8. DENEYSEL ÇALIŞMALAR
8.4 İnce Film Numunelerin Üretimi ve Karakterizasyonu
8.4.2 İki Katlı Ni-Cr İnce Filmlerin Biriktirilmesi
Quando pensamos no termo da vila de Santa Bárbara e em Minas Gerais, de uma forma geral, no século XIX, devemos lembrar que não se trata de uma sociedade do conhecimento (com sistemas de comunicação rápidos e eficientes) nem da tecnologia (com inovações aplicáveis às atividades econômicas locais), mas sim de uma sociedade do trabalho, das técnicas. Em outras palavras, uma sociedade na qual o conhecimento e as habilidades ocupacionais são transmitidos pela observação e treinamento (aprendizes), salvo raras exceções. Deste modo, ter “bons relacionamentos” poderia garantir o acesso ao trabalho e ao aperfeiçoamento profissional. A importância das relações sociais, todavia, vai muito além dos mundos do trabalho, isso porque, neste modelo de sociedade, as relações pessoais, econômicas e de trabalho estão altamente entrelaçadas. É fundamental lembrarmos que estamos tratando de uma sociedade escravista e, portanto, caracterizada pela forte presença de relações de distinção e afirmação social. Como alerta Berlim (2006), em uma sociedade escravista, as relações de poder não se limitam à dinâmica senhor/escravo, estando diluídas e presentes em toda a sociedade. Desta maneira, essas relações de poder atingem as demais instâncias do mundo do trabalho como, por exemplo, a dos trabalhadores livres, tanto nos setores urbanos quanto rurais, mesmo que em níveis diferenciados. Podemos, contudo, ir além, uma vez que as estratégias de distinção e a desigualdade social, proporcionadas pela presença da escravidão e pelo caráter hierárquico do período, impulsionavam e alimentavam as relações de trabalho, econômicas e sociais, sendo assim, essas, muitas vezes, visavam não só a manter como a reforçar a posição que cada indivíduo deveria ocupar na sociedade.
Seguindo esta linha de raciocínio, pontuar quais aspectos desta sociedade limitavam o acesso à técnica e ao trabalho e/ou restringiam o alcance dos recursos materiais e financeiros necessários para melhorar as condições de trabalho torna-se crucial para a compreensão daquela sociedade. A falta de recursos e a dependência financeira de terceiros poderiam fadar o trabalhador a manter-se sempre na categoria de “livre pobre”. Como o acesso ao crédito era muito limitado, especialmente, na primeira metade do século XIX, o indivíduo que necessitava de empréstimos dependia, mais uma vez, das suas relações pessoais para conseguir tal financiamento com pessoas mais abastadas da sua freguesia ou de locais próximos, estreitando ainda mais os laços de dependência. Neste sentido, ter bons relacionamentos na sociedade poderia ser fator decisivo em vários momentos da vida de uma
pessoa, tanto naqueles de caráter mais pessoal, como um matrimônio, quanto naqueles de caráter mais econômico, como um empréstimo. Lembrando que, como já mencionamos, os limites entre o pessoal/social/econômico eram bastante difusos no século XIX (GUEDES, 2008). Ademais, compreender os graus de concentração e dispersão da riqueza, bem como os níveis de dependência e a heterogeneidade das categorias econômicas elucida muito o entendimento da referida sociedade e das mudanças e adaptações pelas quais ela passou.
Inicialmente, para que seja possível visualizar de forma panorâmica a riqueza da sociedade em análise e identificar se houve recessão, estagnação ou crescimento econômico é preciso observar a evolução dos Montes ao longo dos anos. A simples média por década, contudo, não traduz de forma real a marcha da riqueza, uma vez que a inflação distorce os dados. Não foi possível estabelecer um índice de inflação próprio para a nossa região, desta forma, apoderamo-nos dos cálculos elaborados por Lobo (1971) e Buescu (1973) na tentativa de minimizar ou controlar o impacto da inflação em nossos dados.7 Os índices de inflação calculados pelos autores são muito divergentes em alguns momentos. Lisboa e Monasterio (2012) elaboraram uma comparação acurada dos valores apresentados por Lobo (estudo trata do Rio de Janeiro) com informações relativas ao Rio Grande do Sul para as décadas de 1870 e 1880. Neste trabalho, Lisboa e Monasterio (2012) concluem que, para o local e o período escopo da pesquisa realizada, os valores encontrados por Lobo refletiriam uma inflação acima do que de fato foi vivenciada. Comparando os índices de Lobo e Buescu, o primeiro apresenta uma inflação acima da exposta pelo segundo. De qualquer forma, sabe-se que a inflação não era constante para todo o território nacional nem para todos os produtos e, sem um estudo apurado dos produtos mais consumidos, seus preços e do custo de vida da região, em diferentes períodos, é impossível saber a real variação da inflação. O índice de Buescu foi utilizado por vários autores, como Mattoso (1988) que, em seu livro intitulado “Ser Escravo no Brasil”, usa-os para ajustar os valores de escravos, açúcar e outras mercadorias a fim de elaborar comparações ao longo dos anos.
Tabela 2.3 - Visão geral dos dados encontrados: Inventários Post mortem, 1822-1888 1 8 2 2 -1 8 2 9 1 8 3 0 -1 8 3 9 1 8 4 0 -1 8 4 9 1 8 5 0 -1 8 5 9 1 8 6 0 -1 8 6 9 1 8 7 0 -1 8 7 9 1 8 8 0 -1 8 8 8 % C re sc im en to a n u al (1 8 2 2 -1 8 5 0 ) % C re sc im en to a n u al (1 8 5 0 -1 8 8 8 )
Monte Bruto (a) 2.059.244 6.154.423 5.977.930 10.654.206 15.620.438 18.222.719 11.211.651 6,0 0,1
Monte Líquido (a) 2.024.575 6.086.972 5.629.656 10.261.856 14.540.520 17.524.805 9.768.666 6,0 -0,1
Monte Bruto (b) 1.723.351 3.006.768 1.998.930 2.095.226 1.986.900 1.330.965 519.978 0,7 -3,6 Monte Líquido (b) 1.696.618 2.969.876 1.890.705 2.019.812 1.855.083 1.281.365 450.882 0,6 -3,9 Monte Bruto (c) 1.644.381 2.435.696 1.537.316 1.193.772 9.449.285 7.334.893 3.611.909 -1,1 3,0 Monte Líquido (c) 1.619.483 2.404.588 1.453.660 1.152.185 8.813.342 7.060.532 3.147.311 -1,2 2,7 Monte Bruto (d) 1.935.825 4.815.619 4.116.448 6.128.411 7.737.237 7.490.389 3.954.428 4,1 -1,4 Monte Líquido (d) 1.904.094 4.760.865 3.882.361 5.904.477 7.209.528 7.206.369 3.440.013 4,2 -1,1
Monte Bruto (e) 1.777.991 4.125.830 3.774.477 5.480.870 12.149.036 10.914.498 6.659.873 4,1 0,5
Monte Líquido (e) 1.749.981 4.079.500 3.556.178 5.282.437 11.334.154 10.497.691 5.805.009 4,0 0,2
Nº de Ocorrências 16 23 63 93 64 56 43
(a) Valor Nominal
(b) Deflacionados por 0,051 (LOBO), segundo a inflação do período (1822-1888). (c) Deflacionados pelos índices da inflação acumulada por década (LOBO).
(d) Deflacionados por 0,017 (BUESCU), segundo a inflação do período (1822-1888). (e) Deflacionados pelos índices da inflação acumulada por década (BUESCU). Fonte: APHMS, Inventários Post mortem, Caixas diversas, 1822-1888, Santa Bárbara.
O uso de tais índices serve mais para controlar as análises sobre crescimento econômico do que para estabelecer valores precisos no tocante ao crescimento regional. Calculou-se, primeiramente, a inflação geral para o período de 1822-1888, todavia tal cálculo suavizava, ou melhor, distribuía a inflação ao longo dos anos, minimizando os picos de alta e baixa dos preços. Desta forma, optou-se por calcular a inflação década por década. Partindo da década de 1820, atualizaram-se todos os valores da década para o valor presente do ano inicial, 1822. Posteriormente, calcularam-se os valores da década de 1830 ao valor presente do primeiro ano do período, em seguida, adicionou-se a inflação da década de 1820, trazendo os Montes para o valor da moeda em 1822; e assim sucessivamente até 1888. Utilizando tal metodologia, inflação acumulada ao invés de média da inflação, é possível perceber com maior clareza a flutuação da riqueza ao longo dos anos. A tabela seguinte apresenta a média da soma dos Monte-Mor (nominal) e os valores após a deflação, utilizando os índices de Lobo e Buescu (ver Anexo B.4).
De uma forma geral é possível identificar um crescimento econômico no período em escopo. O crescimento não é uniforme, sendo modesto na primeira metade do século e mais intenso nas décadas de 1850 e 1860, sendo que, nas décadas de 1870 e 1880, há uma pequena queda, mas os valores dos Montes continuam maiores do que do início do período. As
explicações para o comportamento da riqueza são múltiplas e interligadas. Primeiramente, devemos lembrar que tratamos de uma região com comércio voltado para o abastecimento, com uma área de abrangência relativamente curta. Isso de modo algum significa que não houvesse comércio com outras regiões de Minas Gerais, com a Corte ou mesmo com outras províncias. Por via de regra, todavia, o que alimentava a economia local era o comércio regional, deste modo, as flutuações econômicas estavam mais estreitamente ligadas a alterações locais, como, por exemplo, climáticas. Obviamente que a região sentia os impactos das ondas causadas por mudanças no âmbito nacional, essas, provavelmente, alteravam mais a rotina (não consumir um produto que teve alta no preço) do que a situação econômica como um todo. Já alguns fatores de ordem mais abrangente, como a mudança na cobrança de impostos, o fim do tráfico atlântico de escravos, entre outros, tinham impacto mais intenso. Em outras palavras, o crescimento relativamente pequeno da região pode aparentar uma estabilidade e encobrir mudanças locais mais profundas, mas que, pelas adaptações da economia local, não se refletem em dados que sintetizam longos períodos de tempo. Nessa perspectiva, primeiramente, analisamos a conjuntura mais geral para, posteriormente, avaliarmos as particularidades da distribuição e concentração da riqueza.
Utilizando-se a posse de escravos para balizar as análises de desigualdade social é possível afirmar que houve uma tendência de aumento da desigualdade. Até a década de 1850, faixas de posse de 21-50 cativos eram encontradas em famílias com riqueza de 5:000$000 a 10:000$000 réis, essa situação altera-se na década de 1860 e 1870, sendo que tal escravaria será encontrada apenas em faixas de riqueza acima de 10:000$000 réis.8 Na década de 1880, conjuntos de mais de 20 trabalhadores escravos pertencentes a uma mesma família serão encontrados em apenas aquelas com mais 30:000$000 réis. Escravarias de 11 até 20 trabalhadores também não serão mais encontradas em faixas de riqueza menores de 5:000$000 réis, após o final da década de 1860. Outro fator revelador é a diminuição da importância dos escravos no Monte a partir da década de 1850. Nas três primeiras décadas do período provincial, os escravos totalizavam, em média, 50% ou mais dos bens inventariados, sendo que, na segunda metade do século XIX, outras categorias como imóveis e dívidas ativas começam a ganhar maior destaque (ver Anexo B.5). Considerando que, em uma sociedade escravista, possuir mão de obra cativa era um fator relevante para a formação de fortunas, especialmente em localidades em que o papel do rural era acentuado, é plausível a teoria de que a concentração de renda ficou mais intensa e, com ela, a desigualdade social.
Deste modo, algumas mudanças na política nacional refletiram no âmbito local, alterando os padrões de distribuição da riqueza. Essas alterações, de um modo geral, não ocorrem do dia para a noite, de modo que os indivíduos que as anteviram puderam não apenas se preparar como, possivelmente, tirar proveito das mesmas. No caso do fim do tráfico atlântico de escravos, que gerou um aumento no preço dos mesmos devido à diminuição na oferta, os senhores com famílias escravas tiveram a opção de manter ou mitigar a diminuição de sua escravaria através da reprodução interna. Certamente, pequenos escravistas com apenas um ou dois cativos sofreram maior pressão para vender esses trabalhadores devido à alta dos preços. O fim do tráfico representou também a liberação de capital antes investido em escravos para outros empreendimentos. Já a partir da década de 1850, é possível perceber que os investimentos em bens profissionais (ali inclusos dinheiro, caderneta de poupança, títulos e ações) crescem de forma considerável. Essas atividades econômicas e demais conexões envolvendo os portadores de títulos e ações serão analisadas um pouco mais adiante neste capítulo.
Outro aspecto claro, pertinente às explicações sobre mudança no padrão de riqueza, está relacionado com a oferta de crédito em âmbito regional. Uma rápida olhada no gráfico do anexo B.5 evidencia maior movimentação de recursos de crédito. As dívidas ativas e passivas encontradas nos inventários mostram a existência de redes de crédito que basicamente se compunham de duas dimensões: 1) Contas e rol = pequenas dívidas feitas no comércio; 2) Crédito e juros = empréstimo de dinheiro propriamente dito. A ampliação do mercado de crédito está conectada com as demais mudanças abordadas, sinalizando para a adaptação da economia a um cenário mais amplo que envolvia questões de oferta de mão de obra, opções de investimento, comércio interno, entre outros. Para Frank (2006), essa nova conjuntura, que se formava na segunda metade do século XIX, estimulava a desigualdade, uma vez que os benefícios obtidos por uma fatia menor da população, possuidora de escravos e de recursos financeiros, possibilitavam multiplicar suas riquezas através da oferta crédito.
Com o decorrer do século XIX, ocorreram mudanças no caráter da política nacional. Durante o período do Império brasileiro, muitas foram as batalhas políticas em busca de transformações e/ou de continuidades. Mudanças nas relações comerciais9 (favoreceu a criações de sociedades), na oferta de mão de obra e na forma de aquisição de terras foram moldando e remodelando os cenários político, econômico e social nos âmbitos nacional, provincial e regional. Essas transformações impulsionaram o país para “moderno”, mas sem a
preocupação de garantir maior igualdade social. Em alguns casos, essas mudanças colaboram para aprofundar as desigualdades sociais já existentes, privando ou limitando as camadas mais pobres do acesso à mão de obra extra (escrava), a terras e desviando de políticas abolicionistas que incluíssem de forma justa os escravos no mundo de trabalho (GEBARA, 1986). Deste modo, aparentemente, tornou-se cada vez mais difícil a ascensão social e o enriquecimento familiar de camadas mais pobres, enquanto que, para os grupos que detinham capital, influência política e bons relacionamentos sociais, manter e mesmo aumentar suas fortunas era relativamente mais fácil. Certamente, houve casos de pessoas que conseguiram transpor as barreiras de suas épocas e melhorar sua condição de vida. Todavia a cojuntura da segunda metade do século XIX, até certo ponto, limitava a possibilidade de habilidades pessoais e do esforço do trabalho gerarem grandes mudanças no patamar de vida dos indivíduos. Essa realidade é vista também e, talvez, de forma mais intensa, em localidades voltadas ao abastecimento interno, onde os limites entre o rural e o urbano são tênues, mas o primeiro prevalece sobre o segundo. Nestas localidades, a posse de terras para o cultivo e para a criação de animais e a força de trabalho para executar estas atividades eram, se não fundamentais, valiosas para se atingir certos padrões de riqueza.
2.3 ATIVIDADES ECONÔMICAS EM REDE: ALAVANCAS E DEPENDÊNCIA EM