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Nessa categoria apresentamos as perspectivas dos sujeitos docentes visualizadas para o seu futuro na profissão em torno da realização e desenvolvimento tanto pessoal como profissional. Embora tenhamos percebido em seus relatos indicativos de ruptura com a

continuidade na profissão docente, temos evidências indicativas sobre o desejo manifesto de interesse sobre a continuidade na profissão e experimentação para melhor adaptação, conforme evidenciam: “Tenho interesse em me especializar principalmente com a Educação

Especial” S23; “Tenho vontade em continuar na docência [...] tenho dúvidas somente de que faixa etária eu prefiro” S28; “Não me decidi bem certo sobre que turmas “pegar”. Quero ainda fazer mais experiências com outras turmas para ir me descobrindo” S32.

Esses apontamentos sobre a continuidade na profissão são realçados quando destacam em seus depoimentos, indicações de motivação na profissão docente, quando explicitam o empenho dedicado à formação no momento atual, como melhor do que antes (formação na licenciatura) e na motivação de sequência com estudos de especializações, conforme verificamos em seus depoimentos: “Estou sempre procurando me atualizar, estou estudando

[...] Hoje sou mais empenhada do que antes” S28; “Pretendo continuar, fazer uma pós- graduação. Nunca pensei em desistir da área, de ser professora” S23; “Tenho interesse em me aprofundar na minha formação, me especializar e buscar um curso de mestrado, doutorado” S32.

Sobre a continuidade na profissão, parece ser primordial a necessidade de estabilidade profissional como objetivo para crescimento tanto no plano pessoal como no profissional, no sentido de possibilitar a realização de seus sonhos, conforme destacam: “Eu

vejo meu futuro profissional de forma positiva. No entanto, a estabilidade vai me dar mais tranquilidade para eu conseguir realizar meus objetivos [...]‖ S37; “Se nos próximos anos se não conseguir ter estabilidade no trabalho, é difícil continuar nessa profissão” S39; ―[...] quero conseguir passar num concurso para poder conseguir me planejar melhor, com mais tranquilidade [...] É uma segurança [...]‖ S28; “Estou me preparando para passar num concurso. Por enquanto não tenho segurança de trabalho [..] isso dificulta quando você quer adquirir alguma coisa [...]‖ S32; “Meu desejo agora é passar num concurso público, por que eu ainda sou contratada [...] também quero buscar um mestrado e o doutorado para atuar em outros níveis de ensino” S23.

Tão importante para o processo de desenvolvimento profissional e seu sucesso, para Formosinho (2009) é a escolha da profissão. Ao visualizarmos em sentido longitudinal dessa evolução, podemos destacar sua aderência construída a partir da fase pregressa em suas diversas vivências pessoais, formativas, assim como as profissionais, já na prática da atividade docente.

Nessa categoria, os docentes destacam as adversidades encontradas no contexto escolar e a instabilidade na profissão como demandas a serem superadas e almejam na

situação atual, sua necessária ascensão a um patamar de maior valorização social e perspectivas de aprimoramento de suas formações. Sobre a instabilidade profissional, observamos que o professor iniciante que não possui cargo estável, além de enfrentar todas as dificuldades que caracterizam o período inicial da docência, ainda precisa se preocupar com a instabilidade empregatícia e com a falta de continuidade no trabalho. Essa evidência constatada sugere o vínculo estável como elemento necessário para que o docente possa se reconhecer-se como profissional.

Nóvoa (2002) assinala que os professores atualmente vivem um grande momento de instabilidade profissional, convivendo com tensões ao lidarem com realidades locais e situações marcadas pelo fenômeno da exclusão, da agressividade e de conflito social. Conforme o autor, os professores vêm sendo tratados pela sociedade como profissionais de questionável qualidade, carregando o fardo de uma sociedade injusta, desigual. Aliado à precariedade material e humana das escolas e da sua própria qualificação enquanto docente, o profissional não mais recebe o respeito de outrora, passando a receber salários inferiores a outras categorias profissionais e se submetendo a jornadas de trabalho incompatível com as necessidades de aperfeiçoamento constante. Os problemas enfrentados pelo professor diante de uma realidade adversa, ao fazer cair por terra os ideais que nutriam em relação à profissão, aumentam ainda mais o investimento afetivo e cognitivo exigido no cotidiano de trabalho, agravando o seu sofrimento.

Essas constatações para Nóvoa (2002) reafirmam a situação de instabilidade do papel social, a crise de identidade, repercutindo inclusive na sua autoestima, fazendo com que o professor não encontre espaço de interação entre as dimensões profissionais e pessoais, fatores que dão sentido à sua atuação.

Na concepção do autor, a desvalorização progressiva atinge o docente como pessoa, e a própria formação não ajuda muito nesse sentido, na medida em que ―tem ignorado, sistematicamente, o desenvolvimento pessoal, confundindo ‗formar‘ com ‗formar-se‘, não compreendendo que a lógica da atividade educativa nem sempre coincide com as dinâmicas próprias da formação‖ (p.24). Ao enfatizar a inter-relação entre a pessoa do professor e a profissão docente, o autor destaca a formação do profissional como ser humano, em suas múltiplas dimensões. A valorização do professor nesse sentido, passa pela valorização pessoal e recuperação do seu papel social e da sua autonomia.

Quadro 20 - Síntese das respostas da categoria 4

Perspectivas de realização e desenvolvimento pessoal e profissional

Indicações

- Desejo manifesto de interesse sobre a continuidade na profissão;

- Experimentação para melhor adaptação;

- Ampliação de suas formações em sentido continuado; - Necessidade de estabilidade profissional;

Fonte: o autor (2014)

Tendo como embasamento os dados levantados das respostas dos sujeitos, licenciandos, professor formador e docentes em estágio inicial, conforme explicitado anteriormente nas análises, buscamos de Jesus (1996) seu estudo sobre as implicações motivacionais da formação educacional de professores onde o autor distingue quatro percursos motivacionais durante o estágio pedagógico, tendo em conta o projeto profissional inicial e as experiências profissionais. Assim, elaboramos uma adaptação para nosso estudo, o qual nos mostrou evidências muito convincentes sobre o processo de formação na Licenciatura, a transição para a vida docente e as possíveis consequências de mal/bem-estar docente para a carreira, conforme indicamos no quadro 21.

Se, na formação acadêmica, o potencial professor se apresenta desmotivado, com baixa autoimagem e autoestima, vivenciando situações de mal-estar no contexto formativo para exercer a profissão docente, não desejando ser professor, e se, na sua transição para vida docente vivenciar situações de má adaptação, insucessos, falta de apoio pedagógico e percepcionar falta de competência para lidar com estas situações, poderá continuar em situação de mal-estar na profissão docente. No entanto, se experienciar, sobretudo, boa adaptação, sucessos profissionais, apoio pedagógico e percepção de competência profissional, pode desenvolver uma maior motivação e sentimento de bem-estar para a profissão docente.

Por outro lado, o potencial professor pode, inicialmente, apresentar-se motivado, com autoimagem e autoestima positiva, vivenciando perspectivas de bem-estar para a profissão docente e, na transição para vida docente, obtiver boa adaptação, apoio pedagógico, vivenciar situações de sucessos e percepção de competência profissional em suas experiências iniciais, como consequência para carreira, poderá continuar motivado em vivência de bem-estar na vida profissional. No entanto, se vivenciar, sobretudo, má adaptação, insucessos e falta de apoio pedagógico para a profissão, pode ficar desmotivado, com baixa autoimagem e autoestima desejando abandonar a profissão docente, o que se traduz uma situação de mal- estar, podendo incidir, como consequência, para o resto da carreira docente. A seguir, o Quadro 21, procura sintetizar melhor as situações descritas.

Quadro 21 - Desenvolvimento de bem/mal-estar previstos nos professores em fase de socialização profissional decorrentes do processo de formação inicial em nível acadêmico e

início da docência FORMAÇÃO NA LICENCIATURA INÍCIO DA DOCÊNCIA CONSEQUÊNCIA NA VIDA DOCENTE Desmotivados AI e AE negativa/irreal

Elementos de Mal-estar discente

Má adaptação/ Insucessos/ Falta de apoio Mal-estar docente Desmotivados AI e AE negativa/irreal

Elementos de Mal-estar discente

Boa adaptação/ Sucessos/ Apoio pedagógico Bem-estar docente Motivados AI e AE positiva/real

Elementos de Bem-estar discente

Boa adaptação/ Sucessos/ Apoio docente Bem-estar docente Motivados AI e AE positiva/real

Elementos de Bem-estar discente

Má adaptação/ Insucessos/ Falta de apoio

Mal-estar docente

Fonte: o autor (2014), adaptado de Jesus (1996)

Benzer Belgeler