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AN INTERVIEW WITH NAIL TAN ABOUT HIS STUDIES FOR TURKISH FOLKLORE

NAİL TAN’LA TÜRK FOLKLORUNA HİZMETLERİ HAKKINDA RÖPORTAJ

AN INTERVIEW WITH NAIL TAN ABOUT HIS STUDIES FOR TURKISH FOLKLORE

Os mergulhos nos cinco espaços sociais que conformaram o campo de investigação materializaram-se em falas e registros de observação que, transcritos e/ou sistematizados em textos, assumiram a condição de discurso a ser desvendado, desocultado.

Num esforço a quatro mãos, remexendo na “caixa de ferramentas” (DELEUZE, 2006), eu e minha orientadora definimos que o caminho mais fecundo para decifrar os discursos urdidos no campo, seria a análise de conteúdo. Nesse sentido, caminhamos nas

trilhas de Laurence Bardin (2010)19 quando, ao proclamar a análise de conteúdo como via investigativa, declara:

[...] tudo o que é dito ou escrito é suscetível de ser submetido a uma análise de conteúdo. (HENRY & MOSCOVICI, 1968 apud BARDIN, 2010, p. 34) [...] a análise de conteúdo deve começar onde os modos tradicionais de investigação acabam. (LASSWELL; LERNER; POOL, apud BARDIN, 2010, p. 15).

Cabe, antes de mais nada, configurar a via metodológica da análise de conteúdo. E isso nos remete a um campo de extrema complexidade pela multiplicidade de alternativas. Novamente retomamos Bardin (2010, p. 11) que, no prefácio de sua obra-referência, assim circunscreve:

O que é análise de conteúdo atualmente? Um conjunto de instrumentos

metodológicos cada vez mais sutis, em constante aperfeiçoamento, que se

aplicam a “discursos” (conteúdos e continentes) extremamente

diversificados. O fator comum dessas técnicas múltiplas e multiplicadas

desde o cálculo das freqüências que fornece dados cifrados até a extração de

estruturas traduzíveis em modelos – é uma hermenêutica controlada,

baseada na dedução: a inferência. Enquanto esforço de interpretação, a

análise de conteúdo oscila entre os dois pólos do rigor da objetividade e da fecundidade da subjetividade. Absolve e cauciona o investigador por esta

atração pelo escondido, o latente, o não aparente, o potencial de inédito (do não-dito), retido por qualquer mensagem. Tarefa paciente de

“desocultação”, responde a esta atitude de voyeur de que o analista não ousa confessar-se e justifica a sua preocupação, honesta, de rigor científico. Analisar mensagens por essa dupla leitura, em que uma segunda leitura substitui a leitura “normal” do leigo, é ser agente duplo, detetive, espião... (Grifos meus,).

E a própria Laurence Bardin, em uma síntese do terreno, do funcionamento e do objetivo da análise de conteúdo, assim circunscreve:

Um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter por procedimentos sistemáticos e objectivos de descrição do conteúdo das mensagens indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens (BARDIN, 2010, p. 44).

19

As citações e indicações da obra-referência de Laurence Bardin Análise de conteúdo, publicada em francês,

em 1977, com o título original “L’analyse de contenu”, apresentadas neste item, têm por base a quinta edição

Nas formulações de Bardin, encontro elementos que revelam a fecundidade dessa via metodológica para trabalhar o objeto de investigação que funda esta tese, qual seja: desvendar significados ocultos por vezes, invisibilizados, dos sorrisos das juventudes que habitam as periferias da vida. Particularmente, cabe destacar a caracterização de Bardin da análise de conteúdo com a via que “cauciona o investigador por esta atração pelo escondido, o latente, o não aparente, o potencial de inédito (do não-dito)”. E mais: vejo, com clareza, o potencial da análise de conteúdo de responder, metodologicamente, às demandas do meu objeto quando Bardin define essa metodologia como “tarefa paciente de desocultação”, identificando-a com a atitude do voyeur. De fato, sinto-me, na condição de pesquisador, como um voyeur a espreitar o mundo estranho, complexo e desafiante das juventudes pobres em tempos contemporâneos.

Definida a análise de conteúdo como caminho mais fecundo para desvendar o objeto – processualmente circunscrito ao longo de anos de trabalho –, colocou-se o desafio de definir uma alternativa de análise de conteúdo diante das “técnicas múltiplas e multiplicadas” que constituem esse campo metodológico. Novamente recorri a Bardin, quando afirma que “seria melhor falar de „análises de conteúdo‟ por tratar-se de “um método muito empírico, dependente do tipo de „fala‟ a que se dedica e do tipo de interpretação que se pretende como objectivo” (BARDIN, 2010, p. 32). Nessa perspectiva, esclarece a formuladora do campo em pauta: “A técnica de análise de conteúdo adequada ao domínio e ao objectivo pretendidos tem de ser reinventada a cada momento” (BARDIN, 2010, p. 32).

Acatando a provocação de Bardin, busquei, com o decisivo apoio da orientadora, construir uma alternativa de análise de conteúdo que atendesse ao domínio e ao objetivo da investigação circunscrita no objeto. Para tanto, assumi como inspiração a “Técnica de Análise de Conteúdo na formulação de Miriam Limoeiro Cardoso”, seguindo as trilhas da pesquisadora Alba Maria Pinho de Carvalho que, em seu trabalho de dissertação de mestrado publicado em 198320, apresenta, detalhadamente, a dinâmica por ela construída, materializando essa perspectiva de análise de conteúdo.

20

O trabalho intitula-se A questäo da transformaçäo e o trabalho social: uma análise Gramsciana , publicado pela Cortez, em 1983. A configuração interpretativa da Análise de Conteúdo na formulação de Miriam Limoeiro Cardoso é desenvolvida na introdução da referida obra.

Alba Carvalho, interpretando a formulação de Cardoso, explicita, com clareza e perspicácia intelectual, as bases, os princípios orientadores e a própria dinâmica da análise de conteúdo nessa perspectiva específica. Embora seja um texto relativamente longo, aqui transcrevo o cerne da configuração interpretativa de Carvalho por considerá-la extremamente elucidativa, constituindo referência na minha própria construção de análise de conteúdo:

Miriam Limoeiro Cardoso, partindo da constatação da insuficiência do método de análise de conteúdo tradicional e do método de análise estrutural em termos de capacidade explicativa, configura uma nova técnica de análise de conteúdo, a partir de indicações dos dois referidos métodos, buscando ultrapassar no processo de conhecimento o nível de descrição para atingir o nível de análise. Essa sua proposição metodológica, fundada na tese do papel decisivo da orientação teórica na construção do conhecimento do real, faz a ligação entre Teoria e Material Empírico. O processo metodológico inicia-se com a configuração de uma teoria no sentido da delimitação de categorias

fundamentais que precisam ser simples e suficientemente gerais para

orientar todo o processo de investigação. Tenho por base as categorias teóricas fundamentais e a especificidade do objeto de estudo, definem-se as unidades de análise que são os temas. Os temas, como unidades de análise, expressam feixes de relações, ou seja, uma combinação de relações. Os temas são constituídos por itens que configuram determinadas relações em suas diferentes possibilidades, marcando assim os diversos posicionamentos que podem ser assumidos em cada tema (CARVALHO, 1983, p. 18, 19, Os grifos da autora).

Assim, tendo no horizonte as bases de sustentação desta tese21 e considerando o potencial analítico do material empírico levantado em campo, construí, em estreita parceria com a orientadora, os instrumentos delineadores da análise de conteúdo em seis temas e seus respectivos itens. Esse instrumental está consubstanciado no quadro abaixo:

TEMA I – contexto de vida dos jovens: família, escola, vizinhança

1. Contexto de segurança e proteção com atendimento das necessidades humanas relativas a bem-estar, aconchego

2. Contexto de insegurança e violências, carências e exclusões relativas a mal-estar/ homem sem vínculos – ausências de serviços e de apoio

Contexto de segurança e apoio em meio as carências

TEMA II – estilo de viver: valores, referências e projetos

1- Consumismo, individualismo, grana, curtição do prazer, descartabilidade, subir e vencer na vida, sair da pobreza a qualquer custo...

2- Solidariedade, vida em comunidade, transformação do mundo... Investimento no coletivo por diferentes vias: arte, religião, política, convicção, utopia de que um outro mundo é possível.

3- Projeto pessoal de construção de vida para sair da pobreza pelo estudo, esporte, arte e, sobretudo, trabalho. É a busca de inserção na sua condição social de pobreza e subalternidade

TEMA III – sorrisos juvenis

1- Sorrisos escassos e tristes: não há motivos para sorrir

2- Sorrisos alegres, abertos, frequentes, em meio aos dramas juvenis

3- Sorrisos despreocupados, alheados do contexto de vida – alienação

TEMA IV – sentidos e significados sociais do sorriso 1- Sorriso abre portas para a vida social – relações sociais

2- Sorriso é fundamental para a vida amorosa, conquistas e parceiros

3- Sorriso é decisivo para o mundo do trabalho

4- Sorriso é o cartão de visitas de uma pessoa, fundamental para a autoestima

5- Sorriso é fundamental na aparência pessoal e na vida social

6- Sorriso é fundamental para a saúde, higiene e alimentação

7- Sorriso é fundamental para o bem-estar, a felicidade

TEMA V – identidades nas rotas juvenis: olhar sobre si mesmo

1- Autorreconhecimento como sujeitos e atores, afirmação da autoestima nas trajetórias juvenis – olhar positivo sobre si mesmo

2- Olhar depreciativo sobre si mesmo, baixa autoestima – olhar-se como vítima da exclusão social, insatisfação consigo mesmo

3- Olhar positivo em meio à consciência das dificuldades e limites

TEMA VI – elementos fundantes nas rotas identitárias 1- Religião – Tribo de Jesus

2- Trabalho, emprego, inserção no mercado profissional 3- Estudo como via de realização e inserção social

4- O parceiro na relação: o outro em relações amorosas e erótico-sexuais.

5- A galera como referência: relações de sociabilidade

6- Consumismo de mercadorias, de sonhos

7- Política e projetos coletivos

8- Família e ótica moralizante

9- Aparência, autoimagem, padrões e modelos estéticos 10- Estigmas com base em deficiências físicas, classificações