Em relação às conversas e práticas cotidianas direcionadas à área da saúde sexual, na perspectiva geracional encontramos elementos similares nas três famílias. Contudo, no encontro com a família Batalhazzo o tema foi rapidamente abordado, enquanto entre os Cabral ele surgiu na continuidade da conversa, depois que os gravadores já tinham sido desligados, o que tornaria difícil preservar a dialogia. Assim, direcionamos nossa discussão à entrevista com a família Matos.
Na geração dos avôs as temáticas envolvendo a saúde sexual não eram abordadas claramente: “era outra vida”. Apesar disso, podemos entender que as mensagens eram transmitidas de alguma forma. Mesmo não havendo uma fonte de informações representativa das formas verbais ou das práticas cotidianas direcionadas à temática, os jovens, os pais, os homens e as mulheres sabiam como se davam as dinâmicas e os comportamentos em torno da vida sexual, que não eram socialmente aceitos.
[A pesquisadora questiona se na geração do avô alguém falava sobre saúde sexual e Ade responde:]
Ade (A) – Não! Não tinha nada disso. A relação era pouco com mulher... a gente morava num lugar e era muito
severo. As meninas, naquela época, era... os pais... era uma época dura. Se mexesse com uma menina o pai [dela] pegava você pelo pescoço e vinha trazer na casa do pai. Era outra vida.
(transcrição, linhas 315)
Nessa fala há uma valorização do contexto e do momento para justificar que “não tinha nada disso!”. Enquanto o avô acompanhava o desenvolvimento de seu filho, Marinho, a
temática da saúde sexual não compunha os repertórios do cotidiano. Nesse campo, entre os representantes das três gerações é Marinho quem relata a maior presença de pessoas abordando o tema. Os porta-vozes da noção de cuidado na área da saúde sexual destacados por ele são: Florcheta (sua mãe), tias, tios, televisão, escola, rua, educação e cultura. Como podemos acompanhar a seguir, ele relata mudanças e conselhos contraditórios, imersos em questões de gênero.
Simone (Pesq.) – E nas conversas entre vocês, tinha alguém que falava coisas como “cuidado com as amizades,
com a ‘mulherada’, o que fazer, como fazer, não fazer”?
Marinho (P) – Ah, sim! Eu posso falar por mim. A minha mãe, minhas tias: “Ah, toma cuidado com essa
mulherada”. Aí tinha meus tios: “Não! Vai atrás das mulheradas!” [risos]. Aí, então, você fazia. Era o equilíbrio. Os tios davam conselhos machistas, né? E as tias davam conselhos feministas.
Simone (Pesq.) – E você, que tipo de cuidado tomava?
Marinho (P) – Então, no começo não achava problema nisso. Meu pai, como ele disse, não tinha... não passava
orientação. E não existia também nenhum tipo de orientação na televisão nem na escola. Logo no começo a gente fazia... Ia pra rua e via de tudo, né? Depois a gente começou a ter mais educação, mais cultura sobre essas informações. E como você não quer fazer a coisa errada, né?
(transcrição, linhas 305- 308)
Na família Matos, enquanto a mãe e as tias advertiam Marinho dos perigos da “mulherada”, os tios o incentivavam a explorar esse espaço. Aliás, ele relata que inicialmente não contava com orientação na televisão ou na escola. No entanto, a partir do advento da aids foram organizadas muitas campanhas públicas de conscientização e, enfim, esse cenário mudou.
[A pesquisadora pergunta se eles tinham informações sobre saúde sexual. Marinho responde que isso é mais característico nas gerações mais jovens, que:]
Marinho (P) – [a] maioria dos jovens, eles têm muito mais informações. Eu não tive. Em [19]79, [19]80 que
começou esse negócio de aids e, aí, que morreu um, morreu dois, morreu três, aí que fizeram altas campanhas. Pra não ter problemas, né? E eu também não tive tantas parceiras assim. Se eu tivesse, eu teria me preocupado, porque aí eu já teria consciência! Então, teria usado camisinha. Mas com minha mulher só. Então, não tem muita... É o famoso sexo seguro!
(transcrição, linha 329)
Em suas conversas com seu filho Marinho diz que “é tudo rasgado”. Eles falam sobre o uso de camisinha, sexo seguro, aids, gestação, drogas. Também aborda diferenças entre como vivenciou a exploração da vida sexual (“era assim...”) e como é o cenário atual, ponderando sobre as consequências envolvidas nessas temáticas. Marinho se sente como um “divisor de águas” da família, no campo da saúde sexual. Ele não dialogou sobre o assunto com seu pai, mas procura transmitir o que sabe a seu filho, que, acredita, fará o mesmo com
seu neto. Aliás, Marinho é categórico ao afirmar que uma postura contrária a essa seria sonegar informação.
[A pesquisadora pergunta o que Marinho costuma falar sobre saúde sexual para seu filho:]
Marinho (P) – Então, pra ele eu falo de tudo... Falo de camisinha, de... Se deixar uma menina grávida vai ter que
casar... E tem outras coisas pra fazer antes, não dá pra... pra poder se meter nisso agora. Meu pai já não: ele é de uma outra época mesmo. Eu sou meio que o divisor de águas aqui, sabe? Eu não ouvi, mas em compensação estou passando. Eu estou fazendo a minha parte. E eu acho que ele [João], pro filho dele, também vai ser. Ele não pode chegar e sonegar essa informação.
(transcrição, linha 322)
De modo geral, quando agregamos os dados a respeito da circulação das noções de cuidado na área da saúde sexual observamos novos elementos apenas nas falas do pai. Nesse enquadre, o contexto familiar se amplia e passa a contar também com tias e tios. No ambiente de circulação cotidiana são adicionadas as informações recebidas por meio da televisão, na escola e na rua. A mudança mais significativa ocorre em relação à visibilidade do ambiente em que as informações se encontram pulverizadas. Esse contexto, que não aparecia anteriormente, ganha visibilidade e passamos a destacar educação, cultura e campanhas. Figura 8 - Fontes de informação e contextos destacados na circulação da noção de cuidados com a
saúde agregando a área da saúde sexual na geração dos pais.