3. YÖNTEM
3.2 Gri İlişkisel Analiz (GRA)
Certas características socioculturais foram resultado de uma mudança na tecnologia comunicativa de tal maneira que é possível caracterizar a cultura influenciada pela escrita como cultura quirográfica. Para Mcluhan (2007) trata-se de é uma cultura marcada pela homogeneidade, uniformidade e continuidade, de tal sorte que a lei, a ética, a filosofia, a lógica, são exemplos de elementos culturais impensáveis sem tal tecnologia.
Os diversos pensadores que analisam as particularidades dessa cultura são enfáticos ao destacar o predomínio do senso visual, e não mais o auditivo. A cultura quirográfica é a cultura em que predomina a visão em detrimento a audição, afinal,
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duradouros”(Goody,1988,p.88). Objetos esses que agora reclama a atenção do
senso visual.
Mcluhan é um dos autores que mais destaca o fato de que foi a escrita – mais especificamente o alfabeto fonético – que criou de forma inédita na história humana a predominância do olho (senso visual) em relação ao ouvido (senso auditivo). Assim, conforme a hipótese de Mcluhan e Walter Ong de que cada nova mídia reorganiza o equilíbrio dos sentidos, “Com a intensificação e extensão da função visual, o alfabeto fonético reduz o papel dos sentidos do som, do tato e do paladar em qualquer cultura letrada” (Mcluhan, 2007, p.103).
A cultura quirográfica também é caracterizada pela constante independência em relação à memória, ou seja, o aparecimento da escrita levou a cabo o processo de artificialização, exteriorização, e enfim, de virtualização da memória, afinal, o livro é uma memória artificial. A informação pode agora ser armazenada, e como salienta Mcluhan (2007,p.182), armazenar já é transmitir. Quem salienta enfaticamente essa relação de independência da memória é Goody (1988,p.47), para quem:
[...] o problema do armazenamento na memória deixava de dominar a vida inteira do homem; a mente humana libertava-se para poder estudar um texto estático (em vez de estar limitada pela participação no enunciado dinâmico), o que possibilitava ao homem ganhar um certo distanciamento em relação a sua criação e examiná-la de forma mais abstrata, generalizada e racional.
A escrita tornou possível a noção de história, “A emergência do que nós chamamos história está intimamente ligada à introdução da escrita” (Goody,1988,p.166). E
tornou possível não só porque instaura referências fixas, ou porque é uma tecnologia de armazenamento das informações, como salienta Goody (1988,p.166):
A emergência da história não depende apenas da existência de arquivos ou da formalização da informação, mas exige ainda uma atenção crítica aos documentos originais e aos comentários tecidos pelos diversos autores, sobretudo quando é possível confrontar diferente versões. Finalmente, temos que na própria composição escrita se combinam o registro e a reformulação da informação.
Se a escrita é uma tecnologia linear logo conforme Flusser entende, “A invenção da escrita deve-se, em primeiro lugar, não à invenção de novos símbolos, mas ao
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desenrolar da imagem em linhas” (Flusser, 2007,p.132). Assim, ao conceber o
mundo em linhas, a escrita estabelece um processo:
O pensamento ocidental é histórico no sentido de que concebe o mundo em linhas, ou seja, como um processo. Não pode ser por acaso que esse sentimento histórico foi articulado primeiramente pelos judeus, o povo do livro, isto é, da escrita linear (Flusser,2007,p.103)
Outra conseqüência da queda da importância da memória é que o pensamento passa a se desenvolver na direção da forma analítica e abstrata, à medida que com a escrita “... aumentaram as possibilidades de acumular conhecimento, em especial o conhecimento de tipo abstrato” (Goody,1988,p.47), ou seja, é a escrita que
possibilita as abstrações que separam o saber do lugar no qual os homens lutam uns contra os outros. A escritura torna possível a separação entre sujeito e objeto do conhecimento, fator fundamental para o florescimento da ciência, da filosofia, da lógica, da ética. Afinal, como lembra Goody(1988,p.144):
A importância da escrita é crucial, não só porque preserva o discurso no espaço e no tempo, mas porque o transforma, isolando os seus elementos constitutivos e permitindo exames retrospectivos. Assim, a comunicação por intermédio da visão gera potencialidades cognitivas diferentes da comunicação pela palavra que sai da boca.
Baldini (1995) lembra, a respeito dessas novas possibilidades cognitivas, que “A filosofia pode nascer só depois que o homem tem finalmente interiorizado a escritura. É a escritura que libera a mente e a dá a possibilidade de formular pensamentos abstratos”(Baldini,1995,p.35, tradução nossa). No limite, como ressalta
Flusser (2007,p.111), “... a epistemologia ocidental é baseada na premissa cartesiana de que pensar significa seguir a linha escrita...”. O desenvolvimento de
certo tipo de pensamento racional e crítico, só é possível ao se relacionar com o avento da escrita.
Vale lembrar, entretanto, que a introdução da escrita, apesar de seu poder, não eliminou os traços da oralidade, antes preservou suas marcas:
[...] a Antiguidade mais tardia nunca descartou por completo o hábito da oralidade, e assim ficou impedida de reconhecer a sua existência histórica separada. Mesmo o leitor solitário lia alto para si mesmo; e
52 os escritores ainda procuravam audiências. (Havelock,1996,p.37)
O velho testamento é um exemplo claro da presença de vários traços da oralidade. Walter Ong(2000) é preciso ao colocar que, de fato, a bíblia, de gêneses até o apocalipse, registra a ainda dominante presença da cultura oral no tempo em que foi introduzida. O autor alerta que o estado oral da mente e das estruturas psicológicas, tão evidentes na bíblia, é estranha para nós, não porque somos ocidentais, mas porque somos homens pós-tipograficos, evidentemente muito mais alfabetizados do que os antigos hebreus.
É importante destacar, concluindo, que a cultura quirográfica concebe o mundo à sua maneira o mundo, que – conforme analisa Flusser (2007,p.142) – ―... é aquele
das religiões da salvação, do compromisso político, da ciência e da tecnologia, ou seja, o mundo histórico”.