“Não é necessário? Então quem vai salvar a pele dos nossos companheiros que estão sendo massacrados na prisão?”200
Hannah Arendt afirma que a violência “como todos os meios, está sempre à procura de orientação e justificativas pelo fim que busca, que
se encontra no futuro”.201
Percebo que no seqüestro do embaixador americano a violência era justificada pelos militantes, pelo fim revolucionário a ser atingido no futuro. Percebo também que, à medida que a repressão se impõe, esse futuro fica tão distante que passa a ser apenas algumas vezes mencionado. Desse modo, o grande fim almejado - a revolução - não serve mais como justificativa da violência, que acaba sendo buscada, cada vez mais, nas necessidades do momento, restringindo-se à liberdade dos companheiros presos.
A narrativa de Syrkis sinaliza a esse respeito. Para ele, que já no instante dos dois seqüestros tinha dúvidas quanto à oportunidade do momento para se fazer a revolução, a justificativa registrada no texto se resume na libertação dos companheiros ameaçados de morte. Para Syrkis o futuro se esvai e a única chance que lhe resta é a de se agarrar à restrita possibilidade do presente: a de resgatar companheiros presos.
O valor moral que está por trás de tudo isso é o do compromisso com amigos que, ameaçados de morte pela tortura, coloca a imperiosa defesa do direito à vida.
199 Ibidem. p. 178. 200 Ibidem. p. 183. 201
São muitos os matizes que justificam as ações revolucionárias. No primeiro plano podemos identificar a noção de revidar, de vingar as ações do imperialismo no continente latino, imperialismo que explorava e financiava golpes militares. Assim é que, ao registrar impressões sobre o seqüestro do embaixador americano, Syrkis afirma: “Os americanos tinham ajudado o golpe em 1964, mandado os seus Dom
Mitriones adestrar a repressão. Agora pagavam.”202
Ele desenvolve o mesmo raciocínio para o embaixador alemão. Como vimos, na sua opinião, a Alemanha aplicava considerável montante de capital no Brasil, tinha interesse em manter boas relações com o país; Syrkis avalia que o perfil humanista e social-democrata do líder alemão Brandt seria também um dado importante a considerar. Assim, esses dois fatores, certamente, pesariam para que os alemães pressionassem o governo militar brasileiro para se comprometer a resgatar o embaixador vivo.
E também como foi visto o seqüestro se justificava,
“sobretudo, para libertar os nossos presos. Essa era a grande prioridade.”203
“Ele [Juvenal] explicou que faríamos uma ação de troca de prisioneiros. Um peixão por 50 presos. Outra semelhante seria levada a cabo no sul do país. Íamos pedir 100 ao todo. Arrancar 100 companheiros dos cárceres e das salas de tortura. Os olhos de Juvenal brilhavam de satisfação.”204
O seqüestro era também uma forma de vingar companheiros mortos:
“-Vamos juntar tudo e formar um só comando Juarez de Brito, com esse nome vai dar o que falar. É a única forma de vingar o
202 Ibidem. p. 115. 203 Ibidem. p. 146. 204
Juvenal. O professor, velho de guerra. Seguir com a sua luta. Tirar os presos da cadeia.”205
Com o seqüestro, havia a possibilidade real de resgatar companheiros que estavam sendo torturados barbaramente, salvar-lhes a vida e impedir que, sob tortura, abrissem informações vitais relativas à organização. Os valores da amizade, da vida e da fidelidade à organização estão expressos no texto.
“Isso era mais urgente. Alguns ainda retinham informações vitais que podiam levar a novas quedas em áreas de simpatizantes e outros esquemas ainda intatos como o milhão e tanto de dólares do cofre do Adhemar. Com a morte de Juvenal perdemos o contato com a grana. Alguns companheiros já estavam quase mortos, depois de quase um mês de torturas ininterruptas. Mesmo sobre os presos mais antigos pesavam ameaças terríveis. Constantemente eram requisicionados para novas torturas.
Por outro lado sabíamos que estavam sendo acondicionados, no interior do Estado de São Paulo e do Estado do Rio, sítios especiais, distantes do mundo, para a lenta eliminação de seres humanos. Não mais a tortura “comum”, pau de arara, choque, afogamento e porrada. Coisas gênero arrancar olho, cortar orelha, castrar, fazer morrer devagarinho.
Era preciso agir rápido e seguro. Deixar balanços históricos prá depois.”206
Esses são argumentos decisivos para Syrkis. Diante da possibilidade de resgatar companheiros ameaçados de morte sob tortura, as dúvidas em relação à oportunidade histórica das ações de guerrilha se dissipavam. A vontade pessoal de tirar passaporte e deixar o país ficava para ser realizada depois: “Ainda havia possibilidade de lutar, de fazer alguma coisa. Valia a pena trocar o passaporte pelos nossos companheiros
205
Refere-se à fundação da Unidade de Combate Juarez Guimarães de Brito, “sociólogo mineiro, militante veterano de antes de 1964. Ativista nas Ligas Camponesas, intelectual da Polop, depois fundador da COLINA.” Ibidem. p. 162.
206
presos”.207 A solidariedade do militante supera o desejo individual da liberdade.
Nesse texto relativo ao dia do seqüestro, constato que Syrkis encontra na liberdade dos companheiros a motivação para participar da ação:
“É hoje, de qualquer maneira. Ou vai ou racha. Hoje de qualquer maneira. A excitação e o medo misturavam-se sob o meu nervosismo controlado. Pensava nos companheiros presos e me sentia cem por cento decidido.”208
Logo após instalar Von Holleben no quarto, Syrkis estabelece com ele um diálogo, e novamente fica explícito o objetivo de salvar os presos políticos: “Logo vamos lhe explicar quais são as nossas exigências. Tudo depende da ditadura brasileira, estamos seguros que vão
soltar os prisioneiros, como nos dois casos precedentes.”209
As exigências feitas pelos guerrilheiros eram a liberdade de quarenta presos políticos e a publicação do manifesto. A narrativa explicita que o método usado, o seqüestro, apesar de violento, era a única forma que tinham de se contrapor à violência da ditadura e salvar os companheiros ameaçados pela tortura.
“Olha, nós não gostamos deste tipo de método, mas, é o único jeito de salvar nossos presos políticos... o senhor sabe muito bem que estão sofrendo toda espécie de tortura, alguns deles vão ser assassinados. É a única maneira de salvá-los.”210
A narrativa demarca a diferença no trato dos prisioneiros. A ditadura agride, mutila e comete assassinato. A guerrilha busca tratar com dignidade seus prisioneiros.
207
Ibidem. p. 164.
208 Ibidem. p. 167.
209 Alusão aos seqüestros do embaixador americano e do embaixador do Japão. Ibidem. p. 175. 210
A ação de seqüestro é movida por muitos interesses políticos: o de vingar a morte de companheiros, as ações do imperialismo que explora e financia golpes no continente latino; o interesse em resgatar companheiros - presos políticos - impedindo que sob tortura transmitissem aos órgãos repressivos informações sobre a vida das organizações. Esses interesses fundamentam os argumentos políticos da esquerda, quando justifica a tática de seqüestro.
Somada à justificativa política situo outra de natureza ético- moral - o valor da fidelidade à organização, da amizade e da defesa da vida de quem, na prisão, tinha a vida ameaçada pela tortura. Esses valores explicam as expressões de Syrkis: “valia a pena trocar o passaporte pelos nossos companheiros presos”, “alguém tinha de seguir na luta”, “dar exemplo”, os balanços históricos ficariam para depois.
São os valores da amizade, da liberdade e da defesa da vida, somados ao compromisso político com a luta revolucionária, que nutrem a decisão de Syrkis nessa situação-limite: “Pensava nos companheiros presos e me sentia cem por cento decidido”.
Na justificativa do seqüestro do embaixador alemão encontro sinais da aprendizagem de valores de natureza política e ético- moral próprios da autonomia.