(transição da interacção, análise da mesma, perspectiva da utente e da enfermeira) 4 – AVALIAÇÃO DO ESTADO MENTAL
5 – SEGUNDO A TEORIA DE SISTEMAS DE BETTY NEUMAN 6 – PLANO DE CUIDADOS
1. IDENTIFICAÇÃO
O nome da doente é “Filomena”. É uma doente do sexo feminino, tem 60 anos de idade, nacionalidade portuguesa, raça caucasiana. É casada, tem filhos e netos. Reformada.
2. MOTIVO DE INTERNAMENTO
A Sra. F., foi internada em regime de internamento voluntário, em Setembro de 2011, através da consulta externa, na sequência de um Síndrome Depressivo Major (diagnóstico médico) recorrente, apresentou actualmente 1º surto – delírio persecutório e místico; ideação suicida não estruturada (atirou-se da janela da cozinha segundo registos do processo). Doente com história de depressão há 13 anos (desde a morte de um filho por acidente) este é o 1º internamento em Psiquiatria.
3. ENTREVISTA DE AVALIAÇÃO DIAGNÓSTICA
Antes de realizar a entrevista consultei o processo para colher alguns dados, estabeleci previamente contacto com a doente, apresentando-me, dizendo a minha profissão e o meu estatuto de aluna da especialidade.
Realizei também pesquisa bibliográfica acerca da entrevista, qual o seu objectivo e como deve ser dirigida.
O Contexto
A preparação da entrevista iniciou-se com a minha preparação pessoal, e também profissional. Procurava alguém para entrevistar e estabelecer um plano cuidados de acordo com os objectivos do projecto de estágio a que me proponho desenvolver, no entanto foi a Sr.ª Filomena que me
escolheu… No contexto da actividade que desenvolvo na Clínica de São José – Unidade Santa Isabel - encontrei a Sr.ª Filomena no seu quarto, que partilha com outros dois utentes. Fui até lá para dar o “Bom dia” e ver como se encontravam os utentes neste início de manhã. A Sr.ª Filomena encontrava-se sentada na sua cama, aproximei-me e ela pediu-me que me sentasse para de seguida me pedir que “conversasse” um pouco com ela.
O facto de já ter estabelecido contacto, dias antes com a Sr.ª Filomena antes desta interacção foi benéfico, na empatia estabelecida e na disponibilidade assumida pela doente de partilhar a sua vivência. Watson (2002) fala desta proximidade entre o enfermeiro e o doente como algo essencial, benéfico no sentido de aumentar a humanização, a sensibilidade e a capacidade de entrega.
O posicionamento foi planeado com a doente, dando-lhe a liberdade de escolher o local e a distribuição dos intervenientes. A interacção decorreu junto à sua cama, sem a presença de outros utentes. Foi mantido o respeito, o silêncio e a intimidade da pessoa e do momento, sendo que aquele espaço era simultaneamente familiar para a doente, chegando a partilhar que ali se sentiria
“mais à vontade” do que se fossemos para a sala de estar. A Sr.ª Filomena decidiu ficar sentada na
sua cama, eu sentada do seu lado direito.
Durante a interacção optei por não registar tudo aquilo que foi partilhado, sendo que o fiz após o término. Fi-lo por considerar que poderia interferir de alguma forma com o processo de comunicação, na eventual quebra do olhar ou na expectativa da doente face ao que estaria ou poderia escrever.
A confidencialidade das informações recolhidas e a garantia de que o seu nome não iria ser referido nesta análise foram aspectos reforçados.
Segue-se a transcrição da interacção e análise imediata do que foi percebido, sentido, pensado e intervenções segundo o modelo definido por CHALIFOUR (2008).
Enfermeira (Eu) – Bom dia Sr.ª Filomena. (Procurei apresentar-me) Sr.ª Filomena – Bom dia Sr.ª Enfermeira. (olhar triste, olha para o chão) Enfermeira (Eu) – Sente-se confortável assim?
Sr.ª Filomena - Sim, estou bem… (denota-se alguma apreensão, postura algo retraída, penso que
está nervosa no iniciar da sessão, sinto que está apreensiva, procuro iniciar o dialogo marcando o inicio do mesmo e mostrando que estou disponível para estar ali com ela e escutá-la. Tento potenciar um ambiente acolhedor.)
Enfermeira (Eu) – A Sr.ª Filomena disse-me que gostaria de falar um pouco comigo. Já sabe que
estarei aqui para a ajudar no que puder, sobretudo no que puder fazer para que se ajude a si mesma. Sabe que temos o nosso tempo limitado, mas estarei cá hoje e outros dias, sempre que for necessário.
Sr.ª Filomena – Muito obrigada.
Enfermeira (Eu) – Então diga-me Sr.ª Filomena o que a levou a pedir-me que falássemos um
pouco…?
Sr.ª Filomena – Sabe a sua escuta já é muito importante… As vezes precisam de falar, mas não sei
Enfermeira (Eu) – Estou aqui para poder ajudá-la no que for possível. (pausa – senti necessidade de criar um momento de silêncio, para me ajudar a mim a dar tempo ao outro e possibilitar um momento de reflexão)
Sr.ª Filomena – Estou aqui, porque sei que preciso de ajuda, mas tem sido muito difícil. Às vezes
sinto-me presa aqui dentro, outras vezes sei que é para meu bem, e até é melhor, assim estou longe de tudo… Tenho sofrido muito muito… Agora já nem converso com o meu marido, estamos sempre em conflitos… (baixa mais o olhar),
…desde a morte do meu filho nunca mais voltei a ser a mesma… e desde ai tudo piorou e parece que nada faz sentido (choro) (mantém postura física, penso que está a identificar as dificuldades que
sente no momento, embora note alguma dificuldade em expressá-las, sinto tristeza).
Enfermeira (Eu) - Sinto que está muito triste. (procuro encontrar o sentimento predominante, com, o objectivo de ajuda-la na expressão dos seus sentimentos, pensei na morte e na vulnerabilidade que isso representa para o ser humano relembrei alguns doentes com os quais estabeleci ligações e como me foi difícil o momento do falecimento, relembro alguns familiares que ainda hoje nos vão visitar e outros que saíram do hospital marcados por uma imensa tristeza e perda e dos quais não obtive mais conhecimento)
Sr.ª – Filomena – Sim. (olha para mim e de seguida baixa novamente o olhar)
Enfermeira (Eu) – Falou-me no seu filho que faleceu… (Procurei focar a atenção da utente na situação que segunda a mesma terá despelotado o desenvolvimento da situação actual).
Sr.ª Filomena – Sim, foi traumático, foi de acidente, ele era tudo para mim… muito querido, dava-
me alegria para viver… Tenho outro filho, e os meus netinhos (sorri), sem eles já não estava aqui.
Enfermeira (Eu) - Esboçou agora um sorriso… (senti um sentimento de felicidade naquele sorriso
tão espontâneo e sincero, procurei devolver-lhe este aspecto com o objectivo de que o outro se focalize em algo benéfico e positivo na sua vida).
Sr.ª Filomena – Os meus netos são tudo para mim, já tenho saudades. Gostava de estar mais com
eles, brincar mais com eles, mas agora não me apetece, sinto-me assim… sem vontade para nada… (gesticula com as duas mãos juntas – sinto algum nervosismo; Pausa (baixa de novo o olhar
e diminui o tom de voz, sinto que a tristeza de novo a invadiu, agora por não manter a relação com os netos que mantinha até pouco tempo, procurei respeitar o silêncio que se impôs).