Outra questão relevante ao presente estudo é o especial interesse que qualifica os bens culturais (espécie de bem ambiental) e a relação dos mesmos estabelecem frente à tradicional divisão civilista de bens públicos e bens privados.
66 MARCHESAN, Ana Maria Moreira. A Tutela do Patrimônio Cultural sob o enfoque do Direito Ambiental. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2007. P. 165.
Os bens jurídicos são aqueles passíveis de valoração pelo Direito e que podem servir de objeto de uma relação jurídica, portanto podem ter ou não valor econômico. Deste modo, os bens ambientais e os bens culturais são bens jurídicos e podem ser classificados como públicos ou privados dependendo da titularidade do bem. Por exemplo: uma obra de arte pode pertencer a uma coleção particular ou a um museu público, um prédio histórico tombado pode ter como proprietário um particular ou um órgão público, entre outros.
Isto é, o bem cultural, independentemente de sua dominialidade pública ou privada, é qualificado por um interesse público. “Bem de interesse público” é uma uma nova categoria de bens estabelecida pela doutrina especializada com o objetivo de superar a tradicional dicotomia entre o bem público e o bem privado, prevista no Código Civil de 1917 e reiterada no novo Código em 2002.
De acordo com José Afonso da Silva, os bens culturais estão sujeitos a um regime jurídico especial68 a que podem ser submetidos tantos bens públicos como
os privados. Eles seriam considerados pela doutrina como “bens de interesse público” e acrescenta que nesta categoria especial:
(...) se inserem tantos os bens pertencentes a entidades públicas como os bens dos sujeitos privados subordinados a uma particular disciplina para a consecução de um fim público, uma espécie de propriedade funcionalizada. O que dá natureza especial a esses bens é precisamente o valor cultural neles impregnado69.
Na concepção de Marés70, os bens ambientais (naturais ou culturais) são bens de interesse público, por serem portadores do interesse que torna seu caráter público diferente em relação a outros bens:
Todos os bens, materialmente considerados, sejam ambientais ou não, são públicos ou privados. Os ambientais, porém, independente de serem públicos ou privados, revestem-se de um interesse que os faz terem um caráter público diferente. A diferença está em que, seja a propriedade
68 SILVA, José Afonso da. Ordenação Constitucional da Cultura. P. 154. 69
SILVA, José Afonso da. Ordenação Constitucional da Cultura. P. 154.
70 Souza Filho, Carlos Frederico Marés. Bens Culturais e sua Proteção Jurídica. 3ª. Ed. São Paulo:
pública ou particular, os direitos sobre esses bens são exercidos com limitações e restrições, tendo em vista o interesse público, coletivo, nela existente. O interesse público é, neste caso, o reconhecimento coletivo de que o bem cultural deve ser preservado71.
Assim, ao classificar um bem cultural como “bem de interesse público” o que se pretende é identificar o elemento que diferencia esses bens dos demais. Esse diferencial é o valor cultural que os permeia, que é de interesse do Poder Público e de toda a coletividade. Portanto, a categoria não altera o regime civil dos bens públicos ou privados, mas impõe o dever de proteção aos bens culturais, de modo tal que toda a coletividade passa a ter direitos e obrigações sobre tais bens. Nesta toada, percebe-se que o esse interesse público que qualifica os bens culturais está intimamente ligado a outra característica: a titularidade difusa.
Já foi visto que todo bem cultural possui um valor que lhe dá sentido e, tal como previsto no art. 216 CF, esse valor concerne à referência cultural que ele deve portar em relação a um grupo formador da identidade nacional. Sendo assim, a proteção do bem cultural interessa a uma determinada coletividade e também a todo povo brasileiro, pois esse bem contribui para manutenção da diversidade cultural no país. Ademais, a Constituição Federal no §1° do art. 216 impôs ao Poder Público, com colaboração da comunidade, o dever de proteção do patrimônio cultural.
Nos dizeres de José Afonso da Silva: “A essência do bem cultural consiste na sua peculiar estrutura, em que se fundem, numa unidade objetiva, um objeto material e um valor que lhe dá sentido. Por isso se diz que o ser do bem cultural é ser um sentido.”72 Os interesses e direitos da coletividade recaem sobre o caráter intangível, imaterial do bem cultural, isto é, sobre o especial sentido que eles têm para os indivíduos, para os diversos grupos sociais e para o povo brasileiro, por isso são bens difusos.
Nos dizeres de José Afonso da Silva, “a essência do bem cultural consiste na sua peculiar estrutura, em que se fundem, numa unidade objetiva, um objeto material e um valor que lhe dá sentido. Por isso se diz que o ser do bem cultural é
71 Souza Filho, Carlos Frederico Marés. Bens Culturais e sua Proteção Jurídica. 3ª. Ed. São Paulo:
ser um sentido”73. Os interesses e direitos da coletividade recaem sobre o caráter
intangível, imaterial do bem cultural, isto é, sobre o especial sentido que eles têm para os indivíduos, para os diversos grupos sociais e para o povo brasileiro, por isso são bens difusos.
Marés bem explica esse fenômeno:
Na realidade, sobre estes bens nasce um novo direito, que se sobrepõe ao antigo direito individual já existente. O bem como que se divide em um lado material, físico, que pode ser aproveitado pelo exercício de um direito individual, e outro, imaterial, que é apropriado por toda coletividade, de forma difusa, que passa a ter direitos ou no mínimo interesse sobre ela. Como estas partes ou lados são inseparáveis, os direitos, ou interesses coletivos sobre uma delas necessariamente se comunicam à outra. 74