Nesta seção descrevo os participantes dessa pesquisa, sendo oito alunos focais e a professora pesquisadora.
2.3.1 Os alunos focais
Após a um levantamento sobre o nível de interesse dos alunos a respeito do aprendizado de inglês (realizado a partir de um questionário de análises de necessidades da classe composta por 45 alunos), foram selecionados apenas 5, sendo três que disseram estar muito interessados no aprendizado de inglês (Alan, Tatiana e Karen6 e dois que disseram não estar interessados (Rodrigo e Carla). No ano seguinte, Rodrigo desistiu da escola e o Alan pediu transferência. Selecionei então mais três alunos (Cybele, Danilo e Ricardo). Cybele e Danilo, mesmo não sendo alunos focais desde o início da peqsuisa, tinham conhecimento do trabalho que estava sendo desenvolvido e, indiretamente, já participavam e sabiam quais os temas discutidos. Somente Ricardo veio de outra escolae não conhecia o nosso trabalho.
Rodrigo
Rodrigo, no início da pesquisa, tinha 17 anos, trabalhava em uma empresa que presta assistência técnica a celulares, estava cursando a 1ª série pela segunda vez. Durante o ano de 2007, faltou muito às aulas, porque saía muito tarde do serviço e não conseguia chegar à escola. Era falante, e tentava dividir a sua atenção entre as explicações da professora e a conversa com um colega de classe. No final do ano quase
6 Os nomes dos participantes desta pesquisa são fictícios a fim de preservar a identidade dos
foi retido, conseguindo ser aprovado com notas mínimas em quase todas as matérias; foi aprovado em uma delas pelo Conselho de escola. Dizia não gostar de inglês porque ser muito complicado, e porque ser algo que ele fazia por obrigação. Morava com os pais, tinha uma irmã mais nova que estudava na mesma escola, cursando a mesma série que ele, só que em turma diferente. A irmã, apesar de não ser faltosa e ser muito disciplinada, apresentava as mesmas dificuldades que ele em relação ao inglês. É filho de libanês, mas na família ninguém fala outra língua além do português.
Rodrigo retornou à escola neste ano de 2008. Continuava com problemas para chegar no horário, mas estava com outra postura em relação aos estudos e, durante as aulas que assistiu, desenvolveu as atividades propostas com bastante empenho. Deixou a escola antes que terminasse o primeiro bimestre com a promessa que se matricularia na EJA (Educação de Jovens e Adultos). No entanto, ainda não retornou à escola e está apenas trabalhando.
Apesar do Rodrigo não ter participado das últimas etapas do trabalho, contribuiu muito no início da pesquisa e seus dados são de extrema relevância para o desenvolvimento do trabalho e serão utilizados, pois o objetivo inicial, etapa na qual ele participou, foi o que norteou as demais, o levantamento dos sentidos e significados sobre ensino-aprendizagem de inglês dos alunos da rede pública de ensino.
Alan
No início da pesquisa, Alan tinha quinze anos, era considerado o “CDF” pelos colegas da sala, e por essa razão sofria uma certa rejeição e distanciamento por parte deles. Era assíduo e estava sempre adiantado, terminando as atividades antes dos demais colegas, sendo um excelente aluno em todas as disciplinas. Apresentava uma postura crítica e achava negativa a postura dos colegas e até de certos professores, que segundo ele, não cobravam o quanto deveria.
É interessante ressaltar que pude observar na fala de alguns professores, mesmo em tom de brincadeira, certo incômodo, diante da sua postura crítica. É filho único, de mãe boliviana e pai pernambucano. Alan frequentou um semestre de um curso de inglês e pretende voltar logo que possível, pois gostou muito. Segundo ele, o pai sempre o estimulou a gostar de inglês e a mãe tem conhecimento básico da língua. Faz cursos extracurriculares e tem o hábito de rever as matérias estudadas ao chegar em casa. Alan mostrou-se muito insatisfeito com escola e com a turma na qual estava inserido e desde o final do ano letivo de 2007, mostrou-se desejo de mudar de escola. Foi o que fez no
início deste ano letivo de 2008; mudou-se para uma escola vizinha, que julgava um pouco melhor. No entanto, ainda encontra muitos problemas, tanto na escola, quanto na postura dos colegas.
Carla
Carla tinha 15 anos no início da pesquisa; é falante e extrovertida e a todo instante faz questão de dizer que não gosta de inglês porque é algo muito difícil de aprender. Define-se como uma pessoa autêntica, deseja ser advogada para dar orgulho à família, aos amigos e às pessoas que acham que ela é só uma garota bagunceira. No início desse ano, começou com uma postura de desânimo em relação a aprender inglês, mas após retornarmos as nossas conversas, tem se empenhado mais e tem cobrado que os colegas do seu grupo encarem as atividades de forma diferente.
Tatiana
Tatiana tinha 16 anos no início da pesquisa, sempre foi muito quieta e introvertida, não trabalha fora, mas ajuda nas atividades domésticas. Apresenta muitas dificuldades, mas se esforça para superá-las. Gosta de ler, diz que, diferente de alguns colegas, vem para escola realmente para estudar e o que mais a irrita é a bagunça dos colegas, pois isso a atrapalha. Ainda não sabe o que quer fazer no futuro, mas pretende cursar uma faculdade, já que a irmã está conseguindo fazer isso.
Cybele
Tinha 15 anos no início da pesquisa; na 1ª série era uma aluna mais dedicada em relação a 2ª série, continua participando das aulas, mas, devido às novas amizades que fez nessa série, mudou um pouco a postura. Ela justifica essa mudança pela ausência de uma colega que mudou de horário, alegando que a amiga a estimulava a ser mais participativa, enquanto os amigos desse ano fazem o contrário. Diz estar muito interessada em aprender inglês, gosta de música em inglês, já atua no mercado de trabalho, local onde tem oportunidade de ouvir pessoas que falam inglês. Gosta de estudar na escola pública. Espera ter uma carreira brilhante e poder utilizar o inglês para se comunicar
Karen
Tinha 16 anos no início da pesquisa, é falante e está sempre junto às amigas, e mesmo demostrando interesse em aprender, costuma deixar-se influenciar pela conversa dos outros alunos, muitas vezes perdendo a oportunidade de realizar as tarefas escolares.
Danilo
Tinha 16 anos, é um aluno bastante focado, participa das aulas, e passou por uma mudança interessante desde o início da pesquisa. Era um aluno que não realizava todas as atividades, contudo após passar a fazer parte do grupo de alunos envolvido na pesquisa, revelou-se mais consciente sobre o seu papel em sala de aula, e tornou-se um dos melhores alunos, inclusive ajudando os colegas. Durante o segundo o ano letivo de 2008, houve uma grande aproximação dele com a professora pesquisadora, fato esse que pode ter contribuído para a mudança da sua postura. A partir do início do 2º bimestre, levou uma amiga desinteressada a participar mais da aula. Ao invés de se deixar levar pelos motivos dela, como acontece na maioria das vezes, ele fez o contrário.
Ricardo
Tinha 16 anos, é um aluno engajado, participa do Grêmio da escola, gosta de inglês, mas, muitas vezes deixa de realizar as atividades porque se envolve mais com as atividades do grêmio. Cursou o ensino fundamental em uma escola particular, e sente bastante diferença em relação ao ensino da escola pública, não apresenta dificuldade em relação à aprendizagem dos conteúdos da disciplina de inglês.
2.3.2 A professora pesquisadora
Sou professora da rede publica estadual de ensino desde 2001, e na escola na qual desenvolvo a minha pesquisa, trabalho desde 2004. Atuo também como professora em uma ETEC – Escola Técnica Estadual, lecionando inglês para o ensino médio regular e português para os cursos de Administração e Eletrônica. Cursei a graduação em Letras na UNISA – Universidade de Santo Amaro e tinha como objetivo ser professora de português, já que gostava muito da disciplina e não tinha conhecimentos
de inglês. No entanto, durante o curso, a minha atenção voltou-se para o inglês, graças à interação com um professor, hoje doutor pela PUC, mas que na época estava terminando a sua dissertação de mestrado.
Naquela época, já havia começado a olhar para o inglês com outros olhos, já gostava e pude entender porque o inglês que tive no ensino médio significou muito pouco para mim trazendo poucas recordações das aulas e dos professores. O inglês que durante muito tempo foi sem sentido para mim, de repente, passou a fazer parte da minha vida e passei a desejar ser professora de inglês também. Apesar de saber que o curso deixou muitas lacunas na minha formação como professora de inglês, comecei a me interessar pela Teoria Sócio-Histórico-Cultura. As leituras sobre mediação e o papel das interações sociais no desenvolvimento do aluno eram questões que me pareceram relevantes no meu contexto profissional.
Após terminar a graduação, passei a lecionar português e inglês na rede estadual, e, nesse contexto de atuação, deparei-me com vários problemas; vi que muitas coisas que aprendi não faziam muito sentido. Alem disso, muitas vezes, não sabia nem por onde começar, pois nada me foi explicado. Isso me incomodava muito e sentia que precisava mudar, melhorar para ajudar os meus alunos e a mim mesma.
Devido a essa angústia e decidida a não me tornar “mais uma” professora de inglês da rede pública, que, como dizem, só ensina o verbo “to be”, em 2003, iniciei um
curso de especialização em língua portuguesa no COGEAE-PUC/SP.
Concomitantemente, comecei a frequentar o curso de inglês para formação de professores oferecido pela Cultura Inglesa em parceria com o Programa do LAEL da PUC/SP. Terminados os módulos de língua inglesa, fui para a PUC a fim de dar continuidade ao curso cujos módulos tinham por objetivo levar os professores a refletir sobre a própria prática. O curso Reflexão sobre a ação: o professor ensinando e
aprendendo foi de extrema importância, pois pude voltar minha atenção para as minhas ações, para os meus alunos e perceber possibilidades de mudança.
Terminado o curso de Reflexão, já senti um impacto muito grande em minha prática - eu havia cruzado uma fronteira, entre o ensinar inglês apenas como estrutura para pensar e ensinar o inglês que fizesse algum sentido. Isso ficou claro na reação dos meus alunos e nas minhas próprias atitudes; jamais fui capaz de voltar a passar conteúdo gramatical na lousa, simplesmente por passar. Qual era o objetivo, do que adiantava ele saber o conteúdo gramatical X, se não faz nenhum sentido para ele, se não
se relaciona a nada na sua vida. Passei também a elaborar o meu próprio material de trabalho, adaptá-los para atender melhor as necessidades dos meus alunos.
Os problemas não se resolveram, é claro, mas passei e vê-los de forma diferente e acreditar que, talvez, não consiga resolvê-los, pois sabemos dos inúmeros problemas enfrentados pela escola, pelos alunos e professores, mas tive consciência de que o que fazia não era o melhor e que eu poderia fazer mais para melhorar.
Durante o curso de Reflexão, conheci alguns professores do LAEL e obtive informações sobre o curso de projeto de pesquisa oferecido também pela PUC e ministrados pelas professoras Sueli Fidalgo e Alzira Shimoura; no ano seguinte, retornei à PUC para elaborar o projeto que deu origem a presente pesquisa.
Mas essa pesquisa só se estabeleceu e encontrou o seu verdadeiro objetivo, após passar a frequentar o grupo de pesquisa ILCAE, do qual atualmente faço parte, pois foi o foco na questão da relação dialética inclusão/exclusão, exercido pela escola, que trouxe o verdadeiro sentido do que pretendia ao investigar os sentidos e significados dos meus alunos.
Acho relevante acrescentar aqui que entre os motivos citados anteriormente para o desenvolvimento dessa pesquisa, está ainda a crença na possibilidade de mudança das realidades sociais excludentes; ainda que pareça utopia, acredito que, no papel de educadora, faça diferença na vida de muitos alunos. Sei que apesar da qualidade de ensino da escola pública ter piorado muito nas últimas décadas, a escola ainda é, para muitos, o único espaço onde são ouvidos, onde ainda conseguem sentir-se como parte de uma sociedade de direitos. Sei também que o professor sozinho em sua sala de aula não resolverá todos os problemas, mas acredito que de forma colaborativa, com toda comunidade escolar, alguma diferença ele pode fazer; pode não atingir 100% dos alunos, mas o mínimo que conseguir, será significativo, pois será melhor do que não fazer nada.