gerações da família Matos, contrastamos alguns elementos peculiares presentes nos relatos dos Cabral e dos Batalhazzo. Ou seja, tomando como base os relatos dos Matos, agregamos primeiramente aspectos apresentados pelos componentes dos Cabral, associando-os às falas dos participantes da família Batalhazzo.
Notadamente, embora os Matos e os Cabral apresentem histórias semelhantes em relação às dificuldades e ganhos socioeconômicos, os membros das três gerações da segunda família mostram uma percepção mais crítica dos processos socioculturais, que envolvem algumas mudanças em cada geração, ao longo do tempo. Um recorte desse fato está exemplificado no trecho a seguir, o qual, apesar de estar direcionado ao brincar e a atividades físicas, também envolve condições econômicas e novos modos de investimento no desenvolvimento infantil.
Simone (Pesq.) – Ah, e vocês percebem se houve diferenças? Quando “seu” Vilar era menino se cuidar era
diferente de quando “seu” Cabral era menino? E de quando você, Beto, era menino? Beto (F) – Acho que sim...
Simone (Pesq.) – Vocês viveram coisas diferentes?
Cabral (P) – Ah, sem dúvida! Ele [avô] viveu uma situação muito difícil... pobreza... foi complicadíssimo, não
é? Eu já não, eu já vivi uma coisa mais amena, não é? E meus filhos, graças a Deus, bem menos... mais ainda, bem mais amena, entendeu? Ele passou por condições bem difíceis... Condição de moradia, cama... Ele encontrava cobra de baixo da cama... Era chão batido... [x] morava no sítio...
Vilar (A) – É, tinha muita cobra... Morava no sítio, né? [x]
Beto (F) – O legal é ver a evolução. Por exemplo, o meu vô: se você pegar o exemplo do futebol, meu vô jogava
futebol quando dava, porque tinha que ajudar em casa... trabalhar... Meu pai já jogava um pouco mais de bola. Jogava futebol na rua, né? Com os amigos. Eu já fui jogar futebol na escolinha de futebol. Entendeu?
Cabral (P) – Escola de natação...
Beto (F) – Você vê a evolução de um processo simples, que é um brincar, né? O jogar bola... Nesse daí ele já
tem um processo evolutivo de geração pra geração. (transcrição, linhas 254-261)
A diferença na condução de autocuidados e nos cuidados com a saúde dos familiares entre os membros das famílias Matos e Cabral também é bem expressiva. Ela começa a se delinear na geração dos avôs e prossegue até a dos filhos. Percebemos, por exemplo, que ambos os avôs faziam uso de produtos fitoterápicos, mas enquanto Ade (família Matos)
recebia passivamente os cuidados realizados por sua mãe ou sua esposa, Vilar (família Cabral), além do uso ativo de tais produtos em seu autocuidado, também os usava no cuidado do filho (nomeadamente, quando seu filho era criança e reclamava de problemas no joelho). Esse modo de lidar com os cuidados com a saúde no contexto familiar reverbera também na geração de pais e de filhos.
Cabral mantém a atitude participativa do avô. Em seu entendimento, as práticas de cuidados com a saúde estão incorporadas às práticas de cuidados mais gerais na relação familiar cotidiana. Já Marinho (Matos) constitui um modo controlador e vigilante de estar atento às questões específicas da saúde.
Na geração dos filhos, João (Matos) é preservado do envolvimento no cuidado de outros membros e, por vezes, poupado até mesmo em seu autocuidado. Por outro lado, Beto (Cabral) se mostra mais comprometido com o autocuidado e com o cuidado à saúde dos demais.
De modo geral, na família Cabral os membros das três gerações valorizam a solidariedade e incentivam a autonomia no autocuidado, demonstrando respeito às singularidades e, ao mesmo tempo, procurando não fazer diferenciações em função de idade ou sexo.
Simone (Pesq.) – Hoje, quando vocês precisam de tratamento, quem faz essa parte? Quem cuida do quê?
Cabral (P) – De tratamento como?
Simone (Pesq.) – Quem marca consulta? Quem leva quem?
Cabral (P) – Olha, aqui é o seguinte: meu pai marca as consultas dele. Às vezes, eu faço uma supervisão: é isso
e aquilo e tal. Ele tem essa iniciativa. Ele se cuida direitinho. Aqui o Beto chega: “Ôoo mãe, ôoo pai, eu preciso de tal coisa”. Ai a gente já pega o livrinho ali da XXX e já vai atrás. Então, o primeiro que cada um deles [o avô ou os filhos] dá de cara já pede socorro e a gente procura agilizar o atendimento. Não tem hora, a gente sabe disso.
Simone (Pesq.) – Então quem marca as consultas pro Beto é o senhor ou a esposa?
Cabral (P) – Ou ele mesmo.
Simone (Pesq.) – Então você também marca?
Beto (F) – Depende, se eu sei onde tá já vou lá e resolvo. Mas se de repente eu não conheço, preciso de um
médico pra tal coisa que eu não conheço, que eu não sei como vai resolver, então pergunto: “Ô, pai, quem é o médico disso aqui?” E eles resolvem. E assim vai...
Cabral (P) – Quando menor, a gente resolvia tudo. Agora, com 26 anos, a gente deixa as coisas aí e eles que
liguem. E agora também já tem o carro dele, então, já vai na consulta. Mas sempre, até então, ou a mãe levava, porque eu ficava o dia inteiro fora, então com mais frequência era a mãe, no período que eles eram mais... menor de idade. Agora já tão com idade de se virar mesmo, não é?
(transcrição, linhas 137-145)
Na geração dos pais, quando Marinho (Matos) constituiu sua própria família em conjunto com sua esposa, procurou dar continuidade a alguns aspectos do modo de cuidar de
seus pais. Mas, em geral, o casal dessa geração está criando outra maneira de participação. E nas falas de Marinho percebemos que o processo exige bastante investimento. Já Cabral relata que contava com um modelo inspirador quando direcionava seu olhar para a atuação do avô e da avó e, assim, ao constituir sua própria família procurou dar continuidade ao estilo desenvolvido por eles; seu esforço maior era em se adaptar ao contexto que mudava ao longo do tempo.
Simone (Pesq.) – E quando a gente pensa nessa questão do cuidado com a saúde, o que vem na cabeça de vocês?
A primeira coisa?
Cabral (P) – Olha, vamos voltar então. Acho que temos que partir do berço. Meu pai e minha mãe sempre foram
muito cuidadosos com a gente.
Simone (Pesq.) – É... e o que é ser cuidadoso?
Cabral (P) – É a preocupação, vamos dizer assim. Minha mãe era costureira, sempre ajudou meu pai, que era
ferroviário. Ela tinha um cuidado todo especial com a gente, em relação à alimentação, em relação à saúde, à vestimenta. Ela, por ser costureira, dava asas à imaginação, com pouca coisa que ela tinha na mão, né? Meu pai trabalhando sempre e preocupado com nossa educação. Sempre houve um processo harmonioso de ficar atento à educação. A educação de casa. Depois, com a formação escolar. Porque a escola não educa, a casa é que educa. Esse cuidado foi sempre permanente. Então, isso a gente incorporou. Tanto a minha irmã quanto eu, quando a gente constituiu os respectivos lares, a gente procurou passar pros nossos filhos aquilo que a gente viveu, o que trouxe de casa... Uma preocupação constante com alimentação, com saúde, com tudo, né? Sempre prioridade pra eles. Sempre foi assim com a gente e a gente não via porque ser diferente. Independente de épocas diferentes, circunstâncias diferentes, experiências diferentes, aquilo veio como uma... um DNA pra gente, pra vida particular, casamento e tudo mais. Então e a gente trouxe o que aprendeu de casa. Minha mãe era muito preocupada comigo, com a minha irmã... onde estávamos, o que estávamos fazendo. Qualquer coisa que acontecia com a gente, já levava pra lá, levava pra cá... Isso a gente observou, acompanhou e trouxe como ensinamento.
(transcrição, linhas 76-79)
Quando agregamos elementos dos Batalhazzo sobre práticas de cuidado com a saúde, observamos que seus membros apresentam similaridades com os das outras famílias. Mas eles preservam uma nítida divisão de tarefas entre homens e mulheres. Nas gerações de bisavós, avós e pais as mulheres assumem a maior carga de tarefas e responsabilidades com tais práticas. Inclusive elas são as “guardiãs” da história da saúde da família e, mesmo na geração do filho, não foi apresentado qualquer indício de mudança, diferentemente da vivência da família Matos, que principiou algumas mudanças na geração do avô e prossegue ampliando-as na do pai. Um exemplo dessa situação ocorreu durante a entrevista. Dália, a avó (família Batalhazzo, convocada pelo avô a participar), recebe e acolhe a responsabilidade de falar sobre algumas temáticas, ainda que também encontre dificuldades como os outros participantes.
Simone (Pesq.) – E... vocês tiveram doenças de crianças?
Coro – Catapora...
Ramos (P) – Etc... Aí minha mãe é que tinha que responder aí, agora...
Dália (A) – É duro até pra lembrar, né? Porque...
Ramos (P) – Eu acho que sim... [silêncio]. Depois que veio as vacinas...
Dália (A) – Sarampo eu acho que você passou...
Nascimento (A) – E a Tulipa [irmã de Ramos] passou... A Tulipa passou por tudo!
Dália (A) – Ah, é duro que a gente não lembra! Não lembra o nome das coisas...
Nascimento (A) – Aquela que amarela o olho? [silêncio].
Simone (Pesq.) – Icterícia?
Nascimento (A) – É! Mas curou em casa mesmo... Naquele tempo, com chá de picão.52
(transcrição, linhas 188-199)
Outro ponto, em especial, refere-se aos modos de cuidado com a saúde de pessoas consideradas modelos negativos (que não devem ser seguidos) e como afetam outros membros da família. Nos Matos, o bisavô e o sogro foram muito destacados como “exemplos negativos”. Para os membros da família Batalhazzo, nas três gerações, essas vivências não ganham muito destaque. No trecho a seguir, podemos observar que eles falam da experiência de um irmão do avô com histórico de consumo abusivo de bebida alcoólica e prosseguem descrevendo seus próprios hábitos. Por sua vez, ainda podemos notar que diferentemente dos membros das outras famílias, os três participantes dos Batalhazzo descrevem o consumo de bebida alcoólica moderado, mas frequente; e, Lucas, o filho, em outro momento também descreve o consumo da maconha para experimentação.
[Nascimento descrevia o estado de saúde de seus irmãos e passou a abordar os hábitos que, em seu entendimento, levaram um deles a falecer em função do consumo excessivo de bebida alcoólica e de um câncer no estômago:]
Nascimento (A) – Do estômago... Quando tinha esse engenho de cana, ele [Pedro, irmão do avô] puxava cana.
Tinha 16 ou 17 funcionários cortando cana... Então, ele ia buscar cana com o trator e cada viagem que ele fazia, ele descarregava e encostava no barracão, lá... E ia lá e tomava um pescoção [risos], que era... cortava a garrafa assim [gesticula indicando que a garrafa era cortada no gargalo]. Então, chamava pescoção... Tomava um pescoção e ia embora buscar cana, né? Quando chegava à tarde, sentava toda a turma em volta dele e iam... com um litro de pinga, ali... eles tomavam até dizer “chega”. Foi o que aconteceu. Depois ele veio pra São Paulo, ele entrou na firma e virou soldador de estande... E eu naquele tempo não provava nada de bebida. Nada, nada! Depois que paramos com engenho, muito tempo depois, eu passei... eu tomava uma pinguinha também... Mas, também só na hora da janta... Que dobrar o cotovelo no balcão, eu nunca fiz isso...
Ramos (P) – Ah, eu já vivo no bar [risos]. Há 20 anos que eu vivo no bar [mais risos]. Trabalho lá, né? Fazer o
quê?
Simone (Pesq.) – Mas você consome, Ramos?
Ramos (P) – Ah, eu não gosto muito de consumir lá não... Quando tá... quando bate o estresse pesado, às vezes,
eu bebo uma cerveja no meio do dia... Ou mais... Eu prefiro desestressar assim... Pra dar uma relaxada... Pra não
52 O picão é uma erva que floresce em todo o Brasil, usada para diversos tratamentos. Também é conhecida por
muitos outros nomes, tais como macela-do-campo, picão-do-campo, picão-preto, piolho-de-padre, carrapicho, seco de amor e cuambu.
estourar, entendeu? Mas não gosto de tomar durante o dia, não. Agora, à noite, toda noite, eu tomo minha cervejinha, sim. Dá pra perceber, não é? [passa a mão no abdômen arredondado e ri].
Simone (Pesq.) – Não, não tinha percebido, não [risos]. E você Lucas?
Lucas (F) – Socialmente... só quando saio mesmo. Ou no meio da família, de vez em quando... Eu... se alguém
puxa uma lata tem que acompanhar. Fazer o que, né? Mas da família, eu tenho quase certeza, dos que bebem, eu sou o que menos bebe. Disso eu tenho quase certeza!
(transcrição, linhas 63-68)
No relato do avô da família Batalhazzo contamos com a descrição de muitas e diferentes ideias em torno das práticas de cuidado com a saúde, diferenciadas dos relatos dos outros participantes, como: 1) a valorização do atendimento farmacêutico; 2) ter sua queixa desqualificada quando os especialistas não são capazes de encontrar problemas orgânicos (“você é sadio”; “você não tem nada”); 3) a peregrinação a médicos que não o auxiliavam de modo efetivo, talvez por falta de condições para propiciar uma escuta de qualidade à sua queixa; 4) a possibilidade de contar com médicos generalistas, capazes de realizar diagnósticos (adequados) sem o uso de muitas tecnologias – o que lembra os antigos médicos “da família”; 5) a percepção dos efeitos subjetivos decorrentes de seu acidente de trabalho; e 6) a valorização da saúde mental descrita a partir desse acidente.
[A pesquisadora pediu ao grupo uma mensagem sobre saúde. Nascimento começou a relatar seu acidente de trabalho e, ainda que seu filho tenha tentado interferir, ele continuou a falar:]
Nascimento (A) – Eu sarei e continuei [trabalhando] lá no engenho [de cana], só que com muito medo... Quando um dava um grito lá em baixo na caldeira, né? Eu assustava e tal... E nisso eu peguei um tal de... Fiquei nervoso, assuntado, né?! Aí eu ficava ruim. Fui num farmacêutico que me deu um medicamento. Eu tomei aquilo lá... Nada! Corri médicos lá... Quando ia em São Paulo... Eu tinha um filho que morava em São Paulo, o mais velho... Quando ia lá, ia nos médicos. Tudo falava que eu era sadio. Outra: fui em Marília [interior de São Paulo] também. Chega lá, o médico bate na minha canela e fala: “Ah, você é muito sadio!” Eu saia mais ruim ainda! Eu falei: “Pô, não tem mais a quem recorrer!” Aí que eu tinha um tal de doutor XXX em XXX, que tinha feito umas quatro ou cinco operações do estômago, de hérnia... E é o que me conhecia... Aí eu cheguei lá um dia, assim, e ele falou: “Oh, Batalhazzo, o que é que você veio fazer aqui?” Aí eu falei pra ele: “Doutor, eu tô com um problema aqui [mostra a região do rim]. Eu tô com um caroço aqui”. Ele falou assim: “Deita aí!” Eu deitei. Ele vai, vai, vai... Falou: “Não, você não tem nada, não!” Aí eu falei: “Mas de pé se nota”. [O médico:] “Levanta de pé!” Levantei de pé... [Nascimento:] “Vê o que é...” Aí eu levantei de pé... Ele falou: “Nascimento! Você paaara de fazer massagem!!!” Quando ele falou “para de fazer massagem”, eu sarei! “Para de fazer massagem porque de tanta massagem que você fez, você despregou o rim.” Aí ele passou um remedinho... Que o primeiro farmacêutico que passou o comprimido... Aí eu tomei três comprimidinhos daqueles... Pronto! Até hoje... Cabou! De modo que a cabeça que resolve tudo, né? E eu sofri muito, muito... Eu corri muitos médicos. Esse é que me salvou, porque ele adivinhou o que é que eu estava sofrendo... Eu trabalhava com o caminhão... Eu ficava esperando o saqueiro trazer a sacaria e aí eu ficava aqui [mostra como massageava a região do rim]. A minha camisa já tava até toda suja... E é onde que eu despreguei o rim e aí o médico me falou isso, sem eu falar nada pra ele... Aí, então, eu sarei... Parei... mas, a gente já ficou sempre meio... Então, é isso aí...
(transcrição, linha, 402).
Assim, contrastando com as experiências descritas pelos membros das outras famílias, observamos que as três gerações dos Batalhazzo apresentam histórias importantes de acidentes de trabalho ou domésticos, e tanto o avô quanto o pai sofreram com situações de
atendimentos inadequados ou errôneos e dificuldades encontradas na atenção à saúde da população. Em um exemplo o pai conta que foi submetido a uma cirurgia no joelho em função de um diagnóstico médico equivocado. Por outro lado, o avô também lembra antigos hábitos de nossa cultura, como o apoio de farmacêuticos diante de diferentes necessidades. Mas de modo geral as preocupações, os desafios e as dificuldades relatadas pelos Batalhazzo indicam que passaram por caminhos distantes das vivências das famílias Matos e Cabral.
Mesmo na geração dos filhos podemos notar que para João (Matos) e Beto (Cabral) a escolha por estilos de vida considerados mais saudáveis exige menos esforço do que para Lucas (Batalhazzo). Entre os participantes, ele foi quem menos descreveu práticas de cuidado com a saúde e mais dificuldade em implementá-las em seu cotidiano. Um exemplo é que, além de não ter vivenciado experiências que facilitassem a incorporação de práticas de atividades físicas em seu cotidiano, quando Lucas faz tentativas de agregar tais atividades (mesmo sem gostar de realizá-las), ainda tem de procurar preservar suas articulações “frágeis”, outra dificuldade que marca todos os membros da família.