2. BÖLÜM: ERCÜMEND BEHZAD LAV’IN ESERLERİNDE TOPLUMCU
2.5. Kadın
4.1. A REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL E A ESF: FUNDAMENTOS E ESTRATÉGIAS
A Reforma Psiquiátrica ganhou corpo e fundamentação teórica concomitante com as transformações do modelo de atenção em saúde a partir da Reforma Sanitária em seus princípios e diretrizes. Como vimos antes, a reforma psiquiátrica propõe a desconstrução teórica e prática da instituição psiquiátrica, centrada na internação hospitalar que distancia o sujeito com transtornos mentais do seu espaço social pelo modelo de atenção de base comunitária, consolidado em serviços territoriais, e de atenção diária. O processo objetiva criar novas perspectivas de vida, busca-se, pois, desconstruir a lógica excludente provocada pelas internações, proporcionando aos sujeitos estratégias de reinserção social. Enfatiza-se a reestruturação da atenção psiquiátrica vinculada à atenção primária à saúde e na constituição de redes de apoio social e serviços comunitários que possam dar suporte aos indivíduos em seus contextos de vida.
Nesse sentido, a atenção básica, através da Estratégia de Saúde da Família – ESF vem, progressivamente, tornando-se espaço privilegiado nas intervenções em saúde mental, se configurando como campo de práticas e produção de novos modos de cuidado em saúde mental, na medida em que tem como proposta a produção da promoção, prevenção e recuperação à saúde na perspectiva da integralidade, onde existe o acolhimento, a escuta qualificada, o vínculo e a responsabilização em saúde.
Diariamente, diversas demandas em saúde mental são identificadas por profissionais das equipes de ESF e agentes comunitários de saúde. São situações que requerem intervenções imediatas, na medida em que podem evitar a utilização de recursos assistenciais hospitalares mais onerosos desnecessariamente. Trata-se de problemas associados ao uso prejudicial de álcool e de outras drogas, aos egressos de hospitais psiquiátricos, ao uso inadequado, e muitas vezes excessivo e crônico de benzodiazepínicos e antidepressivos, aos transtornos mentais graves e a situações decorrentes da violência e da exclusão social. A identificação e o acompanhamento dessas situações, incorporados às atividades que as
equipes de atenção básica desenvolvem são passos fundamentais para a superação do modelo psiquiátrico medicalizante e asilar de cuidados em saúde mental.
As equipes da ESF, em sua proposta de trabalho, deveriam manter uma relação mais estreitada com seus pacientes, conhecê-los, conversar com os mesmos, entrar em contato direto ou indireto não só com seus sintomas e doença, mas com os vários aspectos de suas vidas.
Escutar o paciente cuja queixa traduz essencialmente a demanda de ajuda para um problema emocional; acompanhá-lo, procurando pensar com ele as razões desse problema, e formas possíveis de enfrentá-lo; evitar tanto quanto possível o recurso aos psicofármacos, e, quando necessário, usá-los de forma criteriosa; não forçar o paciente a deixar, de um dia para o outro, o medicamento que sempre usou, mas ponderar com ele os riscos e as desvantagens desse uso; não repetir estereotipadamente condutas e receitas: este é um acompanhamento que as equipes do PSF sabem e podem conduzir. (SOUZA, 2006 p. 55)
Tais características indicam claramente a potencialidade da atenção básica se constituir no plano privilegiado para o acolhimento das necessidades em saúde mental, com intervenções que rompem com o modelo manicomial e segregador. Além disso, considera-se que a inserção da saúde mental nesse nível de atenção é estratégia importante para a reorganização da atenção à saúde que se faz urgente em nossa realidade, na medida em que rompe dicotomias tais como saúde/saúde mental, exigindo a produção de práticas dentro dos princípios do Sistema Único de Saúde.
Logo, é preciso um duplo movimento. Por um lado, não se pode fechar as portas da unidade básica de saúde para essa clientela; por outro, há que encontrar, com eles, espaços mais interessantes, fora e além da unidade.
Com o objetivo de ampliar a abrangência e o escopo das ações da Atenção Básica, bem como sua resolutividade, foi criado o Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF).
O Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF) é uma estratégia inovadora que tem por objetivo apoiar, ampliar, aperfeiçoar a atenção e a gestão da saúde na Atenção Básica/Saúde da Família. Seus requisitos são, além do conhecimento técnico, a responsabilidade por determinado número de equipes de Saúde da Família e o desenvolvimento de habilidades relacionadas ao paradigma da Saúde da Família. Deve estar comprometido, também, com a promoção de mudanças na atitude e na atuação dos
profissionais da Saúde da Família e entre sua própria equipe (NASF), incluindo na atuação ações intersetoriais e interdisciplinares, promoção, prevenção, reabilitação da saúde e cura, além de humanização de serviços, educação permanente, promoção da integralidade e da organização territorial dos serviços de saúde.
O NASF é constituído por profissionais de saúde de diferentes áreas de conhecimento, que atuam de maneira integrada, sendo responsável por apoiar as Equipes de Saúde da Família, as Equipes de Atenção Básica para populações específicas e equipes da academia da saúde, atuando diretamente no apoio matricial e, quando necessário, no cuidado compartilhado junto às equipes da(s) unidade(s) à(s) qual (is) o Núcleo de Apoio à Saúde da Família está vinculado, incluindo o suporte ao manejo de situações relacionadas ao sofrimento ou transtorno mental e aos problemas relacionados ao uso de crack, álcool e outras drogas.
O NASF não se constitui como serviço com unidade física independente. Deve, a partir das demandas identificadas no trabalho com as equipes e/ou na academia da saúde, atuar de forma integrada à Rede de Atenção à Saúde e seus serviços, bem como as redes sociais e comunitárias.
A responsabilização compartilhada entre a equipe do NASF e as equipes de Saúde da Família busca contribuir para a integralidade do cuidado aos usuários do SUS, principalmente, por intermédio da ampliação da clínica, auxiliando no aumento da capacidade de análise e de intervenção sobre problemas e necessidades de saúde, tanto em termos clínicos quanto sanitários. Para tanto, utilizam como metodologia a discussão de casos, atendimento conjunto ou não, interconsulta, construção conjunta de projetos terapêuticos, educação permanente, intervenções no território e na saúde de grupos populacionais e da coletividade, ações intersetoriais, ações de prevenção e promoção da saúde, e ainda discussão do trabalho das equipes, podendo ser essas atividades desenvolvidas nas unidades básicas de saúde, nas academias da saúde ou em outros pontos do território.
Considera-se, pois, que a articulação entre a atenção básica e a rede substitutiva de saúde mental se impõe como algo inadiável. Organizar a atenção à saúde mental em rede é uma prioridade no sentido de se produzir cuidado integral, contínuo e de qualidade ao portador de transtorno mental.
Ao adotar o território, como estratégia, fortalece a ideia de que os serviços de saúde devem integrar a rede social das comunidades em que se inserem, assumindo a responsabilidade pela atenção à saúde nesse espaço e incorporando, na sua prática, o saber das pessoas que o constituem, devendo
a atitude terapêutica se basear não na tutela, mas no contrato, no cuidado e no acolhimento (BRÊDA; ROSA; PEREIRA; SCATENA, 2005, p. 451).
Ressaltam-se os serviços substitutivos em saúde mental, bem como as pactuações e articulações necessárias para a construção de um trabalho em rede, tendo como pano de fundo a questão da integralidade do cuidado.
A Conferência Internacional de Alma-Ata (1978) e a Declaração de Caracas (1990) trouxeram em seu bojo, a ideia de reestruturação da atenção psiquiátrica vinculada à atenção primária à saúde, ressaltando a importância da promoção de modelos substitutivos concentrados na comunidade e integrados com suas redes sociais, preponderando a manutenção da pessoa com sofrimento psíquico em seu meio social, sendo que o hospital psiquiátrico deixa de ser o componente central da atenção psiquiátrica e propõe que os serviços comunitários passem a ser o principal meio para se ter o atendimento. (PINTO, 2007, p. 25)
Dessa maneira, a construção de uma rede em saúde mental desempenha um papel fundamental ao contribuir com troca compartilhada de saberes para aumentar a capacidade resolutiva das equipes da ESF; nesse sentido, pretende-se superar a lógica da especialização e da fragmentação do trabalho da própria área de saúde mental. Permite-se, assim, lidar com a saúde de uma forma ampliada e integrada através desse saber mais interdisciplinar, e, por outro lado, ampliar o olhar das equipes nas unidades básicas de saúde em relação aos usuários, às famílias e ao território, propondo que os casos sejam de responsabilidade mútua.
Para constituir essa rede, todos os recursos afetivos (relações pessoais, familiares, amigos, etc), sanitários (serviços de saúde), sociais (moradia, trabalho, escola, esporte) econômicos (dinheiro, previdência), culturais, religiosos e de lazer estão convocados para potencializar as equipes de saúde nos esforços de cuidado e reabilitação psicossocial, para fazer face à complexidade das demandas de inclusão daqueles que estão excluídos da sociedade por transtornos mentais (BRASIL, 2004b).
O processo de construção da rede em saúde mental pressupõe uma estratégia política, institucional e técnico-profissional de desmontagem do modelo hospitalocêntrico e das
representações sociais excludentes, e construção de uma atenção integral à saúde, a partir da interface da Estratégia Saúde da Família e dos dispositivos substitutivos em saúde mental.
Nessa perspectiva, no capítulo a seguir discutiremos como se dá a relação entre a Estratégia Saúde da Família e o Centro de Atenção Psicossocial no município de Areia Branca - RN, identificando os limites e potencialidades para a articulação na constituição da Rede de Atenção Psicossocial.