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Entre os estudiosos não há consenso acerca do elemento cognitivo presente nas emoções. Konstan (2006, p. 24-26), no texto introdutório de seu livro, afirma que esse elemento pode ser identificado com um tipo de julgamento avaliativo. Esse julgamento considera o sistema de valores que regem determinada sociedade ou grupo de pessoas. Considerando a presença desse julgamento, Konstan defende que as emoções se configuram como repostas aos estímulos externos, entendendo por esse último termo as ações executadas pelos homens dentro de uma determinada sociedade. Para o autor, essa última interpretação só é possível se considerarmos uma sociedade extremamente hierarquizada onde cada homem ocupa um lugar determinado e encontra-se a todo

momento preocupado com a opinião dos outros sobre a sua reputação. Analisando essa interpretação sobre a presença do julgamento avaliativo nas emoções, podemos afirmar que Konstan parte de uma premissa antropológica na medida em que considera as emoções relacionadas ao contexto social no qual os homens encontram-se inseridos.

Uma posição um pouco diferente é apresentada por Nusbaum. Embora, autora também considere a crença como o elemento cognitivo presente nas emoções. Nusbaum defende que as emoções são despertadas devido à presença da crença. Entretanto, essas crenças não estão relacionadas ao sistema de valores sociais. Elas estão pautadas na maneira como o homem interpreta os eventos que são apresentados para ele. Assim, segundo Nusbaum (1996, p. 309), ao qualificarmos o mal como danoso, destrutivo, próximo, e como aquilo que pode ser evitado, caso do medo, introduzimos a crença, pois o mal é interpretado de uma determinada maneira. Por outro lado, a compaixão, segundo a autora, ao ser caracterizada como um mal destrutivo, doloroso, que atinge a quem não merece e que pode atingir a nós ou aos nossos semelhantes, apresenta três componentes cognitivos, a saber, o elemento cognitivo da má sorte imerecida, pois pensar acerca de merecimento ou desmerecimento remete-nos para a consideração acerca da justiça; o segundo elemento consiste em um julgamento sobre a própria vulnerabilidade, uma vez que a pessoa é levada a pensar que um mal prejudicial e doloroso possa atingir alguém que é próximo ou ela mesma; e por fim o reconhecimento da grandeza desse sofrimento uma vez que o mal mostra-se destrutivo e doloroso. Nusbaum afirma que as crenças presentes em cada emoção têm uma característica comum, isto é, elas atribuem valor aos estímulos que encontram-se fora do homem, se configurando assim como crenças avaliativas. Essas crenças, segundo a autora, possibilitam a distinção entre as várias emoções.

Fortenbaugh (1975, p. 11-13), assim como Nusbaum, defende que o elemento cognitivo presente na emoção seria a crença. Essa, segundo o autor, mantém uma relação causal com a emoção, ou seja, a crença seria o elemento provocador da emoção. Segundo Fortenbaugh, considerando a crença sob essa perspstiva causal, pode-se afirmar que ela se configuraria como uma causa eficiente da emoção na medida em que ela desperta a mesma. Além disso, a presença da crença, conforme o autor, permitiria distinguir as emoções de outras estímulos corporais, como por exemplo, as sensações e os apetites, que se configuram completamente desprovidos de razão. Fortenbaugh (1975, p. 97-101) em sua

consideração sobre as emoções avança com relação aos autores anteriores e afirma que Aristóteles ao utilizar o vocábulo φαντασία e seus cognatos na caracterização de cada emoção não se refere àquela faculdade biológica tratada em De Anima III, 3, mas que o filósofo compreende esse termo de maneira geral, a saber, “como aquilo que se mostra ou que parece ser o caso”. Com a finalidade de sustentar que o estagirita não trata da faculdade biológica da φαντασία na definição de cada emoção, Fortenbaugh utiliza duas passagens de

De Anima III, 3. Nelas, Aristóteles estabelece uma clara diferença entre a opinião e

φαντασία. Na primeira passagem, já discutida acima, a φαντασία difere-se da opinião. Essa diferença baseia-se no seguinte argumento: quando possuímos uma crença sobre algo terrível e ameaçador, imediatamente manifestamos uma emoção, no entanto, quando imaginamos algo terrível e amedrontadora, nenhuma reação é produzida, tão somente contemplamos esse algo como em uma pintura. A segunda passagem, também já apresentada na definição da φαντασία, toma como ponto de partida que as opiniões diferem da φαντασία uma vez que as primeiras por serem acompanhadas de convicção envolvem a persuasão e por consequência a razão. Fortenbaugh pretende com a interpretação dessas duas passagens, reforçar não somente que as crenças suscitam as emoções, mas também atribuir à φαντασία uma função representativa, ou seja, a apresentação de uma aparição ao pensamento sem suscitar nenhuma reação.

Por outro lado, temos alguns autores, como Cooper, que atribuem à φαντασία um papel importante no surgimento das emoções. Cooper (1996, p. 247) afirma que é preciso enfatizar que as emoções surgem a partir da φαντασία de que alguma coisa boa ou má pode vir acontecer, aconteceu ou está acontecendo. A afirmação anterior autoriza estabelecer uma íntima relação entre as emoções e a φαντασία, sendo a última compreendida, segundo Cooper, como uma “aparência” ou “um aparecer de determinada maneira”. Striker , assim como Cooper, também considera a φαντασία como um critério para o surgimento da emoção. Segundo a autora (1996, p. 293), o estabelecimento da φαντασία como critério para o surgimento da emoção, permite uma alteração no modo como as emoções serão analisadas, a saber, elas não são mais vistas como estados desiderativos irracionais que motivam ações injustas, e sim como aquilo que influenciam os julgamentos, determinando, portanto, o modo como as pessoas vêem determinado fato. Scheiter (2012, p. 76-78; 121- 123) defende, também, que a φαντασία seria um elemento cognititivo presente nas

emoções. Além disso, a autora considera que a φαντασία suscitaria a emoção uma vez que essa é capaz de produzir uma série de imagens específicas que se configuram como imagens dolorosas e prazerosas. Enquanto uma sucessão de imagens desse tipo, φαντασία assume uma natureza avaliativa na medida em que o prazer e dor constituem um julgamento não proposicional de que alguma coisa boa ou má ocorreu, está ocorrendo ou poderá vir acontecer. Entretanto na continuação de sua tese, a autora admite que se tratando do contexto da Retórica, o julgamento seria o elemento cognitivo por excelência, fato, que segundo ela, não é verdadeiro no estudo das emoções em outro contexto. Assim Scheiter afirma:

Aristóteles está falando sobre as emoções em um contexto muito específico e assim ele foca sobre uma característica muito particular das emoções, isto é, o fato das emoções serem despertadas através do discurso retórico, e, assim serem provocadas pela crença. Mas em outros contextos as emoções não podem ser provocadas pela crença e não podem ser sensíveis à razão. O fato do orador precisar que seu público acredite que foram desprezados, não significa que a pessoa não possa sentir raiva sem crença. É possível, mesmo com o que dissemos até agora, que podemos simplesmente imaginar que fomos menosprezados. Até aqui somente foi estabelecido que o argumento e crença são suficientes para despertar emoções. Nós não provamos que ele é necessário (SCHEITER, 2012, 123).

Fazendo, portanto, um balanço acerca das posições apresentadas pelos diversos estudiosos é plausível inferir que não há um consenso acerca de qual dos elementos cognitivos estariam presentes nas emoções, pois ora alguns deles apresentam a crença ou julgamento como tal elemento, ora a φαντασία. Entretanto é importante notarmos que o estagirita busca realçar a relação entre a φαντασία e as emoções,146 isso é evidente tanto

pela presença do próprio termo φαντασία quanto dos cognatos relacionados à esse termo. Se por um lado, tal relação é evidente, por outro lado, não é possível esclarecer, com base em De Anima III, qual sentido Aristóteles atribui ao conceito φαντασία na Retórica. Tal afirmação é plausível uma vez que a φαντασία é definida como um movimento gerado pela percepção em ato. Ora, sendo então esse conceito caracterizado dessa maneira, pode-se afirmar tanto que há uma dependência da φαντασία com relação à percepção, quanto uma relação dela com a produção de aparições. Nesse último caso a φαντασία consiste em representar algo ao pensamento. Na Retórica, ao elencar as várias coisas agradáveis,

Aristóteles apresenta de maneira resumida essa relação entre a φαντασία e a percepção. Vejamos o que diz o estagirita: “ora, como o prazer consiste em sentir uma certa emoção, e a representação é uma espécie de sensação enfraquecida, segue-se que o lembrar e o esperar são acompanhados por uma certa aparição daquilo que se lembra e espera” (Ret. I, 11, 1370a 26-30)147. Ao analisarmos o trecho citado podemos sublinhar primeiramente, uma

estreita relação entre o prazer e a emoção, ou seja, o prazer constitui um elemento importante para o surgimento da emoção. A seguir o estagirita apresenta uma caracterização diferente para o conceito de φαντασία uma vez que ele a considera como uma sensação enfraquecida. No entanto, mesmo definindo a φαντασία desse modo, ele ainda conserva a relação entre ela e a percepção. A partir de tal relação o filósofo, conclui pela presença da aparição que acompanha a lembrança e a expectativa. Considerando, então, essa intríseca relação entre a percepção e aparição infere-se que a φαντασία enquanto movimento dependente da percepção se configura como produtora de aparições. No entanto, embora haja uma estreita relação entre a φαντασία e a percepção, isso não nos autoriza afirmar que a representação só efetiva quando há processo perceptivo, pois, como já foi discutido, há movimento mesmo quando o processo perceptivo se encerrou ou o quando o perceptível não se encontra mais presente.

Benzer Belgeler