2. ÜLKE DENEYİMLERİ ÇERÇEVESİNDE ÜNİVERSİTELERİN
2.4. Ulusal Yenilik Sistemini Deneyimleyen Ülkeler ve Üniversiteleri
2.4.3. Japonya
mesmo que está fazendo tratamento de câncer chegou em mim e falou assim: faz os seus irmãos ajudarem você, não porque... eu não vou ajudar porque eu não posso, tá... (se emociona e faz uma pausa).” (Pedro)
Sua narrativa mostra a importância de abrir reflexões sobre a idealização construída socialmente em torno do eixo familiar. Nessa visão idealista a família é considerada responsável pelo suprimento de apoio e afetos infinitos. Em decorrência desta supervalorização, podemos construir a ilusão de que a família constitui, obrigatoriamente, a única possibilidade de inserção social da pessoa que experimenta o adoecimento mental (Melman, 2001).
Desta forma, outro desafio a ser transposto aqui se revela: os serviços de saúde, normalmente, compactuam com essa idealização social. Assim, no trabalho com as famílias, nem sempre consideram a singularidade de cada grupo familiar e nem a influência dos valores e representações, carregadas por cada grupo familiar, construídas acerca do adoecimento em determinado tempo histórico na dinâmica de funcionamento de cada grupo familiar (MELMAN, 2001). Assim, percebemos a necessidade dos serviços repensarem sua atuação, no sentido de construírem espaços de escuta verdadeira, em que as histórias vividas por cada família sejam consideradas.
O adoecimento mental representa no grupo familiar um evento imprevisto, impactante e desestruturante. Observamos que a maneira de lidar com esse impacto e seu desenvolvimento variam entre as famílias: Tereza, Beatriz e Jorge revelam a possibilidade de restabelecimento de vínculos. No entanto, para Pedro, resgatar vínculos familiares não tem sido possível. Portanto, a família não representa a única possibilidade de auto-organização, solicitando dos serviços um olhar atento e cuidadoso a esta questão.
6.3.2.3 Transformações no Eixo Trabalho
O trabalho é outro aspecto da vida dos indivíduos que é citado pelos participantes como um eixo em que transformações foram possíveis, significando
capacidade, equilíbrio, reencontro consigo mesmo, gerando sentido para a própria vida.
“Quando você está no equilíbrio que eu estou hoje, sim, eu posso, tanto é que eu estou trabalhando para mim hoje. (Lúcia)
“É, me reencontrei, me reencontrei com um Jorge que eu gostaria de ver há muito tempo antes, sabe... que levanta cedo, toma um gole de café, fala bom dia para a mãe, benção para a mãe e... vai para o serviço. Ter o meu horário....é uma coisa que gosto, uma coisa que eu gosto muito.” (Jorge)
O adoecimento mental acarreta rompimento com as rotinas de vida diária, onde a perda da capacidade de gerar sentido é experimentada pelos indivíduos no processo de adoecimento, sendo que perder a capacidade de trabalhar, é uma delas. (FERREIRA; PEREIRA, 2012).
Os transtornos mentais graves estão entre as doenças crônicas que acarretam maiores prejuízos sociais e limitações no trabalho. Concomitantemente são consideradas as que mais geram custos emocionais, sociais e financeiros aos familiares. De acordo com a Organização Mundial de Saúde os transtornos mentais graves ocupam a quinta posição entre as dez causas de incapacidades (Andreasen, 2005).
Jorge representa a grande maioria das pessoas que vivencia um transtorno mental grave. Desde seu primeiro surto, aos 16 anos de idade, não mais conseguiu se inserir no mercado de trabalho. Apesar disso, revela transformações importantes em sua vida em relação à categoria trabalho. Quando Jorge relata que, agora vai para o serviço, está se referindo à oficina de geração de renda da qual participa, mostrando que está inserido em um serviço que se preocupa além da inserção e da participação social, com a cidadania das pessoas. Desta maneira, apesar do acesso à vida produtiva ter sido um dos maiores desafios nos projetos de intervenção e reabilitação psicossocial, Jorge vivencia essa possibilidade.
Por outro lado, na vida de Pedro e Beatriz o contexto trabalho encontra-se fragilizado.
“Eu tenho lutado para isto. Eu vou para o salão, eu abro, eu mostro para a turma que eu estou, pelo menos, acreditando que eu vou vencer. Fui na casa do dono do meu salão e falei para ele, olha, eu não tenho dinheiro, mas eu estou esperando daqui uns quinze dias receber minha cartinha e ele falou, então até dezembro você pode ficar lá...” (Pedro)
“Às vezes saía fazer uma faxina. Mas por causa dos medicamentos, eu não tenho mais aquela disposição que eu tinha para fazer as coisas, assim. Eu consigo cuidar do meu filho, que agora eu me dedico... praticamente eu dedico a minha vida para ele. Então, eu não posso dizer assim, ah, estou trabalhando, estou fazendo uma atividade, não. A minha atividade do momento é cuidar da casa e cuidar do menino.” (Beatriz)
De acordo com Nicácio et al (2005) os desafios relativos à inclusão no mercado de trabalho para pessoas, que por diferentes razões, encontram-se em desvantagens incluem: as relações entre a pessoa e o trabalho, a produtividade capitalista, a produção de bens, os processos de desfiliação, o campo de direitos e as transformações contemporâneas nas relações de produção e no universo do trabalho.
Apesar disto, a necessidade de intervenções no eixo trabalho é importante para transformações na vida das pessoas. As intervenções no eixo trabalho contribuem para que as pessoas reassumam o controle da própria vida. Desta maneira, favorecem o processo de empoderamento, no sentido de oportunizar a elas reescreverem sua própria história.
Neste sentido, Lúcia sugere sua satisfação em relação a ter conquistado seu valor enquanto sujeito social, que se insere nas relações como alguém que existe, que tem seus próprios conceitos e desejos, um sujeito que faz escolhas.
“Eu estou vindo nos dias em que eu escolhi. Eu cheguei aqui e falei eu quero fazer isso e aquilo, né. Não falam para mim você tem que fazer isso ou aquilo. Eu hoje escolhi. Então, a lição que eu deixo nessas palavras, são, assim, hoje eu consigo falar não. E antes eu
não conseguia. Era sempre sim para tudo. Hoje eu já consigo, assim, falar eu não quero deste jeito, eu quero de tal jeito, né. (Lúcia)
Relembrando as narrativas de Lúcia e os registros em seus prontuários, vemos que nem sempre ela se inseriu na vida podendo fazer escolhas e dizer não. O processo de adoecimento foi marcado por sua dificuldade em assumir o papel de sujeito ativo e de fazer escolhas, em que Lúcia experimentava sentimentos de desvalorização, de não merecimento por viver e ser amada, de ser um peso para as outras pessoas, principalmente, seus familiares. O fracasso existencial, assim referido por Dalgalarrondo (2000), relativo a seu destino pessoal imperava em sua vida. Portanto, a condição de doente a expunha a limitações e situações que afetavam as relações pessoais, o trabalho e até mesmo, sua identidade. Diante disto, a iniciativa e as trocas sociais ficam afetadas, restritas, assim como a autonomia pessoal.
No entanto, Lúcia demonstra que esses desafios não a impediram de conseguir estabelecer um processo de auto-organização. Para tanto, foi essencial que ela se apropriasse de suas potencialidades e de seu próprio destino. Demonstra satisfação em assumir o papel de protagonista em relação à seu tratamento, inclusive, referente à terapia medicamentosa, quando consegue conversar com o médico sobre a diminuição das medicações prescritas.
“Então, assim, a partir do momento em que eu consegui, conversando com o Dr. G., a..., a redução da medicação, ele foi retirando gradativamente, até chegar na retirada total do medicamento e, assim, foi com outros, também, né. Eu cheguei a tomar dez comprimidos, no total geral diário, né. Hoje eu estou apenas com três comprimidos, sendo que um deles é o Omeprazol, que é para o estômago. Então, para falar a verdade eu estou tomando dois remédios que é o Diazepam e o êxodos, que é o Citalopram. Então, assim, diminuiu bastante, né?” (Lúcia)
Andrade e Vaistsman (2002) enfatizaram o conceito de empoderamento na prática dos serviços de saúde. Neste sentido, tal conceito é entendido como um processo que envolve um movimento por parte das pessoas para empregar uma
postura mais ativa no tratamento, discutindo e solicitando informações, ou seja, assumindo a responsabilidade por sua própria saúde.
Para tanto, é importante que os serviços adotem uma postura em que o tratamento seja construído por meio do envolvimento entre os profissionais, o paciente e sua família. Assim, a abordagem se desloca de uma postura paternalista para uma prática que valoriza a participação das pessoas como principais protagonistas no tratamento.
Verificamos que a autonomia é condição essencial para o indivíduo se apropriar de sua condição de realizar escolhas. Desta maneira, autonomia diria respeito à capacidade de gerar normas e ordens para a vida, diante da diversidade de situações a que se é exposto (KINOSHITA, 2001).
6.3.2.4 Sociabilidade e Lazer
O indivíduo sujeito da história é constituído de suas relações sociais, podendo ocupar, simultaneamente, o papel de ativo e passivo. O grau de atuação dos indivíduos como sujeito da história depende de sua autonomia e de sua iniciativa. Desta maneira, o indivíduo é história na medida em que se insere e se define nas relações sociais, desempenhando atividades transformadoras nestas relações (LANE, 1997).
Como já visto anteriormente, o adoecimento psíquico, pode produzir desabilidades que se manifestam por meio de perdas qualitativas e quantitativas, culminando no empobrecimento da rede social, ou seja, dos locais onde se é possível realizar as trocas. O fortalecimento em melhorar as trocas sociais é narrado pelos participantes, também, enquanto fator de contribuição para a reconstrução da vida.
“... aí eu praticamente me tornei um homem, mais ou menos, assim. Todos os lugares que eu passei, eu deixei amigos... as pessoas falam, assim, que eu sou uma luz, né, que eu sou uma luz, porque eu canto... eu dou risada, eu sou alegre, eu gosto de passar alegria para todo mundo, entendeu?” (Jorge)