ANNEX XII – CALCULATION OF TEAM EXPENSE LIMITS FOR CLUBS
G. INCREASING TEAM EXPENSE LIMITS
Figura 1 – Tela “Pôr do sol atrás da Rampa”
Fonte: Gadelha (1980b).41
A tela retratada pelo artista Descartes Gadelha42 na década de 1980 alude à população de imigrantes do interior do Ceará, que no início dos anos setenta se formou ao
41Exposição Descartes Gadelha, 1980 – Divulgação. Matéria completa disponível em:
http://notasdator.blogspot.com/2016/01/.
42Exposição Catadores do Jangurussu, mostra composta de 72 obras no Museu de Arte da Universidade Federal
redor de um antigo aterro sanitário, situado sobre uma rampa, em uma das áreas mais pobres
da capital, dando início ao bairro Jangurussu43. Seus traços ativam o meu baú de memórias e
me levam para o final dos anos 1980, quando ainda adolescente, moradora de periferia, sempre que me dirigia a zona norte e mais rica da cidade, observava de ônibus, da avenida Presidente Costa e Silva, conhecida como Perimetral, a repetida cena: urubus sobrevoando
uma grande rampa de lixo próxima ao maior estádio de futebol da cidade – o “Castelão”.
Figura 2 – Tela “Catadores do Jangurussu”
Fonte: Gadelha (1980a).44
Aquilo chamava a minha atenção e ao mesmo tempo me causava estranhamento. Eram dois “cartões postais” com motivações bastante diferentes. O Castelão sediava grandes jogos e campeonatos, era palco da alegria e também símbolo de prosperidade. Quanto ao outro, tal como sugere as telas de Descartes Gadelha, era palco de estigma (GOFMAN, 1975), visto que sediava o aterro de lixo do Jangurussu, um dos principais ícones da pobreza da cidade nas décadas de 1970 e 1980.
Segundo Gofman, estigma, para os gregos, significava um sinal corporal com o qual se procurava evidenciar alguma coisa de mau ou extraordinário sobre o status social de uma pessoa. Atualmente, nos estudos relacionados à patologia social, o caráter físico do estigma dá lugar a uma relação inserida no imaginário e nas simbolizações, construída pelo
43O próprio nome Jangurussu surgiu em relação ao chorume gerado pelo aterro que havia no bairro
(ESTUDANTES..., 2011).
44Exposição Descartes Gadelha (1980) – Divulgação. Matéria completa disponível em:
olhar interpretativo da sociedade sobre a sua realidade. O estigma denotaria o caráter maléfico de determinadas pessoas da sociedade, sendo normalmente associado a algum tipo de exclusão social. Uma de suas principais características é que faz recair sobre os indivíduos a culpa das contradições inerentes a organização social.
Naquele momento, eu quase nada sabia sobre aquele bairro. Os programas
policialescos – dos quais ninguém oriundo das classes baixas escapa de ouvir, em virtude de
sempre ter algum membro da família que os assistem –, ainda não tinham invadido os canais
abertos.45 As significações por mim criadas sobre o Jangurussu se restringiam, desse modo,
basicamente à miséria, o que só veio a mudar, como dito antes, a partir do acesso a referenciais outros, propiciadores de uma visão um pouco diferenciada, como a que era mostrada nos anos 1990 pela bailarina Dora Andrade, por meio de um trabalho de dança com as garotas moradoras do bairro, mais precisamente da comunidade Gereba onde estava situada a “famosa” rampa de lixo, experiência que mais tarde daria origem a ONG e escola de dança
EDISCA.46
A partir dos anos 2000, aumenta o sensacionalismo midiático em relação às comunidades de periferia em Fortaleza, com a eclosão dos programas policiais em canal
aberto47, cujas matérias e apresentadores fortalecem a reprodução de estigmas sobre os seus
moradores e moradoras, expressos, via de regra, no binômio pobreza x violência. Tais fenômenos que guardam inúmeros entrelaçamentos, de fato ficam mais agudos ao longo dos
anos seguintes, ganhando ainda maior expressividade na conjuntura econômica atual.48 Como
afirma Adad (2004 p. 6): parece que “instalou-se na consciência do corpo social a convicção de uma equivalência entre a miséria, a agressividade e o perigo. Esta foi a grande moldura para o início da exclusão dos pobres.” Prática assentada por saberes que foram produzidos
45No Brasil, o telejornalismo de cunho sensacionalista, ganhou visibilidade com o surgimento do telejornal Aqui
Agora, que foi ao ar em 1991, apresentado por Gil Gomes, e O homem do sapato branco, apresentado por Jacinto Figueira Júnior, ambos veiculados pelo Sistema Brasileiro de Televisão – SBT, sendo que o Aqui Agora é considerado o programa precursor do telejornalismo policial na televisão. Ver mais sobre o tema em: Jornalismo policial na televisão: gênero e modo de endereçamento dos programas Cidade Alerta, Brasil Urgente e Linha Direta (OLIVEIRA, 2007).
46Um dos frutos da escola foi o espetáculo de balé Jangurussu que tinha a rampa como um dos símbolos
principais.
47Dentre eles: Barra Pesada (TV Jangadeiro); Cidade 190 (TV Cidade); Cidade Alerta (Rede Record).
48No relatório “A distância que nos une: um retrato das desigualdades brasileiras”, a Ong Oxfam Brasil revelou
que os 5% mais ricos do país detém a mesma fatia de renda que os demais 95%. E que um grupo de seis pessoas possuem riqueza equivalente ao patrimônio dos 100 milhões de brasileiros mais pobres. A PEC 95, aprovada em 2016, congelou em 20 anos os investimentos na área social no país, inviabilizando a implementação do Plano Nacional de Educação (PNE) e a expansão do Sistema Único de Saúde (SUS) e de programas da assistência social, entre outras políticas centrais para o combate à pobreza e às desigualdades no Brasil (UNISINOS, 2017).
historicamente em larga escala, numa profusão de técnicas e discursos científicos que tem como pano de fundo a garantia do poder de vigiar, punir e decidir (FOUCAULT, 1993).
O próprio modo como o bairro se forma, o vínculo entre o êxodo rural e as relações de trabalho que foram tecidas com o surgimento “da rampa” naquela comunidade - e que depois virou “lixão” -, ajudam a fortalecer o estigma. Partindo dessa problemática, o surgimento do Jangurussu nos remete geográfica e simbolicamente a comunidade Gereba como o fio condutor para entender toda a sua complexidade, o seu desenrolar econômico, histórico e político, como vemos a seguir:
Foi a presença dos catadores que deu início ao surgimento do bairro. Eles foram seus primeiros habitantes. [...] Ainda hoje o bairro abriga a maioria dos catadores de materiais recicláveis da capital (PMF, 2006). Quando, em 1978, o destino dos resíduos passou a ser este local, transferiram-se de outros lixões para seus arredores aproximadamente oitenta catadores [...] o grande lixão atraiu famílias inteiras. Os trabalhadores foram aos poucos se instalando nos arredores, abrigando-se em locais abandonados ou construindo seus barracos. (IZAIAS, 2010, p. 89).
Sem ver os seus direitos mínimos atendidos pelas estruturas do Estado, as famílias viram no aterro a única saída para as suas dificuldades. Simbolicamente o bairro era uma promessa para os pobres imigrantes do interior, porque lá eles construiriam a sua vida nova. Diante de uma fonte acessível para o suprimento parcial das suas necessidades básicas, todas as outras questões passaram a ter uma menor importância, fato que motivou um crescimento desordenado naquela área:
Esta região da cidade abrigou em décadas anteriores os imigrantes do interior do Estado fugidos da seca e inúmeros trabalhadores, em sua maioria desempregados [...] O aterro chegou a atingir uma quota de lixo de quarenta metros de altura, gerando um problema na questão socioambiental. O aterro empregava cerca de 1500 catadores entre adultos e crianças que viviam em condições sub-humanas. (SILVA, 2007, p. 4).
Viver das sobras do que a cidade não quis, ter os olhos voltados para a imediaticidade do existir, passou a ser o lema daquelas famílias e o modo de simbolização do próprio bairro:
Este novo Lixão do Jangurussu ou “rampa”, como é comumente chamado tanto pelos meios de comunicação como pelos catadores e moradores da área que o veem como fonte de subsistência, emergiu no pátio do Complexo do Jangurussu a partir dos resíduos urbanos descarregados pelos caminhões municipais, ou de terceiros. (FRANCO, 2007, p. 50).
Nos anos oitenta a questão da pobreza e da violência no bairro atingiu níveis insuportáveis, tendo como uma expressão positiva, todavia, a organização popular e o surgimento da Rede de Articulação do Jangurussu e Ancuri (REAJAN), criada a partir de
diálogos, reuniões e seminários entre as comunidades e o poder público em todos os conjuntos habitacionais que constituem este bairro.
O mapa a seguir apresenta alguns registros das ações da REAJAN e os conjuntos habitacionais pertencente ao grande Jangurrussu, já citados na introdução deste trabalho:
Figura 3 – Mapa com o bairro Jangurussu e
os seus diversos conjuntos habitacionais
Fonte: Rede de Articulação do Jangurussu e Ancuri (2013).
Em sua pesquisa etnográfica sobre as juventudes de Fortaleza, em circulação por espaços urbanos como o Dragão do Mar e a Praça Portugal, Joca (2013), constatou que alguns dos jovens ali residentes preferiam em suas narrativas dizer que moravam na grande Messejana. Isso mostra que os estigmas (GOFFMAN, 1975) construídos a partir dessa composição social, o do Jangurussu como um bairro extremamente pobre e violento, tem reverberações até hoje no modo como seus moradores e moradoras se veem. O bairro é uma referência não apenas espacial, mas afetiva na produção das vidas juvenis nos diz Cordeiro (2009, p. 215).
No decorrer dos anos 1990 e início dos anos 2000, pode-se dizer que fruto da ação de sujeitos políticos como a REAJAN e das políticas compensatórias, com semelhanças a um
esboço de Estado de Bem Estar Social, Welfare State 49– desenvolvidas pelo governo Lula no
49Modelo econômico criado na Europa, a partir do final da 2ª Guerra Mundial (1945) no qual as políticas sociais
minimizam os impactos das desigualdades econômicas e permitem uma razoável qualidade de vida ao conjunto da população (SANTOS, 1997).
país, durante os seus dois mandatos como presidente (2003 – 2011) –, o Jangurussu viveu um período um pouco mais tranquilo50, voltando a ter índices alarmantes de violência nos dois últimos anos, com ênfase para os crimes oriundos do narcotráfico, cujas vítimas preferenciais são as populações jovens e negras.
Uma das mais recorrentes nuances dessa violência no bairro mereceu registro no estudo de Araújo (2014, p. 41):
Nas avenidas que tangenciam o “aterro do Jangurussu”, é possível perceber uma “rota empobrecida” da prostituição, são mulheres, meninas e travestis que vendem o uso dos seus corpos por poucos reais, algumas (uns) aceitam fazer o programa em troca de drogas, em especial o crack.
No cerne desse fenômeno, dentre outros elementos que ajudarão a compor a costura desse texto, tais como as questões de gênero, está o sucateamento a nível nacional das antigas políticas de bem-estar, principalmente a partir dos últimos anos. Mesmo no contexto atual, com o recrudescimento dos antigos fantasmas, nunca totalmente distantes, apenas mais distraídos nos anos anteriores, penso que é preciso fugir do cerco das narrativas totalizantes e midiatizadas sobre as áreas periféricas, zonas “opacas”, estando aqui em questão o Jangurussu. Trata-se de um movimento necessário para que se desvelem as suas dobras, criando condições para deslocamentos de olhares, rupturas com o pensamento instituído e
com a comodidade das visões maniqueístas; perceber o movimento da vida – e dos sujeitos
das áreas periféricas, das mulheres mães-, que extrapola em muito a violência, ainda que a ela se entrelacem; perceber suas “artes de fazer”, como nos diz De Certeau (1990), e as relações
que estabelecem no tecido social, em sua cotidianidade – que além de conflitivas, são também
afetivas, de solidariedade, de vizinhança, –, suas práticas sócio-culturais, que segundo Freire
(2008) são também práticas políticas, mesmo sem de todo sabê-las.
Estruturas mais organizadas como as redes de articulação, as ONGs, os projetos sociais, assim como expressões mais espontâneas, como a dança, a capoeira, o teatro, o hip hop e tantas outras formas de linguagens culturais, são pequenos exemplos das muitas e diversas formas de resistências que pululam no Jangurussu a partir da cotidianidade vivenciada por seus moradores e moradoras, compondo um conjunto de ações normalmente mediados pela participação direta ou indireta das mulheres.
50Além dos grupos Meninas do Rap e Meninas e Meninos de Deus, moradores e moradoras do Gereba e do
Conjunto Santa Filomena respectivamente, estudados na pesquisa dissertativa, tivemos contato com as juventudes ligadas a REAJAN, ao Cuca Jangurussu e com os jovens do conjunto São Cristóvão, ligados ao coletivo Ambiental e ao grupo de dança “Da Sul” – uma provocação a parte rica da cidade.
Mas somente um olhar mais apurado, olhar “sensível”, como defende Duarte Júnior (2004), é capaz de captar, reconhecer e deixar-se afetar nessas áreas opacas, pelos heróis e heroínas anônimas analisados por De Certeau. Pude encontrá-los a partir das andanças pelos programas educativos, pelas organizações populares, pelas ONGs, pelas
associações e projetos sociais (como o CONVIDA51 e o Crescer com Arte), mas também nas
feiras populares como as do São Cristóvão, nos bares onde a prática do karaokê ainda é
comum, nas festas de reggae e rock promovidas pelo Cuca, nos eventos enfim52, nas casas,
nas ruas, nas calçadas, onde por acaso, a partir do “vagabundear” das conversas informais, a algum deles eu era apresentada. A cada novo encontro eles e elas me apresentavam a outro Jangurussu, o que pode ser visto nos versos do grupo de rap Relato Ativo, formado por dois irmãos do projeto Meninos de Deus:
A cada amanhecer uma nova chance, O sol brilhou mais uma vez
Eu vou adiante Na missão do dia a dia Eu vou vivendo
Eu tô na luta, nos “corre” vou vencendo. (Na luta, nos Corre e Vencendo) (GRUPO RELATO ATIVO, 2018).
Retomando o objeto de pesquisa, esse olhar sensível em relação ao grande Jangurussu que capta as ações empreendidas pelas mulheres pode surgir até mesmo de um “não – encontro.” Como o que não tive com pessoas como a aposentada e moradora há 22 anos do Sítio São João, Dona Raimunda Freire, uma das mães/avós que eu não conheci. Através de seu olhar, igualmente sensível, registrado por um meio de comunicação local, vislumbramos outro Jangurussu:
Para Raimunda Freire, de 75 anos, “há bastante respeito” entre os moradores da região. A aposentada afirma que se sente segura no local e cultiva hábitos pouco adotados nos dias atuais, como sentar na calçada quando o sol se esconde e visitar frequentemente o santuário de Santa Rita, localizado no coração do Sítio São João.” Todo mundo aqui se conhece e gosta de manter essas relações positivas”, reforça. (BAIRRO..., 2017).
Um contato mais direto com as mulheres do Jangurussu, como já foi dito, se fez no passado, na primeira visita a comunidade, ao participar da caminhada alusiva a divulgação
51Conselho Nova Vida, ONG que viabilizava dentre outros projetos, as atividades dos grupos Meninas do rap e
Meninos e Meninas de Deus.
52Em um desses eventos participei da exibição de um documentário feito por jovens do bairro sobre o processo
de limpeza da lagoa do São Cristóvão. Mais uma vez pude constatar o vigor dos saberes de margem (DE CERTEAU, 1990), evidenciados pela fala de uma das jovens que estiveram à frente do movimento em defesa da lagoa: “Era dito para as pessoas que elas eram lixo, e elas acreditavam. Acho que depois dessa conquista feita com a participação deles, alguma coisa talvez tenha mudado.”
da recém lançada Lei Maria da Penha, experiência discorrida na parte introdutória deste trabalho. Vejamos o registro da caminhada:
Figura 4 – Mulheres à frente da caminhada sobre a lei Maria da
Penha
Fonte: arquivo pessoal da pesquisadora.
Já discorremos preliminarmente também sobre uma aproximação mais dialógica com as mães a partir de então, a qual passou a ocorrer por meio das oficinas sobre relações de gênero, realizadas com as mulheres ligadas ao Projeto Crescer com Arte. Foram elas que, por meio de suas lembranças e narrativas, também ajudaram as juventudes ligadas aquele projeto social, a contar a história do bairro, tendo como resultado o cordel “O lobisomem do Jangurussu”. Acompanhemos os versos dessa produção coletiva:
Eu vou tirar uma história lá do fundo do baú. A cidade é Fortaleza, o bairro é Jangurussu. É no rumo de quem vai lá pra Maracanaú. Fortaleza toda sabe: é ali que se joga o lixo, mas de uns tempos para cá, aumento o rebuliço, porque no Jangurussu o povo tá vendo um bicho. É um bicho diferente, não é boi nem urubu. Raposa também não é, nem cobra nem cururu. O bicho é um lobisomem, terror do Jangurussu. Há uns vinte anos atrás, quando ali só era mato, tinha a rampa do lixo, uns quatro ou cinco barracos e uma casa abandonada toda cheia de buracos. Ali não passava ônibus, só bicicleta ou carroça, pra ter uma inundação, bastava uma chuva grossa, empurrado pela fome, vem o povo e se apossa [...] Tem muito caco de vidro, prego, veneno e arame, é um trabalho arriscado só pra não morrer de fome. E o perigo de morrer na boca do lobisomem? Ele é um cachorro grande com as unhas de felino, olhos grandes e vermelhos de instinto assassino, foi visto por uma avó, uma mãe e um menino. Voltaram lá do Barroso, no meio da escuridão, avistaram um vulto preto ali perto do lixão, a avó teve um infarto que foi parar no Frotão. [...] Chamaram lá um velhinho, lá do Sítio Timbaúba. O velho falou e disse: Se eu não derrubar o bicho ninguém no mundo derruba. O velho chamou seu neto, que é lá do Jangurussu [...] um atalhou pelo norte e o outro foi pelo sul. Ouviram à meia noite, um uivo que o chão tremeu, foram tomando chegada, quando o bicho apareceu. Atacou logo o menino, mas o velho se meteu. Mirou, puxou o gatilho da espingarda amarela, que o coração do bicho saiu fora da titela. Mas a fera abocanhou o velho pela canela. O menino se soltou, seu avô ficou na briga. Gritou pro neto: Depressa! Tá Vendo aquela camisa? Desavesse e solte os nós que o lobisomem desvira. O
menino desatou a camisa do cachorro, que voltou à forma humana e ainda pediu socorro, mas deu último suspiro e o céu deu um estouro. Quem quiser ver a verdade, pode ir lá que tem a cova. Tudo voltou ao normal e aqui se acaba a história. Hoje no Jangurussu ninguém mais se apavora. Mesmo com toda a pobreza é uma comunidade. A usina de reciclagem é sinal de modernagem, ainda tem muitos problemas, mas ninguém vê mais visagem. Só o neto do caçador, por estar muito febril, saindo pra comprar remédio num tal de mercantil, viu um cachorro dourado foi aí que deu psiu, mas o danado do bicho da sua vista sumiu!!!. (Cordel O Lobisomem do Jangurussu). (Projeto Crescer Com Arte, 2006).
Experiências como essas já dilatavam o meu olhar sobre o Jangurussu e sobre a importância das mulheres na vida da periferia. Anos depois, no Conjunto Santa Filomena, pude ter contato com algumas mulheres jogadoras de futebol, experiência que me garantiu uma visão mais abrangente sobre gênero e geração e cultura, principalmente a partir dos relatos de Dona Acácia e de Dona Papoula. Eis a imagem de uma mãe amamentando no campo de futebol do Coritiba e o relato na íntegra das duas mulheres:
Figura 5 – Mãe amamentando no campo de futebol, acompanhada
das filhas pequenas
Fonte: arquivo pessoal da pesquisadora 04/04/2013.
Eu escrevera em meu diário de campo: “uma mãe amamentando uma criança, com os outros filhos ao redor, unindo ali também outras possibilidades do feminino: a mãe, a jovem e a jogadora de futebol. Pedi então para tirar uma foto, elas riram e todas quiseram ver o resultado.” (DIÁRIO DE CAMPO, 04 de abril de 2013).
Figura 6 – Dona Acácia com a filha e a neta no campo de futebol do Coritiba
Fonte: arquivo pessoal da pesquisadora 04/04/2013.
Segue o relato de Dona Acácia que me concedeu uma pequena entrevista em pleno campo de futebol:
Cícera: Dona Acácia o que trouxe a senhora aqui e qual a sua relação com o futebol? D. Acácia: Atualmente quatro dos meus filhos participam dos Meninos e Meninas de Deus, mas eu fui a primeira, né? Desde os nove anos eu jogo. Eu cheguei aqui no Santa Filomena e a minha primeira amiga eu já encontrei com uma bola de futebol na mão me chamando pra jogar. Minha irmã também participa dos jogos. Ela tem trinta e sete (37) anos (diz apontando para a irmã).
Cícera: A senhora sofreu algum tipo de dificuldade por ser mulher e jogar?
D. Acácia: Depois de casada eu sofri muito preconceito por jogar com as meninas, meu marido achava que era um grupo de lésbicas. Mas eu não me importo com o que ele pensa, me importo com o que eu sou.
Cícera: Além da senhora tem outra mulher na sua família que joga também?
D. Acácia: Minha filha mais velha que tai, ela tem dezenove (19) anos, já é casada e ainda joga. Vem menos agora porque tá trabalhando. (Dona Acácia. Entrevista em 04 de abril de 2013).
Por fim o relato de Dona Papoula que não quis que eu tirasse foto, mas que dá