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No Ceará, pode-se dizer que ainda pouco se sabe sobre os movimentos de resistência aberta realizados pelos cativos, seja pela falta de pesquisas nos arquivos ou mesmo pela precariedade em que se encontram a organização e conservação dos acervos, o que dificulta o acesso dos pesquisadores. O certo é que histórias ocultas estão lá, escondidas em diversos “papéis velhos”, cheios de mofo, esperando serem reveladas por historiadores curiosos e determinados em seu ofício.
No atual estado da pesquisa histórica, não é possível sinalizar negativamente para a questão da existência dos atos coletivos de resistência da escravaria no Ceará sem uma maior investigação, ou seja, sem base empírica. Muito menos reforçar a ideia de que estes movimentos não existiram no Ceará porque a escravidão foi “pouco expressiva”. Afinal, como bem lembra Emília Viotti da Costa, “É difícil detectar e decifrar os sinais de um passado negado todo dia pelas experiências novas, e que, como palimpsestos, são escritos repetidas vezes”.249 Difícil, mas não impossível, pois onde houve escravidão, houve atos de resistência a ela.
Neste sentido, alguns casos são exemplares, como o citado por D. José Tupinambá da Frota, retirado de um documento da Câmara da vila de Sobral, de 1821, sobre uma tentativa de rebelião e a prisão de vários negros.
No mês de Novembro de mil oitocentos e vinte e um, constou por varias denuncias dadas ao Commandante da Villa de Sobral, Francisco Joaquim de Souza Campello que os escravos desta Villa e seu termo pretendiam levantar-se com o fito de ficarem livres do cativeiro. Para evitar as serias consequencias, que desse levante poderiam advir contra a segurança publica, encarregou a Camara ao Sargento Mór do primeiro Batalhão de milícias Francisco Ignacio da Costa para os vigiar e cuidar na segurança desta Villa.250
Para esta tentativa de sublevação, Frota é, até o momento, o único a encontrar alguma referência. Todos os outros autores que a mencionaram se
249 COSTA, Emilia Viotti da. Coroas de glória e lágrimas de sangue: a rebelião dos escravos de
Demerara em 1823. São Paulo. Companhia das Letras, 2005, p. 102.
250 Apud FROTA, D. José Tupinambá da. História de Sobral. 2. ed. Fortaleza: Editora
baseiam neste único ofício transcrito. Apesar das apreensões criadas, em janeiro de 1822, já “estavão os espíritos mais calmos e não havia mais o temor da rebelião dos escravos pelo que foi dissolvida a tropa paga voltando aos labores da agricultura”.251
A “ousadia” e a persistência dos cativos para obter a liberdade voltaram a causar o “temor da rebelião” no Ceará, em 1867, conforme indicou uma notícia encontrada por José Hilário Ferreira Sobrinho no jornal cearense Pedro
II, de 11 de dezembro de 1867,
No termo de Lavras, comarca do Icó, alguns escravos com armas nas mãos tentaram pugnar por sua liberdade, viram frustradas os planos pelas medidas de repressão tomadas pelo delegado de policia. Essa tentativa parece uma consequência das idéias emancipadoras apresentadas no parlamento pelo ministério actual, e que repercutiram nos nossos sertões. Felizmente não houve desgraça a lamentar-se, segundo consta de um oficio do Exmo. Presidente da Província ao chefe de Policia, publicado em Progressista de 7 do corrente.252
É impressionante como os cativos criaram redes de circulação de informações que lhes permitiram saber até das “ideias emancipadoras apresentadas no parlamento pelo ministério actual”, mas não somente isso, eram ideias que se moviam com tal rapidez que eram capazes de “repercutir nos nossos sertões”. Para Ferreira Sobrinho, estes sujeitos “estavam atentos e tinham relativo conhecimento das discussões políticas referentes às leis emancipacionistas, às discussões políticas sobre a escravidão e o tráfico”.253
Isto reforça a percepção de que os escravos precisavam de muito pouco ou quase nenhum incentivo de outros grupos para, “com armas nas mãos”, lutar por direitos ou pela liberdade, bastava um pequeno boato ou rumor para atiçar a escravaria e deixar os senhores de orelha em pé.
Como os casos acima, o motim dos pretos da Laura não despertou muita atenção, ou não era tão relevante para grande parte dos autores engajados na escrita da história cearense, sendo objeto de interesse de
251 Id., ibidem, p. 541.
252 Jornal Pedro II, nº 274, p. 01. Apud FERREIRA SOBRINHO, José Hilário. “Catirina minha
nega, Teu sinhô ta te querendo vende, Pero Rio de Janeiro, Pero nunca mais ti vê, Amaru Mambirá”: O Ceará no tráfico interprovincial – 1850-1881. Fortaleza, UFC, Dissertação de Mestrado, 2005, p. 111.
somente dois pesquisadores do século XIX, João Brígido dos Santos e Paulino Nogueira, que por vias diferentes, trouxeram ao conhecimento do público leitor do final do oitocentos no Ceará, os acontecimentos no Laura Segunda.
Preocupados mais com a recuperação de uma memória local, ou seja, colecionar e salvar do esquecimento os fatos que consideravam importantes, do que propriamente com uma análise mais sistemática dos acontecimentos que narravam, autores cearenses como Santos e Nogueira (como também, Barão de Studart, Thomaz Pompeu, entre outros) legaram aos pesquisadores dos séculos XX e XXI o conhecimento de um leque variado de histórias, embora este esteja repleto de lacunas e falhas. Um conhecimento fragmentado, diga-se de passagem, pelas seleções feitas por estes autores, que elegeram os fatos que deveriam ficar registrados. Apesar de referências importantes, estes autores somente revelaram uma pequena parte das inúmeras histórias dos sujeitos que compunham as camadas menos favorecidas no Ceará. Por isso, não é possível somente se basear nestas indicações e repetir o que estes autores disseram; é necessário ir além, é preciso fazer com que estas histórias atinjam uma profundidade ainda maior do que a alcançada até agora.
Neste sentido, historicizar a contribuição do negro no processo histórico do Ceará é deparar com um terreno que ainda é pouco explorado. Pode-se dizer que é um livro que contém inúmeras páginas em branco, à medida que os agentes responsáveis pela escrita da história cearense, a partir de meados do século XIX e início do XX, não valorizaram adequadamente a participação e a presença deste grupo étnico, que, durante anos, ficou obscurecido pela forma de pensar que no “Ceará não tem negros”.
No Ceará, Eurípedes A. Funes foi um dos primeiros acadêmicos a se opor a este tipo de visão. Percebendo a atuação dos negros em múltiplas dimensões, buscou refletir sobre suas experiências sociais, compreendendo-as como “marcas visíveis de sua sociabilidade, de seu engajamento no mundo do trabalho, de suas práticas culturais e de lutas contra a discriminação”. Desta forma, se opôs ao modo de pensar que no “Ceará não tem negros porque a
escravidão foi pouco expressiva”, o que para ele levaria a uma lógica perversa: “associar o negro à escravidão”.254
Mas esta forma de pensar não é estranha, não é uma “ideia fora do lugar”. Basta lembrar que no Ceará sempre se alardeou a inexpressividade da escravidão e, por consequência, a ausência de negros na sua população. Por exemplo, José Martiniano de Alencar já falava, em 1835, que, no Ceará, “a escravatura sempre foi pouca”, argumentação que foi sendo reproduzida e reforçada ao longo do tempo e ganhou bastante força pela primazia no processo de abolição da escravidão. Além disso, foi nas últimas décadas do século XIX que as teorias raciais produzidas na Europa foram reelaboradas pelos intelectuais brasileiros, forjando uma mentalidade em que a mestiçagem no Brasil era um problema e o “branqueamento” da população a sua solução.255 Os intelectuais cearenses não passaram imunes a seus efeitos e, ao difundirem a ideia de que no “Ceará não tem negros”, criavam um grave equivoco histórico, que, segundo Funes, era de “associar o negro a escravidão”.
Analisar o motim dos pretos da Laura e suas consequências é dar um passo em direção a uma compreensão geral dos atos de resistência dos negros no Brasil, mas especialmente no Ceará, onde o movimento teve um significado singular, principalmente para a população cativa. Apesar de “esse revoltante attentando fosse commettido em mar de nossa Provincia, todavia nem huns e nem outros á ella pertencem”,256 como quis deixar bem claro o presidente do Ceará, João Antonio de Miranda; mas, nem por isso, os escravos cearenses deixaram de se apropriar deste ato, colocando esta experiência no seu arsenal de negociações cotidianas.
254 FUNES, Eurípedes A. Negros no Ceará. In: SOUZA, Simone. Uma Nova História do Ceará.
3. ed. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2000, p. 103-32.
255 SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial
no Brasil 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p. 11.
256 Relatório do presidente da província do Ceará, João Antonio de Miranda, 1º de agosto
3.1. “Uma conspiração de cozinha tantas vezes fataes a sala”: a realização do motim.
No dia 12 de junho de 1839, uma embarcação abandonada foi vista no litoral cearense, no lugar denominado Arapassu (atual Iguape),257 por pessoas que iam para o marisco, que, ao se deparar com tal visão e com os vestígios deixados pelos tripulantes na praia, foram imediatamente comunicar os fatos ao inspetor do quarteirão,258 Antonio José de Souza, e, logo depois, ao saber por Alexandre Gomes “que pela sua caza passarão 14 homens pardos, um branco, e um preto ferido de uma facada, os quaes todos lhes parecião embarcadiços”,259 resolveu ir a bordo do tal navio, com duas jangadas e acompanhado por oito pessoas para fazer as devidas averiguações.
A bordo da embarcação, o inspetor encontrou:
O convez sujo de sangue, e uma guia de varias mercadorias carregadas por Sharp Stanley & Comp., e por ser noite apenas poderão salvar cinco sacas de arroz, e cinco barricas de M anteiga.260
No dia seguinte, o juiz de paz de Aquiraz, Franscico Joze Amora, ficou ciente dos acontecimentos e também foi ao local para investigar o caso, mas
257 Chamado no período de porto do Arapassu, porque, em sua geografia, fazia uma enseada
que era utilizada como um porto natural. A distância do Arapassu para a vila mais próxima, a de Aquiraz, é de, aproximadamente, três léguas e, para a de Fortaleza, é de oito léguas, conforme os cálculos da época.
258 No Código do Processo Criminal, a administração da justiça criminal nos juízos de primeira
instância estava dividida em Distritos de Paz, Termos e Comarcas, sendo que um distrito (comandado pelo juiz de paz) continha vários quarteirões e, em cada um deles, deveria conter no mínimo vinte e cinco casas habitadas. Em relação ao inspetor, encontra-se a seguinte referência: “Art. 16. Em cada Quarteirão haverá um Inspector, nomeado tambem pela Camara Municipal sobre proposta do Juiz de Paz d‟entre as pessoas bem conceituadas do Quarteirão, e que sejam maiores de vinte e um annos”. Segundo o mesmo Código, dentre suas atribuições, estavam: vigiar sobre a prevenção dos crimes; prender os criminosos em flagrante delito, os pronunciados não afiançados, ou os condenados a prisão. PESSOA, Vicente Alves de Paula. Codigo do Processo Criminal de Primeira Instancia do Imperio do Brazil. Rio de Janeiro: Livraria de A. A. da Cruz Coutinho, 1882, p. 36; 42-44.
259 Biblioteca Pública Benedito Leite (BPBL), Maranhão. Setor de Microfilmes. Chronica
Maranhense, São Luís (MA), nº 149, 04 de julho de 1839, p. 601. Um relato detalhado dos acontecimentos foi noticiado no Desesseis de Desembro, mas, como não foi encontrado o número onde o relato foi publicado, no acervo da Biblioteca Nacional (único lugar onde o jornal foi localizado), utiliza-se o Chronica Maranhense, que reproduziu o conteúdo publicado pelo periódico cearense, e por ter sido localizado registro semelhante no Diário do Rio de Janeiro.
não pôde ir a bordo: o navio já tinha ido a pique. Não havia notícias do capitão e nem da tripulação.
Atuando nos distritos, os juízes de paz eram os principais responsáveis por julgar as ocorrências menores, servindo, em diversos casos, como uma instância pré-judicial.261 Segundo o Código do Processo, os quatro cidadãos mais votados de um distrito seriam os juízes de paz, sendo que, cada um ficaria no cargo durante um ano, enquanto os outros seriam seus suplentes. Dentre suas competências, o artigo 12 traz:
§ 2º. Obrigar a assignar o termo de bem viver aos vadios, mendigos, bebados por habito, prostitutas, que pertubam o socego publico, aos turbulentos, que por palavras, ou acções offendem os bons costumes, a tranquilidade publica, e a paz das familias; § 3º. Obrigar a assinar o termo de segurança aos legalmente suspeitos da pretensão de commetter algum crime, (...); § 4º. Proceder a Auto de Corpo de delicto, e formar culpa aos delinquentes; § 7º. Julgar: 1º. as contravenções ás Posturas Municipais; 2º. os crimes, a que não esteja imposta a pena maior, que a multa até cem mil réis, prisão, degredo, ou desterro até seis mezes.262
Sendo os responsáveis em manter o sossego público, os juízes de paz eram as primeiras autoridades a serem chamadas quando a ordem tinha sido alterada.
No mesmo dia em que o juiz de paz Amora tinha sido avisado, as autoridades policiais da vila de Cascavel foram informadas, por um oficial do correio, que um grupo de negros armados estava à procura da Estrada de São Bernardo de Russas e que se escondiam por trás de um mato alto, nas proximidades da vila, na Estrada Real do Aracati, no local conhecido como Cajueiro do Ministro. Segundo Freire Alemão,
Este lugar é chamado o Cajueiro do Ministro porque neste lugar havia um rancho antigo e em frente dele um vasto cajueiro. Quando os ouvidores ou ministros da justiça andavam em correição, o dono do sítio mandava preparar o rancho e limpar o cajueiro por baixo, donde ficou o nome de Cajueiro do Ministro.263
261 SOARES, Luiz Carlos. O estado e a punição dos escravos infratores da lei no Brasil do
século XIX. In: SOARES, Luiz Carlos et al. Estudos sobre a escravidão. Cadernos do ICHF. Niterói: Universidade Federal Fluminense (ICHF), nº 19, p. 21-33, 1990, p. 25.
262 PESSOA, Vicente Alves de Paula. Codigo do processo criminal de primeira instancia do
Imperio do Brazil, p. 29-34.
263 ALEMÃO, Francisco Freire. Diário de viagem de Francisco Freire Alemão: Fortaleza - Crato,
Segundo seu relato, alguns viandantes como também magistrados preferiam pousar embaixo do cajueiro a ficar dentro do rancho. Parece que não só as autoridades gozavam das benesses do dito cajueiro, mas pessoas não “tão ilustres” poderiam apropriar-se deste espaço para um bom repouso.
Seguindo as informações recebidas, o inspetor e alguns de seus homens foram ao local. Ao chegarem, notaram manchas de sangue no chão e uma cova, onde encontraram um negro enterrado.
Não demoraram muito para localizar o grupo, que resistiu “à bala”, mas a força policial comandada por Joaquim José Pereira, tenente coronel da Guarda Nacional do Cascavel, em maior número, conseguiu neutralizar as ações do bando e prendê-lo. Presos, os negros confessaram a realização de um motim e o assassinato de algumas pessoas. Assim, a justiça tomava conhecimento dos fatos ocorridos no Laura Segunda.
O Laura Segunda partira para a sua segunda viagem no ano, para Pernambuco, no dia 1º de maio de 1839, com um total de 22 pessoas a bordo. Sua saída de São Luís foi registrada da seguinte forma:
Sahio para Pernambuco o Brigue Escuna Brazileiro Laura 2ª, Mestre Franco Ferra. da Silva, e Proprietario, José Ferra. da Silva & Irmão.
Tripulação 14 pessoas, com Malla para o Correo, Carga Diverços Generos. Passageiro Luiz Felicianno Prates e os negros Escravos Molato Agosto escravo de Carvo Sobrinho, escravo Damazo de
Wensesláu Bernardino Freire, Juvita [Jovito] escravo de Manoel da Silva Sardinha, Luiz escravo de Anto das Neves Marques, João
Escravo de Guilherme Secharff, Benedicto escravo de Anto
Gonçalves Machado.264
A embarcação saiu oficialmente com o capitão e mais 14 pessoas na tripulação e 7 passageiros; neste último grupo estavam um homem forro e seis escravos. Os cativos não estavam acompanhados de seus senhores; viajavam sob a responsabilidade do capitão.
No dia 09 de junho, o navio chegou ao porto de Fortaleza com mais de um mês de viagem, o que indica a possibilidade de ter enfrentado algum problema ou ter atracado em portos no meio do caminho, demorando mais do que o previsto.
264 Arquivo Público do Estado do Maranhão (APEM). Sessão de Documentos Avulsos. Partes
do Registro do Porto de São Luiz do Maranhão ao Presidente da Província, Ofícios, 1835- 1840. Registro do brigue-escuna Laura Segunda, 1º de maio de 1839.
A dificuldade de navegar no sentido oeste-leste do litoral brasileiro já era algo bastante conhecido pelos marinheiros; remonta ao início da colonização. Luiz Felipe de Alencastro enfatizou a importância dos ventos e marés para se compreenderem os condicionamentos políticos que a geografia econômica impôs à colonização portuguesa, como a separação do Estado do Brasil e o do Maranhão (1621).
Correnteza mais rápida de todo o litoral brasileiro, atingindo velocidade de 2,5 nós no costão que vai do cabo São Roque (Rio Grande do Norte) ao cabo Orange (Amapá), a corrente das Guianas facilitava grandemente a navegação para o Norte. Tamanha é a força das águas rolando nessa área que, mesmo com as velas meio arriadas, navios grandes podiam cobrir em três dias as trezentas léguas separando o cabo de São Roque do porto de São Luís. Em contrapartida, a corrente representava um obstáculo quase intransponível à navegação a vela no retorno do Estado do Maranhão ao Estado do Brasil. Até o advento dos barcos a vapor,
nos meados do século XIX, só as sumacas – barcaças pequenas de
dois mastros – conseguiam sair da Bahia, de Pernambuco, ou mais
do Sul, e bordejar na torna-viagem do Pará e do Maranhão. Ainda assim, tudo dependia da sorte.265
As experiências adquiridas pelos marinheiros fizeram com que, no século XIX, eles dependessem mais de suas habilidades do que propriamente da sorte. Afinal, uma expressiva quantidade de navios a vela percorria esta parte do Brasil no oitocentos, antes mesmo do advento dos paquetes a vapor; mas isso não quer dizer que a sorte fosse algo desprezado por estes sujeitos. As sucessivas viagens dotaram-lhes de conhecimentos suficientes para saberem interpretar os fenômenos naturais, o que lhes garantia, na maioria das vezes, um percurso tranquilo, sem muitas preocupações.
Apesar das dificuldades da navegação neste trecho, a demora do Laura Segunda não foi algo normal. Os registros de saída e entrada nos portos de São Luís e do Recife, do Laura Segunda, nos anos de 1838-1839, apontam que a duração das viagens de um porto para o outro se fazia em dias, dificilmente ultrapassava um mês.
265
Conforme dados levantados pelo autor, “um nó é igual a uma milha marítima, ou 1852 metros, por hora: 2,5 nós = 4630 metros por hora, 111 quilômetros por dia”. ALENCASTRO. Luís Felipe de. O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 58.
No dia 10 de janeiro de 1839, no porto de São Luís, registrou-se: “sahio para Pernambuco o Brigue Escuna Brasileiro Laura 2ª”,266 enquanto, no Recife, o Diário de Pernambuco informou que, no dia 07, entrou no porto vindo do “MARANHÃO, 27 dias, Brigue Escuna Nac. Laura Segunda”.267 Na viagem de retorno, o Diário de Pernambuco noticiou a saída do Laura Segunda no dia 1º de março,268 enquanto, no porto de São Luís, foi registrada sua entrada no dia 08 de março, com 06 dias de viagem.269
As análises das durações das viagens do Laura Segunda através dos jornais e dos registros portuários indicam que o trajeto São Luís-Recife era realizado entre 20 a 25 dias, raras foram as exceções em que se superou esta marca. A viagem de retorno era ainda mais rápida, variando de 04 a 08 dias para ser concluída.
O percurso São Luís-Recife demorava mais do que o inverso, à medida que os navios se confrontavam com os ventos e as correntes marítimas contrárias, fato que dificultava enormemente a navegação a vela.
Apesar da influência dos fatores naturais ou talvez por causa deles, o que parece ter concorrido para a demora do Laura Segunda foi à constatação de uma avaria. Conforme anunciou o Diário de Pernambuco, ao relatar sobre o motim na embarcação, “o Brigue Laura Segunda tendo sahido do Maranhão para este porto, arribou ao Ceará a fim de reparar a varia”.270 O tempo gasto da