2.2 Ağ Tabanlı Öğretim
2.2.8. Internet 'in Sunduğu Hizmetler
Por fim temos, como estratégia de ação, a apropriação da educação e da cultura sob enunciados que a relacionam com a psicologia. O ICE, por intermédio do projeto Casulo, propõe, dentre outros meios de abordagem a Cultura e a Educação. Segundo essas diretrizes, a cultura é entendida como mediação imprescindível para fortalecer a autoconfiança dos jovens e impulsionar processos construtivos e criativos; e a educação seria a “ampliação da formação pessoal e educacional de jovens, contribuindo para o desenvolvimento de habilidades e competências necessárias à sua inclusão social, uma vez que a educação é o ativo de maior importância em que se baseia a desigualdade social”85.
Quando se diz que a educação é o ativo de maior importância na diminuição da desigualdade social, está-se afirmando: que as habilidades e competências individuais são de suma importância para o processo da construção da igualdade na sociedade capitalista competitiva; que o conhecimento possibilita o exercício de poder e, assim, o alcance de melhores condições de vida; que para o ser educado – com habilidade e competências adquiridas – são menores as chances de subjugação; que o ingresso na sociedade – inclusão social – está condicionado à aquisição de educação, já que esta e a civilidade andam juntas; e, por fim, que apenas seres educados e civilizados podem ser cidadãos.
O contra-senso de tal proposta, para não dizer absurdo, se revela logo no início. Primeiro, busca-se a igualdade mediante a aquisição de competências e habilidades
85 METODOLOGIA para a formação de jovens pesquisadores – Observatório de jovens - Real panorama da
individuais. Depois, tenta-se resolver um problema social pela melhoria individual das pessoas e, ainda, acreditando-se que, com o aperfeiçoamento das competências individuais, as suas chances de desenvolvimento social aumentem. O que se observa, entretanto, é que o desenvolvimento das competências individuais tem apenas acirrado a concorrência entre os indivíduos.
Segundo essas diretrizes, entende-se a educação nos mesmos princípios do capital. Um mundo competitivo só quer “os mais preparados”, instruídos, munidos com o que hoje se chama de capital social86. Nos projetos sociais, apesar do discurso de coletividade, a lógica de funcionamento é a mesma do capital empresarial.
À vista deste fato, é preciso preparar os jovens para o mundo do trabalho que por estar superlotado não dispõe de mais lugares para eles. Deve-se, portanto, tentar enquadrá-los, mantê-los na “fila” esperando a sua vez. Mas, caso não sejam atingidos esses objetivos, criam-se os parques de reciclagem, as readequações de sentido, e o uso do lixo e do refugo humano – os projetos sociais.
Esses “parques de reciclagem”, ou melhor, esses “contêineres de resfriamento” são a última tentativa de adaptação do refugo da sociedade de consumo. Fala-se em inclusão, porém, na verdade, se faz uma proposta de convivência pacífica, um adestramento e controle.
A educação, nesse caso, é entendida como uma prática civilizatória e de inclusão. Em geral, define-se inclusão como o ato de inserir as pessoas na plena participação de todo o processo educacional, laboral, de lazer, nas atividades comunitárias e domésticas. Entretanto, entendemos a questão da inclusão como um falso problema, pois dentro de uma curva normal (-1, 0, +1), o excluído estará sempre como -1 (menos um). Não se incluem os pobres na linha da normalidade porque já têm seu lugar bem definido na nossa sociedade. Dentro de uma norma social geral, os pobres sempre terão seu lugar. E quando se diz que foi efetivada a inclusão social, está se afirmando que eles continuam na sua condição de pobres, mas felizes.
A rede capitalista sabe que se todas as pessoas do mundo tivessem as mesmas condições de vida que ela, os recursos naturais não seriam suficientes, e não haveria quem trabalhasse. Por isso, permitem que “os excluídos” organizem a sua própria comunidade, desde que fiquem lá dentro, quietos e felizes. Nesse sentido, a educação como instrumento de
86 O Capital Social diz respeito ao estoque de possibilidade de relações que um indivíduo ou grupo pode ter. A
capacidade de fazer redes sociais. Para saber mais consultar: MILANI, C. Teorias do Capital Social e Desenvolvimento Local: lições a partir da experiência de Pintadas (Bahia, Brasil). Disponível em: <http://www.adm.ufba.br>. Acesso em 22 ago. 2007.
“inclusão social” não minimiza a desigualdade, apenas acalma, tranqüiliza e racionaliza87 o sofrimento e os ímpetos dos pobres.
Então, se a educação é uma prática racional de controle em que a violência se efetiva por meio da verdade, a cultura vem amenizar os inconvenientes e tornar o controle mais sutil.
Ao contrário da educação, o convencimento não se dá pelo jogo da verdade, pelo conhecimento racional e pela violência da razão instrumental, mas por um tipo específico de afeto, pela produção de uma subjetividade dócil e pelo exercício do cuidado e do jogo emocional. Como diz Arendt88, a estética traz em si o julgamento e as escolhas que os homens fazem, sem recorrer a instâncias superiores de saber ou de violência.
A cultura é um meio pelo qual fluem os afetos. Entretanto, nos projetos sociais temos a emergência do conceito afeto como algo individual, não de um afeto coletivo em constante possibilidade de mutação; ele se torna materialidade individual, auto-estima, autoconsciência, autocontrole, expressão de si mesmo, etc. Com base nesses conceitos os projetos sociais forjam uma arte edificante, pedagógica, com a função de fortalecer a autoconfiança e impulsionar processos construtivos e criativos.
A título de ilustração, observemos o seguinte texto do Projeto Casulo:
O Projeto Casulo aposta no jovem como indutor de mobilização e transformação social. Para isso, é fundamental que ele domine os códigos da modernidade e adquira, além de maior escolaridade, outras habilidades no plano da sociabilidade, da ampliação de seu repertório cultural, da participação na vida pública e da fluência comunicativa.
A fim de promover esta transformação social, o Projeto Casulo conta com diversos programas e atividades culturais, ministradas no Centro Cultural e Comunitário Casulo. A opção pela cultura como norteadora das ações se deve ao fato de que ela é a base do desenvolvimento humano. O contato com as linguagens artísticas é imprescindível para a conquista da cidadania, pois desenvolve a interiorização – aprofundando o autoconhecimento – e incentiva a expressão – promovendo o diálogo. O processo artístico reúne as pessoas em torno de um fazer comum, em um verdadeiro exercício de igualdade, além de gerar acessibilidade, uma vez que é inerente ao ser humano. A apropriação do conceito de acessibilidade conscientiza as pessoas de que elas podem – e devem – buscar os seus direitos; direitos estes que existem, mas nem sempre estão acessíveis a toda população.89
A metodologia do Casulo cria uma espécie de ciclo com etapas interdependentes. A cultura e a arte são compreendidas como um meio de desenvolvimento psicológico, como uma maneira do jovem se conhecer. Infere-se que, de posse desse autoconhecimento, ele
87 Conforme relatamos, anteriormente, a racionalidade é uma das formas mais violentas de coerção.
88 ARENDT, H. Crise na cultura in: Entre o Passado e o Futuro. Tradução de Mauro W. Barbosa de Almeida.
São Paulo. Perspectiva, 1992.
89 RELATÓRIO de Atividades - Instituto de Cidadania Empresarial, 2004. Disponível em: <http://www.projeto
possa se expressar melhor, ficando assim apto para o diálogo e para o fazer comum. Em condições de realizar ações em coletividade e comunhão, o jovem estará em situação de igualdade, podendo reconhecer-se como ser humano ou humanitário. Diante desses ganhos de humanidade, irmandade e sociabilidade proporcionadas pelo projeto, fica claro para o jovem que as diferenças entre estar incluído ou excluído são questões de acessibilidade. A diferença entre os seres humanos é ter ou não acesso ao que o mundo dispõe. Assim, o projeto social oferece aos jovens a certeza de que para ter esse acesso é preciso lutar por direitos igualitários e humanitários. Esse trajeto, que sai do trabalho cultural e artístico, termina no desenvolvimento humano e na construção da cidadania.
Essas estratégias nos transformaram em reféns de interesses privados de uma rede empresarial globalizada. O Estado, que deveria servir como balança entre os interesses privados (referentes à intimidade dos homens, sua sobrevivência e economia) e os interesses públicos (relacionados à cidade, ao governo entre homens e à política), sucumbiu à lógica do capital e às necessidades íntimas dessa rede empresarial global.
Todas essas estratégias e procedimentos criam um dispositivo de controle social em que a cultura e a educação são “reforjadas” por uma série de linhas de enunciação e visibilidade, sob a organização da psicologia e da assistência social em resposta aos interesses do capital financeiro. Daí, questionarmos de que maneira a Educação e, principalmente, a Cultura e também a Arte, participam desse empreendimento político-econômico? Qual transformação histórica levou essas áreas da vida humana a passarem ao comando da psicologia e da assistência social, incluindo-se numa política de controle de população?