sinônimo de transferência de tecnologia em vários estudos (EISENBERG, 1996; HENDERSON et al., 1998). Uma das principais associações que lida com transferência de tecnologia, a AUTM (The Association of University Technology Managers) define:
“Technology transfer is the process of transferring scientific findings from one organization to another for the purpose of further development and commercialization. The process typically includes: (i) identifying new technologies; (ii) protecting technologies through patents and copyrights; (iii) forming development and commercialization strategies such as marketing and licensing to existing private sector companies or creating new start-up companies based on the technology”. (AUTM)51
Este tratamento da patente como mecanismo de transferência de tecnologia provocou uma proliferação de escritórios de transferência de tecnologia em universidades de diversos países. Estes escritórios gerenciam as invenções comercializáveis geradas pelos pesquisadores, realizando consultas periódicas sobre as recentes descobertas acadêmicas com potencial para a comercialização, cuidam do processo de patenteameto e de procura de parceiros interessados em licenciar a tecnologia.
Entretanto, apesar do entusiasmo das universidades com relação à transferência de tecnologia, é preciso reconhecer que a patente é apenas um dos mecanismos de transferência de tecnologia.
A hipótese deste capítulo sugere que a patente é um mecanismo limitado para a tarefa de transferência de tecnologia para o setor produtivo. A limitação deste mecanismo está associada aos seguintes fatores: (i) tipo de conhecimento tecnológico a ser transferido (produto, processo, etc.); (ii) volume de pesquisas a serem realizadas para tornar o conhecimento um produto ou processo final; (iii) tipo de indústria a qual se destina – sua
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capacidade de absorção e peso que dá à patente como mecanismo de apropriação. Cada fator é discutido a seguir.
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A patente é apenas um dos mecanismos de apropriação das inovações e, como qualquer outro mecanismo, é imperfeito. Levin et al. (1987) realizaram um estudo sobre as condições de apropriação dos retornos do P&D industrial em empresas de mais de uma centena de indústrias nos EUA. Os resultados indicaram que a patente foi considerada pelas empresas, de um modo geral, como um dos mecanismos de apropriação menos efetivos. Além disso, patentes de produtos foram consideradas mais efetivas do que de processos. Assim, é preciso verificar se o conhecimento tecnológico gerado nas universidades e nos institutos públicos de pesquisa constitui-se em sua maioria em produtos ou processos para poder avaliar se a patente é necessária para a transferência da tecnologia.
Com relação ao segundo fator, o próprio argumento por trás do Bayh-Dole Act era de que a maior parte das invenções realizadas nas universidades era embrionária, requerendo substanciais gastos adicionais em P&D para transformá-la em um produto comercial, fazendo-se necessária a solicitação de uma patente para estimular empresas interessadas em realizar estes gastos. Colyvas et al. (2002) apresentam um estudo de 11 invenções das universidades de Columbia e Stanford. Os autores avaliaram em cada caso o papel da propriedade intelectual no processo de transferência de tecnologia. Os resultados indicaram que a patente foi mais importante como mecanismo de transferência de tecnologia para as invenções que estavam em seu estado embrionário e relativamente sem importância para as invenções “prontas para o uso”.
A importância da patente como mecanismo de transferência de tecnologia também varia intensamente entre os setores industriais. No estudo de Levin et al. (1987), apenas uma indústria (a farmacêutica) considerou as patentes de produtos um mecanismo de apropriação mais efetivo que os demais (segredo industrial, vantagens de ser o primeiro, etc.). Cohen et al. (2002) analisam os dados de um survey com 1.478 laboratórios de P&D de empresas do setor de manufaturas dos EUA para avaliar como as empresas protegem os lucros decorrentes das suas invenções. Os autores mostram que na maior parte das industrias, o patenteamento e licenciamento não são considerados como mecanismos de
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Alguns destes mecanismos são: a vantagens de ser o pioneiro na inovação; segredo industrial; vantagens decorrentes da evolução na curva de aprendizado, esforços de vendas ou serviços e patentes (LEVIN et al. 1987).
transferência de tecnologia importantes. Setores de alta tecnologia, como equipamentos de comunicação e aeroespacial, indicaram a importância das patentes como sendo, no máximo, moderada. A indústria farmacêutica foi a principal a considerar as patentes e licenciamentos como um mecanismo pelo menos moderadamente importante, com 50% e 34% dos respondentes. Os autores destacam que, mesmo no setor farmacêutico, os mecanismos informais e publicações foram considerados mais importantes.
Em um trabalho anterior, Cohen et al. (2000) discutem outros resultados deste mesmo survey, enfatizando que a motivação que leva ao patenteamento vai além de patentear para proteger os lucros e tentar impedir que outras empresas copiem suas invenções. As empresas também procuram obter patentes de suas invenções para tentar impedir suas rivais de obter patentes relacionadas; para utilizá-las em negociações e prevenir disputas judiciais. Enquanto empresas do setor químico patenteiam para impedir rivais de patentear produtos substitutos, empresas do setor de telecomunicações de semicondutores usam suas patentes para forçar negociações.
Mazzoleni (2005) destaca dois tipos de argumentos teóricos segundo os quais patentear pesquisas financiadas por recursos públicos contribui para gerar mais inovações comerciais e de forma mais rápida. O primeiro se baseia em custos de transferência tecnológica, ou seja, as patentes ajudariam a reduzir tais custos, pois os cientistas teriam maiores incentivos a se envolverem em atividades de transferência de tecnologia facilitando para as empresas a absorção dos resultados da pesquisa acadêmica. Este argumento apresenta uma contradição, pois o próprio licenciamento é um custo para quem quer desenvolver a tecnologia.
O segundo argumento, apresentado com maior profundidade em Mazzoleni e Nelson (1998), pode ser tratado como o argumento da “indução à comercialização”. Como em muitos casos as patentes de universidades e IPP se referem a invenções ainda em seu estágio embrionário, requerendo esforços em P&D para alcançar o estágio da comercialização. As patentes incentivariam as empresas interessadas em realizar tais esforços a investir em atividades de P&D subseqüentes. Desta forma, os custos e incertezas associadas ao P&D subseqüente serão menores para a empresa quando esta licencia com exclusividade as patentes acadêmicas do que quando os conhecimentos gerados pelas universidades e IPP são de domínio público. A crítica a este argumento vem do caso mais famoso de licenciamento de tecnologia. A tecnologia Cohen-Boyer já estava sendo
utilizada por empresas antes da obtenção da patente (o que gerou processos posteriores contra quem já estava utilizando) e não foi licenciada com exclusividade.
Portanto, a patente parece ser necessária para a realização da transferência de tecnologia apenas em circunstâncias bastante restritivas. Somente alguns setores industriais a consideram um mecanismo eficaz de apropriação; depende da característica da invenção (se é processo ou produto) e se está em seu estágio embrionário ou acabado. A questão da necessidade da patente para a transferência de tecnologia será abordada no capítulo 4.