KAMU ÖZEL İŞBİRLİĞİ YÖNTEMİ İLE FİNANSE EDİLEN PROJELERDE KARŞILAŞILABİLECEK RİSKLER VE RİSK PAYLAŞIM
2.2. Kamu Özel İşbirliği Yöntemi ile Finanse Edilen Projelerde Karşılaşılabilecek Risklerin Analizi ve Paylaşımı
2.2.2. KÖİ Yönteminde Risklerin Analizi ve Paylaşımı
A trilogia “trabalho, educação e sufrágio” foi o grande trunfo em que se apoiaram as militantes de todas as vertentes do movimento feminista no Brasil. A razão de tal amplitude nos seus interesses estava contida na certeza de que havia um encadeamento de difícil ruptura entre essas três questões. Já que acreditavam piamente na sentença que expedia a ideia de que, sem a conquista pela mulher da independência econômica, possibilitada apenas por meio do acesso mais igualitário à educação, dificilmente as conquistas em âmbito político surtiriam efeitos duradouros. Essa interdependência de fatores fez com que “não apenas os direitos políticos mas também questões de educação, trabalho, saúde e status civil [ocupassem pontualmente as preocupações] das sufragistas brasileiras”.221 Elas passaram, então, a se concentrarem em fazer valer mudanças que alterassem efetivamente as relações desiguais que regiam, particularmente, esses três domínios da sua vida pública.
No caso das convicções defendidas pelas feministas capixabas, a compreensão da existência de tal entrelaçamento não foi menos verdadeira. De fato, muitas delas concordavam que, “sem acesso à educação e ao trabalho, os direitos políticos permaneceriam meras abstrações”.222 Guilly Furtado Bandeira, por exemplo, foi uma das colaboradoras da Vida Capichaba que se ocupou em enfatizar que a emancipação da mulher não poderia partir de outra fonte senão “pela instrucção, pela educação e pelo trabalho”.223
Fortemente inspiradas por essa evidência, há que se questionar quais eram as possíveis dificuldades enfrentadas pelas mulheres capixabas, dentro dos limites locais, para conseguir
221 HAHNER, 1981. p. 122. 222 Idem. p. 122.
finalmente desalojar dos discursos as muitas metas que, na prática, lhes serviriam para sustentar seus papéis de cidadãs e profissionais. E esses obstáculos só podem se tornar conhecidos uma vez descortinado o cenário que regulava o acesso das mulheres ao mundo do trabalho, da educação e da política, ao menos nos limites da capital do Espírito Santo.
Mulheres capixabas em busca de uma profissão
Nas primeiras décadas do século XX, o cenário que se desenhava às vistas da sociedade capixaba com relação às oportunidades de trabalho oferecidas às mulheres era bastante desolador. Nesse período, as atividades profissionais a elas permitidas estavam abreviadas a ocupações de baixa remuneração e de pouco prestígio. Situação agravada pelas próprias proporções adquiridas pelo mercado de trabalho local, que oferecia chances mínimas de empregabilidade, devido, primordialmente, a pouca diversificação do setor econômico. Com uma estrutura ocupacional tão reduzida e precária, às mulheres restavam poucas opções, mais ainda às mulheres das camadas privilegiadas, as quais se deparavam com minguadas possibilidades de incorporação satisfatória no sistema de trabalho formal.
Pouco a pouco, com o engatinhar do processo de modernização da estrutura urbana e econômica do Espírito Santo, as mulheres foram se ajustando aos novos padrões de emprego que emergiam de forma relativamente sincronizada com a expansão do setor de serviços que, além de lenta, concentrava-se especialmente na capital. Ali, onde antes praticamente inexistiam ofertas de trabalho prontas a serem preenchidas por uma mulher, agora era possível ao menos concorrer a uma das vagas que se abriam com a multiplicação dos escritórios, das repartições públicas, dos bancos e do comércio.
É certo que tais funções exigiam – mais do que as de costureiras, operárias e domésticas – um maior nível de instrução, o que automaticamente restringia o número e a origem social das mulheres aptas a ingressarem em tais atividades. Tal requisito barrava igualmente as mulheres dotadas de educação superior, capacitadas para ocuparem cargos mais altos com remunerações proporcionalmente maiores. Ficava bastante claro, portanto, que as novas tarefas burocráticas se destinavam objetivamente às moças pertencentes às camadas médias e
às classes baixas ascendentes da população,224 que dariam preferência, mesmo cedendo a míseros salários, ao emprego como balconistas, datilógrafas, telefonistas ao invés de se encerrarem no exercício de funções tão subalternas quanto mais desprestigiadas.
Forçava-se, com isso, um novo mercado de trabalho feminino que também previa o aparecimento de várias mulheres à frente dos seus próprios negócios, como proprietárias de casas comerciais e de ateliers de costura, todas elas exercendo, ao mesmo tempo, a função de empregadoras. Desse modo, Vitória, cercada por todas as limitações de uma província que deseja progredir, assistiu a uma abertura tímida, não obstante expressiva para uma sociedade que até então tinha como situação predominante a ideia de que o trabalho assalariado era um benefício de uso exclusivamente masculino.
As vantagens advindas dessa acanhada dilatação da participação feminina no mercado de trabalho capixaba, de 1920 para 1930, atingiam especialmente as mulheres que viviam no meio urbano, precisamente na capital. Tanto porque era nesse perímetro que se concentravam as maiores oportunidades de emprego, quanto porque era nesse espaço físico que elas poderiam aspirar possibilidades de ascensão econômica e social.
Apesar de todo o panorama definido para ilustrar a participação da mão-de-obra feminina no sistema de trabalho capixaba interessar, em qualquer das áreas de atuação, é particularmente importante destacar os espaços profissionais talhados por mulheres que construíram carreiras como médicas, advogadas, dentistas, enfermeiras, cientistas, farmacêuticas, e mulheres que se firmaram com igual dedicação nas letras e nas artes na capital do Estado. Em primeiro lugar, porque, embora fossem exceções, as capixabas que se tornaram profissionais bem-sucedidas compensavam o seu número reduzido desafiando os velhos estereótipos, ao oferecerem “modelos para maneiras radicalmente novas de ser mulher”.225 Em segundo lugar, porque saíram desses grupos as mulheres que deram os primeiros passos na direção de uma prática e de um discurso feminista no Espírito Santo, amparadas por suas posições privilegiadas econômica e intelectualmente.
Para se chegar a elas, no entanto, faz-se necessário apontar as características de todo esse setor intermediário que compunha o grosso do mercado de trabalho feminino da terceira década do século XX, retrocedendo um pouco no tempo para contextualizar as circunstâncias
224 BESSE, 1999. 225 Idem. p. 163.
que ajudaram a determinar os traços formadores da estrutura ocupacional encontrada nos anos 1920 e meados de 1930 em Vitória.
Se cabe aqui espreitar a história, não será muito difícil constatar a presença ininterrupta da mulher, no decorrer dos séculos, na força de trabalho brasileira. E pode-se julgar não ter sido diferente nas fímbrias da formação sócio-econômica capixaba.226
Apesar de ter se intensificado no século XIX, a participação das mulheres no mercado de trabalho, no Brasil, tem suas raízes no período colonial, quando “prover o próprio sustento e o de sua família parece ter sido o destino de muitas mulheres”.227 Assim, ao contrário do que rezava as normas sociais para o padrão de comportamento feminino dessa época, as mulheres, independente da posição ocupada no quadro econômico-social da colônia, assumiram posturas verdadeiramente ativas e determinantes dentro da família, dos negócios e das formas disponíveis de sobrevivência. O que ajuda a contrastar com o modelo de ociosidade e indolência que, por muito tempo, foi usado como fórmula segura para retratar a conduta feminina na sociedade patriarcal, desde o século XVI até o século XIX.
Contudo, nos primeiros séculos que marcaram a colonização, no Brasil, as mulheres estavam majoritariamente instaladas em ocupações informais. Quadro que não sofrerá alterações significativas, na segunda metade do século XIX, mas que apresentará sérios indícios de mudanças com a incorporação paulatina das mulheres na nascente força de trabalho assalariado, que se delineia a partir de importantes transformações na trajetória política e econômica brasileira. A esse respeito, Samara reforça que
No período de transição para o assalariamento, com a substituição paulatina da mão-de-obra escrava e o começo do processo de imigração, esse panorama [da mulher em ocupações informais e em tarefas complementares] não sofreu grandes modificações... Por outro lado, os avanços tecnológicos e o crescimento das cidades abriram poucas mas respeitáveis oportunidades de trabalho assalariado [para as mulheres]: como professoras e empregadas nos estabelecimentos comerciais, nos escritórios, na burocracia e nas fábricas.228
226 As ralas referências com respeito à participação feminina nas atividades econômicas, no século XIX, por
exemplo, no Espírito Santo, distinguem a influência das mulheres exercendo atividades como tecelãs, costureiras, fiandeiras, ceramistas, trabalhadoras de roçados, lavradoras, apicultoras, etc. Ver NOVAES, 1999.
227 SAMARA, Eni de Mesquita. “Mão-de-obra feminina, oportunidades e mercado de trabalho, no Brasil do
século XIX”. In. SAMARA, Eni de Mesquita (org.). As idéias e os números do gênero: Argentina, Brasil e Chile no século XIX. São Paulo: Hucitec, CEPHAL, 1997. p. 26.
Ainda assim, as mulheres continuavam exercendo atividades sempre menos rentáveis e menos lucrativas se comparadas às atividades aplicadas pela força de trabalho masculina. Isso se devia especialmente à forma segmentada, obedecendo principalmente a critérios de sexo,229 com que as ocupações eram desempenhadas, forçando a maioria das mulheres trabalhadoras a permanecerem nas chamadas ocupações femininas tradicionais. Essa situação se confirma mesmo sob a constatação de que essas atividades se desenrolavam no interior de um cenário bastante diversificado e dinâmico, que apontava para uma variedade considerável de ocupações possíveis de serem exercidas tanto no meio urbano quanto no meio rural.
E o que se verifica é que a segmentação por sexo na força de trabalho permaneceu como uma constante, ao longo de vários séculos, nos modos como foi utilizada a mão-de-obra feminina no mercado de trabalho brasileiro, chegando, ao início do século XX, sem amenizações expressivas nesse sentido. Acontece que algumas barreiras começaram a ser rompidas na medida em que mudanças socioeconômicas iam enfraquecendo as bases materiais do sistema patriarcal.230 Especialmente depois de 1870, novos parâmetros começaram a propiciar o surgimento de uma sociedade em transição, que gradativamente se adaptava aos avanços na economia, na vida política e na organização social do País.
O entrecortar de ferrovias, a chegada dos navios a vapor, o desenvolvimento do setor de comunicações, o aumento da demanda por uma cultura de exportação, a consequente acumulação de capital, a substituição gradual do trabalho escravo pela mão-de-obra livre, a expansão do mercado interno, o investimento na infraestrutura das cidades, o despontar de uma classe média ascendente, o surgimento das primeiras indústrias de consumo, tudo isso mais a ruína de algumas instituições políticas formais, como as que caíram juntamente com o governo monárquico, contribuiu para que o final do século XIX fosse marcado pelo afrouxamento das relações sociais patriarcais.231 Debilitado, esse modelo de relações sociais foi perdendo igualmente sua força no seio das relações familiares. Onde, tanto a perda da
229 Outros fatores também devem ser levados em conta ao se avaliar a participação da mão-de-obra feminina no
mercado de trabalho brasileiro, como os fatores idade, estado conjugal, etnia, classe e localização espacial (se exercida no campo ou na cidade), nos vários contextos regionais. Todos esses critérios encontram-se na análise de SAMARA, 1997.
230 BESSE, 1999. 231 Idem.
tutela dos pais sobre os filhos, que cada vez mais optavam por seguir carreiras urbanas, quanto a gradativa eliminação dos dotes232 refletiam e contribuíam para esse desgaste.
Outras transformações ocorridas na função e na organização do núcleo familiar, no decorrer do século XIX, apontavam na mesma medida para o esmorecimento do poder patriarcal. Dentre elas, o gradativo afastamento, principalmente das famílias urbanas, dos meios de produção que garantiam a sua sobrevivência, tendendo progressivamente a se tornarem apenas unidades de consumo.233 Essa perda gradual da função produtiva levou ao estabelecimento de uma relação de dependência cada vez maior das famílias com a produção industrial.
Outro elemento que vinha agregar mudanças na composição e nas funções assumidas pela família na nova sociedade perpassava o processo de ajustamento de um novo ideal de relações familiares. Assim, funcionando menos como um modelo de organização familiar do que como um dispositivo ideológico,234 o protótipo da família patriarcal, no início do século XX, cedeu lugar a um novo padrão de estrutura familiar, o qual também se desdobrava mais como uma norma do que uma fórmula de convivência doméstica praticada e difundida em amplitude.235 Comumente, o arranjo moderno de agrupamento familiar foi considerado como um típico produto do processo de industrialização e urbanização do mundo ocidental.236 Como um discurso, esse modelo previa a redução do núcleo da família ao casal e aos filhos, assumindo o homem o papel de único provedor e a mulher o papel de zeladora do lar. Por seu intermédio, a família deveria ser uma instituição higienizada, organicamente equilibrada, com papéis sociais de gênero cuidadosamente definidos. Esse conceito ideal, no entanto, fora forjado no
232 NAZZARI, Muriel. O desaparecimento do dote: mulheres, famílias e mudança social em São Paulo, Brasil,
1600-1900. Tradução de Lólio Lourenço de Oliveira. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
233 Idem.
234 LAGE, Lana. “Penitentes e Solicitantes: gênero, etnia e poder no Brasil colonial”. In. SILVA, Gilvan Ventura
da; NADER, Maria Beatriz; FRANCO, Sebastião Pimentel (orgs.). História, mulher e poder. Vitória: Edufes; PPGHIS, 2006.
235 Desde o passado colonial, esse primeiro modelo se impôs não tanto como uma estrutura familiar, posto nunca
ter deixado de coexistir com famílias nucleares menores, bem como com uniões consensuais ou com as famílias chefiadas por mulheres, mas principalmente como um modelo de relações de poder. Abordada nesse sentido, o modelo de família patriarcal, ao incluir a submissão feminina, nunca deixou de impregnar os valores das relações familiares, nem mesmo com a ascensão do novo modelo da família nuclear burguesa.
236 William Goode questiona a relação simplista traçada entre o surgimento da família conjugal moderna e a
industrialização. Segundo ele, ainda não foram apresentadas provas suficientes de que essa foi mesmo uma relação de causa e efeito. Embora não negue a interferência da industrialização na formação desse tipo familiar, o autor se aproxima de uma nova hipótese, que trabalha com o contra-efeito, assinalando que é possível destacar, igualmente, que a família conjugal interferiu objetivamente na manutenção e no funcionamento do sistema industrial, à medida que tornava os laços de parentesco mais elásticos, e se pautava na busca legítima do indivíduo pelas próprias conquistas, ‘independente’ da família. Para maiores apontamentos, ler GOODE, William. Revolução mundial e padrões de família. Trad. Leônidas Gontijo de Carvalho. São Paulo: USP, 1969.
interior de uma sociedade que vinha sofrendo modificações substanciais, as quais proporcionaram o aparecimento de novas oportunidades de atuação feminina no mundo público, ficando cada vez mais démodé infligir à mulher a privatização no lar.
Desse modo, ao tempo em que eram exaltados seus papéis de esposa, dona de casa e mãe de família, na direção contrária, as mulheres eram assediadas pelas exigências advindas da crescente urbanização, a qual solicitava “sua presença no espaço público das ruas, das praças, dos acontecimentos da vida social, dos teatros, cafés, [além de] sua participação ativa no mundo do trabalho”.237 Esse duplo investimento criava sérios conflitos. Por um lado, porque forçava a incompatibilidade entre as supostas atribuições naturais da mulher e as suas aspirações profissionais. Por outro, e paradoxalmente, porque insistia na adequabilidade do trabalho feminino às suas funções “naturais”. De fato, todo o problema se esgueirava pela dúvida de como conciliar a demanda por mão-de-obra feminina, intensificada com o desenvolvimento urbano-industrial, com a necessidade de se manter inalterados os deveres familiares milenarmente desempenhados pelas mulheres. Realmente, não era um problema passível de ser resolvido a curto prazo. Por isso, o uso do método paliativo de buscar setorizar a participação feminina no mercado de trabalho, restringindo seu ingresso a tarefas e a profissões “inadequadas”. Por consequência,
Considerações políticas, sociais e culturais exigiam que o emprego feminino não possibilitasse às mulheres deixar de lado seus papéis familiares nem destruísse os estereótipos que vinculavam a feminilidade à delicadeza, à virtude e ao altruísmo.238
E, de um modo geral, a participação feminina na força de trabalho definia-se exatamente como uma extensão de seus papéis domésticos, em qualquer dos ramos de emprego para o qual se dedicasse. Se operárias, eram admitidas principalmente nas fábricas de produtos de consumo não-duráveis como roupas, sapatos e alimentos. Se ingressantes como trabalhadoras numa posição de empregabilidade mediana como telefonistas, balconistas, secretárias, e mesmo como professoras primárias, outra capacidade não lhes era exigida além da que despendiam na rotina da casa (paciência, desvelo, abnegação). Em último caso, se profissionais de mais alto nível, como médicas, advogadas, dentistas, funcionárias públicas de
237 RAGO, Margareth. Do cabaré ao lar: a utopia da cidade disciplinar – Brasil 1890-1930. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1985. p. 62.
alto escalão, não escapavam a prescrição semelhante, que lhes exigia moralidade e senso aguçado de responsabilidade social no desempenho também dessas profissões.
Durante as primeiras décadas do século XX, uma situação análoga cercava o mercado de trabalho feminino capixaba. Sendo que, do ponto de vista regional, as mulheres se deparavam com um quadro ainda mais restrito de opções, já que, além de enfrentar as limitações impostas pela segregação feminina a certos tipos de atividades, sofriam com a baixa oferta de empregos que amortizavam as oportunidades tanto de homens quanto de mulheres de obterem rendimentos fixos mensais. Ainda assim, mudanças incipientes começavam a alterar a fisionomia do cenário dentro do qual a força de trabalho feminina capixaba se desenrolava. A exemplo do que ocorreu em outras localidades, o magistério primário foi uma das primeiras áreas abertas às mulheres espírito-santenses com o intuito de lhes proporcionar uma fonte de trabalho assalariado. Desde o século XIX, há apontamentos que registram a presença de mulheres no exercício dessa ocupação, não obstante elas só a tenham integrado de forma maciça nos anos iniciais do século XX.239
Despontando como uma das primeiras profissões revestidas de dignidade e de prestígio social, portanto, adequadas para as mulheres, o magistério primário se apresentou como uma alternativa de trabalho que atingia principalmente as moças das camadas intermediárias e altas da sociedade capixaba. Para se ter uma ideia do quanto o magistério se instituiu como uma opção viável e segura de acesso da mulher ao mundo da profissionalização, de todas as mulheres que participaram da revista Vida Capichaba exercendo o papel de intelectuais e literatas, todas foram escritoras e professoras, segundo Ribeiro.240 Em contrapartida, a admissão no magistério secundário era uma tarefa um tanto mais custosa, fosse para trabalhar, fosse para estudar, pois para essa etapa da vida na escola já não era tão interessante manter o argumento da atividade docente como um prolongamento das funções maternas e do lar.
239 “Na primeira metade do século XX, o magistério primário no Brasil sofreu um processo de feminização tanto
na frequência das Escolas Normais pelas moças como pela ocupação do magistério pelas mulheres” (ALMEIDA, Jane Soares de. Mulher e educação: a paixão pelo possível. São Paulo: UNESP, 1998. p. 65). Constatação inferida no trabalho de Almeida e que é testada por Franco no contexto regional, levando-o a corroborar a mesma assertiva, de que “no que tange à história da educação no Espírito Santo, a feminização do magistério ocorreu verdadeiramente a partir do século XX, com a política implementada pelos republicanos, quando efetivaram a expansão da oferta da escolarização do ensino primário. Isso não poderia ter ocorrido anteriormente, pois poucas eram as mulheres habilitadas para a função do magistério”. Para mais detalhes sobre esse tema, ler FRANCO, 2001.
Daí o afunilamento da participação feminina na força de trabalho recrutada para o magistério secundário, uma realidade que atingia não só o quadro da educação no Espírito Santo, como toda a extensão nacional. Dentro desse contexto, Maria Stella de Novaes, como uma das