• Sonuç bulunamadı

4.1. Aksaray Kenti Medreselerine Genel Bir Bakış

4.1.2. Köhne/Bedriye Medresesi

Conforme anunciado, a crônica não é “um reflexo exato do real”. Essa preocupação com a realidade do tempo presente, com a construção de um conhecimento eficaz para a solução dos problemas nacionais e com a idéia de verdade na discussão desses fatos marcou a atividade intelectual no Brasil, durante as primeiras décadas do século XX. Em escritos outros, que não de Lobato, esse compromisso com a idéia de “verdade” pode ser encontrado, tal como no caso do jornalista Pedro da Costa Rêgo, que buscava afirmar a veracidade de seus pontos de vista sobre os caminhos adotados pela Revolução de 1930 (SANDES, 2008: 43). De forma semelhante, essa preocupação com a verdade transparece também na obra de Barbosa Lima Sobrinho, cuja identificação é possível já no título de seu livro mais conhecido: A verdade sobre a Revolução de

Outubro (1933).

A presença dessa preocupação entre os cronistas é ainda mais perceptível devido ao fato de, transitando entre a literatura e o jornalismo, reconstruírem ludicamente os acontecimentos reais. Como aponta Sandra Pesavento (2004: 66), a crônica não pode ser vista como transparência, pois isso retiraria do ato da escrita todo o seu potencial criador. Diferente do conto, que está mais eminentemente ligado à ficção, a crônica tem como base um acontecimento real, mas que é ficcionalizado no processo de escrita (SÁ, 1985: 19). Mais uma vez, é preciso destacar que a designação do gênero “crônica” é extremamente genérica, contribuindo para sua característica de ambigüidade (SÁ, 1985: 28). Assim, não seria correto, nem é nosso objetivo, afirmar que o conto

esteja mais próximo da ficção, ao passo que a crônica se aproxima da realidade. Essas dicotomias não melhoram a explicação do gênero, que é mesmo complicada e híbrida. Destacamos, sim, que a crônica utiliza referências a “fatos reais”, mas seu caráter literário liga-se, também, à ficcionalização desses fatos e personagens, configurando assim sua característica de “recriação do real”.

Considerando o estatuto literário da crônica, não perdemos de vista a relação entre autor, texto e contexto. Apesar dos textos de Monteiro Lobato preservarem seu caráter de literatura, o autor discute questões que estavam postas para o público e interferiam no contexto social no qual ele próprio encontrava-se inserido. Como indicado por Luis Carlos Simon (2004: 55), o fato de a crônica ser escrita em jornal – como ocorre no caso de Mr. Slang e o Brasil - não faz com que o texto perca seu caráter literário. Mesmo referindo-se muitas vezes a fatos e a atores reais, os textos de Mr.

Slang e o Brasil também não perdem seu caráter ficcional. Ainda sim, mesmo lançando

mão de uma escrita ficcional, Lobato discute questões em pauta, quando escreve. . Em certa medida, o autor “ficcionaliza fatos reais” e, ao mesmo tempo, dá uma aparência de “realidade aos personagens fictícios”.

Essa aparência de realidade é percebida na caracterização de personagens como o brasileiro que dialoga com Mr. Slang, o caixeiro de venda que discute economia com o inglês ou a empregada da casa do personagem central dos textos. Dessa forma, Lobato abre a possibilidade do leitor se identificar com os personagens e inserir em seu cotidiano os debates propostos pelo autor. Já a ficcionalização da realidade transparece na referência a fatos e a atores conhecidos, ao longo dos textos. O autor constrói representações de forma a corroborar seus pontos de vista e as idéias que defende. Lançando mão de referências a fatos e pessoas conhecidas, ele constrói uma imagem da “realidade” e, junto com a construção, a ultrapassa e a surpreende, elaborando uma leitura sobre o país indicada por meio de seus personagens fictícios, estabelecendo assim a ligação entre os campos da Literatura e da História. Segundo Jorge de Sá (1985: 45):

Ludicamente, o cronista percorre a cidade. Ouve conversas, recolhe frases interessantes, observa as pessoas, registra situações – tudo através do olhar de quem brinca e, pelo jogo da brincadeira, reúne

forças para superar a realidade sufocante. É nesse contexto que o fato em si ganha mais importância que os personagens.

O trabalho do cronista tem inicio com a observação da realidade (utilizada como sinônimo das “circunstâncias de todo dia”). Contudo, essa realidade não é transposta como tal para a crônica. Ela é superada. É reinventada ou recriada para não se tornar sufocante para o leitor. No desenvolvimento desse processo, os personagens tornam-se suportes para que o autor discuta o tema proposto de uma forma mais amena. As características dos personagens corroboram para que o desenvolvimento do tema a ser discutido ocorra de forma “mais natural”, visando a que a aproximação entre o texto e o leitor seja feita “quase sem perceber”. Essa estratégia mistura os conhecimentos retirados de distintos campos, o da Literatura e o do Jornalismo, por exemplo. Lobato queria, ao mesmo tempo, convencer e provocar o debate. O convencimento não podia ser um a priori (como na imprensa do período), assim como a ficção não devia espantar (a ficção devia ser tomada a sério, essa era a defesa da literatura lobatiana). Ainda segundo Jorge de Sá (1985: 48), o cronista:

Não se limita a descrever o objeto que tem diante de si, mas o examina, penetra-o e o recria, buscando sua essência, pois o que interessa não é o real visto em função de valores consagrados. É preciso ir mais longe, romper as conceituações, buscar exatamente aquilo que caracteriza a poesia: a imagem.

Nesse sentido, o cronista se distancia do trabalho do jornalista. As questões a serem discutidas não são apenas descritas, mas recriadas a partir de um ponto de vista que o autor quer transmitir a seu público. Assim também, a construção imagética empreendida pelo autor ganha uma grande importância na formação da opinião de seu público leitor através da referência aos detalhes de uma cena e da recorrência ao uso de figuras de linguagens como a alegoria e a metáfora. O uso desses recursos lúdicos tem uma grande importância na obra de Monteiro Lobato. Exatamente como seus contos, suas crônicas são extremamente visuais. Esse é mais um fator que aponta para a ampliação das possibilidades de interpretação da “realidade” presente na escrita de crônicas e, em particular, nos textos de Mr. Slang e o Brasil. Essa possibilidade é

apontada por Lobato n‟A Barca de Gleyre, ao indicar um problema que podia ser verificado no uso desse recurso pelo escritor. Segundo o autor, “retratos por meio de palavras tem a propriedade de fazer imaginar feições às vezes opostas às descritas” (LOBATO, 1994: 89). Ao descrever um retrato, uma imagem, corre-se o risco de o interlocutor entender exatamente o oposto do que se quis passar.

Sob um ponto de vista diverso, Jorge de Sá aponta a importância da imagem na construção das crônicas a partir de um processo associativo de diferentes elementos na busca da “essência” dos seres e das coisas (SÁ, 1985: 66). Contudo, a indicação de Lobato já aponta como pode ser errônea essa concepção essencialista, pois, assim como a imagem é construída pelo autor no texto a partir de um processo de recriação da realidade, o leitor também desenvolve um processo de recriação ao reconstruir imaginativamente as cenas ilustradas pelo cronista.

Dessa forma, o cotidiano e a História são constantemente reinventados e reinterpretados por meio da crônica e de sua recepção pelo público. De acordo com Sandra Pesavento (2004: 79), a crônica é uma fonte exemplar, quase inesgotável, para o historiador que busca ver como os homens, ao longo de sua história, foram capazes de inventar o passado e imaginar o futuro, sempre para explicar o presente, rompendo assim as fronteiras do tempo. Admitindo essa perspectiva, temos em Mr. Slang e o

Brasil a possibilidade de interpretação de uma construção da História da República

brasileira. Esse encontro de temporalidades é perceptível nos textos de Monteiro Lobato, seja em suas referências ao passado monárquico e à República dos Conselheiros, seja na sua expectativa quanto ao futuro que se descortinava com a chegada de Washington Luis ao poder. Dessa forma, essas duas temporalidades – passado e futuro – são contrapostas ao presente ciclônico, representado pelo governo de Artur Bernardes, que chegava ao fim no momento em que o autor produzia seus textos17. Segundo Jorge de Sá (1985: 19), “a atmosfera política reafirma, assim, o valor sociológico da crônica na construção do painel de uma época”. É essa importância do tratamento das questões políticas que se encontra nos textos de Mr. Slang e o Brasil. A interpretação desse “momento histórico” presente na historiografia encontra nas

17 Esses períodos correspondem a uma divisão da história da República no Brasil, expressa nos textos de Mr. Slang e o Brasil. Essa interpretação da história da República proposta por Monteiro Lobato será atentamente discutida no terceiro capítulo deste trabalho.

crônicas de Lobato o seu avesso, pois os questionamentos que suscita permitem reinventar a República brasileira para além do marco da Revolução de 1930.

Benzer Belgeler