2. BÖLÜM: İMAR BARIŞI DEĞERLENDİRMESİ
2.1. İmar Barışı
2.1.2. İmar Barışı Çıkarılırken Türkiye’de Ekonomik Konjonktür
Uma das polêmicas causadas pelo movimento Rastafári reside na sua própria definição. Afinal, Rastafári é uma religião, um movimento social, um movimento político, uma seita milenarista ou um modo de vida? Diferentes autores apresentam diferentes percepções, de acordo com o contexto em que cada um está inserido, sua percepção pessoal ou sua vivência com o grupo. A julgar pela própria gênese do movimento, Rastafári pode conter elementos de todas as hipóteses acima.
Seguirei uma sequência cronológica para descrever as diferentes perspectivas apresentadas.
Os primeiros estudos acadêmicos sobre Rastafári foram realizados por George Simpson, professor emérito de Oberlin College, localizado no estado de Ohio (EUA) na década de 1950. O autor embasa seus achados por meio de uma grande proximidade com dois dos grupos da época e algum contato com membros de outros grupos. Para Simpson (1980), Rastafári representa primordialmente uma forma religiosa, pois ao longo do texto o autor se refere ao movimento como ‘seita’ e a seus participantes como ‘cultuadores’. Porém, Simpson não deixa de perceber o movimento em seu papel sóciopolítico, quando afirma que “um grupo
Rastafári oferece oportunidades para atividade política”55 (1980, p. 221), tanto dentro da
instituição por meio de sua organização interna e dos tópicos discutidos em suas reuniões, quanto em função de sua postura diante do cenário político da Jamaica, já que seus membros se abstêm de participar dos processos políticos e eleitorais do país: “Uma vez que os
Rastafáris desmerecem todos aqueles associados com política e governo, eles dizem que é em
vão participar de comícios, aceitar as obrigações políticas ou votar.”56 (ibid.) Simpson
também reconhece atividade política quando os membros se utilizam de símbolos, tais como a Etiópia ou Haile Sellasie, para se identificarem enquanto grupo.
Para Simpson, Rastafári é dotado de multi-funcionalidade: “Segundo nosso ponto de vista, o movimento Rastafári funciona para alcançar muitas das necessidades econômicas,
políticas, religiosas, recreativas e pessoais de centenas de jamaicanos de baixa renda.”57
(1980, p. 222). Sendo assim, para Simpson, Rastafári contém vários elementos dentro de sua síntese identitária, podendo ser desde movimento religioso, passando por movimento político e social, como o próprio define na conclusão de seu mais recente artigo sobre o assunto: “Rastafári é uma alternativa funcional ou um equivalente funcional, para religiões ortodoxas e avivalistas, para partidos políticos e para outras organizações sociais na área economicamente
desprestigiada conhecida como West Kingdom [oeste da cidade de Kingston]”58 (1980, p.
223). Em outro texto, Simpson (1955, p. 170) classifica Rastafári como um movimento semi- religioso e semipolítico.
Tendo sido o primeiro documento oficial do governo jamaicano a ser publicado sobre Rastafári, o texto de Augier et al (1960), mais conhecido como Relatório da Universidade de 1960 (1960 University Report), descreve-o ora como movimento ora como seita. No entanto, seu caráter religioso é mais ressaltado, pois os membros do grupo são
chamados de ‘irmãos’59 ao longo do texto e o capítulo 4 é dedicado à descrição da doutrina do
grupo. Posteriormente, um dos autores do Relatório, Rex Nettleford dedicou-se ao assunto em outras publicações, e reforçou o caráter religioso do movimento: “Rastafári’ é uma seita milenarista jamaicana cujas doutrinas de rejeição social postulam uma terra prometida na
56
Texto original: “Because Rastafarians distrust all who are associated with politics and government, they say it is useless to attend political rallies, accept political assignments, or vote.”
57
Texto original: “According to our point of view, Ras Tafarism functions to meet many of the economic, political, religious, recreational, and ego needs of hundreds of lower-class Jamaicans.
58
Texto original: “Rastafarism is a functional alternative, or functional equivalent, for orthodox and Revivalist religions, political parties, and other social organizations in the economically depressed area known as West Kingdom.”
59 O termo ‘brethren’, que em inglês significa ‘irmãos’ ou ‘membros de uma irmandade’ é extensamente utilizado ao longo do texto do Relatório da Universidade de 1960. O termo é normalmente utilizado para denominar irmandades religiosas.
África como um todo (e Etiópia em particular) onde vive seu salvador e líder na terra, Haile
Selassie”60 (NETTLEFORD, 1972, p. 21).
Entre os autores estudados, a maior parte corrobora com a noção de que Rastafári possui elementos religiosos em seu âmago. Waters (1989, p. 3) e Norris (1966, p. 36) se referem ao movimento como uma seita e acrescenta sua crença básica na divindade de Selassie I. Da mesma forma, Spencer, (1999, p. xvii) o identifica como uma “multiplicidade de opiniões acerca da fé que engloba toda uma gama de credos, desde o Credo de Nicéia, o Garveyismo, o cristianismo afrocêntrico ortodoxo até chegar a uma nova religião centrada nos
ombros relutantes do imperador etíope Haile Selassie I, [...].”61 A autora afirma ainda que a
definição tradicional de Rastafári identifica-se com a noção de um “messias construído para se opor ao Jesus branco dos colonizadores” (ibid.).
Já Barrett (1968, p. 1-2) identifica Rastafári como um movimento sócioreligioso, pois observa o seu caráter religioso da crença na divindade de Haile Selassie, associando-o a um movimento nativista (ibid., p. 8) e messiânico (p. 18). Contudo, o autor não deixa de identificar seu caráter social, principalmente na premissa de que a repatriação funciona como uma ferramenta de luta contra a escravidão, o exílio e a opressão às quais a população jamaicana foi submetida. O autor prevê que o movimento teria um grande futuro na sociedade jamaicana se continuasse a trilhar aquele caminho (p. 194).
Nicholas (1979, p. 2) oferece uma diferente perspectiva quando descreve Rastafári “antes de qualquer coisa como um estilo de vida quando apresenta respostas para os
problemas reais que o povo negro enfrenta na sua vida cotidiana”62, opinião que se assemelha
à de Barrett na medida que promove fortaleza espiritual face à opressão, à pobreza e ao subdesenvolvimento. Nicholas acrescenta os aspectos culturais do movimento ao reconhecer e ressaltar a produção artística, musical e cultural que são amplamente apreciadas no movimento e fora dele, o que amplia ainda mais o conceito de caráter religioso ou sóciopolítico. Para o autor, o aspecto mais importante do grupo está expresso no fato de que “Rastafári proporciona uma autoimagem positiva, uma alternativa para pessoas que
60
Texto original: “The Rastafari are a Jamaican millenarian cult whose doctrines of social rejection postulate a promised land in Africa in general (and Ethiopia in particular) where their earthly deliverer and leader Haile Selassie lives.”
61 Texto original: “multiplicity of faith stances that run a full gamut from a Nicean Creedal, Garveyite, Afrocentric orthodox Christianity to a new religion centred on the reluctant shoulders of Ethiopian Emperor Haile Selassie I, […]”61 (p. xvii).
62 Texto original: “Rastafari is before anything else a way of life. It offers approaches and answers to real problems black people face in daily living;”
necessitam e não conseguem encontrar [alternativas] em nenhum outro lugar” (ibid, p. 2)63. Essa perspectiva de Nicholas é compartilhada por Spencer que vê Rastafári como “um estilo de vida ético criado da essência do cristianismo, da herança africana, da experiência da
Diáspora Africana, entre outras fontes”64 (Spencer: 1999, p. xvi). Hall (1985, p. 285) também
concorda com o aspecto da importância individual do movimento quando reforça a “ênfase
garveyista e na autodisciplina interna dos irmãos”65, sem, contudo, deixar de lado seu enfoque
religioso quando distingue Rastafári das demais seita milenaristas em virtude de sua esperança na salvação. Já Chryssides (1999, p. 269) considera Rastafári um movimento e não precisamente uma religião.
Bahiana consegue absorver a complexidade que há em tentar definir Rastafári e mostra a multifacetada função do grupo:
Para um estudioso da História, o rastafarianismo é uma grosseira distorção de fatos conhecidos e provados. Para um místico, é uma crença simplória e até desesperada. Para um militante, é uma inexplicável injunção do além em movimentos de massa. No entanto, ele é um dos momentos mais belos da jornada humana. É o oprimido tomando o destino em suas mãos, reinventando céus e terras, recriando Deus à sua imagem e semelhança, arrancando do fundo de si as raízes do sofrimento e da desigualdade, desenhando para si um futuro, um destino, uma honra. É um gesto de bravura e de pura poesia. É um gesto de fé – e a fé, como o bom reggae, permanecerá sempre sob a guarda de algum mistério (BAHIANA, 2007, p. 15). Na presente pesquisa, considero que o movimento seja uma combinação dos diversos elementos citados pelos autores acima. Porém, entendo que o caráter religioso do movimento seja sua principal vertente. Para identificar-se como Rasta, considero que seja necessário que o indivíduo seja adepto das doutrinas do grupo, sobretudo a crença na divindade de Haile Selassie. Esse critério foi adotado na escolha dos sujeitos entrevistados trabalho de campo, e não somente dos aspectos estéticos do movimento, tais como o uso dos cabelos em estilo dreadlock ou o gosto pela produção musical típica do movimento.
De acordo com a definição de Chauí (1994, p. 298) a religião representa um vínculo entre o profano e o sagrado, entre a natureza e o divino. A meu ver, a proposta do Movimento Rastafári está embuída do propósito de estabelecer esse contato entre Jah e o ser humano, religando-o a seu Criador, que em contrapartida oferece esperança no presente e no porvir. Apesar de muitos não considerarem Rastafári religião, entendo que o movimento
63 Texto original: “Rastafari provides a positive self-image, an alternative to people who need and cannot find or accept one elsewhere.”
64 Texto original: “an ethical way of life being created out of the materials of Christianity, African heritage, diasporan black experience, among other sources.”
guarda todas as características do que considero religião, apesar de não existir uma centralização eclesiástica, templos ou um corpo fixo de doutrinas. Entretanto, todos os outros elementos de Rastafári, quer estéticos, quer doutrinários, me permitem classificá-lo como religião, ou movimento de cunho religioso.