A disputa pela fazenda teve início em 1987, quando seu proprietário faleceu, deixando-a para 12 herdeiros. Em julho de 1988, eles colocaram-na “à disposição do Plano Regional de Reforma Agrária”260. Em agosto do mesmo ano, o Mirad encaminhou uma equipe para vistoriar o imóvel: os agentes calcularam a fazenda em 1.363ha e observaram que
257 “Dossiê de Auxiliadora Bezerra”, p.18. “FETRAECE não apóia movimento de oposição ao sindicato de Itapiúna”. Matéria de jornal sem data e local de publicação.
258 Cf: MEDEIROS, Leonilde Servolo de. Os Trabalhadores do Campo e Desencontros nas lutas por Direitos... Op. Cit. p.163-164.
259 Em 1988, a Igreja participou de um breve conflito envolvendo os moradores do recém fundado Assentamento Nova Olinda, próxima à Palmatória. Seu Brasilite, que possui terras limítrofes à Nova Olinda, tentou se apossar de parte do assentamento ameaçando de despejo as famílias que tinham suas casas na faixa reivindicada por ele. Em 16 de dezembro, o juiz Washington Dias a ordem de despejo para a família do morador José Matias. “As famílias se reuniram e buscaram apoio da Igreja, CPT, e em frente à casa despejada permaneceram por muitos dias. Em sinal de solidariedade mais ou menos 400 pessoas ficaram presentes” no local. Durante o acampamento, o momento mais místico foi o natal, realizado entre os militantes e as famílias da comunidade. A questão foi solucionada a favor dos assentados após 11 dias. Livro de Tombo da Paróquia, fls. 52-frente.
260 Requerimento ao “Ilmo. Sr. Delegado Regional do MIRAD – Seção do Ceara” envaido pelos herdeiros proprietários da Fazenda Massapê. Fortaleza, 20 de julho de 1988, fls. 07. “PA. Massapê”, Arquivos INCRA.
apenas 62 hectares eram cultivados pelas 11 famílias residentes, que praticavam um regime de três dias de trabalho por semana prestados à fazenda, sendo que “toda a produção era destinada para os mesmos”. Até então, inexistiam “conflitos” ou “tensão social”261.
Em 27 de setembro de 1989, a União declarou Massapê de “interesse social, para fins de reforma agrária” e em 21 de novembro o INCRA já solicitava “a liberação de recursos orçamentários/financeiros, face à grave tensão social reinante no imóvel, haja vista que o mesmo foi invadido por trabalhadores rurais sem-terra que se encontram acampados na área”262. A ocupação da terra havia sido precipitada pela expulsão dos moradores em meio à incerteza da desapropriação.
Expulsos, eles procuraram apoio da Igreja – que através de Auxiliadora articulou apoio do MST e da CPT – e retornaram em 06 de janeiro de 1990 criando um acampamento na fazenda. Então, o INCRA negociou com os proprietários prometendo agilizar a emissão de posse em troca do compromisso de que os ocupantes não seriam expulsos. Porém, o pagamento da desapropriação não foi efetuado e os herdeiros ameaçaram queimar os barracos, proibindo os acampados de plantar e movendo uma ação judicial de despejo263. Amedrontados, eles organizaram uma comissão com 17 das 28 famílias para ir até a Superintendência do INCRA em Fortaleza, no dia 08 de janeiro. Organizado em torno do MST e da CPT, 13 comunidades que sofriam conflitos semelhantes participaram da ação264.
No retorno, os ocupantes lançaram mão de uma estratégia para legitimar a posse da terra: “as famílias começaram um trabalho coletivo como meio de sobrevivência” com plantação de hortaliças, pesca e agricultura como também construção de barrocas para garantir as suas moradias, embora provisória265. As dificuldades no acampamento eram enormes, como recorda Pe. Eudásio:
o Massapê nos deu muito trabalho[...], adoeceu tanta criança, praticamente a gente abandonou a paróquia nesse tempo para dar atenção aos doentes que estavam na nossa fazenda só levando para o hospital[...] Então nós usamos uma estratégia, tinha mais de cem crianças, nós começamos a fazer uma horta comunitária aguada[...], botava a criançada para carregar água e aguar os tomates, aguar o pimentão, nosso trunfo foi isso aí.
261 “Laudo de Vistoria e Avaliação”, MIRAD. Fortaleza, 19 de agosto de 1988, fls. 9 a 13. “PA. Massapê”, INCRA.
262 Circular do INCRA, Brasília, 21 de novembro de 1989, fls. 129. “PA Massapê”, INCRA.
263 Documento enviado “Ao Congresso Nacional”. Itapiúna, 31 de maio de 1990. “Dossiê de Auxiliadora Bezerra”.
264 Jornal O Povo, 09 de janeiro de 1990. “INCRA volta a ter acampados”; & Livro de Tombo da Paróquia, fls. 55-verso.
265 “Para os camponeses, a posse sem trabalho é impensável, uma vez que toda terra que tenham deve ser utilizada”. HOBSBAWM, Eric. Os Camponeses e a Política. Op. Cit. p. 244.
O movimento buscava legitimidade concretizando a ocupação por meio do trabalho coletivo dos mutirões. Nesse sentido, Massapê revela um aspecto comum a todos os conflitos pela posse da terra em Itapiúna, fossem de resistência à expulsão ou ocupações: a reivindicação do direito à terra estava assentada em noções costumeiras sobre o direito de uso, constituídas, em alguns casos, a partir de longo tempo de trabalho investido na terra. Alguns conflitos questionaram a legalidade da posse, como ocorreu em São José, mas quase todos contestaram sua legitimidade, por meio da percepção de que é o trabalho que justifica a apropriação da terra266.
Ignorando isso, o juiz Washington Dias aprovou, em 16 de julho de 1990, o despejo e pediu reforço policial para a desocupação. O movimento de apoio aos acampados encaminhou ao INCRA e o Governo Estadual um pedido de anulação do despejo, alegando que haviam cultivado, consentidos pelos proprietários, uma propriedade completamente improdutiva267. Eles tentavam evitar o festival de humilhação ocorrido durante a presença do batalhão de choque para desocupar a Fazenda Touro. A reivindicação deu certo. Com a mediação de D. Adélio (bispo de Quixadá), o governador Ciro Gomes comprometeu-se a não enviar a polícia para a ação. Ao mesmo tempo, como tratava-se de uma desapropriação da União, a Justiça Federal suspendeu as interferências da comarca local.
Mesmo assim, as ameaças pioraram. Em maio de 1990, três acampados, Auxiliadora e seu namorado foram jurados de morte por um dos herdeiros. Em 19 de julho, a esposa de um dos herdeiros tentou agredir Auxiliadora dentro do acampamento. Em outra ocasião, na manhã do dia de 30 de julho, ela foi abordada por um carro, de onde lançaram um bilhete feito de letras de jornal dizendo: “vocês vão morrer”. Logo em seguida, Pe. Eudásio atendeu uma chamada telefônica com as mesmas ameaças.
Nesse clima, o acampamento recebeu duas visitas polícias, sendo uma delas dos federais268. Sobre essa visita, Padre Eudásio relembrou:
a polícia federal veio averiguar... porque falaram que nós tínhamos depredado a fazenda, estragado as fruteiras. E na realidade eles viram um oásis no deserto, muito feijão, muito tomate, muito pimentão. Então eu ouvi
266 Num sentido um pouco diferente, Leonilde S. de Medeiros afirma que o ciclo de ocupações iniciado a partir da segunda parte dos anos 80 atualizou a noção de “função social” da terra, na medida em que a legitimidade da propriedade não estava em sua destinação produtiva e sim na necessidade de democratização da terra. Nesse sentido, essa luta deslegitima a barreira legal imposta à desapropriação de terras produtivas, que na prática, inviabiliza a reforma agrária no Brasil. MEDEIROS, Leonilde Servolo de. Os Trabalhadores do Campo e Desencontros nas lutas por Direitos. In: CHEVITARESE, André Leonardo(org.). O Campesinato na História. Rio de Janeiro: Relume Dumará; FAPERJ, 2002, p.165.
267 Documento enviado “Ao Sr. Governador Estado Tasso Jereissati”. Itapiúna, 16 de julho de 1990. Fonte cedida por Auxiliadora Bezerra.
quando um disse pro outro: “esse pessoal ta precisando de uma chance de trabalhar”. Com poucos meses, veio a emissão de posse269.
Assim, no dia 07 de abril representantes do INCRA foram até Massapé realizar a cerimônia de posse da terra. A militância da Igreja sentiu-se incomodada, e até desrespeitada, por causa de duas circunstâncias que tornaram a “cerimônia profundamente frustrante”: a primeira era a presença de “políticos que se mantiveram sempre ao lado dos latifundiários. Dessa situação quiseram tirar proveitos fazendo-se de pessoas solidárias aos pobres. A segunda foi o discurso do “presidente do INCRA”, que “exaltou por demais a pessoa de Fernando Collor, apresentando o seu Plano de Reforma Agrária e humilhando todos aqueles que trabalharam por esta vitória. Os trabalhadores ludibriados pela conversa, os aplaudiram”270.
Nesse dia foi uma decepção, quem recebeu os aplausos: o Oscar Moreira Dantas, o Carlos Candú [vereadores da situação no mandato de Zé Nilton], todo aquele pessoal que estava contra nós foi quem recebeu os aplausos no dia da posse. E os desabafos do agente do INCRA: “esse grupo que oprime o povo, esse grupo que gosta de baderna, que gosta de invadir terra e tomar terra”, aquela coisa toda. Os trabalhadores não deram um pio na nossa presença, simplesmente. Nós ficamos com o rabo entre as pernas. Naquele dia nós não valíamos nada para aquele povo. E “obrigado Carlos Candú, obrigado Oscar”, aquela coisa toda, até excluíram...[...] Aí quando Dom Adélio veio celebrar aqui (já era outro dia) era de fazer vergonha, quase ninguém foi pra missa, ele chegou lá nem o altar estava pronto, muito sujo, o ambiente lá, já percebemos que aquilo seria mais uma merda271.
É um relato desanimador e ao mesmo tempo instigante. As utopias e expectativas forjadas no processo de luta pelos militantes católicos foram, sem dúvida, distintas das cultivadas pelos camponeses. A relação entre eles cultivada criou alguma identidade em comum, mas aparentemente no interior de um projeto que, antes de pertencer aos camponeses, os incorporava272. Certamente, a passividade da comunidade diante das ofensas contra os militantes foi covarde, porém eles não se calaram somente por isso: visivelmente estavam empolgados com a festa e buscavam legitimidade entre aqueles que de fato detinham poder e acesso a recursos.
Nesse sentido, a decepção com os resultados concretos dos esforços realizados, quando acreditavam estar construindo algo radicalmente diferente e exemplar, decorria da
269 Entrevista com Pe. Eudásio, em 18 de outubro de 2008. 270 Livro de Tombo da Paróquia, fls. 57-frente a 58-frente. 271 Entrevista com Padre Eudásio, em 18 de outubro de 2007.
272 PEIXOTO, Rodrigo. Problemas Atuais da Ação da Igreja na Região do Araguaia-Tocantins. DINIZ, Ariosvaldo da Silva et. al. Brasil Norte e Nordeste... Op. Cit. p.130.
expectativa medonha que vinha sendo gestada, muitas vezes maior que a capacidade e potencial real das forças sociais, culturais, econômicas e políticas em jogo. Padre Eudásio é um dos que avalia esse passado com um peso negativo muito forte.
Em Touro as expectativas também se viram frustradas. Ainda durante o conflito, eles já planejavam e preparavam o futuro daquele assentamento.
Outra decepção foi essa aqui, faz até vergonha dizer isso. Nós trabalhávamos como usar a terra quando a reforma agrária viesse, como fazer o manejo da terra. Naquele tempo nós já sonhávamos com as coisas também na linha da preservação ambiental, nós trabalhávamos também com a questão do coletivo: “essa parte aqui vai ser para trabalhar no coletivo, essa parte aqui vai ser para trabalhar no individual273.
Outrossim, o funcionamento do assentamento, após a emissão de posse, demonstrou como suas utopias estavam distantes de serem concretizadas. A comunidade não deu importância ao trabalho coletivo e se dividiu em duas associações.
Depois da posse, começaram a botar pra fora o patrão que estava dentro deles. Tipo de fazer empréstimos e gastar tudo nas bebedeiras e nas farras. Iam pra Baturité, fretavam um carro. Quando chegava o banco para saber o que tinha sido feito com o dinheiro dos empréstimos do gado, dos animais, eles tomavam o gado emprestado dos vizinhos e botavam no roçado deles. Nesse período eles já tinham cortado o vinculo com a gente, quando eles começaram a fazer essas bandalheiras não pediam mais instrução a gente, nós fomos úteis a eles até a distribuição da terra, depois não fomos mais necessários[...] A igreja foi um inocente útil lá, depois que tudo aconteceu, quando nós queríamos dar seqüência aos trabalhos, eles simplesmente não estavam mais precisando da gente274.
Valdízia compartilha de uma avaliação similar, porém de menor desilusão: “de início o pessoal [assentados] ficou cheio de esperança, fazer mil projetos. De repente começaram a fazer projetos errados, se dividiram logo, um fazia projeto pra aqui e pra acolá e ai foi desanimando a gente”275. Diante do “fracasso” de Touro, a esperança foi direcionada para o futuro de Massapê: “a gente alimentava muito que o Massapê ia ser do jeito que a gente queria, porque já tinha apanhado muito, visto nossos erros, já dava pra gente acertar. A gente se culpava pelo insucesso de algumas coisas”276.
Essa “esperança” foi abortada na posse e, posteriormente, confirmada no decorrer da (des)organização do assentamento. É provável até que esse sentimento de derrota esteja ligado ao que aquele momento representou em termos de participação e potencial político.
273 Entrevista com Padre Eudásio, em 18 de outubro de 2008. 274 Entrevista com Padre Eudásio, em 18 de outubro de 2008. 275 Entrevista com Valdízia Freitas, em 15 de outubro de 2007. 276 Entrevista com Padre Eudásio.
Não era só um conflito. Tinha os projetos com as mulheres que as irmãs de Palmatória coordenavam e o dinheiro vinha via prefeitura e o prefeito não repassava o projeto porque nós queríamos que fosse executado do nosso jeito. Tinha nossos acampamentos na prefeitura reivindicando nos períodos das secas, teve problemas de saques também, quer dizer, era tudo ao mesmo tempo, haja cabeça pra você suportar tudo isso. Então não era assim “vamos acabar o conflito do Touro para começar outro não”, tudo foi ficando um terreno minado, as coisas foram explodindo assim concomitantemente277.
Dessa maneira, esse percurso não foi isento de tensões. Se na fase do conflito com o proprietário as expectativas de moradores e militantes pareceram confluentes, complementares, sem incoerências, a conquista da terra e a criação dos assentamentos revelou as contradições entre o “projeto” da Igreja e o dos camponeses. O trabalho pastoral que passou a perceber política e fé como partes indissolúveis obviamente não apagou as distinções no “código sócio-cultural” de ambos, onde quem “fala” e “ouve” possui maneiras peculiares de apropriar-se dos discursos. Para José de Sousa Martins, haveria um “acordo tácito” quando a pastoral católica se põe como “serviço” para os pobres, e não um “equívoco recíproco”278 na maneira como os trabalhadores rurais se apropriaram de seu discurso. Certamente, isso é inegável. Mas a decepção dos militantes católicos com o relativo fracasso dos assentamentos nascidos de lutas tão intensas e da derrota do braço eleitoral dos movimentos, o PT, demonstra como esse “acordo” também comportou “equívocos”.
Essa contradição foi inerente à forma como a Igreja progressista se relacionou com estes sujeitos. A “idealização que ela fez do camponês, apreendido através de um filtro ideológico cheio de expectativas”, construiu uma visão que reduz as pessoas a padrões uniformizadores de comportamentos. “Ressaltando o espírito religioso e a visão coletivista da terra”, a Igreja procurou inculcar “aquilo que ela gostaria que predominasse na cultura popular”, especialmente a forma comunitária de produzir. Assim, “essa insistente preferência por terras coletivas e trabalho comunitário, em detrimento às formas usuais de posse e trabalho”, marcadas pela figura do patrão, “mistifica a realidade ideológica e existencial do lavrador, reforçando a ‘cultura do silêncio’”279.
Antes destas decepções, a força conquistada gerou muito entusiasmo, e então, os militantes partiram para as disputas eleitorais através do PT. Na eleição municipal de 1988, o partido candidatou a vereadores Auxiliadora e Abelardo Barros. Sozinho, o PT precisaria de
277 Entrevista com Padre Eudásio. É a partir dessa decepção que ele ordena suas lembranças sobre as lutas de terra e os movimentos em Itapiúna. A frustração, contudo, não o faz negar a crença na força da organização popular e na reforma agrária.
278 MARTINS, José de Souza. Caminhada no Chão da Noite... Op. Cit. p. 58.
pelo menos 500 votos para eleger um deles. O resultado foi frustrante: os dois candidatos tiraram 112 votos, apesar de representarem um movimento que mobilizava muito mais gente. Para Pe. Eudásio “esse trabalho... era esquecido quando chegava candidato que levava uma rede na véspera da eleição, levava umas coisinhas, cesta de alimentos e a pessoa virava na hora”. Valdízia também avalia a questão da mesma forma:
a gente não tinha o que oferecer, não tinha condição de fazer um trabalho como eles queriam[...]. A gente tinha um campo de trabalho muito amplo, mas o grupo que a gente tinha era muito de representantes, a massa mesmo ainda era muito alienada, queria muito vender ou trocar o voto, e não tinha o trabalho de compromisso mesmo com a mudança280.
Assim, mesmo que os movimentos de luta pela terra tivessem rompido uma determinada forma de dominação, a “hegemonia de classe” e sua correspondente forma de percepção cultural, foram contestadas apenas de forma relativa e continuavam impregnando o cotidiano político. Os laços desfeitos do sistema de dominação paternalista presentes na relação morador-proprietário tiveram na permanência das relações clientelistas de relacionamento com o poder estabelecido, autoridades ou políticos profissionais o contrapeso para a permanência modificada deste tipo de dominação. Embora tenha nascido neste tempo uma nova percepção acerca dos conflitos e uma modificação na cultura política dos camponeses, a interiorização e a aceitação do status quo se revelava, principalmente, em períodos eleitorais. Boa parte dos integrantes de pastorais e de outras lutas apoiadas pela Igreja permaneceram votando em candidatos “tradicionais”. Às vezes, até mesmo assentados ou acampados dos conflitos aqui abordados votaram ou deram apoio a pessoas que de alguma forma tinham se oposto às desapropriações de terra.
Ficava claro que a mobilização alcançada diante destes conflitos, nas reivindicações em anos de seca e nas comunidades eclesiais não encontrou correspondentes no campo eleitoral. Não havendo um “pronto reconhecimento” de seus interesses imediatos, as pessoas passavam a exigir demandas e a apontar expectativas clientelistas no relacionamento com políticos e autoridades, caminhando em direção a práticas a muito instituídas e que mesmo reelaboradas diante dos novos contextos permaneciam delimitando as relações sociais. Claro que as dissimulações neste jogo de “pedidos” e “favores” em troca de voto são parte de um jogo de esperteza e de uma “resistência possível” frente a um sistema
inalcançável e inútil aos olhos dos pobres281. Mas também são a demonstração da eficácia da dominação, interiorizando normas, valores e instituições na própria história de vida destas pessoas e nas possibilidades de organização e normatização social282.