O exercício da Responsabilidade Social das Empresas, tal como referido na seção 2.1.4., envolve práticas e políticas empresariais que harmonizem compromissos de natureza econômica, legal e ética com a sociedade. Embora estes três vetores da RSE confiram às empresas significativa liberdade de interpretação e de realização, é na Responsabilidade Ética que essa liberdade de ação e de decisão se revela mais ampla e, porventura, mais crítica. Muitas decisões empresariais não estão freqüentemente reguladas pela legislação, dependendo, em larga medida, das crenças individuais e das normas sociais que orientam as escolhas de cada agente de decisão no contexto empresarial. Os valores que constituem o referencial de cada dirigente são, desta forma, um fator essencial para compreender a sua visão pessoal do papel que as empresas devem ter na sociedade, decorrente necessariamente da visão pessoal que tem do mundo.
Em termos filosóficos, a análise ontológica do ser e da sua essência não é suficiente para construir uma visão do mundo e da vida, a qual necessita de uma abordagem axiológica que permita distinguir as múltiplas concepções entre si e escolher aquela que melhor corresponde à visão pessoal, aquela considerada mais valiosa (HESSEN, 2001). É nesta escolha que residem os valores pessoais. E embora cada indivíduo possua um sistema de valores próprio, ele é socialmente construído e está intimamente ligado à condição espiritual da vida humana. As prioridades que cada pessoa estabelece ao longo da vida e os objetivos, as coisas, as idéias, as ações e as pessoas que valoriza são uma manifestação do sistema de valores que regula a sua conduta num permanente desafio interativo entre crenças e experiências. O conhecimento sobre como uma pessoa hierarquiza os valores permite uma aproximação ao conhecimento do seu caráter e à forma como se comportará perante as circunstâncias da vida que exigem um julgamento moral. Ora no campo organizacional, a concepção sobre quais são as responsabilidades das empresas perante a sociedade e como estas devem ser cumpridas constitui uma dessas circunstâncias, dado implicar um julgamento subjacente sobre a vida em sociedade e a finalidade da ação humana. Por isto, o estudo dos valores humanos básicos que regulam as crenças individuais dos dirigentes pode contribuir para compreender a natureza das motivações éticas profundas que influenciam algumas das práticas e das políticas empresariais.
Embora não esgote a diversidade de concepções filosóficas nem retire pertinência a abordagens alternativas, a teoria de Schwartz (1992, 1994) sobre o conteúdo e a estrutura universal dos valores humanos parece ser a mais completa e a mais exaustivamente estudada até ao momento. Tal como referido na seção 2.2.4.2., a sua pretensão visa compensar algumas das insuficiências das abordagens anteriores, constituindo um avanço importante na tentativa de construir uma teoria dos valores humanos ajustada à diversidade que caracteriza a generalidade das sociedades em todo o mundo. A adoção da teoria dos valores motivacionais de Schwartz deve, no entanto, respeitar algumas considerações sobre o seu enquadramento filosófico. Desde logo, Schwartz rejeita a concepção de uma hierarquia prévia e universal de valores, defendendo que essa ordenação axiológica é definida em termos pessoais por cada indivíduo, de acordo com a sua estrutura motivacional própria. Por isto, o autor parece rejeitar a rigidez da hierarquia de valores sugerida nas classificações de Scheler ou de Hessen. Os Valores Religiosos passam à condição de sub-dimensão do valor motivacional Tradição e os Valores Éticos diluem-se nos valores motivacionais do eixo Autopromoção – Autotranscendência. No valor Universalismo chegam mesmo a ser misturados Valores Éticos (da preocupação com o bem-estar alheio) com Valores Estéticos (da preocupação com a beleza). Por outro lado, são incluídos valores que não parecem enquadrar-se naturalmente nas classificações filosóficas, tais como os valores de Estimulação, Conformidade ou Autodeterminação. Estas divergências não comprometem, no entanto, a relevância teórica da proposta de Schwartz, cuja validade foi confirmada em múltiplas pesquisas empíricas.
A principal contribuição da sua teoria reside na identificação da estrutura motivacional subjacente às preferências axiológicas individuais, constituída por 10 valores motivacionais representativos dos fins que se pretendem atingir com a adesão a determinados valores específicos. Estes fins, por sua vez, derivam de necessidades humanas básicas. Schwartz propõe, assim, uma abordagem dos valores a partir das motivações humanas que promovem a satisfação de necessidades. Como descrito na seção 2.2.4.2., os 10 valores motivacionais encontram-se organizados numa estrutura circular que pretende traduzir as relações de complementaridade e de conflito que a satisfação das necessidades subjacentes a cada valor implicam. Na representação gráfica circular, os valores adjacentes cumprem necessidades compatíveis entre si, enquanto os valores opostos referem-se a objetivos mutuamente exclusivos que implicam a clarificação de escolhas. No entanto, tal como refere Schwartz (2005a), os tipos motivacionais de valores adjacentes podem ser combinados em tipos de ordem superior que não precisam de coincidir necessariamente com aqueles identificados nas
TESE DE DOUTORADO EM ADMINISTRAÇÃO Responsabilidade Social das Empresas e Valores Humanos
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amostras estudadas pelo autor, o que dá aos pesquisadores “a liberdade de formar quaisquer
tipos de ordem superior que se encaixem particularmente bem aos tópicos que estudam, desde que os tipos motivacionais sejam adjacentes” (2005a: p. 49). Neste caso, a análise
detalhada dos significados dos valores motivacionais e da sua relação com os compromissos sociais das empresas, sugere uma alteração das designações atribuídas aos eixos de ordem superior. Essas propostas estão expressas na Figura 14.
Nesta nova estrutura elaborada a partir da versão original de Schwartz, são reunidos em uma única polaridade os valores motivacionais Hedonismo, Realização e Poder. Estes valores refletem um conjunto de preferências e de objetivos centrados prioritariamente no
Bem-Estar Individual. No outro pólo deste eixo, mantêm-se o Universalismo e a
Benevolência, constituindo valores centrados no Bem-Estar Coletivo (o Universalismo refere-se ao bem-estar coletivo e à preservação da Natureza e a Benevolência refere-se ao bem-estar de quem é afetivamente próximo do sujeito). Este eixo de ordem superior que opõe o Bem-Estar Individual ao Bem-Estar Coletivo diz respeito aos Valores Éticos, tal como identificados na classificação geral de valores humanos básicos apresentada na Figura 10 da
Independência e Empreendedorismo Bem-estar Individual Bem-estar Coletivo Estabilidade e Conservadorismo Autodeter- minação Universalismo Estimulação Hedonismo Realização Poder Segurança Conformidade Tradição Benevolência
seção 2.2.3.. No outro eixo, opõem-se o que pode ser considerado de Valores Práticos, ou