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HARUN DENİZ VE BAHADIR GÖRGÜLÜ

As barreiras não-tarifárias englobam uma variedade de medidas. Algumas afetam diretamente os padrões comerciais; os exemplos incluem cotas de importação, restrições voluntárias às exportações, subsídios e exigências de conteúdo nacional. Outras afetam indiretamente os padrões comerciais; por exemplo, exigências de etiquetas e embalagens, e as normas e regulamentos técnicas, também conhecidas como barreiras técnicas.

Barreiras técnicas são, conforme definição oficial da OMC, empecilhos comerciais criados a partir da utilização de normas ou regulamentos técnicos não transparentes ou não reconhecidos internacionalmente, ou ainda decorrentes da adoção de procedimentos de avaliação da conformidade pouco transparentes ou demasiadamente dispendiosos. Tais empecilhos impedem ou dificultam exportações e são, muitas vezes, de difícil enfrentamento.

Segundo a UNCTAD - United Nations Conference on Trade and Development (2003) as controvérsias em torno das barreiras técnicas tomaram uma dimensão tão importante a partir de 1995, que o primeiro acordo internacional sobre esse tipo de barreira não- tarifária, o chamado Standard Code, antecedeu a própria criação da OMC, já que data de 1979. Desde então, o Standard Code foi aperfeiçoado e transformou-se no Acordo sobre Barreiras Técnicas ao Comércio (Agreement on technical barriers to trade – TBT), hoje obrigatório para qualquer país membro da OMC. O TBT determina que cada país tenha obrigatoriamente um centro de informações que seja responsável pela disseminação interna de notificações feitas à OMC por outros países e vice-versa. Tais centros recebem o nome do Enquiry Point (ponto focal) e, no Brasil, o INMETRO foi designado como ponto focal junto a OMC.

Os regulamentos técnicos e as normas, assim como a avaliação de conformidade, são a base de sustentação do comércio internacional. No mundo real, o preço é o fator decisório de compra que tem maior impacto, assim, os fornecedores podem se ver tentados a cortar custos para ganhar mais mercados. Para atingir esse objetivo é possível que os produtos ofertados sejam produzidos sem os cuidados com a segurança que deveriam ter, ou apresentar danos ao ambiente por negligência aos padrões de prevenção à poluição, ou usar formas aviltadas de trabalho. O consumidor raramente dispõe de meios para identificar ou lidar com falhas do produto no momento da compra, e conta apenas com a autoridade governamental para sua proteção, daí os governos – ou suas agências reguladoras – terem de trabalhar na construção dos regulamentos técnicos (UNCTAD, 2003)

Aqui uma distinção importante entre os regulamentos técnicos e uma norma. Norma é um documento aprovado e reconhecido cujo cumprimento é voluntário. Quando uma norma é declarada obrigatória, ela se torna um regulamento técnico. A observância do regulamento técnico não é facultativa, o que significa dizer que dentro do acordo da TBT tais regulamentos são parte integrante da legislação (UNCTAD, 2003).

Se, por um lado, os regulamentos técnicos e as normas são dois conceitos distintos, o acordo do TBT estipula claramente que as características do produto, impostas por regulamentações técnicas, devem ser baseadas em normas internacionais. Como alertam Ganslandt e Markusen (2001) a expressão “ser baseada em” é motivo de controvérsia e interpretações distintas, o que fomenta a discussão sobre o uso das normas como barreira para o livre comércio.

Para analisar o uso da normalização como barreira ao comércio alguns estudiosos utilizaram a contagem do número de normas como um indicador básico e conforme Swann et al (1996) e Moenius (1999), uma alternativa é mensurar a percentagem das importações de um país coberta por regulamentações técnicas, ou finalmente a percentagem de normas internacionais sobre o total de normas de um país, quanto mais normas internacionais menor é o uso de barreiras não-tarifárias, ou seja, maior o número de normas locais que podem ter caráter protecionista. A tabela 1.2 é uma amostra de um indicador de barreira não-tarifária, note-se que países em desenvolvimento como Brasil e China possuem uma grande parte das suas importações cobertas por regulamentos

técnicos o que caracteriza que os países não estão inseridos nos grandes blocos continentais, como a Comunidade Européia ou o Nafta. Por isso, precisam transformar as normas em regulamentos técnicos para garantia do bem-estar de sua população (normas para brinquedos, por exemplo) ou simples defesa do produto nacional.

Tabela 1.2 – Barreira não-tarifária baseada em regulamentos técnicos

País % importação coberta por regulamentos

Austrália 26 Brasil 46,2 Canadá 9,7 China 34,9 C.Européia 0,6 Hong Kong 2,3 Japão 1,9 Estados Unidos 31,9 Fonte: WTO, 2005, p.35.

No caso das normas gerenciais o seu uso como barreira técnica é muito mais difícil e sutil, sendo em geral uma referência indireta ou a exigência de um certificado sob o argumento de proteção à saúde ou ao meio ambiente como ilustram os exemplos do quadro 1.6.

Quadro 1.6 – Uso de normas MSS como regulamentações

País/Região Regulamentações Extrato da Regulamentação Técnica

Canadá Regulamentações de

Dispositivos Médicos (SOR/98- 282) (Ministério da Saúde do Canadá)

Uma cópia do certificado do sistema de gestão da qualidade (ISO 9001) certificando que o sistema da qualidade sob o qual o dispositivo é fabricado atende ao National Standard of Canadá.

CAN/CSA-ISO 13485:03, Dispositivos médicos — Sistemas de gestão da qualidade — Requisitos para fins regulamentares.

Europa Diretiva 2001/95/EC sobre segurança de produto em geral

Deve-se supor que um produto é seguro no que tange os riscos cobertas pelas normas nacionais relevantes, quando ele estiver em conformidade com as normas nacionais voluntárias que superem as Normas Européias. Se uma norma não assegura conformidade com os requisitos gerais de segurança ou meio ambiente (série 14000) a Comissão deve retirar a referência à norma da publicação em seu todo ou em parte.

Fonte: Construção nossa com base na ISO (2007)

1.6.2 Normalização

A palavra de língua inglesa “standard” e conseqüentemente “standardization” fornecem sentido mais completo para explicar a normalização que as variantes de origem européia

de onde a palavra portuguesa “norma” origina. Assim, na França temos norme, na Espanha norma, na Alemanha normung e no italiano normale. O termo vem do Latin.

nórma,ae e quer dizer esquadro, regra, norma, modelo, padrão.

Já a palavra inglesa standard vem também do Latin extend-ere e quer dizer estender, alargar, o que se aproxima ao real sentido da normalização que é ampliar um modelo de maneira a torná-lo universal.

Ainda com foco nos especialistas em lingüística o Compact Oxford English Dictionary define “standard” por duas maneiras, ambas relevante para o entendimento do conceito, as duas visões também estão presentes no Houaiss - dicionário eletrônico da língua portuguesa para definir norma, ou seja, “aquilo que regula procedimentos ou atos; regra, princípio, padrão” e “avaliação padrão obtida através dos resultados de um teste”.

Os requisitos que determinam que um semáforo deve ter três cores seqüenciadas com significados distintos atendem a definição um, por outro lado um ensaio que define dimensões de um papel tamanho A4 se encaixa na definição 2. Por isso, de maneira equilibrada o ISO/IEC Guide 2 (1991, p.7, tradução nossa) define norma como:

documento, estabelecido por consenso e aprovado por um organismo reconhecido, que provê, para uso comum e repetido, regras, orientações ou características para atividades e seus resultados, visando a grau ótimo de ordenação dados um certo contexto. Nota: as normas devem ser baseadas e consolidadas com base na ciência, tecnologia e experiência, e devem promover a excelência do bem-comum.

Assim, pode-se dizer que uma norma é uma maneira consensual adotada pela partes interessadas de se fazer alguma coisa, que pode ser uma medida, um acordo, uma condição, uma especificação. As partes envolvidas podem ser duas ou mais empresas, uma relação clientes fornecedor, uma relação governo-indústria e, no caso socioambiental, a sociedade como um todo.

Uma outra definição de norma pode ser muito simples: resultado de um processo de normalização, o que remete à definição de normalização (standardization), ainda segundo o ISO/IEC Guide 2 (1991, tradução nossa):

atividade de estabelecimento, com relação a problemas atuais e potenciais, provisões para o uso repetido e comum, visando o atendimento de um grau ótimo de ordem dado um determinado contexto. Notas:

1. em particular, essa atividade consiste um processo de formulação, emissão e implantação de normas. 2. importantes benefícios da normalização são a

melhoria da adequação de produtos, processos e serviços, para os seus propósitos, prevenção de barreiras ao comércio e facilitação do processo de cooperação tecnológico.

Como se vê, pelo conceito de normalização definido pela ISO/IEC o processo de construção de normas deve remeter à prevenção de barreiras ao comércio, agindo assim como facilitadora das transações internacionais. A nota 2 também expande o conceito de normalização aos processos e serviços, o que introduz a idéia de MSS.

Benzer Belgeler