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Os questionários foram elaborados com o propósito de facilitar a caracterização dos sujeitos. Traziam questões fechadas sobre sexo, grau de escolaridade dos pais, origem regional, formação escolar e renda. Além dessas, encontravam-se algumas perguntas abertas sobre classificação racial e de cor e a respeito dos motivos pessoais e/ou profissionais que suscitaram a freqüência ao curso.

Como havia proposto fazer entrevistas com professores autoclassificados negros e brancos, foi necessário solicitar a classificação racial dos participantes do curso. Para tanto, elaborei três perguntas, duas abertas, nas quais os sujeitos puderam se classificar livremente de acordo com a percepção que tinham de sua cor e de sua raça, e outra direcionada, considerando as categorias utilizadas pelo IBGE. O objetivo da pergunta aberta foi confrontar as categorias de coleta de dados usadas pelo IBGE às categorias utilizadas pelos sujeitos para se autoclassificarem.

A opção pelas duas perguntas refletiu também o respeito à construção que os sujeitos da pesquisa faziam de sua pertença racial, porém, sem perder de vista as categorias de classificação racial que têm sido amplamente usadas por pesquisadores brasileiros, possibilitando, desse modo, o diálogo entre a pesquisa proposta e outros estudos já realizados. Essa opção, no entanto, nem sempre foi interpretada como sinal de respeito à classificação dos sujeitos. O simples fato de perguntar a raça e a cor dos participantes suscitou críticas diretas e indiretas à pergunta por parte de alguns respondentes. Numa delas, uma das participantes se classificou como negra nos itens raça e cor, nas perguntas abertas, assinalando a categoria parda, na pergunta fechada, escrevendo ao lado: “já que não há outra opção”, demonstrando seu descontentamento em se autoatribuir uma cor, e marcando seu pertencimento em bases raciais por meio do uso da expressão negro.

Como é possível constatar nos questionários anexados (anexo B), as questões abertas sobre raça foram dispostas logo no início do material, e a questão fechada estava no final, em páginas diferentes, de modo que as categorias de classificação múltipla usadas pelo IBGE não influenciassem diretamente a escolha dos respondentes e possibilitassem a eles mesmos confrontarem suas escolhas às categorias fechadas. Esse recurso evidenciou, como se verá

adiante, a coincidência, na quase totalidade dos casos, entre as categorias oficiais de classificação racial e as escolhas individuais.

A seleção dos entrevistados se fez mediante uma primeira análise dos questionários visando à sua diversificação racial e sexual. Além disso, procurei priorizar aquelas pessoas com as quais havia estabelecido contato anterior nos intervalos do curso. Com a desistência de um dos professores anteriormente escolhidos para participarem da etapa seguinte da pesquisa, a escolha de Sara, com quem não havia tido contato direto durante as aulas observadas, se deu mediante indicação de uma amiga que freqüentara o curso em questão

Quadro 2.1 Dados socioeconômicos

Idade Cor

autoatribuída/ IBGE

Naturalidade Escolarização dos pais Formação superior

Renda mensal

mãe Pai

Cláudio 42 Negra/preta SP E.M E.F. Pedagogia e

Educação Física/ Mestrado em

Educação

+ 7 S.M.

Carolina 35 Negra/preta SP E.F. E.F. História Entre 3 e 4

S.M.

Laura Preta/ preta SP 1º ciclo do E.F 1º ciclo do E.F Pedagogia X

Roberto 42 Negra/preta BA 1º ciclo do E.F. 1º ciclo do E.F Graduação e Mestrado em Filosofia

Entre 3 e 4 S.M.

Sandra 37 Parda/preta SP 1º ciclo do E.F. 1º ciclo do E.F Pedagogia e História

+ 7 S.M

Samuel 48 Branca/branca SP 1º ciclo do E.F E.F História Entre 4 e 5 S.M

Vitória 60 Branca/branca SP 1ºciclo do E.F 1º ciclo do E.F História + 7 S.M

Marcio 43 Branca/branca SP 1º ciclo do E.F 1º ciclo do E.F História X

André 32 Branca/ X BA Alfabetizado Alfabetizado História Entre 3 e 4 S.M.

Sara X /parda PE 1º ciclo do E.F Não sabia informar Ciências Sociais X Siglas: E.F – Ensino Fundamental

E.M – Ensino Médio S.M – Salário Mínimo

Como é possível verificar, sete dos dez entrevistados eram originários do Estado de São Paulo: Márcio, Sandra, Samuel, Laura, Carolina, Cláudio e Vitória. Entre estes, Carolina mudou-se para a Bahia e foi criada por seu avô e avó maternos até a juventude, quando iniciou uma trajetória de diferentes migrações entre as regiões Centro-oeste, Sudeste e Nordeste. Outros três nasceram e viveram sua infância na região Nordeste, mais especificamente em Pernambuco – Sara – e na Bahia – Roberto e André.

Todos os professores haviam completado o ensino superior, sendo que dois deles, Sandra e Cláudio, eram graduados em dois cursos, dados que indicam mobilidade ascendente em relação à família de origem, ao menos no que diz respeito à escolaridade, uma vez que todos eram provenientes de famílias pouco escolarizadas.

Chama atenção também a proximidade entre as idades de mulheres negras, todas variando entre 34 e 37 anos. Homens, brancos e negros, também apresentavam idades próximas entre 42 e 48 anos. Com exceção de André, que à época da entrevista estava com 32 anos, e Vitória, com 60 anos, a única mulher branca, os entrevistados estavam divididos em dois grupos etários, o que possivelmente marcou algumas semelhanças nos depoimentos, principalmente em relação à seletividade para o ingresso e permanência na escola, relatados por homens negros e brancos.

Três docentes declararam receber mais de sete salários mínimos. Vitória e Sandra esclareceram que se tratava da soma de duas rendas: no caso da primeira, a aposentadoria e o salário como professora da rede estadual e, no de Sandra, remunerações relativas tanto ao trabalho como vendedora interna numa empresa de médio porte quanto ao exercício da docência em escola municipal. Cláudio também era professor em dois cargos públicos. Os demais possuíam remuneração entre três e quatro salários mínimos – Carolina e Roberto – e quatro e cinco salários mínimos – André e Samuel. Saliente-se que como os questionários não traziam questões a respeito da renda familiar per capta, condições de moradia ou acesso a serviços sociais etc., não há como detalhar melhor sua situação socioeconômica. As informações sobre esse aspecto serão tratadas na segunda parte do estudo e basearam-se nas entrevistas.

Utilizei a cor autoatribuída nos questionários para selecionar um grupo heterogêneo em termos raciais para participar da entrevista, considerando negros aqueles que se declararam negros, pretos ou pardos e brancos aqueles que assim se declararam na parte fechada do questionário. Entretanto, a classificação racial não se manteve a mesma para

alguns sujeitos ao longo do processo de pesquisa e essas classificações serão mais bem discutidas no capítulo três.

Benzer Belgeler