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Conhecer a usina de triagem do bairro Jangurussu é antes de tudo um ato de

coragem, visto que ela situa-se no marco divisório entre duas comunidades rivais.57 É também

adentrar em uma relevante parte da memória do lugar, um território repleto de importantes simbolismos e palco das mais diversas estratégias de reprodução e resistência por parte dos sujeitos que ali interagem. Talvez esse contexto explicasse um pouco dos meus sentimentos quando comecei a visitá-la em função da presente pesquisa. Na verdade, eu já tinha ido antes, rapidamente com Lótus, a procura de Dona Magnólia, mas no dia referente ao relato a seguir, eu começaria a fazer o mesmo trajeto sozinha:

Cruzar a Escola Delma Hermínia, a Policlínica, o FAC, os diversos galpões e depósitos e ir aos poucos me aproximando da maior referência da comunidade, a usina de triagem fazia daquele um dia especial. Um fio de medo me atravessou por ser aquele um caminho praticamente desconhecido que me levaria cada vez mais perto à linha divisória entre as comunidades. Sentia-me de fato estrangeira naquele dia. Ao entrar na usina, vi uma grande quantidade de flores perto do prédio da administração. Sorri. Andando mais um pouco, em frente à cooperativa, um centro de formação dos catadores e catadoras, local onde antes funcionara o programa Crescer com Arte58. Ao reconhecer o prédio senti uma lembrança suave dos

momentos que ali passei quando trabalhava na FUNCI.59Ao lado, a área onde os

caminhões descarregavam o grosso do material e onde vários moradores não vinculados à associação trabalhavam por conta própria. A cooperativa funcionava num enorme galpão. Vejo basicamente mulheres trabalhando. Há moscas por todo lado, uma esteira parada no meio e montes e montes de caixas de papelão dispostas no chão de cimento. (Diário de campo, 10/05/2017).

57As visitas foram realizadas ainda no primeiro semestre de 2017. Por todo o segundo semestre a avenida que dá

acesso a usina foi palco de raptos de pessoas que depois descobria-se ter sido mortas com requintes de crueldade em função do tráfico de drogas.

58Fundação da Criança e da Família Cidadã.

59Ver Pontes (2013), Onde Mora a Esperança? Um estudo das culturas juvenis no Jangurussu: as Meninas do

Vejamos o registro fotográfico da usina de reciclagem:

Figura 14 – Parte central da usina de reciclagem

Fonte: arquivo pessoal da pesquisadora (10/05/2017).

Dou bom dia a um grupo de mulheres que sentadas fechavam grandes sacos de material. Quase todas usavam o uniforme da associação (ASCAJAN). De várias idades, provavelmente boa parte delas, aparentava mais idade do que o que realmente possuía. Do outro lado, mulheres de pé e de costas, dispostas em divisórias que pareciam guichês individuais. Cada uma das divisórias ficava sob uma extensa rampa na qual eram depositados os resíduos sólidos que deveriam ser reciclados. Ao lado de cada mulher, vários galões que serviam de depósito para diferentes tipos de material: plástico, latinha, papel, papelão. Uma vez cheios eram carregados para o meio do galpão e substituídos. O barulho das garrafas no interior do galpão se misturava aos dos caminhões do lado de fora transportando o material reciclável. Um sistema de som reproduzia a programação de uma rádio popular, alternando forró e músicas religiosas. As mulheres não usavam nenhum material mais específico para o trabalho.” (Diário de campo, 10/05/2017).

Fonte: arquivo pessoal da pesquisadora. 10/05/2017.

Antes do centro de triagem o que havia era o antigo aterro do Jangurussu, projetado para uma vida útil de 10 anos, mas acabou funcionando por 20 anos. Atendia toda Fortaleza, recebendo uma média diária de 3.300 toneladas de lixo, que era distribuída numa área de 31,6 hectares. Ao ser inaugurado o local era um aterro que obedecia às normas técnicas sanitárias, mas com o passar dos anos devido à falta de manutenção e descaso com essas normas o aterro sanitário acabou virando “lixão” (ANTIGO..., 2015).

Como parte da pesquisa bibliográfica, documental e virtual, reproduzo neste tópico alguns relatos de uma pesquisa sobre a memória do bairro realizada pela juventude moradora do Jangurussu:

Em 1973, quando as primeiras pessoas construíram casas de taipa cobertas com folhas de palmeira e era tudo lama, cheio de cobras, não havia nenhum meio de transporte. Só tinha um caminhão que buscava os trabalhadores. Quem perdesse a hora, faltava o trabalho. (Vanessa Ribeiro, 18 anos, moradora do conjunto Palmeiras. Pesquisa Jangurussu Digital). 60

Em 1996 a carga máxima permitida para o funcionamento do aterro foi ultrapassada, mas o mesmo só foi desativado em 1998. Foi uma longa negociação. Muitos moradores não queriam abrir mão do trabalho por conta própria, mais rentável, ainda que sem suporte ou segurança. Para eles a insalubridade era compensada por verem suas necessidades de vestimenta e alimentação “supridas” pelo que o lixão lhes fornecia.

Os moradores mais velhos dizem que o bairro melhorou. Na década de 90, eles ganharam umas 70 casas e o pessoal saiu da beira do rio. O difícil é entender que o lixo é a alegria do povo. É dele que eles tiram o sustento e como o aterro fechou, as pessoas reclamam. (Clézio de Oliveira, 17 anos, morador do Grande Jangurussu).61

Tratava-se de uma questão delicada uma vez que do ponto de vista ambiental os prejuízos eram muitos: ocorrência de incêndios devido à combustão de metano; produção de chorume (líquido tóxico resultado da decomposição dos resíduos) causando a contaminação do rio Cocó e o comprometimento da saúde da população.

A rampa só foi totalmente desativada em 2003, sendo criada a ASCAJAN que assumiu junto com o poder público a administração do espaço. Há muitos barracos ao redor da usina. Como dissemos, são famílias que vivem das sobras da cidade, algumas por falta de opção e outras porque ainda veem no lixo uma fonte de abastecimento das suas necessidades.

60Página Jangurussu Digital (ESTUDANTES..., 2011). 61Página Jangurussu Digital (ESTUDANTES..., 2011)

Margarida, filha de Dona Rosa, falou-me certa vez sobre a opção de ser catadora e não fazer parte da ASCAJAN. Ela tem 28 anos e trabalha com reciclagem desde os 12 anos de idade. São 16 anos trabalhando com reciclagem. Encontro-a em seu barraco que ficava ao lado da usina de reciclagem, de cócoras, lavando roupa em uma bacia:

A maior parte das coisas aqui de casa vem da usina. Lá tem de tudo. Eu acordo às 5h e vou trabalhar. Quando volto é de tarde. Aí venho arrumar uma ou outra coisa dentro de casa. Eu tiro R$ 400,00, R$ 500,00 por quinzena. Tem um lado difícil, quando chove é horrível. Só dá pra trabalhar com uma bota que proteja muito. Tem muita lama, o mau cheiro aumenta. Tirando isso eu não acho ruim ser catadora. (Margarida. Entrevista em 03/05/2017).

Na época da entrevista, Margarida ainda morava com as suas filhas num barraco bem ao lado da usina. No segundo semestre de 2017 os moradores dos barracos tiveram que se mudar porque foram expulsos pelos membros da facção que atua no bairro Barroso. O pai de Margarida quase foi baleado. Atearam fogo nos casebres e a população passou a viver de aluguel. No dia em que fui entrevistá-la tive que ir sozinha, enfrentar o caminho enlameado e

o meu medo, mesmo que ainda não tivesse a noção exata do perigo que eu corria.62

Antes de percorrer a linha formada pelos barracos, vejo mulheres com olhares curiosos nos portões de suas casas, como a se perguntar: Quem é essa mulher? O que ela faz aqui? Grupos de homens sentados nas calçadas me olham desconfiados e o meu constrangimento aumenta mais. Mesmo com uma aparência bem mais discreta que antes, me sinto vulnerável. Uma súbita vontade de sair correndo dali, disfarçada sob um sorriso amarelo ao notar alguém me encarando. A sensação de mal estar aumenta. Em meio a vontade de chegar logo ao meu destino, agora sou eu que me indago por dentro: O que eu faço aqui? Onde é que eu fui me meter? (Diário de Campo. 03/05/2017).

“Nem todos os catadores fazem parte da associação”, continua me contando Margarida. Segundo ela, é melhor se responsabilizar pela venda e comercialização do que coletam, sem a ação de atravessadores. Várias famílias vivem assim porque preferem “não ter patrão” e podem fazer o seu horário já que “o dia inteiro tem caminhão trazendo material”. Além do que, eles não precisam repassar nenhum valor para a associação e nem lidar com os desafios do trabalho em grupo. Por outro lado, não possuem direitos trabalhistas como férias ou 13º salário, nem aparato legal caso adoeçam.

De qualquer modo, trabalhando diretamente na usina ou não, morar nos seus arredores era estar na parte mais desassistida da comunidade, num lugar onde a precarização da vida material era a regra e a violência ganhava ares de barbárie. Os barracos eram feitos em grande parte de uma combinação de madeira, plástico, papelão e tijolos. Não havia

62A usina e os barracos ao redor demarcam a linha divisória entre duas facções rivais na região. Da usina para lá

saneamento, quando chovia fazia muita lama e era possível que estivesse misturada com chorume.

Nada comprometia mais a qualidade de vida dos moradores e moradoras do que o fato da usina estar há poucos metros da divisa entre o Gereba e a comunidade Babilônia, região considerada atualmente como um dos grandes redutos do narcotráfico em Fortaleza. “Teve até tiroteio lá dentro da usina, depois disso só entra lá se deixar a identidade”, diz Dona Orquídea, uma de nossas interlocutoras.

No sentido de minorar tanto a problemática da pobreza quanto a da violência na comunidade, historicamente foram sendo criadas estratégias a partir da sociedade civil, algumas vezes em parcerias com o Estado, traduzidas na ação dos projetos sociais no Gereba. Por ser esse o lócus de onde surgem as bases para a contextualização do nosso objeto, consideramos relevante, portanto, apresentar a seguir um quadro geral desses projetos e ações sociais, pontuando rapidamente o trabalho desenvolvido na sede da antiga associação de moradores e moradoras e o surgimento do Projeto Amo Cuidar.

2.2.2 Os projetos sociais como expressões de resistência no Gereba – palco de atuação para