou a dispor de uma Carta Constitucional democrática, pluralista, cidadã e com um extenso rol de direitos. Além dos já consagrados direitos básicos do homem, foram incluídos os direitos de terceira geração, como exemplo: o direito ao meio ambiente sadio e equilibrado, os direitos do consumidor, os direitos indígenas e de outras minorias, a função social e ambiental da propriedade privada, entre outros.

Essa Carta Constitucional foi a primeira na história do Brasil a dedicar um capítulo inteiro à proteção do meio ambiente, considerado como um direito fundamental. Além das disposições constantes no art. 225, outros artigos também abordam a questão ambiental em temas específicos, na política urbana, no desenvolvimento agrário, nas questões indígenas, como princípio geral da ordem econômica, entre outros.

Inovou também ao prever pela primeira vez a solidariedade intergeracional para com o meio ambiente, isto é, todos (Estado e coletividade) devem preservá-lo

para as presentes e futuras gerações. O citado artigo dispõe que: “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.”

As disposições constitucionais relativas ao meio ambiente, incluindo seu caráter intergeracional, foram inspiradas no conceito de ecodesenvolvimento consolidado durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente em 1972, em Estocolmo; bem como no conceito de desenvolvimento sustentável previsto no documento intitulado “Nosso futuro comum”, publicado em 1987 pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU.

Durante as polêmicas reuniões da Conferência de Estocolmo, como uma via alternativa às propostas de desenvolvimento econômico alheio às questões ambientais e sociais, o canadense Maurice Strong propôs um modelo de desenvolvimento em que todas essas questões deviam ser conjuntamente consideradas, o que chamou de ecodesenvolvimento. Posteriormente, o economista Ignacy Sachs ampliou e difundiu esse conceito abordando questões éticas, culturais e a solidariedade entre as gerações.

Anos mais tarde, em 1983, a ONU criou a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, presidida pela Primeira Ministra da Noruega Gro Harlem Brundtland. Como resultado foi publicado em 1987 o documento “Nosso futuro comum”, também conhecido por “Relatório Brundtland”.

Essa Comissão teve como desafio analisar a situação ambiental face às críticas ao modelo econômico de desenvolvimento praticado nas nações industrializadas e repetido nos países periféricos, em que os recursos naturais eram utilizados desconsiderando-se a capacidade de renovação e absorção dos ecossistemas.

Ao final dos estudos, a Comissão propôs que o desenvolvimento econômico fosse integrado à questão ambiental e promovesse a equidade social, vindo a formular o termo desenvolvimento sustentável, assim definido no citado documento: “o desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer as capacidades das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades.”

Portanto, foi sob a influência dos conceitos de ecodesenvolvimento e desenvolvimento sustentável que foi promulgada a Constituição Federal de 1988, com o objetivo de se estabelecer uma sociedade pautada pela liberdade, pela solidariedade, pela justiça social, pela defesa do meio ambiente, pela diversidade cultural, entre outros.

A Constituição Federal previu o princípio do desenvolvimento sustentável tanto no art. 225, como no art. 170. O art. 225 o tratou ao prever que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e devem preservá-lo para as presentes e futuras gerações, por sua vez no art. 170 consta que a ordem econômica tem por finalidade assegurar a todos a existência digna, conforme os ditames da justiça social, e dentre os princípios a serem observados está a defesa do meio ambiente (inciso IV). Esse inciso sofreu alteração pela EC n° 42/2003, a qual lhe acrescentou o seguinte texto: “inclusive mediante tratamento diferenciado conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração e prestação;”.

O objetivo deste princípio foi aliar a questão ambiental e ao desenvolvimento econômico, promovendo a equidade social. Tendo em conta a concepção unitária de meio ambiente e sua abordagem holística, para a efetivação do princípio do desenvolvimento sustentável a questão cultural também deve ser analisada e sopesada nesta equação. Isto é, as políticas públicas de desenvolvimento econômico devem abordar tanto a preservação dos recursos naturais como a salvaguarda do patrimônio cultural, seja material ou imaterial.

O patrimônio cultural imaterial são as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que as comunidades e grupos reconhecem como integrante do seu patrimônio cultural, portanto, ao se salvaguardá-lo se está, concomitantemente, garantindo condições de vida digna aos detentores dessas expressões intangíveis e possibilitando a manutenção das formas de cultura que os nutre e os identifica perante o restante da sociedade. Consequentemente, assegura- se a diversidade cultural.

Assim, o desenvolvimento econômico e social para ser sustentável deve incluir em sua pauta a proteção às diferentes formas de expressão cultural do seu povo.

Foi, portanto, em um contexto de reabertura política e sob a influência de novas ideias e concepções, tais como as propostas pelo desenvolvimento sustentável, que “novos direitos” passaram a constar na Constituição Federal e minorias, antes marginalizadas, puderam ser contempladas. Como exemplo, aos povos indígenas foi dedicado um capítulo próprio, assegurando-lhes direitos coletivos, o direito à diferença cultural (manter a própria língua, crenças, tradições e costumes) e os direitos originários sobre as terras tradicionalmente por eles ocupadas; às comunidades remanescentes de quilombos foi reconhecida a propriedade definitiva das terras tradicionalmente por elas ocupadas.

A interpretação sistemática desses “novos direitos” constitucionais possibilitou o desenvolvimento do socioambientalismo no Brasil. Trata-se de um modelo que rompe com o padrão anterior em que o individual é valorizado em detrimento do coletivo e propõe um novo paradigma, que concilia os direitos sociais e culturais com os direitos ambientais. Porém, não se trata de uma simples soma desses direitos. A proposta socioambiental vai além, ao buscar a igualdade e a justiça social por meio da promoção conjunta da sustentabilidade ambiental e da sustentabilidade sociocultural. Isto é, alia a biodiversidade à sociodiversidade.

Ressalta-se que é a inclusão das questões sociais que difere o ambientalismo tradicional do socioambientalismo. Este é uma vertente mais moderna e atual daquele, pois objetiva uma maior aplicabilidade e efetividade aos direitos fundamentais ao incorporar os direitos sociais e os culturais na pauta ambiental. O ambientalismo tem uma visão mais restrita, pois objetiva somente a defesa e conservação dos recursos naturais, não levando em conta as demais questões.

Outro evento que influenciou significativamente a consolidação do socioambientalismo no Brasil foi a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento em 1992 no Rio de Janeiro (Eco-92), que contou com a participação de 179 países. Foi este o momento em que as questões ambientais foram colocadas no centro das discussões tanto na esfera nacional como

internacional, oportunidade em que foram assinados os mais importantes acordos internacionais em matéria de meio ambiente. São eles: Convenção do Clima; Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB); Agenda 21; Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento; Declaração de Princípios para um Consenso Global sobre Manejo, Conservação e Desenvolvimento Sustentável de todos os tipos de Florestas.

A Agenda 21 foi o documento que formulou as bases para o planejamento de sociedades sustentáveis em diferentes localidades. Nele já é possível perceber a aliança da sustentabilidade ambiental com a social, pois além da conservação dos recursos naturais, foram traçados objetivos e metas sociais a serem perseguidos, tais como a erradicação da pobreza, a proteção da saúde, a segurança alimentar, o respeito às diferenças culturais, o fortalecimento do papel das populações indígenas, entre outros.

O socioambientalismo no Brasil surgiu como uma via para atender às pressões e às demandas sociais das minorias marginalizadas e não contempladas pelas políticas públicas, como os povos indígenas, as comunidades quilombolas e as populações tradicionais, nas quais também se enquadram os seringueiros, os castanheiros, pescadores artesanais, entre muitos outros grupos e coletividades.

No entendimento de Juliana Santilli:

O sociambientalismo brasileiro – tal como o reconhecemos e identificamos – nasceu na segunda metade dos anos 80, a partir de articulações políticas entre os movimentos sociais e o movimento ambientalista. O surgimento do socioambientalismo pode ser identificado com o processo histórico de redemocratização do país, iniciado com o fim do regime militar, em 1984, e consolidado com a promulgação da nova Constituição, em 1988, e a realização de eleições presidenciais diretas, em 1989. Fortaleceu-se – com o ambientalismo em geral – nos anos 90, principalmente depois da realização da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente, no Rio de Janeiro, em 1992 (Eco-92), quando os conceitos socioambientais passaram claramente a influenciar a edição de normas legais. 80

80

Um movimento social notadamente marcante na história do socioambientalismo no Brasil foi a luta das populações tradicionais, especialmente dos seringueiros, juntamente com as populações indígenas no estado do Acre ao longo da década de 80. Eles se uniram e formaram a Aliança dos Povos da Floresta, sob a liderança de Chico Mendes, para se oporem ao modelo de desenvolvimento que privilegiava a extração indiscriminada de recursos naturais, a devastação da mata para a plantação de pastagens e desenvolvimento da agropecuária, o qual colocava em risco a cultura, o modo de vida e até a sobrevivência desses povos amazônicos.

Os ativistas se uniram à essas populações e passaram a apoiá-las na defesa de seus direitos perante o Estado e o poder econômico. Afinal, neste momento, muitos dos grupos ligados à proteção do meio ambiente já tinham a percepção de que a manutenção dessas populações nos locais habitualmente por elas ocupados, juntamente com a salvaguarda de sua cultura, era uma maneira de se proteger a floresta e a biodiversidade.

No caso dos seringueiros a atividade por eles desenvolvida passou a ser considerada importante à manutenção da biodiversidade amazônica, pois eles tinham conhecimentos tradicionais de manejo ambiental, de modo que a atividade de extração do látex não era predatória, pois respeitava os limites e a capacidade de renovação do ecossistema local. Para garantirem seus direitos eles passaram a reivindicar perante o Estado a criação de reservas extrativistas, com vistas a ter direitos coletivos sob as terras por eles ocupadas, o que lhes possibilitaria continuar com a atividade econômica que vinham desenvolvendo há anos. A criação desses espaços especialmente protegidos “passou a ser considerado por cientistas e formuladores de políticas públicas como uma via de desenvolvimento sustentável e socialmente equitativo para a Amazônia”.81

Portanto, os socioambientalistas acreditam que as políticas públicas somente serão efetivas e sustentáveis se levarem em conta as demandas e os contextos socioculturais, ou seja, vão além da simples conservação e preservação dos recursos naturais. Essas políticas, ao envolver as comunidades e povos detentores

de conhecimentos tradicionais, protegem ao mesmo tempo a biodiversidade e a sociodiversidade, além de possibilitarem a repartição justa dos benefícios trazidos pelas atividades por elas desempenhadas. O sociambientalismo, deste modo, é uma forma de realização da sustentabilidade.

Juliana Santilli sintetiza essas idéias em brilhante trecho transcrito a seguir:

O socioambientalismo foi construído com base na idéia de que as políticas públicas ambientais devem incluir e envolver as comunidades locais, detentoras de conhecimentos e de práticas de manejo ambiental. Mais do que isso, desenvolveu-se com base na concepção de que, em um país pobre e com tantas desigualdades sociais, um novo paradigma de desenvolvimento deve promover não só a sustentabilidade estritamente ambiental – ou seja, a sustentabilidade das espécies, ecossistemas e processos ecológicos – como também a sustentabilidade social – ou seja, deve contribuir também para a redução da pobreza e das desigualdades sociais e promover valores como justiça social e equidade. Além disso, o novo paradigma de desenvolvimento preconizado pelo socioambientalismo deve promover e valorizar a diversidade cultural e a consolidação do processo democrático no país, com ampla participação social na gestão ambiental.82

Sob este enfoque socioambiental, a preservação e o respeito às culturas dos diferentes grupos formadores do país são um meio de realização do desenvolvimento sustentável. Assegurar a diversidade cultural implica não somente cumprir com este princípio constitucional, mas também em proteger o meio ambiente e a biodiversidade. De acordo com Carlos Frederico Marés “não há nada melhor para preservar o ambiente do que uma cultura a ele adequada”83.

O respeito à diversidade cultural dos diferentes povos formadores da identidade nacional é um princípio constitucional que deve orientar as relações do Estado tanto do ponto de vista interno como do internacional, também as relações entre os particulares devem ser pautadas por este princípio.

82

SANTILLI, Juliana. Socioambientalismo e Novos Direitos. São Paulo: Peirópolis, 2007. P. 34.

83

SOUZA FILHO, Carlos Frederico Marés de. Introdução ao direito socioambiental. In: LIMA, André (org.). O direito para o Brasil socioambiental. São Paulo: Instituto Socioambiental, Porto Alegre: Sergio Antônio Fabris, 2000. P. 25.

Os estados fundados na democracia respeitam as diferenças culturais de seus próprios povos e também dos demais Estados-Nação. Porém, a adoção do princípio da diversidade cultural pelo Brasil, tal como delineado na Constituição Federal de 1988, não significa apenas respeitar e aceitar essas diferenças, mas garantir e promover a existência e a convivência das diversas formas de cultura formadoras da identidade nacional. Não é um princípio cujo conteúdo contém apenas uma abstenção ou uma não interferência por parte do Estado, mas sim um princípio que implica em uma conduta positiva, uma meta a ser alcançada.

Nas sociedades contemporâneas constata-se o fenômeno da massificação das relações sociais, bem como a imposição e homogeneização dos padrões de conduta, os quais são ditados pelo sistema econômico capitalista, pautado pela acumulação de capital e regras mercadológicas predatórias. Portanto, se está diante de um modelo econômico que busca eliminar o pluralismo e as diferenças culturais, as formas de cultura que são preservadas e incentivadas são aquelas que são comercializáveis e geram lucro ao mercado.

Nesse contexto é imprescindível que o Estado atue de forma positiva, formulando e implementando políticas públicas que tenham por escopo resguardar e promover as diversas formas de expressões culturais dentro de seu território. Essa prestação estatal deve recair justamente sobre as formas de culturas ameaçadas, as quais definitivamente não são aquelas que expressam a cultura oficial e dominante, mas aquelas que pertencem às minorias e aos grupos vulneráveis do ponto de vista econômico, como exemplo: os indígenas e os afro-brasileiros.

Na atual Carta Constitucional são vários os dispositivos que preveem o citado princípio, o art. 4° dispõe que as relações internacionais brasileiras devem ser regidas pelo princípio da autodeterminação dos povos (inciso III) e pelo repúdio ao racismo (inciso VIII), no parágrafo único dispõe que “A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações.”. Na Seção referente à Educação consta previsão no art. 210 que no conteúdo mínimo do ensino fundamental deve-ser assegurar o respeito aos valores culturais, artísticos, nacionais e regionais. O §2° do citado artigo inovou e rompeu com a tradição assimilacionista ao assegurar aos indígenas a utilização de suas

línguas maternas e de seus próprios processos de aprendizagem na educação. O art. 215 prevê que o Estado deve garantir a todos o pleno exercício dos direitos culturais, devendo apoiar e incentivar a valorização e a difusão das manifestações culturais. O §3° deste artigo trata do estabelecimento do Plano Nacional de Cultura, o qual deve ser conduzido considerando a “valorização da diversidade étnica e regional” (inciso V). O art. 216, já abordado anteriormente, prevê que o patrimônio cultural nacional é constituído pelos bens que portem referência à identidade, à ação e à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. Isto é, introduz a noção de referência cultural, de modo que não apenas a cultura oficial é reconhecida como integrante deste patrimônio, mas também outras culturas tradicionais, como os indígenas, afrodescendentes, imigrantes etc. Por fim, o art. 231 assegura aos índios o direito de permanecer com sua própria cultura ao prever que “São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, (...)”

Além das disposições constitucionais, o Brasil é signatário de duas Convenções da UNESCO referentes à diversidade cultural, a Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Imaterial de 2003 (a qual ratificou Declaração Universal da UNESCO sobre a Diversidade Cultural de 2001) e a Convenção sobre a Proteção da Diversidade das Expressões Culturais de 2005. Já foi dito anteriormente que o texto da Convenção de 2005 é anterior ao da Convenção de 2003, porém aquele somente foi aprovado dois anos mais tarde.

A Declaração Universal sobre Diversidade Cultural de 2002 logo no art. 1 considera a diversidade cultural tão necessária ao gênero humano quanto a biodiversidade é essencial para a natureza, constituindo patrimônio comum da humanidade e devendo ser reconhecida e consolidada em benefício das futuras gerações. Deste modo, essa Declaração coloca no mesmo grau de importância para a humanidade a diversidade cultural e a diversidade biológica. Ademais, o mesmo texto as considera como fatores de desenvolvimento, não apenas econômico, “mas também como meio de acesso a uma existência intelectual, afetiva, moral e espiritual satisfatória” (art. 3).

A definição de diversidade cultural para a UNESCO encontra-se na citada Convenção de 2005, de acordo com esse documento:

“Diversidade cultural” refere-se à multiplicidade de formas pelas quais as culturas dos grupos e sociedades encontram sua expressão. Tais expressões são transmitidas entre e dentro dos grupos e sociedades. A diversidade cultural se manifesta não apenas nas variadas formas pelas quais se expressa, se enriquece e se transmite o patrimônio cultural da humanidade mediante a variedade das expressões culturais, mas também através dos diversos modos de criação, produção, difusão, distribuição e fruição das expressões culturais, quaisquer que sejam os meios e tecnologias empregados. (Art. 4, 1)

Ademais, essa Convenção estabelece que a diversidade cultural é condição essencial ao desenvolvimento sustentável em benefício das gerações atuais e futuras e um dos seus principais motores. Também prevê a necessidade de incorporar a cultura como elemento estratégico das políticas de desenvolvimento nacionais e internacionais.

Importante para o presente estudo é que a Convenção de 2005 reconhece a importância dos conhecimentos tradicionais como fonte de riqueza cultural e meio de realização do desenvolvimento sustentável. No texto da convenção tais conhecimentos são considerados como “fonte de riqueza material e imaterial, e, em particular, dos sistemas de conhecimento das populações indígenas, e sua contribuição positiva para o desenvolvimento sustentável, assim como a necessidade de assegurar sua adequada proteção e promoção”.

A Convenção de 2003 que dispõe sobre a salvaguarda do patrimônio imaterial tem objeto mais específico. Logo nas considerações iniciais tal documento reconhece a “importância do patrimônio cultural imaterial como fonte de diversidade cultural e garantia de desenvolvimento sustentável”. Em seguida destaca-se o essencial papel de comunidades como as indígenas, grupos e até de indivíduos “na produção, salvaguarda, manutenção e recriação do patrimônio cultural imaterial, assim contribuindo para enriquecer a diversidade cultural e a criatividade humana”.

Tanto a Declaração Universal sobre Diversidade Cultural quanto as duas Convenções da UNESCO analisadas vão ao encontro das bases do socioambientalismo o Brasil, pois consideraram a proteção e a promoção da diversidade cultural como um dos elementos fundamentais à concretização do desenvolvimento sustentável.

Mais especificamente, a Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial (2003) da UNESCO relacionou o desenvolvimento sustentável com o patrimônio cultural imaterial, dispondo que este é considerado como fonte de diversidade cultural e garantia de desenvolvimento sustentável. Em seguida, ao defini-lo, estabeleceu que somente o patrimônio cultural imaterial que promova o desenvolvimento sustentável deve ser levado em conta (art. 2, 1). Na Convenção sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais (2005) o princípio do desenvolvimento sustentável foi mencionado em dez dispositivos. Esse documento considerou a diversidade cultural como um dos principais motores do desenvolvimento sustentável e ressaltou a necessidade de se integrar a cultura ao desenvolvimento econômico para conseguir sustentabilidade.