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Espancadas as dúvidas do vínculo entre democracia, justiça social e

cidadania, enquanto pilares de sustentação da sociedade civilizada contemporânea,

é, também, justiça social, palavras que para os neoliberais mais consequentes nem sequer sentido têm. O que dá a verdadeira dimensão da sua mentalidade e mundividência. E contudo a verdadeira justiça é também justiça social, segundo alguns até para Tomás de Aquino: ‘Toda justiça é social uma vez que a existência humana é sempre coexistência’” (CUNHA, 2013, p. 474).

61 SILVA, Luiz Antonio Machado da. Cidadania, democracia e justiça social. In: SILVA, Itamar (Org.). Rio: a democracia vista de baixo. Rio de Janeiro: Ibase, 2004, p. 27.

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não há como negar a relação umbilical havida dos valores acima registrados com o

princípio da igualdade.

De fato, inimaginável o caminhar democrático para a construção de uma

sociedade justa que não proporciona a igualdade material entre seus homens

63

.

Óbvio que a igualdade aqui abordada não equivale à igualdade

meramente formal, de generalidade puramente abstrata, com a qual se ocupa o

liberalismo do crepúsculo do século XVIII e do século XIX. Trata-se, isso sim, da

igualdade destinada aos poderes estatais, os quais, quando da aplicação da norma

jurídica, não poderão subordiná-la a critérios que ensejam tratamento seletivo ou

discriminatório.

Deixou a igualdade de ser a igualdade jurídica do liberalismo para se converter na igualdade material da nova forma de Estado. Tem tamanha força na doutrina constitucional que vincula o legislador, tanto o que faz a lei ordinária nos Estados-membros e na órbita federal como aquele que no círculo das autonomias estaduais emenda a Constituição ou formula o próprio estatuto básico da unidade federada. Na presente fase da doutrina, já não se trata em rigor, como assinalou Leibholz, de igualdade ‘perante’ a lei, mas de igualdade ‘feita’ pela lei, uma igualdade ‘através’ da lei64.

Decerto, a igualdade ‘perante a lei’ não ostentaria o significado que

ostenta se não estivesse o legislador vinculado a estabelecer a igualdade ‘na lei’,

residindo exatamente nesse ponto o sentido mais relevante do princípio da

igualdade.

Seguindo o raciocínio levado a cabo por Castanheira Neves, afirma-se

que “a igualdade perante a lei oferecerá uma garantia bem insuficiente se não for

acompanhada (ou não tiver também a natureza) de uma igualdade na própria lei,

isto é, exigida ao próprio legislador relativamente ao conteúdo da lei”

65

.

63 Destacando as dificuldades historicamente enfrentadas pelo Estado brasileiro ao encarar o princípio da igualdade, Oscar Vilhena Vieira adverte: “Quando Sérgio Buarque de Holanda apontava a cordialidade como uma das características do brasileiro, ele não se referia à nossa eventual afabilidade, hospitalidade ou doçura. Na realidade, o que o autor de Raízes do Brasil queria nos alertar é para a dificuldade de construir relações imparciais numa cultura dominada pelo ethos cordial. Cordial é aquilo que vem do coração, e não da razão, no sentido kantiano, de razão prática universalista. Assim, o homem cordial ama ou odeia. Desta forma, privilegia aqueles com quem tem laços especiais e discrimina os que não são do seu círculo. Nessas condições é dificílimo ser imparcial. A impunidade dos poderosos é uma marca da cordialidade brasileira. Assim como a violência policial contra pobres, negros e jovens de nossas periferias sociais demonstra o lado mais perverso de nossa cordialidade. O Estado, como construção e representação social, tem dificuldades em aplicar a lei de forma igual para todos. É doce com os amigos e cruel com aqueles que coloca na posição de inimigos” (VIEIRA, Oscar Vilhena. Direitos fundamentais: uma leitura da jurisprudência do STF. São Paulo: Malheiros, 2006, p. 288-289).

64 BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. 26. ed. São Paulo: Malheiros, 2011a, p. 376.

65 CASTANHEIRA NEVES, António. O instituto dos ‘assentos’ e a função jurídica dos supremos tribunais. Coimbra: Coimbra Ed., 1983, p. 166.

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Dentro dessa ótica, o princípio da igualdade, enquanto postulado inerente

ao Estado Democrático, exterioriza-se como um princípio identificador do Estado

Social, lembrete que se colhe do raciocínio do tratadista português Canotilho, para

quem “o princípio da igualdade sob o ponto de vista jurídico-constitucional, assume

relevo enquanto princípio de igualdade de oportunidades (equality of opportunity) e

de reais condições de vida”

66

.

Sendo assim, incontestável a relação do conteúdo do princípio da

igualdade com as normas principiológicas garantidoras de direitos fundamentais

encartadas na Carta Constitucional e com o caderno democrático que inspira o

Estado brasileiro.

Como aforismo guia do princípio da igualdade, tem-se o famoso e

multicitado brocardo aristotélico, segundo o qual a igualdade consiste basicamente

em tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais.

No entanto, o reconhecimento histórico e universalizante do princípio da

igualdade é muito mais recente do que a célebre frase do Estagirita; ocorreu apenas

com a elaboração da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789,

onde ficou consignado que “os homens nascem e são livres e iguais em direitos”

67

.

Os demais textos internacionais que se seguiram à Declaração de 1789

repetiram seu propósito igualitário, a ponto de não existir nos dias de hoje qualquer

documento institucional que não renda homenagens o princípio da igualdade.

A exigência de tratamento igualitário também sobrepaira a noção de

República, na medida em que seria totalmente iníquo um governo que tem como

supedâneo a circunstância de a coisa pública ser pertença de todos e admitir a

concorrência de tratamento desigualitário entre seus indivíduos.

Identificando o princípio da igualdade como pedra de toque do

funcionamento republicano do Estado, Geraldo Ataliba, com sábias palavras,

proclama que

[...] não teria sentido que os cidadãos se reunissem em república, erigissem um Estado, outorgassem a si mesmos uma Constituição, em termos republicanos, para consagrar instituições que tolerassem ou permitissem a violação da igualdade fundamental, que foi o próprio postulado básico, condição da ereção do regime. Que dessem ao Estado – que criaram em rigorosa isonomia cidadã – poderes para serem usados criando privilégios,

66 CANOTILHO, 1995, p. 567.

67 A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, proclamada em 26 (vinte e seis) de agosto de 1789, assentou: Art. 1.º: Les hommes naissent et demeurent libres et égaux en droits. Les distinctions sociales ne peuvent être fondées sur l’utilité commune.

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engendrando desigualações, favorecendo grupos ou pessoas, ou atuando em detrimento de quem quer que seja.

A res publica é de todos para todos. Os poderes que de todos recebe devem traduzir-se em benefícios e encargos iguais para todos os cidadãos. De nada valeria a legalidade se não fosse marcada pela igualdade68.

Disso tudo se constata o importante contributo que desempenha o

princípio da igualdade como instrumento de concretização e realização da

democracia, tendo em vista sua indisfarçável exigência para que o mesmo padrão

de respeito e consideração imposto no tratamento de uma pessoa seja dispensado

em relação a todas as outras pessoas ou, ao menos, para todas aquelas que se

encontrarem na mesma situação fática.

De fato, o postulado da igualdade revela um vínculo de extrema

identidade com o Estado Democrático de Direito, não apenas porque funciona como

anteparo de todos os conceitos adotados na Constituição, como também orienta

todas as ações estatais – executivas, legislativas e judiciárias.

Mas não é só isso. O princípio da igualdade também está intimamente

ligado ao Estado Social, na medida em que os valores defendidos por este standard

não abonam qualquer espécie de protocolo que malfira a isonomia entre os

indivíduos.

Dessarte, a lição de Paulo Bonavides, fervoroso defensor do Estado

social e democrático e de suas vinculações com os direitos fundamentais, segundo a

qual a igualdade fática entre todos os envolvidos é marca ineliminável do Estado

Social contemporâneo.

O Estado social é enfim Estado produtor de igualdade fática. Trata-se de um conceito que deve iluminar sempre toda a hermenêutica constitucional, em se tratando de estabelecer equivalência de direitos. Obriga o Estado, se for o caso, a prestações positivas; a prover meios, se necessário, para concretizar comandos normativos de isonomia. Noutro lugar já escrevemos que a isonomia fática é o grau mais alto e talvez mais justo e refinado a que pode subir o princípio da igualdade numa estrutura normativa de direito positivo69.

Na hipótese em que se articula toda a realidade brasileira, incumbe a

todos os envolvidos, especialmente ao Estado, enquanto promovente da justiça

social, a redução das desigualdades indiscutivelmente ainda testemunhadas. Para

68 ATALIBA, Geraldo. República e Constituição. 2. ed. São Paulo: Malheiros, 1998, p. 159-160. 69 BONAVIDES, 2011a, p. 378.

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tanto, devem ser adotadas todas as medidas para a extinção dessa chaga

devastadora do desenvolvimento humano no Brasil

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