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CD 3.12.2007, 9222/8495

Encontramos, na literatura, diversos argumentos para que os livros didáticos devam ser mais pesquisados no país (BATISTA, 2000), como por exemplo: a) o fato de ser a fonte de informação básica para grande parte dos professores e dos alunos da escola brasileira; b) o seu uso mais intenso nos estratos econômicos mais baixos das populações escolares (já que a grande parte das escolas particulares atualmente não adotam os LDs do MEC, e sim, apostilas próprias); c) sua enorme participação na produção editorial brasileira; d) a complexidade das relações entre a escola e o livro didático com o mundo social dos alunos.

Apesar de todos esses motivos, o livro didático, em geral, é pouco estudado no país, visto as poucas referências acadêmicas a respeito. Batista (2000) justifica a pequena produção, afirmando que há pouco interesse por esse campo. As primeiras pesquisas sobre estereótipos étnico/raciais em livros didáticos foram publicadas na década de 1950. O estudo pioneiro foi o de Leite (1950 apud NEGRÃO, 1987), seguido pelos estudos de Hollanda (1957 apud ROSEMBERG, 1985) e Bazzanella (1957 apud ROSEMBERG, 1985). O principal resultado desse grupo de pesquisas foi a percepção de que as manifestações de preconceito e discriminação, em geral, se apresentam de forma velada ou “implícita” tanto nos textos quanto nas ilustrações dos materiais didáticos.

Fúlvia Rosemberg, Chirley Bazilli e Paulo da Silva (2003) expõem falhas e dificuldades observadas no LD, ao contemplar os elementos culturais das diferentes raças e etnias que compõem nosso país. Os autores consideram que expressões de racismo (inclusive as implícitas) em LD constituem uma das formas sociais de produzir e sustentar práticas racistas no Brasil. Afirmam ainda que as pesquisas que abordam o discurso racista em livros

didáticos brasileiros focalizam, exclusivamente, as populações negras e indígenas, já que não foram encontradas referências sobre outros povos como judeus, árabes, asiáticos ou ciganos.

Diversos documentos relacionados à III Conferência Mundial das Nações Unidas contra o Racismo, Xenofobia e Intolerância Correlata, realizada em Durban, em 2001, trazem proposições relativas ao combate ao preconceito, discriminação e estereótipos em LDs. Vejamos alguns exemplos: uma das propostas da Pré-Conferência Novo Papel da Indústria de Comunicação e Entretenimento foi a elaboração de livros didáticos que eliminassem todos os estereótipos racistas de seus conteúdos, desconstruindo, assim, o imaginário excludente; o Relatório do Comitê Nacional para a Preparação da Participação Brasileira na referida Conferência propõe a "revisão dos conteúdos dos livros didáticos, visando eliminar a veiculação de estereótipos" (MOURA; BARRETO, 2002, p. 26). O plano de ação aprovado nessa Conferência incentiva que a UNESCO apoie os países na elaboração de materiais didáticos e outros instrumentos de promoção do ensino, com o objetivo de fomentar o ensino, capacitação e atividades educacionais relacionadas aos direitos humanos e à luta contra o racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância correlata.

Os movimentos feminista e negro, constantemente, denunciaram o tratamento discriminatório detectado nos textos didáticos brasileiros. Isso influenciou a adoção de uma série de ações governamentais visando à eliminação de tais discriminações, raciais e de gênero. Uma dessas ações do governo para modificações nos livros didáticos foi gestada no interior do PNLD. Em 1996 (mais de dez anos após sua criação), o PNLD passou a avaliar previamente os livros didáticos a serem comprados e distribuídos pelo MEC. A avaliação prescrevia: “os livros não podem expressar preconceitos de origem, raça, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação” (BRASIL, 2000 - Anexo 3). Essa resolução foi um avanço “pois, pelo menos, problematiza o mito da democracia racial e alerta os responsáveis pela produção de livros didáticos sobre aspectos críticos” (ROSEMBERG; BAZILLI; SILVA, 2003, p.140).

Além dos documentos referentes à avaliação do PNLD, diversos instrumentos legais prescrevem a adoção de livros didáticos livres de manifestações discriminatórias. Rosemberg, Bazilli e Silva (2003, p. 141), encontraram tais prescrições em programas do Governo Federal, em uma constituição estadual e em diversas leis orgânicas municipais. Eles se perguntam o porquê da necessidade de repetir a afirmação em tantas instâncias e apresentam como hipótese que tal conjunto de leis parece ser uma resposta às reivindicações dos movimentos sociais. Além do que, são regras ou leis que implicam em pouco ou nenhum emprego de recursos orçamentários e são, possivelmente, de fácil aprovação.

A aprovação de mecanismos legais, o item de exclusão do PNLD e as pautas de reivindicações dos movimentos sociais evidenciaram que o debate sobre o tema foi significativo, pois pesquisadores, membros das esferas públicas, associações de editores, associações de escritores e representantes de movimentos sociais estiveram envolvidos em seminários, publicações e mudanças de legislação. Entretanto, de acordo com Paulo Silva (2005), toda essa movimentação contrasta com as tênues mudanças apontadas pelos seus estudos.

O Núcleo de Estudos de Gênero, Raça e Idade (NEGRI) da PUC-SP tem algumas pesquisas sobre o tema: uma tese de 2005, Relações Raciais em Livros Didáticos de Língua Portuguesa, e outra, de 2007, Relações de gênero em livros didáticos de língua portuguesa: permanências e mudanças. Na primeira, Paulo Silva (2005) conclui que o LD continua veiculando discurso racista ao naturalizar a dominação branca e estigmatizar os personagens negros. Na segunda tese, Neide de Moura (2007) afirma que, apesar das mudanças que ocorreram com as avaliações do PNLD, o LD permanece como veículo de discriminação de gênero. A dissertação de Maria S. Ribeiro, Relações de gênero e de idade em discursos sobre sexualidade veiculados em livros didáticos brasileiros de Ciências Naturais, de 2013, também reforça a presença de processos discriminatórios nesses livros. Ambas reiteram a importância de se pesquisarem mais sobre o conteúdo dos livros didáticos.

Benzer Belgeler