Em resposta à pergunta sobre aos limites que vêem para a concretização dessa forma de Educação Continuada, os docentes fizeram referência aos fatores que se apresentam nesse momento de suas vidas, principalmente aqueles relacionados à idade e, por conseqüência, à
iminência da aposentadoria. No que diz respeito ao primeiro aspecto, os entrevistados pontuaram que a idade indica a necessidade da redução das atividades e que, em determinado momento, teremos que parar: ou por problema de saúde, ou porque não somos mais tão necessários como fomos até agora. Daqui para frente tudo é lucro.
Novamente aparece na fala dos entrevistados o temor do “descarte”. A noção do próprio envelhecimento fica comprovada na frase “não somos mais tão necessários”. Esse sentimento está associado ao medo da substituição por alguém mais jovem, flexível, ágil e atualizado. Assim, evidencia-se que o investimento pessoal em Educação Continuada contribui, de alguma forma, para mantê-los no mundo do trabalho.
Outro aspecto destacado nas entrevistas é de que há limitações físicas decorrentes da idade: o corpo não acompanha mais a cabeça, não se tem mais o mesmo ritmo; “é verdade a gente cansa”. Esse descompasso entre o desejo de realizar suas atividades e a real condição física tem se transformado em um dos limitadores mais mencionados. Preocupados com isso, os docentes têm despendido atenção e energia a fim de desarmar, aos poucos, toda esta estrutura que armaram. A real intenção desses docentes é de que suas pesquisas continuem, mesmo sem eles. Como disseram, estão em uma fase de “desinvestimento”. Essas preocupações e intenções manifestam-se no depoimento a seguir:
[...] sempre estimulei o grupo de pesquisa a andar sozinho. Tenho procurado nas publicações de artigos não mais ser a primeira pessoa e sim a segunda. Estou procurando diminuir o número de atividades, em congressos, pois mais me dedico do que realmente aprendo. Tenho que pensar em ter mais tempo livre para o lazer.
Esse exemplo reforça a fala de outro docente, o qual diz não ter a intenção de parar, e sim tentar se adaptar a outras coisas, para fazer este “desinvestimento” profissional. Outros, porém, afirmaram que não pensam em parar de trabalhar, principalmente porque gostam e também por contingências da vida. Alguns mencionaram que trabalham porque necessitam financeiramente, além de considerarem, também, que uma das coisas mais gratificantes da vida é trabalhar no que se gosta. Os entrevistados notificaram que sua profissão não tem uma rotina, cada semana é diferente e que isso gera uma satisfação e uma sensação de liberdade no docente, como exemplificado na fala a seguir:
[...] a cada semana os alunos trazem coisas diferentes para as minhas aulas. A Pós-Graduação é mais fácil, principalmente por não ter programas a cumprir. Nós construímos junto com os alunos. Acho isso muito bom.
Construir juntos implica troca, flexibilidade, concessão, negociação, compartilhamento, o que é considerado gratificante para o docente.
Outro aspecto mencionado como sendo um limitador capaz de interferir em sua Educação Continuada está relacionado à perspectiva de aposentadoria. Muitos dos professores, por necessidade, vontade e perfil profissional, deixam desvelar o sentimento de terem dificuldades em aceitar a chegada deste momento:
Não sei fazer menos. Eu tenho colegas que têm um ótimo perfil acadêmico, até o ponto do que se espera deles. Eles não têm esse ritmo louco que eu tenho. Eu não consigo dar conta de mim. Quando vejo estou com muitos trabalhos e não sei dizer não. Seria muito bom poder trabalhar um pouco menos. Então, eu acho que tudo o que eu queria construir profissionalmente eu construí e me considero absolutamente plena neste aspecto de alegrias e frustrações. Acho que isso não tem fim. É como uma droga, a gente tem que estar sempre fazendo uso. Vai chegar um momento em que não vou mais trabalhar, então terei que ir para o jardim e para as panelas.
Também se observou que alguns docentes ainda não possuem essa preocupação com a aposentadoria ou dificuldades com seu desempenho físico. São jovens e consideram que, se existem questões externas, que vão condicionando as fronteiras e as possibilidades, há também um amplo espaço de fixação de oportunidades e metas. Esses professores comentam que as demandas diárias são muitas, porém é uma questão de hierarquia das coisas. A fala de um dos entrevistados complementa a afirmação anterior: “Não sinto que esteja em uma arapuca, em que não possa fazer manobras.”
Os entrevistados pontuaram, ainda, que estão em um momento de não se penalizarem por não conseguirem atender a todas as demandas e que não responsabilizam os outros por suas opções.
Entretanto, além desses limites mencionados ou da verbalização da ausência desses, foi afirmado também que uma das grandes dificuldades existentes na humanidade é “quebrar” a tendência de estar sempre preocupado com interesses próprios e sim se
voltar mais às necessidades que estão à sua volta, extrapolados os familiares e os interesses imediatos. Segundo os docentes, o caminho para a evolução das pessoas está muito ligado à resposta interior. Mencionaram que para se crescer no altruísmo, deve-se negar interesses pessoais e o imediatismo. Uma das falas dos docentes explicita melhor essa idéia:
[...] a grande dificuldade está nas pessoas que têm uma vida muito centrada em si mesmas e no bem estar da família. Não que isso não seja importante, mas é uma questão de negação. Saber negar a si mesmo e não abandonar aquilo que é importante. Ter uma boa relação com a família, porém saber se preocupar também com aqueles que têm menos que você.
Essa afirmação demonstra a tendência do mundo moderno: tornar as pessoas individualistas, competitivas, egoístas; gerando, como afirmaram os docentes, uma força centrípeta que é de sempre estar preocupado, primeiro, com suas necessidades.