KAHVE FALI ANLATI VE PERFORMANSLARININ İÇERİK ÇÖZÜMLEMESİ
3. KAHVE FALI ANLATILARININ İLETİŞİMSEL ÖZELLİKLERİ
Entre 1990 e 1992, o Brasil foi presidido por Fernando Collor, eleito por um partido criado para tal fim (Partido da Renovação Nacional – PRN), portanto, sem nenhuma tradição ou representatividade na política nacional. Porém, o candidato, além de representar interesses do latifúndio, de grandes industriais e banqueiros, contou com uma campanha midiática sem precedentes, no esforço – bem sucedido – de evitar a vitória do candidato das esquerdas e dos setores populares, Luiz Inácio Lula da Silva. Menos de um mês depois da posse, ocorrida em 15 de março, o Governo editou a Lei nº 8.031, de 12 de abril de 1990, que daria o tom da política a ser seguida em relação ao serviço público:
Art. 1° É instituído o Programa Nacional de Desestatização, com os seguintes objetivos fundamentais:
I – reordenar a posição estratégica do Estado na economia, transferindo à iniciativa privada atividades indevidamente exploradas pelo setor público;
[...]
IV – contribuir para modernização do parque industrial do País, ampliando sua competitividade e reforçando a capacidade empresarial nos diversos setores da economia. (BRASIL, 1990)
O Programa Nacional de Desestatização deu concretude à política de “caça aos marajás” com a qual o candidato Collor iniciou o combate ao serviço público, generalizando, para o conjunto dos trabalhadores do setor público, as benesses geradas pelas excepcionalidades de remuneração que, até hoje, privilegiam determinados grupos funcionais. A iniciativa do Governo Collor é reveladora da concepção de Estado em sua relação com a sociedade. O inciso I trata de atividades “indevidamente exploradas” pelo setor público. Ora, o Estado não explora atividades em concorrência com a iniciativa privada: ele oferece serviços, eventualmente, autofinanciáveis e, até, lucrativos, mas com o sentido de assegurar direitos à população. Aliás, todas as atividades são socialmente financiadas por impostos, taxas e outros mecanismos de arrecadação. O que diferencia os governos são as opções pelas políticas a serem financiadas pelo Estado, inclusive as “deficitárias” do ponto de vista estritamente econômico. Dessa forma, os gastos ou investimentos públicos na área educacional são determinados pela prioridade do governante, a partir de sua compreensão do papel que o Estado deve desempenhar na defesa e na promoção do direito à educação.
O impedimento de Collor determinou a assunção de Itamar Franco à presidência da República, que escolheu Murílio Hingel para o cargo de ministro da pasta da Educação. Professor e dirigente universitário, e com um histórico de defesa da democracia durante o regime militar, Hingel reunia condições para dialogar com vários setores da sociedade, interessados em dar outro curso às políticas vigentes. O contexto internacional favorecia essa interlocução entre governos e sociedade. Em 1990, ocorrera a Conferência de Educação para Todos, em Jomtien (Tailândia), cujos compromissos seriam avaliados na Conferência de Nova Delhi (Índia), realizada em 1993. A constatação de que os resultados ficaram muito aquém das expectativas levou à estratégia de concentrar esforços e monitorar os progressos de um número mais restrito de países. Foram, então, escolhidos nove países populosos que apresentavam altas taxas de analfabetismo: Banglasdesh, Brasil, China, Egito, Índia, Indonésia, México, Nigéria e Paquistão. O Brasil realizou sua Conferência, em 1993, como marco inicial de um processo que se alicerçaria, institucionalmente, no Plano Decenal de Educação, cuja vigência se estenderia até 2003.
As preocupações com o cumprimento das metas contidas no Plano deram espaço para o debate sobre valorização profissional. Afinal, o combate ao analfabetismo e a pretensão de universalização da educação fundamental, prioridades expressas no Plano, não poderiam ser pensadas sem o concurso dos profissionais da educação. Possibilitar o acesso ao letramento, nas fronteiras do século XXI, representava um resgate de dívidas sociais contraídas com as classes populares, dívidas essas incompatíveis com os avanços já obtidos pela humanidade na área da educação e da cultura. Pela mesma razão, o ensino fundamental passou a ser um direito elementar de cidadania. É preciso considerar que esta etapa da educação básica, cujo escopo não é a formação para o mundo do trabalho, a torna insuficiente para garantir a plenitude do direito à educação escolar previsto na Constituição Federal brasileira.
Enquanto isso, o projeto de LDB Jorge Hage, depois de permanecer longo tempo paralisado na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, voltara à pauta, sob a relatoria da deputada federal Ângela Amin (PSD-SC). A pressão de parlamentares, que julgavam o art. 100 (anteriormente transcrito) muito generoso para com os profissionais da educação, lograra a retirada do caráter nacional do Piso e jogara para os sistemas a fixação das horas-atividade. Assim, a CNTE, sem deixar de acompanhar o legislativo, passou a orientar seus movimentos na direção de um diálogo com o MEC.
O Ministério da Educação propôs a formação de um Grupo de Trabalho que se encarregaria de avaliar as possibilidades financeiras para a instituição de um Piso Salarial
Profissional Nacional. O propósito era o de aproximar as reivindicações dos trabalhadores das possibilidades de pagamento dos municípios, estados, DF e União. O Grupo foi composto por: MEC, Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras (CRUB), Consed, Undime e CNTE. A decisão da Confederação não foi pacífica. Embora a maior parte da direção compreendesse que o momento era o de construção de uma proposta, alguns setores pensavam que o movimento, para preservar sua autonomia, não deveria sentar-se com setores governamentais para dialogar. Os protestos ficaram mais fortes quando, ao final do processo, foi assinado o Pacto pela Valorização do Magistério, de que esta Tese se ocupará adiante.
As discordâncias que ocorrem no interior do movimento, muitas vezes, se vinculam à demarcação de espaços de atuação e de projeção, o que não lhes retira legitimidade. Além disso, a composição do sindicato é mais plural do que a do partido político. De acordo com Rodrigues (2002), para que uma associação possa ser considerada como um sindicato, “é essencial algum componente de oposição aos que estão no comando em uma relação de emprego [e] alguma divergência de interesses” (p. 297, grifos do autor). Para ele, o sindicato deve, sempre, tentar obter vantagens para os trabalhadores, o que implica uma relação com os empregadores que, ao mesmo tempo, é de cooperação e de conflito. Em seu estudo sobre o destino do sindicalismo, o autor entende que este pressuposto não invalida a ocorrência de mudanças táticas e de estratégias, bem como o surgimento de novos objetivos.
As interrogações que se apresentaram para a CNTE como organização, isto é, para além das posições internas, foram as seguintes: é possível pactuar avanços para os trabalhadores em uma sociedade de classes? O que significa manter a autonomia do movimento em um processo de negociação? Em Gramsci (1987), o conceito de Estado expressa o que, para muitos autores, representa sua contribuição criativa à formulação de Marx: “um equilíbrio da Sociedade política com a Sociedade civil (ou hegemonia de um grupo social sobre a sociedade nacional inteira exercida através das chamadas organizações privadas, como a Igreja, os sindicatos, as escolas, etc.)” (p. 224, parênteses do autor). Por serem detentoras de certa autonomia material, essas organizações podem interagir, dialeticamente, com a sociedade política, movimentando-se entre as contradições e as possibilidades de mediação produzidas nesses movimentos. Ao mesmo tempo, como explica Violin (2006),
[...] a categoria de sociedade civil em Gramsci supõe a sua articulação com outras categorias centrais, a hegemonia de classe e a revolução, e pensar o conceito gramsciano de sociedade civil, desconhecendo sua articulação com estas questões, representa um claro reducionismo e esvaziamento de seu pensamento. (p. 10-1, grifos do autor)
Assim, os sindicatos de trabalhadores, ao se colocarem na disputa pela hegemonia, não podem perder o sentido de pertencimento de classe nem de seu papel estratégico para a conquista do poder por essa classe. Não importa o quanto essa perspectiva seja próxima ou remota, o objetivo central é o de transformação da realidade.
O segundo questionamento com que a CNTE se deparou ao receber o convite para debater e construir uma proposta de Piso foi, como mencionado anteriormente, a questão da autonomia. Sader (2009), ao analisar o papel da classe trabalhadora nesta circunstância da história brasileira, em que um operário, oriundo do movimento sindical, chegou à presidência da República, sublinha que “autonomia é um direito dos trabalhadores”52. Essa noção de autonomia como direito e não como contingência permite, aos trabalhadores do serviço público, manter fidelidade à corporação sem necessidade de sempre antagonizar medidas governamentais que possam, inclusive, beneficiar-lhes.
Desse modo, a CNTE investiu na construção do Fórum Permanente de Valorização do Magistério e de Qualidade da Educação Básica, instalado em 8 de junho de 1994. O Fórum, na realidade, reproduziu o Grupo de Trabalho, anteriormente proposto pelo ministro, com a adesão do Fórum dos Conselhos Estaduais de Educação, a ANFOPE e o Ministério do Trabalho. O Fórum foi formado por duas grandes comissões, respectivamente, a de formação e a de remuneração e carreira, sendo que a CNTE integrou a segunda. Para os trabalhadores, o Fórum representou um espaço estratégico para a defesa de propostas de valorização profissional, entre elas, a do Piso Salarial Profissional Nacional. O propósito era o de chegar à Conferência Nacional de Educação para Todos, realizada entre 29 de agosto e 02 de setembro de 1994, com a possibilidade de assinatura de um Acordo Nacional entre governo e organizações integrantes do Fórum.
Ao apresentar o Acordo Nacional de Educação para Todos (BRASIL, 1994), o então ministro da educação, Murílio Hingel, fez um retrospecto das ações desencadeadas desde 1993, quando foi posto em discussão o Plano Decenal de Educação para Todos, elaborado pelo MEC com o apoio do Consed, da Undime e do CRUB. Ele explicou que a metodologia utilizada permitiu discussões e análises no âmbito dos estados, dos municípios, das casas legislativas, de entidades patronais e de trabalhadores, de escolas e de diversos outros segmentos representativos da sociedade civil. Nesse processo, segundo o ministro,
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Palestra proferida na VII Conferência Regional da Internacional da Educação para a América Latina, realizada em São Paulo, entre os dias 23 e 25 de setembro de 2009, cujo tema foi: “Fortalecimento e articulação sindical para a defesa da educação pública”.
[...] uma pergunta e uma perplexidade emergiam obrigatoriamente: e a situação do professor? Como pretender uma Política de Educação para Todos se medidas concretas não forem tomadas para melhorar a situação do magistério? Perguntas desse gênero se repetiam amiúde. O MEC tinha consciência de que era necessário enfrentar o problema. (BRASIL, 1994, p. 6)
A posição do MEC permitiu destacar a valorização profissional como um dos elementos centrais para a efetivação dos objetivos e metas do Plano Decenal de Educação para Todos. Nessa lógica, o Acordo defendeu uma política nacional de formação que considerasse as diferenças entre as diversas regiões do país, os níveis de formação profissional e os tipos de agências formadoras. Ao mesmo tempo, esclareceu que o respeito ao pacto federativo não deveria vir em prejuízo da “elevação progressiva dos níveis de formação hoje existentes” (BRASIL, 1994). Percebe-se, assim, que a implementação da formação, embora fosse uma política nacional, ficou na dependência dos estados. Diferentemente, o Piso Salarial seria, uniformemente, implantado:
Para obter equidade e qualidade na educação, faz-se imprescindível a implantação de um piso salarial profissional nacional do magistério de, no mínimo, R$ 300,00 (trezentos reais), com garantia de seu poder aquisitivo em 1º de julho de 1994. Fará jus a esse piso salarial, entendido como remuneração total no início da carreira e excluídas as vantagens pessoais, o professor habilitado, pelo menos, em nível de 2º grau e que esteja no exercício de atividade técnico-pedagógica em instituição educacional. (p. 22)
O Acordo previa o estabelecimento de Pacto pela Valorização do Magistério e Qualidade da Educação, incumbido, entre outros objetivos, de realizar estudos sobre a repercussão do Piso nos diversos sistemas, para implantação em 12 (doze) meses, com períodos de avaliação a cada 100 (cem) dias. Estudos também seriam feitos para instituir o novo regime de trabalho, de 40 horas semanais, e dos Planos de Carreira, verificar os recursos necessários para viabilizá-los, propor formas de articulação entre as diversas instâncias governamentais para o pagamento de aposentados e estabelecer políticas de valorização do pessoal técnico-administrativo.
O Pacto foi assinado no dia 19 de outubro de 1994, em sessão solene, no Palácio do Planalto, com a presença do presidente da República, Itamar Franco, do ministro Murílio Hingel, além de diversas representações do poder público e da sociedade civil. Na oportunidade, o presidente da CNTE, Horácio Reis, advertiu que, para a superação da fase das intencionalidades, referido Pacto deveria transformar-se, concretamente, em compromisso assumido por prefeitos e governadores. Registrou, igualmente, que o Pacto não esgotava a
luta por novos padrões de formação e de exercício do magistério. Mas, para o dirigente da Confederação, os trabalhadores em educação passariam a ter “um novo patamar de negociações com a efetivação das propostas definidas entre os interlocutores nacionais – CNTE, MEC, Consed e Undime” (CNTE, 1994, p. 4).