B. Âhiretteki Sonuçlar
6. İstiskâ Namazı
A cidade de Fortaleza circunscreve um território mapeado por zonas de atuação de grupos juvenis e pela chamada “territorialização de tribos”. No espaço da principal avenida da cidade, não é raro visualizar meninas no exercício da prostituição. São grupos de crianças e adolescentes que vivem nas ruas – pedintes, usuários de drogas ou biscateiros que vendem todo tipo de mercadoria: água mineral, balas, chocolates etc. Estes grupos, inseridos na condição de outsiders, parecem destoar do cenário da orla de Fortaleza, excluídos do lugar da
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Para CIAMPA (2008), a mesmice decorre da reposição da identidade circunscrita por uma busca consciente de estabilidade ou inconsciente de repetição. É, portanto, “pré-suposta”, ou seja, é dada permanentemente e não como reposição de uma identidade que um dia foi posta. Assim, o que sustenta a mesmice é o impedimento da emancipação, ou seja, a plena concretização da mesmice é aquilo que Ciampa chama de fetichismo da personagem, que vai explicar a quase impossibilidade de um indivíduo atingir a condição de ser-para-si. O mundo da mesmice (da não-mesmidade) e da má infinidade (a não superação das contradições), em que a própria
atividade que serve de base para a personagem deixa de ser desempenhada: Severino “é lavrador”, mas já “não
lavra”. Nesta perspectiva, Ciampa assinala que o impedimento da emancipação e a manutenção da mesmice não se constituem em algo inevitável, na medida em que a impossibilidade de viver sem personagens e a ideia de ser- para-si possibilita a alterização das personagens pressupostas. O termo alterização, trazido por Ciampa, quer expressar “a ideia de uma mudança significativa – um salto qualitativo – que resulta de um acúmulo de mudanças quantitativas, às vezes insignificantes, invisíveis, mas graduais e não radicais, que podem indicar uma possibilidade e uma tendência da conversão das mudanças quantitativas em mudanças qualitativas, mudanças condicionadas às questões históricas e materiais determinadas” (LIMA, 2007). Para aprofundar este enfoque, ver: Ciampa (2008) e Lima (2007).
cidadania, da política e da inserção social. São grupos invisibilizados, que experimentam a “não-pertença” em seus cotidianos, a qual se justifica por um discurso de fronteiras e limites que autoriza segregações.
Na vivência destes grupos, o “processo de territorialização” não se apresenta de forma simples e perceptível. O seu traçado diverge, deveras, da noção de “territorialização” definida por João Pacheco de Oliveira. Nesta perspectiva,
[...] o processo de territorialização é precisamente o movimento pelo qual um objeto político-administrativo – nas colônias francesas seria a “etnia”, na América espanhola as “reducciones” e “resguardos”, no Brasil as “comunidades indígenas” – vem a se transformar em uma coletividade organizada, formulando uma identidade própria, instituindo mecanismos de tomada de decisão e de representação, e reestruturando as suas formas culturais (inclusive as que o relacionam com o meio ambiente e com o universo religioso). (OLIVEIRA, 1999, p. 20).
Cabe destacar que esta ideia de territorialização encarna a mesma função heurística que a de “situação colonial” – trabalhada por Balandier (1999) e reelaborada depois pelo próprio Pacheco de Oliveira (1976), bem como pelos africanistas franceses e, mais recentemente, por Stocking Júnior (1991), da qual descende a definição teórica que compreende a territorialização como:
Uma intervenção da esfera política que associa – de forma prescritiva e insofismável – um conjunto de indivíduos e grupos a limites geográficos bem determinados. É esse um ato político – constituidor de objetos étnicos, através de mecanismos arbitrários e de arbitragem (no sentido de exteriores à população considerada resultante das relações de força entre os diferentes grupos que integram o Estado)... (OLIVEIRA, 1999, p. 21).
Divergindo desta noção, a chamada “territorialidade juvenil” aqui trabalhada circunscreve a experiência de um grupo dissidente no espaço urbano, inserido no rol de classificações estigmatizadas pela sociedade – marginais, delinquentes, outsiders. No caso específico de meninas envolvidas na prática de homicídio, o território não possuiria uma base territorial fixa, definindo-se muito mais na dinâmica da descontinuidade, do movimento e da não fixidez de trajetos, a romper com limites físico-geográficos dos bairros periféricos e ocupar os principais espaços das grandes cidades. Trata-se, portanto, de uma nova dinâmica na esfera pública, onde os grupos étnicos, marginalizados e excluídos do processo social, invadem a cena pública, transformando a rua em território privado e de posse coletiva.
Nesta perspectiva, o próprio corpo das jovens envolvidas na prática infracional constitui um território que vitriniza trajetórias de vida e morte, representadas em forma de
marcas adquiridas nas tramas da delinquência. São sinais e marcas de balas, golpes de faca e tatuagens, como marcadores de uma condição de rebeldia e dissidência.
A própria sociedade também constrói ideias e representações acerca da “territorialidade” ou do “processo de territorialização” das meninas envolvidas na prática de homicídio. O simples fato de residir em bairros periféricos da cidade de Fortaleza – Bom Jardim, Pirambú, Jangurussú etc. – representa uma demarcação de fronteira pejorativa, qual seja, a de moradora periférica, pertencente a um lugar marcado pela violência e pela pobreza. Nesta perspectiva, a “cartografia alternativa” torna-se conhecida somente pelos “enturmados”, ou seja, por aqueles que se colocam como parte deste “território marginal”. Quanto aos que ousam cruzar suas fronteiras sem saber os limites territoriais, podem estar penetrando em área perigosa sem que saibam onde está o inimigo.
Para entender melhor esta cartografia, é preciso retomar o sentido de território, definindo-o como espaço que tanto pode ser relativo ao espaço de vida (representação) quanto a um sistema de valores no qual o sujeito sente-se familiarizado (em casa). Neste entendimento, o território se define como um espaço cultural, sinônimo de uma subjetivação, capaz de construir redes de sociabilidade e solidariedade. Faz-se necessário, assim, estabelecer uma diferenciação mais precisa entre o que considero “espaço” e “território” dentro da minha discussão. Para construir essa explicação, tomo emprestado de Raffestin (1993, p. 47) a ideia de que o espaço é anterior ao território. Nesta interpretação,
[...] o território se forma a partir do espaço, é resultado de uma ação conduzida por um ator sintagmático (ator que realiza um programa) em qualquer nível. Na medida em que o espaço passa a ser vivido, tomado por uma relação social de comunicação e representado por um ator social, não é mais espaço, mas a imagem do espaço, ou melhor, o território.
A dimensão do território, portanto, resulta da ação de um ator social, daí a compreensão de que a Avenida Beira-Mar e os terminais de ônibus de Fortaleza representam áreas da chamada “territorialização” de meninas e meninos em situação de conflito com a lei. Este “processo de territorialização” se constrói e desintegra a cada movimento, a cada trama e a cada encontro de tribos e grupos juvenis. Tais espaços, inicialmente, representariam o lugar de encontro sistemático, onde é possível conseguir dinheiro para comprar drogas e/ou ajudar a família, ou um espaço lúdico, um campo de aventura, cujo ir e vir das pessoas, os carros, as praças, os prédios, o comércio e todo o movimento constituem o palco onde se encena e experimenta o grande jogo dos códigos urbanos. É assim, que a trajetória de meninas e
meninos tem seu momento inicial de transgressão com o uso de drogas, com a prática da prostituição, com a delinquência, a exploração e o trabalho precoce.
Nos trajetos percorridos por essas meninas, os conflitos familiares são frequentes, desavenças entre os irmãos e os próprios pais são utilizadas como motivo para entrarem e saírem de casa como quem se esquiva ou se esconde dos encontros e vínculos familiares. Ficam no terminal, às vezes trabalhando ou simplesmente conversando com os grupos de encontro sistemático. Sobre isso, vale destacar que, na vivência destas jovens, o universo da casa e o universo da rua se confundem e se gestam como possuidores de funções ambíguas e contraditórias. No que se refere à vivência no terminal, as fronteiras entre casa e rua parecem ganhar contornos simbólicos, nos quais o público e o privado se confundem, tornando-se parte um do outro. Assim, a dicotomia existente manifesta-se num antagonismo desnorteador entre dois mundos: “o de fora e o de dentro”. Ou seja, estar no terminal de ônibus ou no calçadão da praia, para jovens em condição de delinquência, pode significar “estar em casa estando na rua”. Assim, casa e rua se interpenetram e constroem novos olhares acerca dos percursos trilhados por jovens em condição de delinquência.
Tal compreensão questiona as dicotomias binárias entre público e privado, através das quais as “esferas da experiência social” (BHABHA, 1998) foram separadas espacialmente. Daí o entendimento de que na contemporaneidade a vida se institui por um constante movimento, que consiste em atravessar fronteiras permanentemente. Todavia, se partirmos do contexto de meninas que cometeram homicídio, a fronteira existente entre centro e periferia se constrói de uma forma bastante demarcada. Na vivência destas jovens, “a vida não consiste em ultrapassar constantemente fronteiras” 57
, de forma a (re) territorializar-se com a velocidade dos ventos, como sustenta De Certeau (1981). Segundo o aludido autor, existe uma mobilidade nos espaços fronteiriços, a qual se apoia no entendimento de que,
[...] uma pessoa não é identificada nem pelo nascimento, nem pela família, nem pelo estatuto profissional, nem pelas relações de amizade e amorosas, nem pela propriedade. É como se toda identidade definida pelo estatuto e pelo lugar (de origem, de trabalho, de domicílio etc.) fosse reduzida, se não dissipada, pela velocidade de todos os movimentos... (CERTEAU apud CANCLINI, 1998, p. 315).
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Cabe esclarecer que a concepção da vida como cruzamento constante de fronteiras, ainda que não deixe de ser adequada, não é tão fácil, como enuncia Michel de Certeau, quando se trata de cidadãos norte - americanos de
Considero deveras complexo entender os chamados “territórios marginais” e seus personagens a partir da ideia de que a fronteira entre esses “territórios subterrâneos” e os espaços ordenados da sociedade se tornou invisível. Assim, o cruzamento de fronteiras, na vivência daqueles que são considerados “marginais”, esbarra em discussões e questionamentos de ordem macroestrutural fundante, os quais envolvem a condição de classe, gênero, o estigma territorial, o envolvimento na delinquência etc. No caso das meninas envolvidas na prática de homicídio, o simples fato de frequentarem o calçadão da Avenida Beira-Mar, transformando-o em território de posse coletiva, não lhes dá o passaporte de livre acesso ou bilhete azul de passagem permitida ao cruzamento da fronteira para o lado instituído. Em verdade, a fronteira entre esses territórios se tornou mais flexível, contudo, a dissolução das divisórias que os separam ainda é vivida de forma intensa por aqueles considerados cidadãos de “segunda” classe, marcados por uma sociedade que os isola e invisibiliza.
3 PERCURSOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS: TRAJETÓRIAS EM