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Kadına Yönelik Şiddetin Tarihsel Gelişimi

1.5. Kadına Yönelik Şiddet

1.5.1. Kadına Yönelik Şiddetin Tarihsel Gelişimi

Estruturado em 11 artigos e 70 parágrafos neles subdivididos, pronto para ser executado, o Regulamento das Missões de 1845 criou, então, automaticamente, as Diretorias Gerais de Índios. Ficaram elas sob a responsabilidade do Ministério dos Negócios do Império que, a propósito, já vinha respondendo pelas questões relativas aos indí- genas. Afora outras atribuições que naturalmente eram de sua com- petência, a instituição acumulou mais essa de acompanhar de perto a atuação dos diretores gerais, que seriam indicados pelos presidentes de província e nomeados pelo monarca. Estes, por sua vez, contariam com uma equipe de subordinados que deveria mover forças no sen- tido de desenvolver os trabalhos civilizatórios e catequéticos.

Entre os subordinados aos diretores gerais, e que os auxilia- riam nessa difícil missão, os diretores locais aparecem como ele- mentos-chave. Além deles, havia o tesoureiro, um almoxarife e o ci- rurgião. Nomeados pelos presidentes de província, todos seriam indicados pelo diretor geral. Todavia, quanto a esses três últimos cargos, “dependerá do estado, em que se achar a Aldêa, e da sua im- portancia; e do lugar, em que estiver collocada”. Ademais, permitia- -se o acúmulo de cargo. O cirurgião, por exemplo, poderia atuar como tesoureiro, “se as circumstancias o permittirem”. Nesse caso, quando a “Aldêa não exija hum Thesoureiro, hum Almoxarife rece- berá todos os objectos, que forem destinados para a Aldêa, e os en- tregará segundo as ordens do Director da mesma”, informando “an- nualmente” ao diretor geral; “e o Diretor da Aldeâ receberá os

dinheiros, que á mesma pertencerem”.369 Afora estes funcionários

citados, a presença de missionários nos aldeamentos era indispensável.

Diretores gerais, diretores locais, padres, tesoureiros, almoxa- rifes, cirurgiões: seriam esses, portanto, os principais agentes encar-

369 Regulamento acerca das missões de catequese e civilização indígena. Consubstanciado no

Decreto no 426, de 24/07/1845. Art. 4o, Art. 7o. In: MOREIRA NETO, Carlos de Araújo. Índios da

regados de intermediar as relações e negociações do Estado brasi- leiro com os índios. Com a decisão de fazer e aprovar o Regulamento das Missões de 1845, o Conselho de Estado do Império do Brasil trazia assim uma política indigenista cujas diretrizes repercutiriam em âmbito nacional. “Já não era sem tempo”, afirma a historiadora Patrícia Melo Sampaio, as “demandas pela elaboração de instru- mentos capazes de dar conta da questão indígena eram frequentes e

muitas eram as vozes que se pronunciavam a respeito”.370

Referindo-se aos projetos levados por deputados brasileiros para as Cortes de Lisboa (em 1821), e dando ênfase ao Apontamentos

para a civilização dos índios bravos do Brasil, posteriormente reapre-

sentado por José Bonifácio de Andrada e Silva na Assembleia Geral Constituinte do Império do Brasil (em 1823), Patrícia Melo Sampaio lembra que “a necessidade de diretrizes para o trato dos índios não configura debate novo na década de 1840”. Desde a independência, em 1822, os dirigentes do país muito discutiram essa questão. Inclusive tentou-se, em 1826, sem êxito, elaborar um “plano geral de civilização

dos índios”.371 As discussões realizadas nos capítulos anteriores deste

livro corroboram, portanto, essas afirmações da referida autora. O Regulamento das Missões de 1845 foi, desse modo, resultado de longos debates que marcaram as primeiras duas décadas após a independência. Definir o lugar do índio na nova ordem social conti- nuava sendo uma questão problemática. Para Ilmar Rohloff Mattos, “o surgimento do Estado-nação” “exigia adesão inequívoca e fidelidade exclusiva daqueles que o compunham, só permitindo ou tolerando quaisquer outras identidades caso elas não colidissem com a irres-

trita prioridade de lealdade nacional”.372 Nesta acepção, as identi-

dades indígenas eram apenas toleradas, diga-se de passagem, tempo- rariamente. Não deveriam se sobrepor e nem mesmo coexistir com a identidade única que vinha sendo forjada à nação (a identidade brasi- leira), que homogeneizaria e ocultaria todas as “raças” indesejadas

370 SAMPAIO, Patrícia Melo. Política indigenista no Brasil imperial. In: GRINBERG, Keila; SALLES,

Ricardo. O Brasil Imperial: 1808-1831. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. p. 178. v. 1.

371 Idem. p. 179.

372 MATTOS, Ilmar Rohloff. O Gigante e o espelho. In: GRINBERG, Keila; SALLES, Ricardo (Org.). O

pelos dirigentes do país - incluindo-se aí, naturalmente, as etnias afri- canas no império, negros e seus descendentes.

Constituir a identidade da nação, desenvolvimento econômico e intelectual eram questões correlatas e preocupações constantes dos governantes, que intuíam, audaciosamente, deixar o país no mesmo nível de importância e competitividade das grandes nações europeias. Destarte, agricultura, trabalho, comércio, catequese e en- sino são temas que se interligam a todo instante no Regulamento das Missões de 1845. O cultivo da terra era imprescindível, posto que, nessa sociedade agrária do período oitocentista, era um importante viés de geração de riquezas para as elites dominantes e, por assim dizer, para o Estado brasileiro.

Uma das primeiras exigências era que os diretores gerais veri- ficassem o “estado” das “Aldêas actualmente estabelecidas”, “as oc- cupações habituaes dos Indios” e “as causas, que tem influido em seus progressos, ou em sua decadencia”. Dessa maneira, o governo brasileiro objetivava decidir sobre a viabilidade da “conservação” das “Aldêas”, “ou remoção, ou reunião de duas, ou mais, em huma

só”.373 Claro, isso implicava, automaticamente, decisões sobre as

terras habitadas pelos povos nativos.

Convém reforçar que, no país, vários grupos indígenas vinham sendo “removidos” de seus aldeamentos para outros locais. No Ceará, por exemplo, muitos foram os pedidos feitos aos governos provincial e imperial com essa intenção, principalmente por mora- dores brancos, proprietários e/ou homens de influência política em suas respectivas vilas e povoações. Muitas vezes o objetivo da trans- ferência era de fato a extinção destes antigos aldeamentos indígenas que teimavam em existir no século XIX, para que suas terras pu- dessem ser ocupadas e exploradas sem maiores dificuldades. Se, no ano de 1845, a lei proibia as “remoções” quando os índios “qui-

sessem ficar nas mesmas terras”,374 antes disso, em vários casos, o

querer deles foi totalmente ignorado. Para ilustrar isso, basta lem- brar os episódios analisados no segundo capítulo deste livro, em que

373 Regulamento das Missões de 1845. Consubstanciado no Decreto no 426. Art. 1.º §§ 1 e 2. 374 Idem. Art. 1o, § 3.

os índios de Monte Mor o Velho, bem como os de Monte Mor o Novo, denunciam aos governantes provinciais e imperiais que haviam sido

“arrancados” violentamente de seus “lares”.375

Portanto, falando em “liberdade” aos indígenas (dentro dos li- mites fixados pelo Estado brasileiro, é claro) e proibindo as “remo- ções” feitas a contragosto daqueles, o Regulamento das Missões de 1845 defendia, por conseguinte, o seu direito de posse sobre suas áreas territoriais. A propósito, essa questão da terra foi bastante en- fatizada nesse documento.

De antemão, devia-se delimitar o território do aldeamento, terras “dadas aos Indios”, cabendo ao diretor geral propor a demar- cação ao presidente da província e acompanhar atentamente os tra- balhos realizados nesse sentido. Dessa área total, cuja extensão não foi especificada no Regulamento, parte deveria ser reservada para as “plantações em commum” dos indígenas, com a possibilidade, também, de terrenos serem arrendados a terceiros. Sob o crivo do seu superior, o diretor local ficaria incumbido de definir os espaços a serem cultivados pelos indígenas, assim como as áreas que pode- riam ser arrendadas nos casos em que, de acordo com os membros do Conselho de Estado do Império do Brasil, “não possão os Indios aproveital-as todas”.376

Para garantir a posse das áreas que lhes eram doadas, os ín- dios tinham que apresentar “bom comportamento” e um “modo de

vida industrial, principalmente de agricultura”,377 ou seja, viver em

cumprimento do mando das autoridades; essa era a senha para terem chances de manter a posse da terra e de ter certas reivindicações atendidas pelo governo brasileiro. Na histórica dialética entre gover- nantes e indígenas, cercada de tensão, muita coisa estava em jogo.

375 Ver: Correspondência do vice-presidente do Ceará, José de Castro Silva, para Manuel José de

Sousa França, ministro dos Negócios do império. 28/07/1831; Requerimento enviado pelo Governo do Ceará ao Ministério dos Negócios do Império, atribuído aos índios de Monte Mor o Velho. 28/07/1831; Representação, com abaixo-assinado, da Câmara e habitantes da Vila de Monte Mor Novo, pedindo a transferência dos índios dali para a aldeia indígena da Vila de Messejana - 1828. Localizados In: Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro - BNRJ.

376 Regulamento das Missões de 1845. Consubstanciado no Decreto no 426. Art. 1o, §§ 11,12 e13. 377 Regulamento das Missões de 1845. Consubstanciado no Decreto no 426. Art. 1o, § 3.

Ambas as partes, com visão de mundo e objetivos diferentes, ora ti- nham perdas, ora ganhos.

Colocar em prática os planos de inserção dos índios na socie- dade nacional obviamente implicava investimentos, gastos que, muito ou pouco, recaíam sobre o governo imperial. O “projeto de catequese e civilização dos índios, tal como projetado pela política imperial, dependia amplamente de recursos financeiros que viabili- zassem a oferta permanente de brindes” que, para Márcio Couto Henrique, “nunca chegaram a ser satisfatórios, dada a extensão do

território e a grande quantidade de indígenas a serem atraídos”.378

Além de roupas, espelhos, facas, foices, enxadas, machados e outros vários instrumentos necessários em todo processo que constituía a trama da formação e manutenção dos aldeamentos, naturalmente havia as despesas com os agentes a serviço do poder governativo e, também, com os próprios padres, sempre prontos para servir a Deus e aos interesses da realeza.

Em nome da fé e do imperador, assim deveriam agir os missio- nários entre índios e não índios, nos mais longínquos espaços do império. Convém dizer que, no âmbito da política indigenista pen-

sada em 1845, os frades capuchinhos ocuparam lugar de destaque.379

Há quem defenda, inclusive, como é o caso de José Oscar Beozzo, que aquilo “que os jesuítas representaram durante os primeiros du- zentos anos na catequese e aldeamento dos índios, vão representar

os capuchinhos na segunda metade do século XIX”.380

378 HENRIQUE, Márcio Couto. Presente de branco: a perspectiva indígena dos “brindes” da civili-

zação (Amazônia, século XIX). SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA DA ANPUH, 27., Natal. Anais ...

Natal, RN: ANPUH,2013. p. 2.

379 OLIVEIRA, João Pacheco de; FREIRE, Carlos Augusto da Rocha. A Presença Indígena na

Formação do Brasil. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada,

Alfabetização e Diversidade: Laced: Museu Nacional, 2006. p. 81.

380 BEOZZO, José Oscar. Leis e regimentos das missões: política indigenista no Brasil. São Paulo:

Edições Loyola, 1983. p.78. Nos últimos anos, importantes estudos foram realizados sobre a atu- ação dos capuchinhos no império do Brasil. Analisar, entre outros vários autores: AMOROSO, Marta Rosa. Catequese e evasão. Etnografia do aldeamento indígena São Pedro de Alcântara,

Paraná (1855-1895). Tese Doutorado em Ciências Sociais, Universidade de São Paulo, São Paulo,

1998; AMOROSO, Marta Rosa. Mudança de hábito: catequese e educação para os índios nos al- deamentos capuchinhos. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 13, n. 37, 1998; AMOROSO, Marta Rosa. “Entre os selvagens do Brasil”. Ensaios e Memórias dos Frades Capuchinhos sobre os

Aldeamentos Indígenas do Império (1844-1889). In: Encontro Anual da ANPOCS, 26.,