• Sonuç bulunamadı

N

este capítulo, antes mesmo de centrar atenção especificamente

no estudo da atuação dos indígenas no Ceará, no período que vai de 1845 aos anos 1860, é válido refletir sobre decisões importantes das autoridades imperiais na Corte, objetivando normatizar a situação dos índios em todo país. Tal exercício é, de fato, indispensável. Em 15 de fevereiro de 1845, por exemplo, sob a égide do monarca, o

Conselho de Estado dos Negócios do Império359 deu um passo rele-

vante para pôr em vigor uma política indigenista própria do Estado brasileiro, ao apresentar, em sessão, um “parecer” com um “projeto de Regulamento acerca das missões de catequese e civilização dos índios”. Na ocasião, a longa história de mais de três séculos envol- vendo a Coroa portuguesa e os povos nativos serviu de referencial para suas reflexões, tendo por objetivo a eficácia das estratégias de controle pensadas naquele ensejo. Admitindo que o “Governo portu- guês nunca cessou de providenciar sobre a sorte” dos indígenas, analisando seus êxitos e insucessos neste aspecto, concluíam que,

359 Para refletir sobre a formação e atuação do Conselho de Estado do Império do Brasil, ver,

entre outros: MARTINS, Maria Fernanda Vieira. A velha arte de governar: o Conselho de Estado no Brasil Imperial. Topoi, v. 7, n. 12, p. 178-221, 2006; CARVALHO, José Murilo de. A construção

da ordem: a elite política imperial. Teatro de sombras: a política imperial. Rio de Janeiro:

Civilização Brasileira, 2003. Sobretudo o capítulo 4, intitulado “O Conselho de Estado: a cabeça do governo”.

por fim, seus “esforços” para “melhorar” a “sorte” desses povos ha-

viam sido sempre “contrariados pela cobiça”.360

Várias vezes exaltados no discurso político-intelectual oito- centista, no “parecer” dos conselheiros os jesuítas foram acusados de agir “com desordenadas pretensões de domínio” e nem sempre dar “o exemplo da virtude evangélica que pregavam”. Sobre o Diretório pombalino, que causou a expulsão daqueles padres do Brasil, não teria atingido totalmente seu propósito civilizatório, não foram gerais os “bons resultados”: a “fraude e a violência tomaram o lugar da Lei, e os pobres índios continuaram a ser tratados como

escravos”.361 Logo, diante destas experiências, é de se imaginar que

os dirigentes imperiais previam dificuldades para a boa execução da legislação indigenista que elaboravam. Não só por conta dos índios, mas, também, e talvez principalmente, devido aos desacatos dos não índios, sobretudo os privilegiados.

Elaborar e fazer cumprir o Regulamento de catequese e civili- zação indígena era uma tarefa ousada, complexa. Considerados “como a negação do progresso e do desenvolvimento que são apre-

sentados como projeto da Nação”,362 os índios viviam experiências

bastante variadas nas províncias, “cujas situações diferenciadas im- punham também procedimentos diversos nas estratégias para incor-

porá-los”.363 Por mais violento que tenha sido o contato com os luso-

-brasileiros ao longo dos séculos, houve “sempre uma reação criativa

por parte dos índios”.364 Assim, no país, existiam índios aldeados que

de longas datas conviviam e eram administrados por brancos; os que

360 Arquivo Nacional do Rio de Janeiro - ANRJ. Fundo: Conselho de Estado. Código de Fundo: 1R.

Códice 0049 Vol.2. Parecer do Conselho de Estado do Império do Brasil, apresentando o projeto do Regulamento acerca das missões de catequese e civilização dos índios. 15/02/1845.

361 Idem.

362 DURHAM, Eunice Ribeiro. O lugar do índio. São Paulo: Brasiliense, 1983. p. 14.

363 ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. O lugar dos índios na história entre múltiplos usos do

passado: reflexões sobre cultura histórica e cultura política. In: SOIHET, Rachel; ALMEIDA, Maria Regina Celestino de; AZEVEDO, Cecília; e CONTIJO, Rebeca. (Org.). Mitos, projetos e práticas polí- ticas: memória e historiografia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. p. 213.

364 ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. Índios, Missionários e Políticos: discursos e atuações

político-culturais no Rio de Janeiro. In: SOIHET, Rachel; BICALHO, Maria Fernanda B.; GOUVÊA, Maria de Fátima S. (Org.). Culturas políticas: ensaios de história cultural, história política e ensino de história. Rio de Janeiro: Mauad, 2005. p. 236.

haviam passado pelos aldeamentos e estavam desaldeados; os que viviam nas matas e iniciavam diálogo com os não índios; e, por fim, os que viviam em total estado de isolamento. Como agir, então, diante dessa complexa realidade indígena?

Para os membros do Conselho de Estado do Império do Brasil, não havia outro meio senão considerar a realidade de cada grupo. “Os que estiverem inteiramente apartados do comercio social de- verão ser conduzidos por meios mais simples, mais singelos, do que os que ou já viveraõ em comunhaõ conosco”. Porém, esses que “por causas particulares” “se afastaram de nossa conversação, retirando-

-se para os matos”,365 também mereciam atenção especial. Era pre-

ciso trazê-los de volta ao seio da sociedade nacional, já que, na época, enquanto o índio mantivesse “sua identidade cultural”, en- quanto não absorvesse “as regras fundamentais do convívio social” pensadas e impostas pelas autoridades, não poderia ser considerado

como parte da “nação brasileira”.366

Foi com essa preocupação, portanto, que o Conselho de Estado passou a se empenhar no sentido de materializar o Regulamento das Missões de 1845. Tendo sua versão inicial exibida pela primeira vez na sessão de 15 de fevereiro de 1845, na sessão do dia 29 de maio, o

projeto foi, enfim, aprovado.367 Manuela Carneiro da Cunha o define

como o “único documento indigenista geral do Império”, que pro- longa “o sistema de aldeamentos e explicitamente o entende como

uma transição para a assimilação completa dos índios”.368 Validado

pela maioria dos conselheiros, o documento somente passaria a vi-

gorar, de fato, com a promulgação do Decreto no 426, de 24 de julho

daquele ano.

365 Parecer do Conselho de Estado do Império do Brasil, apresentando o projeto do Regulamento

acerca das missões de catequese e civilização dos índios. 15/02/1845.

366 MARÉS, Carlos Frederico. A cidadania e os índios. São Paulo: Brasiliense, 1983. p. 50-51. 367 Atas do Terceiro Conselho de Estado do Império do Brasil (1842-1850). Ata do dia 29 de maio de

1845. Disponível em: <www.senado.gov.br/publicacoes/anais/asp/AT_AtasDoConselhoDeEstado. asp>. Acesso em: 10 abr. 2014.

368 CUNHA, Manuela Carneiro da. Legislação Indigenista no Século XIX: uma Compilação: 1808-

1889. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: Comissão Pró-Índio/SP, 1992. p. 11. CUNHA, Manuela Carneiro da.Política Indigenista no Século XIX. In: CUNHA, Manuela Carneiro da (Org.). História dos Índios no Brasil. São Paulo: Comissão Pró-Índio de São Paulo, 1992. p. 139.