2.2. Türkiye'de Kömür
2.2.1. Kömürün Türkiye'de Bulunuş Şekilleri
A qualificação do interesse público como interesse do Estado e da sociedade na observância da ordem jurídica estabelecida, portanto como conceito correlato ao de juridicidade344, nos moldes sustentados pelo Professor Celso Antônio Bandeira de Mello345, conduz, ainda, à sua dissociação dos múltiplos interesses atribuídos pelos intérpretes (aplicadores) à coletividade. Em sua crítica à supremacia do interesse público sobre o privado, Alexandre Santos de Aragão supõe a heterogeneidade do interesse público, referindo-se, a propósito, à existência de múltiplos interesses públicos, como, por exemplo, a “preservação da saúde, maior liberdade de expressão, garantia dos melhores meios possíveis de sustentação dos órgãos de imprensa, facilitação dos fluxos comerciais, combate ao déficit público, melhoria e ampliação dos serviços públicos, etc.”346.
Quanto a esse particular Aragão reporta-se aos magistérios de Odete Medauar e Conrado Hübner Mendes. Medauar leciona que “a uma concepção de homogeneidade do interesse público, segue-se [...] uma situação de heterogeneidade”, e que “de uma idéia de unicidade, passou-se à concreta existência de multiplicidade de interesses públicos”347. Essa professora paulista denuncia a “impossibilidade de rigidez na prefixação do interesse público, sobretudo pela relatividade de todo padrão de comparação”, e refere à “indeterminação e dificuldade de definição do interesse público”, bem como à “sua difícil e incerta avaliação e hierarquização”, que reflete, em sua opinião, numa “crise na sua própria objetividade”348. Mendes, por sua vez, critica a retórica do interesse público, e refere à “existência de uma
343 LIMA, Rui Cirne. Princípios de direito administrativo. 6ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1987. p. 22. 344 Vide Tópico 2.1.4 deste capítulo.
345 Cfr.: MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo, cit., p. 72.
346 ARAGÃO, Alexandre Santos de. A “Supremacia do Interesse Público” no Advento do Estado de Direito e na
Hermenêutica do Direito Público Contemporâneo, cit., p. 06-07.
347 MEDAUAR, Odete. O Direito Administrativo em evolução, cit., p. 181. 348 Ibidem, p. 181-182.
multiplicidade de interesses públicos”, que impediria, nessa perspectiva, a identificação de um interesse público universal, ou essencial349.
Sob esse ponto de vista, o interesse público, concebido de forma heterogênea, ou múltipla, deveria ser tomado, então, não como um conceito unívoco, mas como representação dos múltiplos interesses atribuídos à sociedade, que reproduzem, em hipótese, o que se convencionou chamar interesse geral, ou bem comum. Ocorre que semelhante compreensão do instituto apenas em aparência se compatibiliza com posicionamento doutrinário que procura relacionar o interesse público ao interesse geral, ou ao bem comum. Para explicitá-lo, tomo por referência a doutrina do professor espanhol José Luis Meilán Gil, que no seu “El processo de la definición del derecho administrativo”350 propôs “um conceito de Direito Administrativo radicado na idéia de interesses coletivos, como forma de ressaltar a sujeição estatal aos anseios da coletividade”, como recobram Romeu Felipe Bacellar Filho e Daniel Wunder Hachem351.
Meilán Gil leciona, em trabalho mais recente, que o poder público é exercitado com vistas à realização do bem comum352. Mas observa, na seqüência, explicitando-lhe conceito, que esse interesse corresponde, conforme a época em que se lhe investiga o conteúdo, ao bem viver dos membros da sociedade política, a que referem Aristóteles e Tomás de Aquino, à felicidade dos súditos e ao seu bem-estar, destacados no período do iluminismo e do despotismo ilustrado, ao reconhecimento dos direitos individuais dos cidadãos, tal como preconizado no contexto da Revolução Francesa, à preservação da ordem pública, a que refere a concepção liberal-burguesa e, enfim, à garantia dos direitos humanos fundamentais, dos serviços essenciais e da qualidade de vida, postulados pelo constitucionalismo contemporâneo353-354. Assim, conforme Meilán Gil, o bem comum é
349 MENDES, Conrado Hübner. Reforma do Estado e Agências Reguladoras. In: SUNDFELD, Carlos Ari
(Coord.). Direito Administrativo Econômico. São Paulo: Malheiros, 2000. p. 104.
350 GIL, José Luis Meilán. El processo de la definición del derecho administrativo. Madrid: Escuela Nacional de
Administración Pública, 1967.
351 BACELLAR FILHO, Romeu Felipe; HACHEM, Daniel Wunder. Apresentação. In: BACELLAR FILHO,
Romeu Felipe; HACHEM, Daniel Wunder. (Coord.). Direito administrativo e interesse público: estudos em homenagem ao Professor Celso Antônio Bandeira de Mello. Belo Horizonte: Fórum, 2010. p. 15.
352 GIL, José Luis Meilán. Interesses generales e interés público desde la perspectiva de derecho público español.
In: BACELLAR FILHO, Romeu Felipe; HACHEM, Daniel Wunder (Coord.). Direito administrativo e interesse público: estudos em homenagem ao Professor Celso Antônio Bandeira de Mello. Belo Horizonte: Fórum, 2010. p. 68.
realizado, contemporaneamente, mediante a concretização, pelo Parlamento e pela Administração, dos direitos fundamentais expressos na Constituição355-356; isto é, em moldes bastante semelhantes àqueles sustentados por Bandeira de Mello quando qualificou o interesse público como interesse do Estado e da sociedade na observância da ordem jurídica estabelecida357, portanto como conceito correlato ao de juridicidade.
Nessa perspectiva, o interesse público, assim como o interesse geral e o bem comum, não correspondem aos múltiplos interesses atribuídos pelos intérpretes (aplicadores) à coletividade. Esses interesses somente assumem a conotação do interesse público na medida em que vierem a ser incorporados pelo ordenamento jurídico-positivo; o que vincula a Administração Pública e seus agentes à sua realização, dada a incidência do princípio da legalidade estrita.
Não se nega que, em outro plano, esses múltiplos interesses atribuídos à coletividade possam orientar a produção legislativa, que é efetivada no âmbito do Parlamento. Essa atividade, entretanto, é externa ao objeto de análise dos juristas, que delimita o campo de incidência da Ciência do Direito. Cumpre aos juristas a descrição das normas que compõem o ordenamento jurídico-positivo (acepção mais estrita, fundada na teoria pura de Kelsen358) ou,
354 Ipsis literis: “[...] el ejercicio del poder público se justifica por y para la procura del bien común, el vivere
bene de los miembros de la sociedad política en expresiones clásicas de Aristóteles e Tomás de Aquino, la felicidad de los súbditos y el bienestar en la época y la ilustración y el despotismo ilustrado, el reconocimiento de derechos individuales de los ciudadanos en la onda de la Revolución francesa y la conservación del orden público en la Concepción liberal-burguesa, en garantizar los derechos fundamentales de la persona, servicios esenciales y la calidad de vida en el constitucionalismo contemporáneo” (GIL, José Luis Meilán. Interesses Generales e Interés Público desde la Perspectiva de Derecho Público Español, cit., p. 68).
355 Ibidem, p. 75.
356 Ipsis literis: “[…] interés general se realiza primariamente en la Constitución de un modo directo por lo que
se refiere a los derechos fundamentales o habilitando al Parlamento o al gobierno para que actúe de acuerdo con él en los supuestos previstos” (Ibidem, p. 75).
357 Cfr.: MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo, cit., p. 72.
358 Como assentei alhures: “A ciência jurídica, campo da atuação do jurista, tem por objeto de análise as normas
jurídicas que compõem o ordenamento (Direito). As normas são editadas, como regra, pelo Parlamento, e qualificam-se como proposições prescritivas, porque prescrevem comandos que devem ser obedecidos pelos seus destinatários. Analisando-as, o jurista enuncia proposições descritivas, por meio das quais procura descrever o Direito, criando um sistema. [...] Sob certa ótica, o jurista não deve descrever o modo como se dá a aplicação do Direito (decidibilidade). Hans Kelsen, em sua “Teoria Pura do Direito”, pretendeu purificar a ciência jurídica, quando procurou traçar-lhe um objeto próprio, e também encontrar uma metodologia própria para a atividade do jurista. Para Kelsen, o jurista só pode estudar normas editadas por autoridades consideradas competentes por norma superior, segundo o procedimento estabelecido por norma superior. Nesse contexto, o jurista pode analisar fatos e situações, mas apenas quando condicionantes do conteúdo de normas, ou seja, cumpre-lhe analisar tão-somente fatos e condições de condutas humanas enquanto conteúdo de normas. Sendo assim, em Kelsen, o jurista não pode discorrer sobre o modo como o direito deve ser aplicado. Nessa acepção teórica, a ciência jurídica tem por função a descrição de normas, mediante a formulação de proposições. O
em sentido mais amplo, do modo como o Direito se realiza no campo da sua aplicação (acepção mais ampla, que integra a decidibilidade a essa atividade descritiva desenvolvida pelos juristas359). Mas não lhes toca, certamente, nem mesmo sob essa compreensão mais elastecida acerca da conformação do campo objetal da Ciência Jurídica, discorrer, em um trabalho científico, sobre as condicionantes sociais que conduzem ao fenômeno da produção legislativa, afeitas ao campo da sociologia jurídica. Posto isso, é imprópria a afirmação, no plano da Ciência, de que o interesse público corresponderia aos múltiplos interesses atribuídos à coletividade.