4. KALKINMA BANKALARINDA DÖNÜŞÜM
4.2. Japonya’da Kalkınma Bankacılığı: 1980 Öncesi ve Sonrası
Mesmo com a derrota da emenda do deputado Dante de Oliveira em abril de 1984, aumentou a pressão na sociedade para a convocação da Assembleia Nacional Constituinte (ANC). Os diversos grupos sociais e partidos da ala progressista reivindicavam uma nova Constituição, que substituiria aquela de 1967. O Congresso Constituinte seria formado pelos deputados e senadores eleitos em 1986, além dos outros 26 senadores das eleições de 1982. A Assembleia Nacional Constituinte foi instalada em 1º de fevereiro de 1987, composta de 561 congressistas constituintes. “Apenas o PMDB e o PFL que constituíram uma Aliança Democrática somavam juntos 378 deputados” (REIS, 2014, p. 149). As atividades da ANC duraram dezoito meses.
Os mais variados grupos sociais e religiosos puderam se fazer representar na Assembleia, muito embora o predomínio tenha sido das tendências conservadoras. As “emendas populares” foi um dispositivo usado para que a voz do povo se fizesse ouvir entre os congressistas constituintes. Cada emenda popular precisava ter no mínimo 30 mil assinaturas, de modo que centenas delas chegaram ao Congresso. Desse modo, houve significativa presença popular nos trabalhos e por isso a Carta Magna foi chamada de Constituição Cidadã.
O então presidente Sarney constituiu a partir do Decreto nº 91.450/85, de 18 de julho de 1985, uma comissão provisória para trabalhar num anteprojeto da Constituição. O grupo recebeu o nome de Comissão Arinos, pois tinha como presidente o jurista e ex-deputado federal Afonso Arinos de Melo Franco. Também integraram a “comissão de notáveis” nomes como o empresário Antônio Ermírio de Moraes, o escritor Jorge Amado, o sociólogo Gilberto Freire, o professor Cristovam Buarque e o pastor presbiteriano Guilhermino Cunha. O número total de integrantes foi de 50 pessoas. A referida comissão trabalhou por meses no anteprojeto, porém o presidente José Sarney não o enviou ao Congresso, pois Ulysses Guimarães, que presidia a ANC, já havia dito que o devolveria caso ele chegasse. Os parlamentares interpretavam a proposta da Comissão de Notáveis como intromissão do Executivo nos trabalhos do Congresso Constituinte. Para evitar uma crise o presidente Sarney decidiu não enviar o texto.
Apesar de não ter sido enviado, o texto foi publicado no Diário Oficial da União e, dessa forma, os constituintes puderam ter acesso ao anteprojeto. Inclusive, parlamentares teriam se inspirado nele para a elaboração da Constituição de 1988. Só para ficar num exemplo, no preâmbulo do texto do Afonso Arinos continha a expressão sob a proteção de Deus que está também está presente no preâmbulo da Carta Magna.
Nós, representantes do Povo Brasileiro, reunidos sob a proteção de Deus em Assembléia Nacional Constituinte, proclamamos a necessidade de oferecer ao nosso País uma Constituição que, ao termo do primeiro século do regime republicano, supere as causas das suas experiências negativas e assegure à Nação uma era contínua de Paz, Liberdade, Segurança Pessoal, Bem-Estar e Desenvolvimento, decorrentes da aplicação de princípios políticos, econômicos e sociais adequados à nossa formação nacional e, como estes, historicamente em evolução progressista. (Disponível em:
http://www.senado.leg.br/publicacoes/anais/constituinte/AfonsoArinos.pdf. Acesso em: 18 set. 2015).
Ao contrário do que aconteceu no Congresso Constituinte a Comissão Arinos não trabalhou no texto constitucional com pressão das corporações comercias, financeiras, empresariais e até mesmo sindicais. Até porque um número signficativo dos integrantes da Comissão não tinha vínculos partidários. Muitos itens específicos da Constituição foram elaborados e aprovados a partir da influência de lobistas. Alguns desses casos foram denunciados pela imprensa da época, de modo que alguns parlamentares evangélicos foram acusados de corrupção. Analisaremos esse processo mais adiante.
Além do Ulysses Guimarães outros nomes também ditaram o ritmo dos trabalhos na Constituite: Mário Covas (PMDB) que era uma das vozes mais importantes da ala progressista; Fernando Henrique Cardoso (PMDB) também progressista foi o relator do regimento interno da Constituinte e Bernardo Cabral (PMDB) que esteve na relatoria da Comissão de Sistematização. Na ala consevadora destacaram-se parlamentares como Roberto Campos (PDS); Guilherme Afif Domingos (PL); Jarbas Passarinho (PDS); Delfim Neto (PDS) e Marco Maciel (PFL). À esquerda o professor Florestan Fernandes teve destacada atuação, principalmente nos temas relacionados com educação e cidadania e o petista Plínio de Arruda Sampaio defensor da Reforma Agrária (MOTA, 2015). Houve diferenças dentro do grupo progressista, de modo que parlamentares como Fernando Henrique Cardoso e José Serra tinham inclinação à social-democracia, enquanto que outros tinham um caráter mais socialista e nacionalista.
O texto constitucional de 1988 teve 245 artigos e, em razão de emendas, esse número aumentou para 250. O artigo 3º diz que a República deve garantir a construção de uma “sociedade livre, justa e solidária” (Inciso I) e deve garantir também o “bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação” (Inciso IV). Capítulos de outros artigos remetem para os “direitos e deveres individuais e coletivos”, que estariam fundamentados na “dignidade humana” (HEIMER, 2013, p. 78). Essa tendência textual diz muito sobre a Constituição de 1988: o cidadão e a pessoa humana estão
na centralidade do referido texto constitucional. Isso é um dado relevante para uma discussão que faremos adiante sobre a biopolítica e práticas políticas pentecostais.
A Constituição de 1988 também previa a realização de plebiscito a fim de se escolher o tipo de governo, de modo que em 1993 a população decidiu pela manutenção do regime presidencialista. Outra discussão na ANC foi a duração do mandato presidencial, que o Congresso Constituinte decidiu pelos cinco anos. O autor da emenda que previa o mandado presidencial de cinco anos foi o deputado assembleiano pelo Paraná Matheus Iensen. “A emenda passou com o apoio de 59% dos constituintes, e 76% dos evangélicos” (FRESTON, 1994, p. 81). Este fato foi um dos motivos que levou o Jornal do Brasil a publicar matéria sobre corrupção na ANC em que figuravam parlamentares evangélicos. Discutiremos este ocorrido mais à frente.
O texto constitucional reforçou a independência dos poderes legislativo e judiciário, dando a este último poder para anular atos do executivo. A Constituição também ampliou o direito dos trabalhadores, onde se garantiu o direito à greve e proíbiu a intervenção do Estado nos sindicatos. O texto constitucional também assegurou que todo cidadão pode entrar com ação contra o governo e também estabeleceu o fim da censura prévia às artes e à imprensa (MOTA, 2015). Também foi reforçado o federalismo, de modo que foi garantida a autonomia político-administrativa dos estados.
Uma das polêmicas que envolveram parlamentares cristãos foi a menção do vocábulo “Deus” no preâmbulo da Carta Magna. No fim, acabou prevalecendo a expressão “sob a proteção de Deus”. Embora o preâmbulo não seja um elemento que integre a Constituição (REIMER, 2013, p. 79) ele está relacionado com a origem ou aquilo que legitima o texto. Esse foi um dos motivos que levaram grupos com visão contrária a questionarem o vocábulo Deus no preâmbulo da Constituição. Outra temática religiosa discutida na ANC foi a das relações entre Estado e denominações religiosas. O texto está no Artigo 19 e a expressão colaboração
de interesse público fundamentaria, no futuro, aparatos jurídicos para acordos do estado com a
Igreja Católica e também com igrejas evangélicas “I- estabelecer cultos ou igrejas, subvencioná-las, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público”. Em 2008, por exemplo foi assinado o acordo entre o Vaticano e o Estado brasileiro, para fins de colaboração em temas como educação e cultura. Desde 2009 tramita no Congresso Nacional um texto a respeito da “Lei Geral das Religiões” que trata, principalmente das relações entre igrejas evangélicas e o Estado Brasileiro.
Durante os meses em que se discutiu o texto constitucional o Congresso esteve em movimento de maneira significativa, de modo que milhares de pessoas percorriam os corredores e as salas em busca de seus interesses. Os mais variados grupos exerciam pressão sobre os parlamentares e quase sempre seus votos eram barganhados. Após as discussões, votações e revisões do texto final a Constituição foi promulgada em 5 de outubro de 1988.