A relação entre o maestro e a batuta é de sobremodo curiosa, pois denuncia alguns fundamentos da arte e da técnica musical. Primordialmente, como maestro, o orientador acadêmico e, por extensão, os professores componentes da banca examinadora do trabalho, acredito, posicionam-se enquanto tal. O trabalho do regente constitui-se, dentre outros, na decifração e no estudo pormenorizado da partitura em seus aspectos estruturais, de tal forma que, interiorizando-a, é capaz de compreender e alcançar os andamentos, as linhas melódicas, o estilo e o caráter da obra. A sutileza em lidar com a composição do autor, sua personalidade, determinará nas palavras de Lago Jr. (2002), um soberano domínio da representação mental da partitura.
A batuta, uma vareta rígida feita de madeira com a função de, nas mãos do maestro, dirigir uma execução orquestral, não constitui por si só, uma mera representação de autoridade e poder, mas um instrumento que permite aos músicos integrarem as formações orquestrais, podendo ver com clareza a marcação do compasso, a indicação as entradas dos instrumentos. Porém, o aspecto mais importante na relação entre ambos, batuta e maestro, “é a expressão técnica e de pulsação interior do maestro” (LAGO JR., 2002, p. 244). Metaforicamente, neste trabalho, dissemos anteriormente, ser a batuta a expressão de curiosidade científica, da inquietação de todos aqueles e aquelas que pesquisam a formação e profissionalização docente.
Executando o Movimento I Adagio Affetuoso, o Adagio indicando o andamento lento da execução deste Capítulo, como de forma vagarosa, calma e no caráter de expressão Affetuoso, terno, meigo, pois a seguir falaremos também sobre os licenciandos da pesquisa, que tão prontamente se dispuseram a participar.
O processo de construção de uma pesquisa acadêmica perpassa, sem sombra de dúvidas, pelo desvelamento do objeto de estudo possibilitado também pelo aporte teórico- metodológico. O papel de desvendar os múltiplos e variados significado,s expressos pelos dados empíricos em inter-relação com os referenciais teórico-epistemológicos e vice-versa, é imprescindível à composição deste trabalho.
A batuta da investigação científica sobre formação e profissionalização docente entra em cena, demarcando as mãos direitas dos maestros, em particular, da maestrina, orientadora da pesquisa, impondo o ritmo, o compasso, simbolizando a ordem, clareza, sem, contudo, desmerecer o uso das mãos esquerdas, apelativas do caráter de expressão, do canto, simbolizando a sensibilidade e nuance afetiva.
Em seus estudos, Roazzi (1995, 2001, 2002) tem aprofundado a questão da verificação empírica indicando o Procedimento de Classificação Múltipla (PCM) como referencial teórico-metodológico que possibilita a apreensão de representações sociais, ou seja, dos sentidos atribuídos aos objetos simbólicos pelas pessoas a partir de suas práticas e de suas relações. Por ser um procedimento de investigação que privilegia aspectos qualitativos inerentes à natureza dos objetos simbólicos deste estudo – “Física” e “Ensinar”; “Química” e “Ensinar”, e por centralizar-se nas formas como os grupos de licenciandos pensavam, sentiam e se comportavam com relação às diferentes situações e experiências intrínsecas aos seus percursos formativos, é que o adotamos. As formas de ação e conceituação estavam refletidas nos sistemas de classificação e categorização manifestos nos momentos de realização dos PCM. As categorizações que fizeram e o como atribuíam conceitos a estas nos possibilitou a compreensão sobre a natureza destes conceitos e como os organizavam nas relações estabelecidas com a prática docente e com a formação, ou seja, foram alcançados os sentidos e significados subjacentes aos objetos simbólicos referidos acima.
Desta pesquisa participaram cem (100) licenciandos. Cinquenta (50) do curso de Física e cinquenta do curso de Química (50) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Campus Natal. Destes, vinte (20) licenciandos de cada campo específico foram submetidos à técnica de associação livre (AL) e os 60 restantes, 30 licenciandos em Física e 30 licenciandos em Química, participaram do PCM. Esta forma de tratar metodologicamente o universo amostral é amparada em questões epistemológicas inerentes à própria TRS.
Embora tenhamos apreendido RS acerca de objetos simbólicos por dois grupos de licenciandos dos cursos de Física e Química da UFRN, numericamente não representativos com relação ao total de alunos em cada curso, há, portanto, explicações de ordem epistemológicas inerentes à própria Teoria das Representações Sociais (TRS), que nos faz considerar seu status social.
Jodelet (2001) nos respalda quanto a isso, quando apresenta a questão da partilha social das representações à vida coletiva de um grupo, ou até mesmo da sociedade. Segundo a autora, considerar a dinâmica social que sustenta a produção de RS em grupos é uma das primeiras tentativas de não cairmos no risco de sermos formais e reducionistas acerca dessa questão. A partilha implica, pois, a dinâmica social que explica a especificidade das representações. A autora destaca outras questões decorrentes de pesquisas7 que partilhar uma mesma condição social, por exemplo, acompanha uma relação com o mundo, os valores, os
7 (JODELET, 2001, p. 35) cita vários estudos explicativos sobre a questão da partilha social das RS. Alguns deles: Plon (1972); Gilly; Vergès; Kaës (1968); Larrue (1972).
modelos de vida e as imposições ou desejos específicos acabam por produzir efeitos sobre o modo de conceber a cultura. Ademais, os fenômenos de aderência às formas de pensamento da classe, do meio ou grupo a que se pertence, são ensejados pela solidariedade e afiliação social, uma vez que “partilhar uma ideia ou uma linguagem é também afirmar um vínculo social e uma identidade” (JODELET, 2001, p. 34). Ou seja, a partilha serve à afirmação simbólica de uma unidade e de uma pertença, contribuindo para o estabelecimento e o reforço do vínculo social.
Afirmamos, pois, que tanto o lugar, a posição social que os licenciandos ocupam, as relações de saber com seus objetos, as funções que assumem na universidade, na escola e na relação de trabalho acabam por determinar os conteúdos representacionais e sua organização, por meio da relação ideológica que mantêm com o mundo social. “Assim, a capacidade de extensão das representações permite captar, ao nível dos atributos intelectuais de uma coletividade, a expressão de sua particularidade” (ibid, 2001, p. 35).
Outro argumento de caráter teórico-epistemológico é anunciado por Wagner (1998) quando trata acerca da sociogênese das RS. Longe de ser entendido em termos numéricos, o processo de funcionamento e manutenção de uma RS acerca de um objeto específico também está relacionado ao consenso funcional. Isto é, a necessidade do grupo em manter-se como uma unidade social reflexiva mediante a padronização de seu autosistema, dos processos de autocategorização e das interações de uma maioria qualificada de membros do grupo.
Afirmamos, portanto, que o sistema de RS dos grupos pesquisados esteve subjacente às interações coordenadas dos seus membros, de tal forma que seus discursos mediatizaram conteúdos representacionais da mesma natureza semântica.
Como o uso da AL determina as primeiras aproximações aos conteúdos latentes das RS, o PCM possibilitou o acesso aos sistemas classificatórios e categoriais implícitos e subjacentes às produções linguísticas de licenciandos. Primeiramente, com 20 licenciandos de cada curso, desenvolvemos a técnica de Associação Livre (AL) como meio de acesso ao campo semântico das representações. Posteriormente, com 30 licenciandos de cada curso, aplicamos os PCM divididos em duas tarefas: a de Classificação Livre e a de Classificação Dirigida, que explicaremos posteriormente, e como mostra a Tabela 1 referente à distribuição do universo amostral e os procedimentos metodológicos utilizados por subgrupos. A seguir, deter-nos-emos na descrição da população amostral participante da Associação Livre.
TABELA 01: Distribuição do Universo Amostral
Grupos Campos disciplinares NO de Licenciandos Procedimentos metodológicos 01 Física 50 20 licenciandos da AL com as palavras “Física” e “Ensinar” 30 licenciandos: PCM “Física”; PCM “Ensinar” 02 Química 50 20 licenciandos da AL com as palavras “Química” e “Ensinar” 30 licenciandos: PCM “Química”; PCM “Ensinar”