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Beklenen Zarar Karşılıklarına İlişkin Açıklamalar

O discurso pela reforma agrária era predominante nas soluções apresentadas nos espaços de mobilização da Igreja. Mas qual era a realidade da distribuição fundiária em Itapiúna? O município apresentava um quadro peculiar de concentração e exclusão no meio rural em relação às regiões circunvizinhas? Quais as condições de acesso à terra para os camponeses? Como a crise agrícola afetou suas vidas?

Os censos do IBGE são os recursos disponíveis mais adequados para acercamo- nos destas informações. Recortando um espaço de 21 anos, que engloba o tempo desta pesquisa (de 1975 a 1996231), observaremos uma relativa concentração fundiária, porém menor que outras realidades brasileiras, como por exemplo, os Sertões de Quixeramobim, região que abarca quase toda a Diocese de Quixadá. O predomínio sempre foi das médias propriedades, com área entre 100 e 500 hectares.

Observamos na tabela abaixo um decréscimo no número de propriedades e área ocupada pelas fazendas com mais de 1.000 hectares. Em 1975, elas eram 8 abarcando 13.202ha. Em 1996, foram reduzidas a 3 ocupando uma área de 5.182ha. Assim, houve uma relativa redistribuição fundiária, provavelmente resultado de divisões hereditárias, de vendas (possibilitada pela desvalorização da terra) e da pressão das ocupações e desapropriações.

Na outra ponta, a área ocupada pelos minifúndios (menos de 10ha) dobrou no período, porém foi acompanhada por um aumento astronômico na quantidade de estabelecimentos, acentuando a pulverização da terra em propriedades nanicas. Como não ocorreram melhorias tecnológicas significativas, e a ampliação da produtividade apenas se dava pela incrementação de mais terras, essa parcelarização inibiu a viabilidade econômica de muitas famílias no campo.

231 Foram usados os Censos Demográficos de 1975, 1980, 1991 e 1996 e os Censos Agropecuários de 1975, 1980, 1985 e 1996.

Tabela 1 – distribuição da propriedade rural em Itapiúna, de acordo com grupos de área, com porcentagem de estabelecimentos e área por eles ocupada – Censos Agropecuários de 1975, 1980, 1985 e 1996. Fonte: IBGE

Distribuição da Propriedade Rural em Itapiúna (%)

Ano 0 a 9ha 10 a 99ha 100 a

499ha 500 a 999ha Acima de 1.000ha 1975 Estabelecimentos 27,9 58,7 11,1 1,4 0,9 Área Ocupada / ha 2,2 28,6 33,5 13,5 22,1 1980 Estabelecimentos 29,0 58,5 10,6 1,1 0,7 Área Ocupada / ha 2,5 30,3 36,7 13,4 17,2 1985 Estabelecimentos 40,4 49,5 8,4 1,0 0,7 Área Ocupada / ha 4,4 29,9 32,2 12,9 20,6 1996 Estabelecimentos 66,8 27,1 5,0 0,8 0,2 Área Ocupada / ha 4,8 32,8 32,7 18,3 11,4

Outra tendência desse período, foi que o acesso dos camponeses à terra mudou e isso pode ser observado nas relações de trabalho. Entre 1980 e 1996 os censos registraram um aumento de 60% para 92% do total de trabalhadores rurais que realizavam atividades sob regime familiar, sem remuneração. Empregados permanentes, que representavam 1/3 do total, e parceiros quase desapareceram. Qual a razão disso? Estas duas categorias de trabalhadores eram abrigadas em médias ou grandes propriedades. A crise agrícola, e a desvalorização da terra que a acompanhou, inviabilizou financeiramente, em larga escala, a utilização de formas de trabalho que não fossem o familiar. Nesse processo, o êxodo rural foi acentuado, tanto que neste período o crescimento demográfico de Itapiúna foi estanque: de 13.824 habitantes em 1970 para 14.103 habitantes em 1996! A maior parte dos retirantes migrou para Fortaleza. Outra permaneceu no município, indo para a sede: em conseqüência, a população da cidade de Itapiúna cresceu e seu espaço geográfico alargou-se.

Em 1970, Itapiúna era um município predominantemente rural: no campo vivia 78% da população e a cidade tinha 1.485 habitantes (10,7% da população total)232. Dez anos depois, em 1980, o campo ainda era o lugar de morada de 74% dos habitantes e a cidade passou a ter 1.676 (12,7% da população do município). Nos anos 80, o crescimento da população urbana se acentuou. O IBGE não detalhou no senso de 1991 a população da cidade, mas o senso de 1996 nos dá uma idéia deste crescimento: a população rural caiu para 56% e a

232 Há também os três pequenos distritos (Caio Prado, Palmatória e Itans), considerados áreas urbanas pelo IBGE.

cidade passou a ter 3.048 habitantes, representando 21,6% da população total. A infra- estrutura montada em Itapiúna nas administrações de Zé Nilton e Joaquim Clementino, urbanizando o que até então era um povoado semi-rural, estimulou esse tímido crescimento da cidade. Da mesma forma, o êxodo rural foi influenciado pelas constantes secas e crises de produção. Apesar disso, as atividades econômicas ligados ao mundo rural continuaram, até meados da década de 1990, sendo as principais fontes de sobrevivência da maioria absoluta das famílias. Dentre elas, os cultivos de algodão, milho, feijão e mandioca eram os mais importantes, sendo seguidas pela pecuária (de bovinos, suínos e pela avicultura caseira)233.

Na década de 1980 as mudanças foram significativas. O censo de 1980, em plena seca, apresentou um aumento das áreas dedicadas à agricultura em relação a 1975, mas a partir de então a tendência foi de queda de hectares cultivados e de propriedades que a praticavam, revelando a severa crise que se abateu sobre a prática agrícola do município, um ciclo de decadência, que se estende até os dias atuais, pauperizando os meios de sobrevivência material das comunidades camponesas.

As secas que assolaram a década de 1980 potencializaram esse colapso. Os dados sobre o algodão, principal produto comercializado pelos camponeses, são confusos quando se tenta apontar qualquer tendência, mas basta saber que atualmente seu cultivo quase desapareceu em Itapiúna. Milho e feijão, principais culturas alimentares junto com a mandioca, tiveram baixas na seca de 1979-83, mas conseguiram se recuperar um pouco na década de 1990, mantendo os mesmos índices de produção dos anos 70. Já a mandioca apresentou quedas contínuas, em área plantada, produção total e produtividade. A razão está nos altos custos para o fabrico da farinha e em seu baixo preço, motivado pela concorrência externa e pela queda de consumo, que passou a priorizar a farinha de trigo.

Em relação à crise agrícola, é claro que se a diminuição das áreas de cultivo tivesse sido acompanhada por implementos técnicos na produção ou se os rebanhos tivessem crescido o suficiente para tornar a pecuária um meio adequado de sobrevivência, o impacto teria sido outro. Mas as coisas não foram assim. As técnicas agrícolas e o incremento tecnológico pouco evoluíram nos anos 1980 e a pecuária manteve-se como atividade marginal. Nenhuma compensação reverteu essa decadência. Em todo caso, o êxodo rural fez crescer a população urbana e fragilizou ainda mais a débil economia local234.

233 ”Vistoria do Imóvel Rural Fazenda Touro”, Fortaleza, 28 de abril de 1986. “PA Touro”, Arquivos do INCRA. 234 Na medida em que os camponeses migraram para a cidade, as atividades urbanas se desenvolveram, mas jamais foram suficientes para absorver a crescente demanda de trabalho. Apesar disso, as condições de vida em

A economia rural sofreu retração significativa na década de 1980, piorando as condições de vida no campo, e ao mesmo tempo estimulando a busca por alternativas. As possibilidades criadas pela resistência camponesa à expulsão da terra tornou palpável para muitas famílias a permanência no campo. O movimento camponês deu um encaminhamento diferente à crise das grandes fazendas do que provavelmente teria sido posto em prática pelos proprietários235. Mas a migração jamais deixou de ser uma opção, sendo a escolhida por muito mais gente do que os que se envolveram em conflitos de terra como os deflagrados em Touro, o que de maneira nenhuma ofusca a importância destas lutas.