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8. DENEYSEL ÇALIŞMALAR

8.3 İnce Film Numunelerin Değerlendirilmesinde Kullanılan Karakterizasyon

Compreender os arranjos de uma sociedade escravista passa necessariamente pela análise conjunta da população livre e escrava. É preciso ir além do exame do contingente cativo e da quantificação das propriedades escravistas, observando características de comportamento e práticas dos grupos livres presentes na região. A tabela 1.12 individua a distribuição e os percentuais de homens e mulheres pelas freguesias.

Tabela 1.12 - Distribuição da população livre por sexo e localidade,1831 Localidades Masculino (%) Feminino (%) Total

Brumado 290 45,8 343 54,2 633

Catas Altas 582 43,4 760 56,6 1342

Cocais 686 48 743 52 1429

Nossa Senhora do Socorro 395 63,7 225 36,3 620

Santa Bárbara 496 44 631 56 1127

São Domingos do Prata 596 47,6 657 52,4 1253

São Gonçalo do Rio Abaixo 806 46,3 935 53,7 1741

São Gonçalo do Rio Acima 121 46,4 140 53,6 261

TOTAL 3.972 47,3 4.434 52,7 8.406

Fonte: APM. Listas Nominativas, 1831. Organizadas em Banco de Dados pelo CEDEPLAR/UFMG – Núcleo de Pesquisa em História Demográfica.

A proximidade entre o número de homens e mulheres livres aponta para uma sociedade estabelecida, que não estava passando por grandes processos migratórios ou dificuldades que impusessem a movimentação ou a mortalidade de parcela de um dos sexos. De acordo com Paiva e Botelho (1995)24, em todos os municípios da região Mineradora, o número de mulheres livres na população era superior ao de homens, para os anos de 1831/32. Nesse momento, também o peso da camada mais velha da população era mais elevado e as razões de dependência maior.

Para entender a formação e a organização das famílias, a historiografia mais recente tem recorrido frequentemente a conhecimentos oriundos inicialmente de outras disciplinas, como a demografia, a antropologia e a sociologia. Esses trabalhos abordam a temática da família observando a multiplicidade de valores e atitudes de cada grupo social, respeitando a pluralidade de organizações familiares existentes no passado brasileiro. O núcleo familiar, muitas vezes, ultrapassava as dimensões da vida social, atingindo aspectos da produção material e da organização política (ALVES, 2009). As opções matrimoniais revelam características importantes da sociedade, como, por exemplo, a flexibilidade ou não das relações entre pessoas de cores ou categorias sociais diferentes. A escolha de um parceiro representava um posicionamento pessoal e, ao mesmo tempo, coletivo, uma vez que era baseado em noções maiores sobre como deveriam ser as relações sociais em uma sociedade escravista. Não nos referimos aqui apenas à possibilidade de relacionamento entre livres e escravos – visto que esse é de difícil identificação em nossas fontes, especialmente, pelo seu caráter não oficial – mas à formação de famílias mistas, originadas pela junção de pessoas de cor/qualidade25 diferentes. A cor nas sociedades escravistas era uma entre as muitas marcas simbólicas de distinção social e representava uma ligação com a escravidão, mesmo que remota. Para identificar casais livres, segundo a cor dos dois parceiros, elaboramos a tabela a seguir. Como na lista nominativa nem sempre conseguimos identificar os casais, a montagem da tabela foi feita da seguinte forma – primeiramente, separamos a população livre casada segundo a cor e o fogo, posteriormente, analisamos cada fogo para identificar os casais. Repetimos a operação para cada freguesia. Em alguns casos, não é possível afirmar que se trate de marido e mulher, ou porque aparece um número ímpar de pessoas casadas, sem identificação do cônjuge, ou porque o fogo tem apenas um membro casado. Esses casos em

24 Conforme Paiva e Botelho (1995, p.105), razão de dependência é calculada dividindo-se a soma da população de 00-15 e de mais de 60 anos pela população de 15 a 60 anos.

25

Optamos, em alguns momentos, por utilizar o termo “qualidade” no lugar de cor, pois a classificação da época trata cor/raça como uma categoria ampla, incluindo ali elementos que não são necessariamente referentes à pigmentação da pele ou à origem da pessoa.

que não foi possível identificar o parceiro foram sinalizados ao lado, pois acreditamos que para algumas freguesias essa é uma informação que também merece análise.

Tabela 1.13 - Distribuição da população livre casada segundo sexo, qualidade e localidade, 1831 Catas Altas Nossa Senhora do Socorro São Gonçalo do Rio Acima

Esposo/Esposa Nº % S/Ident. Cônjuge Esposo/Esposa Nº % S/Ident. Cônjuge Esposo/Esposa Nº % S/Ident. Cônjuge Branco/Branca 30 19,7 10 fem. parda, 4 fem. crioula, 2 masc. pardo, 2 masc. crioulo, 1 masc. preto Branco/Branca 26 33,8 4 fem. branca, 3 masc. crioulo, 9 masc. pardo, 3 fem. parda, 59 masc. branco, 1 fem. crioula Branco/Branca 3 9,4 2 masc. pardo, 1 fem. branca

Crioulo/Crioula 16 10,5 Crioulo/Crioula 16 20,8 Crioulo/Crioula 4 12,5

Pardo/Parda 87 57,2 Pardo/Parda 21 27,3 Pardo/Parda 21 65,6

Preto/Preta 5 3,3 Preto/Preta 1 1,3 Cabra/Cabra 2 6,3

Crioulo/Preta 2 1,3 Crioulo/Preta 1 1,3 Pardo/Cabra 2 6,3

Pardo/Crioula 3 2,0 Pardo/Crioula 1 1,3

Branco/Parda 5 3,3 Branco/Parda 5 6,5

Crioulo/Parda 1 0,7 Crioulo/Parda 4 5,2

Preto/Crioula 3 2,0 Preto/Crioula 2 2,6

Total 152 100 Total 77 100 Total 32 100

Cocais São Gonçalo do Rio Abaixo São Domingos do Prata

Esposo/Esposa Nº % S/Ident. Cônjuge Esposo/Esposa Nº % S/Ident. Cônjuge Esposo/Esposa Nº % S/Ident.Cônju ge Branco/Branca 72 38,3 3 masc. pardo , 10 fem. parda , 1 masc. africano , 3 fem. branca, 3 fem. crioula, 4 masc. branco, 1 masc. crioulo Branco/Branca 56 23,1 4 fem. parda, 7 fem. crioula, 4 fem. crioula, 2 masc. crioulo, 9 masc. pardo, 2 masc. branco Branco/Branca 74 45,1 2 fem. branca, 10 masc. branco, 1 masc. crioulo, 4 masc. pardo, 1 fem. africana, 2 fem. parda, 2 fem. crioula

Crioulo/Crioula 23 12,2 Crioulo/Crioula 28 11,6 Crioulo/Crioula 22 13,4

Pardo/Parda 67 35,6 Pardo/Parda 111 45,9 Pardo/Parda 53 32,3

Africano/Africana 2 1,1 Africano/Africana 4 1,7 Cabra/Cabra 1 0,6

Cabra/Cabra 2 1,1 Branco/Crioula 1 0,4 Africano/Africana 1 0,6

Africano/Crioula 1 0,5 Branco/Parda 14 5,8 Branco/Parda 1 0,6

Crioulo/Africana 1 0,5 Crioulo/Parda 5 2,1 Branco/Crioula 1 0,6

Crioulo/Cabra 5 2,7 Crioulo/Africana 1 0,4 Crioulo/Cabra 1 0,6

Crioulo/Parda 2 1,1 Pardo/Branca 7 2,9 Pardo/Branca 1 0,6

Branco/Parda 4 2,1 Pardo/Crioula 11 4,5 Pardo/Crioula 1 0,6

Pardo/Branca 4 2,1 Pardo/Africana 1 0,4 Africano/Crioula 7 4,3

Pardo/Cabra 3 1,6 Africano/Crioula 2 0,8 Pardo/Índia 1 0,6

Cabra/Crioula 1 0,5 Africano/Parda 1 0,4

Cabra/Parda 1 0,5

Total 242 100

Total 164 100

Total 188 100

Brumado Santa Bárbara

Esposo/Esposa Nº % S/Ident. Cônjuge Esposo/Esposa Nº % S/Ident. Cônjuge Branco/Branca 4 4,5 2 masc. branco, 2 masc. pardo, 2 masc. crioulo, 6 fem. parda, 1 fem. preta Branco/Branca 15 11,7 6 fem. parda, 2 fem. branca, 4 masc. pardo, 4 fem. crioula, 1 masc. branco, 1 fem. africana Crioulo/Crioula 16 18,0 Crioulo/Crioula 35 27,3 Pardo/Parda 56 62,9 Pardo/Parda 57 44,5 Preto/Preta 3 3,4 Africano/Africana 3 2,3 Branco/Parda 1 1,1 Cabra/Cabra 3 2,3 Preto/Parda 1 1,1 Branco/Crioula 1 0,8 Crioulo/Parda 2 2,2 Branco/Parda 2 1,6 Pardo/Branca 1 1,1 Crioulo/Cabra 2 1,6 Pardo/Crioula 4 4,5 Pardo/Crioula 3 2,3 Pardo/Preta 1 1,1 Africano/Crioula 2 1,6 Cabra/Crioula 5 3,9 Total 89 100 Total 128 100

Fonte: APM. Listas Nominativas, 1831. Organizadas em Banco de Dados pelo CEDEPLAR/UFMG – Núcleo de Pesquisa em História Demográfica.

O que mais nos chama a atenção na tabela anterior é a enorme proporção de casamentos entre pessoas identificadas como sendo da mesma cor. Esse percentual é superior a 80% dos casamentos em todas as freguesias. As uniões endogâmicas entre pardos são as mais frequentes. Esse resultado sugere que o processo de miscigenação racial propriamente dito era pouco intenso na década de 1830. Podemos inferir assim que a maior miscigenação

racial identificada por historiadores colonialistas não suportou as mudanças econômicas e sociais advindas do declínio da mineração (LIBBY, 2010).

Podemos supor também, como sugere Libby, que, durante o século XIX, ocorreu uma simplificação nas representações identitárias, que acaba por gerar uma supernumeração de pardos em detrimento dos crioulos. Ainda de acordo com Libby, essas práticas classificatórias, pautadas nos tons de pele “básicos” – agora reduzidos a branco, pardo e crioulo26 – cada vez mais encaixavam os casais dentro de uniões consideradas endogâmicas. Deixando um pouco de lado os debates sobre a questão do embranquecimento, salientamos a aparente necessidade, cada vez mais característica do Oitocentos mineiro, de identificar casais como portadores de uma mesma cor. Em algumas freguesias, a simplificação das cores em poucas categorias fica bem evidente, Sant’Ana dos Ferros e Antônio Dias, por exemplo, possuem apenas designações de branco, pardo e crioulo. Como são muito restritos os casos de uniões conjugais entre pessoas identificadas como possuindo cor de pele diferente, acreditamos que essas distinções só eram evidenciadas quando, por algum motivo, a distinção saltava aos olhos. Ou seja, a observação da distinção da cor tinha como objetivo evidenciar a diferença. Assim, por exemplo, as uniões entre brancos/as e crioulos/as clamavam-nas pela menção da ligação com a escravidão do segundo, em casos de uniões de pretos/as e crioulos/as ou pardos/as, o que necessitava ser explícito era o vínculo do primeiro com um passado na África. Também observamos que, quando é mencionada a cor preto/a, não aparece africano/a, reforçando a ideia de que essas nomenclaturas eram utilizadas como sinônimos.27

De acordo com o estudo de Libby (2010), a constatação de que a identificação da pigmentação da pele tendia a ser a mesma entre cônjuges também é verdadeira quando eram mencionadas as cores de pais e filho. Assim, acreditamos que a sociedade mineira Oitocentista, principalmente no nosso recorte espacial, estava baseando parte importante dos seus relacionamentos sociais em questões identitárias. Ou seja, as representações identitárias tendiam a ser formuladas levando em consideração grupos de cor restritos, sendo menos aceitáveis as uniões exogâmicas.28

Ainda no que diz respeito à tabela 1.13, é curiosa a quantia de homens brancos livres sem identificação do cônjuge na freguesia de Socorro. Esses somam 59 indivíduos no total. Em nenhuma outra localidade, a falta de informação, ou melhor, a ausência do companheiro

26 O termo preto também aparecia eventualmente na lista de 1838 e ainda era usado como uma designação genérica para pessoas naturais da África.

27 Apenas em Itabira encontramos a menção de Africano e Preto juntas. 28 Ver também: Lott (2008).

foi tão significativa. Essa irregularidade levou-nos a investigar mais intensamente a freguesia de Socorro. Assim identificamos que a grande maioria dos homens casados residentes nessa localidade, sem a companhia de suas esposas, era europeu e trabalhava em mineradoras inglesas, pois os fogos, nos quais residiam, vêm descritos logo acima da “Companhia do Gongo”, com seus inúmeros escravos. Nem todos tinham sua origem identificada, mas é fácil reconhecer os estrangeiros pelo sobrenome. A maioria dos estrangeiros eram homens solteiros ou casados desacompanhados da família. Havia, também, a presença de casais, mas em menor número. A escolha ou necessidade de viajar para o Brasil por causa do trabalho - fosse ele braçal, técnico ou administrativo - causou uma mudança na estrutura das famílias tanto nas localidades de origem desses europeus como no seu destino. Na Europa, ficaram as mulheres, provavelmente com seus filhos, e, no Brasil, os homens. Alguns estrangeiros moravam com outros conterrâneos no mesmo domicílio, mas também encontramos fogos com apenas um estrangeiro e seus escravos.

A família é um elemento muito importante para a compreensão de qualquer sociedade, pois não se trata apenas de um elemento de ligação afetiva, embora esse possa ser o motivo da formação dos elos entre os membros, mas de um grupo de pessoas que produzem e consomem. Assim, suas decisões como consumidores e produtores de mercadorias estavam interligadas tanto à economia local quanto ao poder aquisitivo do grupo. A riqueza ou o status familiar eram quesitos importantes na concepção de alianças matrimoniais, principalmente, para as famílias tradicionais que buscavam manter seu poder econômico ou prestígio na sociedade. Ademais, quando tratamos de sociedades escravistas, a estrutura familiar era muito importante, principalmente, para a sobrevivência de pequenos produtores desprovidos de trabalhadores cativos, uma vez que fornecia a mão de obra necessária para trabalhar a terra. A falta do braço escravo estimulava o envolvimento da família no trabalho, favorecendo ainda a formação de unidades produtivas compostas por elementos alheios à unidade familiar básica - pai, mãe e filhos - como agregados (FARIA, 1998). A existência de agregados e parentes nos domicílios era uma forma de ampliar a produção, especialmente, naqueles com poucos filhos ou mesmo sem a presença dos mesmos. Já para o agregado ou parente representava a oportunidade de poder usufruir da terra/moradia que ele ainda não possuía, ou ao menos não em quantia suficiente para a sua sobrevivência e, possivelmente, de sua família.

Compreendendo a importância da unidade familiar tanto nas estratégias pessoais de melhoria de vida quanto no seu impacto na economia local, vamos tentar entender a composição dos domicílios e a distribuição dos seus residentes entre as categorias agregados, escravos e parentes, observando as diferentes organizações de família. Utilizou-se a

classificação proposta por Eni Mesquita para tipificar os domicílios. (SAMARA, 1989) A primeira consideração sobre este modelo é que a categoria Singular representa apenas as pessoas que moravam sozinhas. O tipo Nuclear representa pessoas livres, casais, e indivíduos com filhos e netos, sem a presença de escravos e/ou agregados. O tipo Extenso seria o Nuclear acrescido de mais parentes. Assim, estas três categorias representam domicílios constituídos apenas por pessoas livres. Os tipos Aumentado e Desconexo caracterizam-se pela presença marcante de escravos e/ou agregados vinculados a eles. A distinção entre ambos se faz, no caso dos domicílios Aumentados, pela presença de um núcleo familiar composto pelo casal/indivíduo e seus filhos e netos, seguido ou não de parentes.

Tabela 1.14 - Distribuição dos domicílios, segundo a composição dos residentes, 183129

Localidades

Livres Livres + Escravos

Total S in g u la r N u cl ea r E x te n so Com indivíduos sem relação de parentesco D es co n ex o A u m en ta d o Com indivíduos sem relação de parentesco Brumado 16 60 18 29 11 19 9 162 Catas Altas 84 93 0 126 28 20 61 412 Cocais 48 84 1 115 28 47 50 373 N. S. do Socorro 11 26 1 75 5 5 16 139 Santa Bárbara 40 107 27 37 22 39 14 286 S. D. do Prata 15 105 11 27 27 57 38 280 S. G. do Rio Abaixo 45 167 46 18 39 103 2 420 S. G. do Rio Acima 4 10 0 26 4 5 13 62 Total 263 652 104 453 164 295 203 2.134 % 12,3 30,6 4,9 21,2 7,7 13,8 9,5 100

Fonte: APM. Listas Nominativas, 1831. Organizadas em Banco de Dados pelo CEDEPLAR/UFMG – Núcleo de Pesquisa em História Demográfica.

Nas listas nominativas, nem sempre é possível identificar a relação de parentesco entre os membros do fogo. Essa ligação é deduzida levando-se em consideração a ordem como os indivíduos são relacionados, a condição, a idade e o sobrenome (quando o mesmo aparece, pois é comum apenas o chefe ter seu sobrenome identificado). Todavia, como podemos perceber pela tabela precedente, existe um grande número de pessoas cuja conexão com o

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Singular: representa apenas as pessoas que moravam só – Nuclear: representa pessoas livres, casais e indivíduos com filhos (SEM escravos ou agregados) – Extenso: representa o nuclear acrescido de parentes ou agregados – Desconexo: representa o casal/indivíduo mais escravos e/ou agregados – Aumentado: representa o casal/indivíduo e sua prole (seguido ou não de parentes) mais escravos e/ou agregados – Com indivíduos sem

relação de parentesco: representa os fogos onde não foi posível identificar com clareza as relações de

chefe do domicílio é difícil de ser precisada. É possível mencionar, com certa segurança, que a maioria desses indivíduos era parente ou agregado, visto que a identificação da unidade familiar básica é mais fácil de ser percebida. Alguns poucos indivíduos, todavia, podem ser filhos e netos, pois a ausência de sobrenome ou mesmo a diferença desse entre os membros de uma mesma família pode ter levado à classificação como “sem relação identificada com o chefe”. A imprecisão dos dados quanto ao quesito do domicílio não inviabiliza a nossa análise por diversos motivos. Primeiramente, não temos como objetivo criar padrões de formação familiar, muito menos tomar esses dados como definitivos no estudo dos fogos. Segundo, são raros os documentos do século XIX que nos permitem identificar os agrupamentos que vão além do núcleo familiar acrescido de escravos. Assim, a possibilidade de visualizar, mesmo com certa flexibilidade, os diferentes tipos de ajuntamentos familiares e sua frequência amplia o conhecimento do pesquisador estudioso da família.

Podemos observar que os domicílios singulares eram frequentes em localidades com uma população urbana maior, como Itabira, Santa Bárbara e São Gonçalo do Rio Abaixo.30 Uma pessoa que não pudesse contar com o apoio de familiares ou companheiro, com certeza, tinha mais chances de conquistar melhores condições de vida nos arraiais, onde poderia vender sua força de trabalho mais facilmente. O fato de viver na cidade, talvez, não gerasse urgência na demanda do casamento, a população urbana tinha menor necessidade de mão de obra auxiliar, o que pode ter contribuído para a formação de domicílios singulares ou nucleares. O domicílio nuclear tem um peso importante para os indivíduos desprovidos do acesso a mão de obra cativa. Em nossa análise, ele representa 30,6% do total dos fogos e 44,3% dos fogos sem cativos. Os fogos classificados como “Com indivíduos sem relação de parentesco” podem ser analisados juntamente com os denominados extenso, pois a maioria, com certeza, pode ser encaixada nesta categoria. Esses representam justamente as famílias com agregados e parentes, podendo ou não ter a presença dos filhos. Os agregados constituem uma categoria bastante heterogênea e sem posição definida no quadro econômico-social. Os agregados eram homens e/ou mulheres geralmente desprovidos de propriedade fundiária, que apareciam em muitos domicílios como forma alternativa de mão de obra (OLIVEIRA, 2006, p.81). Esse tipo de domicílio evidencia situações complexas de relacionamento, podendo englobar parentes, pessoas com ligações afetivas com o chefe do fogo ou sua família, podendo apresentar variações na sua formação dependendo, especialmente, da localidade

30 Mesmo não conseguindo identificar com clareza as áreas limítrofes entre urbano e rural, existem outros fatores que auxiliam na identificação de localidades mais urbanizadas, como já vimos anteriormente. Todas as freguesias possuíam comércio em seus arraiais, apenas o que variava era a oferta tanto de estabelecimentos quanto de produtos.

onde se situa. Acreditamos que a sua maioria era composta por indivíduos que não tinham acesso à mão de obra cativa, sendo assim necessitavam agregar outras pessoas à sua propriedade para complementar e fortalecer a rotina de tarefas, especialmente, nas zonas rurais. Nesse caso, funcionava como um auxílio mútuo, não necessariamente igualitário ou justo, pois supria a necessidade tanto de quem tinha a terra, mas precisava de mais recursos humanos para melhor trabalhá-la, como para quem não tinha ainda recursos suficientes para adquirir sua própria propriedade. Os domicílios extensos poderiam também ser formados, como ocorria corriqueiramente na freguesia de Socorro e de Cocais, por pessoas que prestavam algum tipo de serviço ou administravam propriedades longe da residência de suas famílias. Assim, representavam ajuntamentos de funcionários ou trabalhadores que poderiam ser temporários ou mesmo fixos, mas estavam distantes de sua família ou residência de origem.

Quando tratamos de fogos com escravos, não devemos imaginar, de imediato, pessoas abastadas. Com certeza, a posse de cativos era um indicativo de riqueza, mas poderia ser o resultado de muitos anos de economia ou de uma dívida ainda não saldada. O trabalhador cativo representava tanto um patrimônio, que poderia ser vendido em caso de necessidade financeira, quanto um ativo (que se depreciava com o tempo), uma vez que era responsável por um incremento constante na renda da família. Provavelmente, o escravo gerava mais rendimentos que um agregado, especialmente por ter menor liberdade de escolha, tanto no que concerne aos horários, à quantidade e à forma do trabalho. A possibilidade de escolhas poderia, inclusive, ser utilizada pelos senhores como forma de tornar o trabalho rentável. Como demonstraram Fogel e Engerman (1974), a escravidão não era um sistema irracional, o trabalho dos escravos, geralmente, era negociado diretamente entre o senhor e a pessoa interessada nos serviços ou pelo próprio cativo. Assim, as motivações dos escravos ao trabalho e as estratégias utilizadas pelos senhores para melhorar a produção perpassavam por formas de gratificações não pecuniárias. Ou seja, incentivos não monetários, como, por exemplo, morar próximo a familiares, ter uma moradia individual por família, melhor alimentação, direito a visitar amigos, entre outros, acabavam tornando a compra e venda de escravos muito rentável. Os senhores tinham grande leque de opções para motivar os seus escravos, mesclando doses de autoridade e de complacência ou generosidade, cada proprietário tentava estabelecer o ritmo de trabalho que achava adequado. Já com os agregados, é provável que o autoritarismo não pudesse ser exercido com tanta voracidade. É certo que devia haver alguma ligação de dependência entre senhores e agregados ou familiares que viviam no mesmo domicílio, variando o grau de subordinação de acordo com

cada fogo. Mas essa não pode ser equiparada com a dos cativos, que eram uma propriedade do senhor. Deixemos claro que não estamos afirmando, de modo algum, que os escravos não tinham liberdade para barganhar mudanças na sua rotina, mas que, possivelmente, as mudanças almejadas pelos cativos eram um tanto diversas das desejadas por agregados e demais moradores do mesmo fogo. Com isso, queremos enfatizar que a posse de escravos era um reforço importante tanto para o proprietário, que o utilizava apenas para prover a família