1. BÖLÜM: 1948’DEN GÜNÜMÜZE İMAR AFLARI
1.2. İmar Barışı Kanunundan Önce Türkiye’de Çıkarılan İmar Ve Gecekondu
Vários autores concordam que o movimento Rastafári tem um papel preponderante na valorização da herança africana e a construção da identidade e consciência negra na Jamaica. Tanto Norris (1962) quanto Barrett (1968), assim como diversos outros autores confirmam seu papel preponderante nesse processo de ruptura com os padrões britânicos e construção e reconstrução de um novo conceito identitário para a nação. Barrett (1968, p. 170) afirma que “a sensação de identidade pessoal é um fator sem precedentes no
apelo e no impacto que o movimento [Rastafári] exerce sobre a sociedade jamaicana.”46 Ao
tentar valorizar exatamente aquilo que era desmerecido na visão de mundo européia, os Rastafáris estavam rompendo com o ciclo de inferiorização dos elementos africanos presentes na cultura jamaicana, tais como a cor da pele, os cabelos, as roupas ou as tradições religiosas. Barrett (1968, p. 170) ainda afirma que:
[...] o movimento proporciona um senso de identidade [grifo do autor] para um segmento da sociedade que perderia todo o sentido de significado sem ele. A maioria dos membros entrevistados nessa pesquisa disse que se tornou membro para encontrar identidade. A religião proporciona um forte ‘sentimento de nós’, demonstrado pelo uso da barba e dos dreads. Os que não usam barba e dreads usam uma boina com as cores da Etiópia.47
O processo de formação da identidade se realiza a partir das experiências de vida, nas memórias e nos hábitos do indivíduo através de um processo de reflexão e observação, ligando o sujeito a referências constituídas pela interseção entre sua história individual e o grupo em que vive. Já a construção da identidade cultural é formada a partir da língua, dos símbolos (o hino, a bandeira ou os brasões), dos mitos fundadores (uma figura ou ato heróico e épico), das narrativas da nação presentes na história, na literatura e na arte. Os rituais, as tradições e/ou textos transmitidos de uma geração para a outra, os eventos históricos, a filosofia, as ideologias presentes na mídia, na economia e na política são elementos que contribuem para a formação de imagens e cenários que levam o homem a se contemplar compartilhando delas, inculcando em cada membro do grupo o sentimento de pertencimento
46
Texto original: “the feeling of personal identity is a unique factor in the appeal and impact which the [Rastafarian] cult now makes on the Jamaican society.”
47
Texto original: “the movement provides a sense of identity [grifo do autor] to a segment of the society which would lose all sense of meaning without it. Most of the members interviewed in this research reported that they became members to find identity. The cult provides a strong sense of “we-feeling”, demonstrated in the wearing of a beard and locks. Those who do not wear beards and locks wear a beret of Ethiopian colors.”
àquelas narrativas. Rastafári contribui como dois elementos que impulsionaram a formação da identidade jamaicana: a valorização da cultura e heranças africanas e a repatriação.
Norris, que descreve a atitude dos Rastas como “quanto mais negro, melhor”48
(1962, p. 98), considera que “o único grupo que conseguiu fugir do ciclo vicioso, embora tenham entrado num beco sem saída, são os Rastafáris, que pelo menos têm o conforto e em
muitos casos a dignidade mental que acompanha a coragem de suas convicções”49(1962, p.
100). O ciclo vicioso que a autora menciona representa aquela dependência da legitimação dos padrões estéticos e culturais pertinentes à Europa, aos quais os Rastafáris e os movimentos nacionalistas negros não se apegam, no qual talvez a marca mais visível seja o uso do cabelo no estilo dread. Contudo, várias outras formas de ruptura são comuns, como por exemplo, é comum a troca dos nomes de batismos de origem inglesa para nomes africanos, como é o caso de Mortimo Planno, que recebeu o nome Togo Desta na África e batizou seus filhos com nomes africanos. Segundo Chevannes (1989, p. 6) os nomes africanos haviam caído em desuso por carregarem conotações negativas, mas os Rastas resgataram esse hábito, assumindo justamente esses nomes e dando-lhes uma conotação positiva. Um nome comum entre eles é Bongo, que originalmente significava “burro, sem inteligência” (CHEVANNES, 1998, p. 57).
Waters (1989, p. 9) reconhece que “os Rastafáris foram os primeiros campeões de Black Power na Jamaica”. Apesar de não representarem a cultura tradicional e pré-colonial da África, tentaram adotar ao máximo os seus elementos. Edmonds (2003, p. 52) entende que os Rastafáris “estão visando redescobrir seu verdadeiro ‘eu’ e criar uma identidade cultural que
esteja sincronizada com a noção de seu passado africano”50. Barrett vai mais longe e declara
audaciosamente que muitos jamaicanos veem os Rastafáris como “a única sociedade
jamaicana verdadeiramente estável”51 (1968, p. 171).
Quanto à repatriação, conforme Norris (1962, p. 97), a sensação na Jamaica entre a população afordescendente era em geral de “visitantes em país estrangeiro”, que tinham que se adequar para poderem ser completamente aceitos e Nettleford (1972, p. 22) afirma que “de
48 Texto original: “the blacker, the better.”
49 Texto original: “the only group which has stepped out of the chase, though straight into a blind alley, are the Rastafarians who at least have the mental comfort and in many cases the dignity that goes with the courage of their convictions.”
50 Texto original: “are aiming at rediscovering their true selves and at creating a cultural identity that synchronizes with their sense of their African past.”
uma maneira ou de outra somos todos imigrantes”52. Surgiu desse sentimento de falta de identidade pessoal e coletiva a imediata identificação com as ideias de repatriação, ou seja, retorno à África, propagadas por Marcus Garvey, pelo pensamento nacionalista negro e adotada como premissa para o movimento Rastafári. Para esse grupo, a África representava o sonho de se contemplar fazendo parte do todo, podendo desenvolver seu potencial criativo original de forma livre e podendo encontrar vias próprias de expressão que até então eram negadas pela sociedade. Diante desse cenário exclusivista, formou-se na Jamaica uma elite branca e uma população negra frustrada, insegura e insatisfeita com seu status quo. Conforme narra Hall (1985, p. 280), “Negros em todo o Novo Mundo cantavam e falavam incessantemente de Moisés e da Terra Prometida,” numa associação entre a experiência escravista dos africanos e os relatos bíblicos dos hebreus, a quem Deus prometeu e cumpriu a libertação por meio de Moisés. A citação de Hall demonstra que a idealização da África e o desejo de repatriação não se restringiram aos Rastafáris, mas ao universo diaspórico em geral. A África representa a possibilidade dos negros de serem aceitos pelo que naturalmente são.
A camada marginalizada dos não empregáveis, conforme Simpson (1955) foram justamente os jamaicanos que aderiram ao movimento Rastafári, segundo Chevannes (ibid., p. 15): “O movimento se enraizou principalmente na cidade de Kingston na camada dos trabalhadores marginalizados, nos camponeses retirantes em função das condições sociais no
interior e impedidos de se candidatar à migração externa.”53 Esses sonhavam em imigrar para
a África, na esperança de que lá suas condições de vida seriam superiores e de que não
haveria a discriminação que sofriam na Jamaica,54 indicando a necessidade que o ser humano
possui de se sentir pertencente à comunidade, o que coincide com os conceitos de identidade nacional ou cultural discutidos anteriormente. Rastafári se propôs a romper com as relações de poder e com a hegemonia política e cultural do grupo dominante, cooperando com a formação da identidade jamaicana.
Castells (2006, p. 21) define três origens de construção de identidade, o que é possível encontrar dentro do movimento Rastafári: a) a identidade legitimadora, introduzida
52 Texto original: “in a sense, we are all immigrants.”
53 Texto original: “The movement took root mainly in the city of Kingston among the marginalized stratum of the working class, peasants uprooted by social conditions in the countryside and blocked from external migration.”
54 Já o Relatório da Universidade de 1960 desmente essa informação, dando outra perspectiva e mostrando que não é a população Rastafári que é difícil de empregar, mas que são os desempregados que se sentem mais atraídos ao movimento (AUGIER et al, 1960, p. 26-27), acrescentando ainda que se a demanda de empregos do grupo fosse atendida, o movimento perderia parte de seu significado. Os autores se contradizem quando na pág. 33 do mesmo relatório relatam que os irmãos querem melhorias nas suas condições sócioeconômicas.
pelos dominantes para expandir e racionalizar sua dominação em relação aos atores sociais. Esta dá origem a uma sociedade civil e é constituída por aparatos como a igreja, os partidos, as cooperativas, etc. (p. 24). O movimento surgiu por conta da exploração que sofria o jamaicano na sociedade colonizadora inglesa, que funciona como a identidade legitimadora; b) a identidade de resistência, criada por atores contrários à dominação atual. Esta dá origem à formação de comunidades que atuam como uma forma de resistência coletiva diante de uma opressão (p. 25). Na base da religião está o retorno à terra natal, a África, que se identifica aqui com a identidade de resistência; c) a identidade de projeto, quando os atores constroem uma nova identidade redefinindo sua situação na sociedade. Esta gera sujeitos com uma proposta de vida diferente da vigente (p. 26). A formação da comunidade Rastafári a partir da revelação profética de que Tafari Makonne seria a encarnação de Jah (Deus), o Messias Negro que lideraria os povos de origem africana num movimento de repatriação, identifica esse movimento como a identidade de projeto. Seu jeito de ser lhes é peculiar, tanto no que se refere à sua ideologia quanto a aspectos estéticos (vestimentas e cabelos), às liturgias, aos hábitos alimentares, à música, entre outros elementos que compõem sua identidade.
Hall (1998, p. 83-89) traça um interessante panorama de quatro possíveis efeitos do processo de contato de uma cultura com outra, embora ele se refira à globalização e seus efeitos nas comunidades ocidentais. Porém, entendo que esses processos podem ser aplicados ao caso da Diáspora Africana, assim como no caso de imigração em massa de um grupo. De acordo com o autor, a identidade cultural, quando em contato com uma identidade cultural distinta (voluntária ou não), pode ser afetada, gerando: a) a homogeneização da cultura – uma total assimilação da nova identidade implicando o desaparecimento da original; b) o fortalecimento da identidade local – a partir de uma identificação com as culturas de origem, na tentativa de recuperar ou preservar a pureza da identidade original e resgatar o que possa ter sido perdido (também chamado pelo autor de nacionalismo); c) a produção de novas identidades – o nascimento de uma identidade completamente nova, com características inusitadas, podendo ou não haver similitudes entre as duas identidades originais; d) o hibridismo (ou tradução) – a retenção de fortes vínculos com sua origem, sem serem assimilados pela nova identidade, porém com a negociação de novos conceitos, gerando uma cultura interconectada e sincrética.
É possível classificar a reação identitária dos afrodescendentes na Jamaica dentro da perspectiva de Hall como tendo dois momentos: o primeiro de hibridismo, quando os afrodescendentes adotaram padrões sincréticos entre a matriz religiosa européia e a africana. Num segundo momento, uma reação de forte resistência nacionalista surgiu, configurando-se
como o fortalecimento da identidade original. Quanto aos Rastafáris, podemos perceber ainda um terceiro momento – esta comunidade criou uma nova e peculiar identidade, tanto guardando características da cultura colonizadora (a raiz cristã européia) quanto guardando fortes vínculos com a matriz identitária africana (agudo sentimento de pertencimento à África, desejos de repatriação e resgate da identidade original). Pode-se afirmar que a comunidade Rastafári possui uma identidade cultural bem definida. Apesar de haver vertentes distintas (os Nyabinghi Rasta, as Doze Tribos de Israel e os Bobo Shanti, assim como um grande número de comunidades isoladas), estes subgrupos carregam entre si uma espinha dorsal que permite se delinear um contorno que irá reger os relacionamentos dos integrantes do grupo.