Já vimos aqui o quanto Justiça e igualdade estão ligadas, ainda
que não se confundam49. A Justiça é mais ampla e concretiza-se por meio de vários
48 “Cfr. a proximidade do discurso de BALDASSARE, ‘Diritti Sociali’, in Enciclopedia Giuridica, Vol.
XI; PIZZORUSSO, Che cos’e l’egualianza. Il principio etico e la norma giuridica nella vita real, Roma, 1983. Preocupações semelhantes em JORGE MIRANDA, Manual, IV, pp. 233 e ss”.
49 Celso Ribeiro Bastos chega a enumerá-las como dois princípios distintos: “Enumeramos como
princípios gerais de Direito, dada sua larga abrangência, informadores que são de todo o ordenamento jurídico, os princípios da justiça, da igualdade, da liberdade e da dignidade da pessoa humana” (BASTOS, 2002, p. 84, grifo nosso).
princípios jurídicos. O da igualdade é um desses princípios, mas trata-se de princípio
que atinge posição de destaque50 exatamente porque o pressuposto da igualdade
está sempre presente na materialização da Justiça. A Justiça, por sua vez, faz parte
da própria idéia de direito (CANOTILHO, 2002, p. 239)51. Por isso, precisamos nos
aprofundar um pouco mais na seara da Justiça.
Saber o que é justo é uma preocupação que remonta a tempos imemoráveis. Basta abrirmos a Bíblia que, mesmo em seus livros mais antigos, encontraremos menções à Justiça e sempre com destaque à sua importância como bem a ser alcançado52.
Já a associação entre igualdade e justiça, por sua vez, considera-se que vem desde o pensamento grego. Citemos a lição de Maren Guimarães Taborda (1998, p. 244) para corroborar essa assertiva:
Foi também entre os gregos (pitagóricos) que nasceu a noção de que a igualdade é justiça. Para eles, a harmonia e regularidade do universo, concebido como kosmos (totalidade ordenada), se traduz na esfera humana em uma correção de condutas, e a justiça (dikê) se caracteriza como uma relação de igualdade entre dois termos, como, por exemplo, uma injúria e sua reparação. Havendo um desequilíbrio no kosmos é tarefa da justiça reintroduzi-lo.
Para Jorge Miranda (1993, p. 213), um dos pontos que não
50 V. item 1.7, Parte I, deste trabalho.
51 Esta frase, provavelmente, desagrada aos adeptos de uma visão kelseniana do Direito, que será
abordada, ainda que pela visão crítica de Chaïm Perelman, no item 4.1, Parte I.
52 A mais importante dessas menções, a nosso ver, é a que conta a história de uma noite em que
Deus teria aparecido a Salomão em sonhos e dito para que ele pedisse o que quisesse, como homem e como rei, que Ele lhe concederia. Salomão disse: “[...] meu Deus, constituíste rei a teu servo em lugar de meu pai Davi, mas eu não passo de um jovem, que não sabe comandar. Teu servo se encontra no meio do teu povo que escolheste, povo tão numeroso que não pode contar nem calcular. Dá, pois, a teu servo um coração que escuta para governar teu povo e para discernir entre o bem e o mal [...]” (Primeiro livro dos Reis, cap. 3, v. 7-9). E Deus lhe responde: “porque foi este o teu pedido, e já que não pediste para ti vida longa, nem riqueza, nem a vida dos teus inimigos, mas pediste para ti discernimento para ouvir e julgar, vou fazer como pediste: dou-te um coração sábio e inteligente, como ninguém teve antes de ti e ninguém terá depois de ti” (idem, ibidem, v. 11-12).
podem ser suprimidos na análise do próprio sentido da igualdade é o de que “igualdade significa intenção de racionalidade e, em último termo, intenção de justiça”.
Canotilho assevera que a igualdade deve ser justa (2002, p. 428), mas adverte que o problema em se alcançar essa “justiça” na igualdade é que:
A fórmula ‘o igual deve ser tratado igualmente e o desigual desigualmente’ não contém o critério material de um juízo de valor sobre a relação de igualdade (ou desigualdade). A questão da
igualdade justa pode colocar-se nestes termos: o que é que nos
leva a afirmar que uma lei trata dois indivíduos de uma forma igualmente justa? Qual o critério de valoração para a relação de igualdade?
Uma possível resposta, sufragada em algumas sentenças do Tribunal Constitucional, reconduz-se à proibição geral do arbítrio: existe observância da igualdade quando indivíduos em situações iguais não são arbitrariamente (proibição do arbítrio) tratados como desiguais. [...] Embora ainda hoje seja corrente a associação do princípio da igualdade com o princípio da proibição do arbítrio, este princípio, como simples princípio de limite, será também insuficiente, se não transportar já, no seu enunciado normativo-material, critérios possibilitadores da valoração das relações de igualdade ou desigualdade. Esta a justificação de o princípio da proibição do arbítrio andar sempre ligado a um fundamento material ou critério
material objectivo. Ele costuma ser sintetizado da forma seguinte:
existe uma violação arbitrária da igualdade jurídica quando a disciplina jurídica não se basear num: (i) fundamento sério; (ii) não tiver um sentido legítimo; (iii) estabelecer diferenciação jurídica sem um fundamento razoável. Todavia, a proibição do arbítrio intrinsecamente determinada pela exigência de um ‘fundamento razoável’ implica, de novo, o problema da qualificação desse fundamento, isto é, a qualificação de um fundamento como razoável
aponta para um problema de valoração53 (CANOTILHO, 2002, p.
428).
Já para Alf Ross (2000) a idéia de justiça é dotada de uma “compreensão instintiva”. Para ele, a noção de justiça parece ser uma idéia clara e simples dotada de uma poderosa força motivadora, pois em todas as partes parece haver uma compreensão instintiva das exigências de justiça. Exemplifica dizendo que as crianças de tenra idade já apelam para a justiça, se uma delas recebe um pedaço de maçã maior que os pedaços das outras; que mesmo os animais possuem o gérmen de um sentimento de justiça, ou seja, o poder da justiça é grande. Lutar por uma causa "justa" fortalece e excita uma pessoa. Todas as guerras têm sido travadas em nome da justiça e o mesmo se pode dizer dos conflitos políticos entre as classes sociais.
Mas é forçoso reconhecer que o conteúdo do princípio da igualdade, para o alcance dessa igualdade justa, pressuposto e objetivo de um Estado Democrático de Direito, não é de fácil definição, e nem é tão “instintivo”. Vamos à sua análise.
53 Acreditamos que este “problema de valoração” mencionado por Canotilho foi, em grande parte,
solucionado pelas convenções internacionais, conforme veremos na segunda parte deste trabalho.
3. A máxima aristotélica como ponto de partida para os estudos do