Na antiguidade a necessidade dos povos em efetuarem medidas comparativas levou ao desenvolvimento de padrões primários, ocorre que as primeiras trocas comerciais foram efetuadas na base de escambo o que requeria uma idéia básica sobre pesos e medidas conforme pode ser visto em museus (ver figura 2.1) que apresentam balanças rudimentares a partir de 2500 a.C. Pitágoras, o sábio, filósofo e matemático grego que nasceu no ano de 571 a.C. ou 570 a.C., certa vez disse ‘o homem é a medida de todas as coisas’, em função do uso de medidas, na antiguidade, com base na anatomia humana e, muitas vezes, com base nos corpos dos reis. Na França, por exemplo, passou-se a usar o pé “real” correspondente ao tamanho do pé de Carlos Magno. Ademais, a medição do comprimento, vital para a ciência da construção civil, foi inicialmente padronizada como cópias de tamanhos padrões da natureza, o pé, o passo, a braça, a vara, a espessura do dedo, o palmo e assim por diante. Ainda na antiguidade encontramos o côvado (em inglês cubit) que corresponde aproximadamente a uma distância entre o cotovelo e o pulso (0,641 m) que é uma unidade mencionada no Velho Testamento quando o Senhor instrui Moisés a construir “uma arca de madeira de acácia; o seu comprimento será de dois côvados e meio, e a sua largura de um côvado e meio, e de um côvado e meio a sua altura.” (EXODUS 25:10).
Também na Bíblia encontramos uma importante referência à normalização como uma proteção ao comportamento não ético no comércio, conforme os trechos: “não cometereis injustiça no juízo, nem na vara, nem no peso, nem na medida.” (LEVÍTICO 19:35) e “balança enganosa é abominação para o SENHOR, mas o peso justo é o seu prazer” (PROVÉRBIOS 11:1). A história confirma que a preocupação bíblica com relação ao abuso no uso de pesos e medidas era justificável. Hierão II, rei da Siracusa em 215 a.C. suspeitou que a coroa de ouro que ele havia comprado era, na verdade, uma liga misturada com prata. Para desvendar a farsa convocou Arquimedes para investigar as suas inquietudes. Sabedor que não existe método para verificar se o ouro foi ou não diluído, Arquimedes enquanto tomava banho, observou que, à medida que seu corpo mergulhava na banheira, a água transbordava. Concluiu, então, como poderia resolver o problema da coroa, já que iguais volumes de ouro e prata, devido a diferença de densidade, deslocam diferentes volumes de água se submersos. De tão contente que estava saiu da banheira e foi para a rua gritando: "EURECA, EURECA!", que em grego quer dizer descobri, achei, encontrei. Infelizmente, não sabemos a conclusão de Arquimedes quanto à falsidade da coroa, entretanto, o princípio "todo corpo mergulhado num fluido sofre, por parte do fluido, uma força vertical para cima, cuja intensidade é igual ao peso do fluido deslocado pelo corpo" é básico para a metrologia moderna, também conhecido como o Princípio de Arquimedes. (SPIVAK, S.; BRENNER, F., 2001)
Fonte: LAHANAS, M. 2007
Figura 2.1 – Vaso ateniense com a pesagem de almas pelos deuses determinar quem vai sobreviver 460 a.C. Museu do Louvre
A associação entre comércio, regras de conduta e normas, é, portanto, o embrião para a normalização moderna que é o lubrificante da indústria moderna, sejam nos requisitos para segurança de brinquedos, na série A para tamanhos de papéis, nas especificações para cartões de crédito, no sistema internacional de unidades, as especificações GSM para telefones, enfim, toda a gama de regras que tornam o mundo mais conectado, mais simples de se comunicar e mais fácil de trocar mercadorias.
De fato, a ausência de normas ou padrões pode ser motivo de sérios problemas para a sociedade como relatado pela ANSI – American National Standards Institute (2007). Em 1904 um incêndio afetou a sede da empresa John E. Hurst & Company, na cidade de Baltimore. Após destruir toda a estrutura existente, o fogo avançou em direção ao quarteirão adjacente ao prédio. Para combater as chamas, as unidades de Nova Iorque, Filadélfia e Washington DC, cidades próximas, foram acionadas para ajudar os bombeiros locais. Infelizmente, a ajuda foi ineficaz, pois as mangueiras de água dos carros de bombeiros das cidades vizinhas não acoplavam nos hidrantes de Baltimore. A ausência de normalização foi responsável pela destruição de 2500 prédios queimados por mais de 30 horas. A charge retratada na figura 2.2 ilustra o problema.
Fonte: ANSI (2007)
Figura 2.2 – Charge relativa ao incêndio de 1904 e o problema das conexões entre hidrantes e mangueiras de incêndio.
Com a globalização a importância da normalização cresceu como um meio de viabilizar o comércio em larga escala, segundo De Vries (1999) um dos motivos desse crescimento é que as organizações não mais podem atuar de maneira isoladas, em especial na área de comunicação e tecnologia no qual as companhias estão interligadas. O universo da tecnologia de informação sem a normalização é impossível. Um reforço desse argumento pode ser encontrado no negócio das telecomunicações conforme relata Ritchie et al (1999): durante o ano de 1991, em um esforço para compatibilizar a telefonia celular a International Telecomunications Union (ITU) adotou a tecnologia GSM – Global System for Mobile Comunications como o padrão digital para toda a Europa. A adoção de um único sistema na Europa elevou a taxa de comunicação entre países europeus por telefonia celular de 4% em 1992 para 90% em 1998. Como resultado em 1995 também os norte-americanos aderiram ao sistema GSM. A vantagem é que hoje essa tecnologia é conhecida como IR - International Roaming e permite que viajantes do mundo inteiro possam se comunicar por meio de seus celulares, onde quer que estejam. A figura 2.3 ilustra o avanço da tecnologia GSM internacionalmente. A não adesão aos padrões, em certos casos, pode ser fatal. No Brasil, a VIVO, perdeu a sua liderança no mercado de celulares pelo uso da tecnologia CDMA;
72% 14%
8% 6%
GSM CDMA TDMA Outras
Fonte: GSM Association (2004)
Figura 2.3 – Comunicação internacional por celulares por tipo de tecnologia.
Outro fator de colabora com o crescimento da importância da normalização é a tendência das grandes empresas em concentrar no “core business” e terceirizar as atividades de apoio com fornecedores leva a necessidade de protocolos e especificações de entrega. A maneira de resolver problemas de disputa com fornecedores em caso de não-conformidades consiste em utilizar normas internacionalmente aceitas. Ademais, o movimento da qualidade nos anos
oitentas e o crescimento das questões ambientais não só aumentou o uso de normas do tipo ISO 9001 e ISO 14001, mas, também aumentou o uso de normas correlatas na medida que as MSS requerem que as atividades sejam efetuadas de maneira estruturadas. Assim, cresce a importância das normas de especificação de produtos e de controle de qualidade, bem como as de cunho socioambiental para dar suporte aos sistemas gerenciais da qualidade e meio ambiente implantados por cerca de um milhão de empresas.