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1. BÖLÜM

2.4. İlgili Araştırmalar

O tropeiro de origem madeirense, Jerônimo de Ornelas Menezes e Vasconcelos, ex- integrante da “frota”167

de João de Magalhães, foi um dos três sesmeiros que se estabeleceram, em 1732, na região do atual município de Porto Alegre168. Sua estância localizava-se na área que corresponde atualmente à região mais urbanizada da cidade, incluindo a área central. A sede, segundo Spalding, ficaria no ponto mais alto da região, o Morro Santana (SPALDING, 1967, p.22). Os sesmeiros iniciaram, com o estabelecimento de suas estâncias com seus familiares e agregados, o processo de povoamento da região. Como comenta Vera Barroso, “[...] construíam capelas aos santos devotos, o que atraía moradores, propiciando a delimitação territorial de jurisdição eclesiástica para o estabelecimento de uma freguesia (BARROSO, 1992, p.38).

À época, o Lago Guaíba era chamado pelos habitantes da região de Lago de Viamão e a área correspondente ao centro atual da cidade de Porto Alegre, de Porto de Viamão; denominação que demonstra a especialização deste espaço como porto169 pelos moradores de Viamão. Povoado surgido do núcleo formado em torno da estância do tropeiro João de Magalhães, distando em torno de 15 km do porto. O que indica que, no início do povoamento, a necessidade de um porto era menor, tendo-se tornado indispensável no decorrer do desenvolvimento do mesmo. Talvez, nas primeiras décadas de existência de tal porto, tenham inexistido estruturas para embarque e desembarque, em vista do provável pouco trânsito de embarcações. Estruturas muitas vezes dispensáveis, dependendo das características do ancoradouro e tipo de atividades portuárias exercidas no local. Segundo Maria Luísa Pinheiro Blot:

Os vestígios materiais de tipo portuário, ou seja, construções especializadas tais como cais, docas, rampas de varadouro construídas, por exemplo, poderão efectivamente nunca ter existido em locais com funções portuárias, na medida em que essas funções se verificavam muitas vezes na total ausência de estruturas, mesmo em épocas muito recentes (BLOT, 2003, p.22).

No ano de 1739, Jerônimo de Ornelas requereu a posse das terras que ocupava desde 1732. Segundo Walter Spalding:

167 Expressão que, à época, significava também: chusma, bando (CESAR, 1981, p.87).

168 Os outros dois eram Sebastião Francisco Chaves e Dionísio Rodrigues Mendes (OLIVEIRA, C. S., 1993,

p.28).

169 Segundo dicionário, porto significa “lugar de abrigo e ancoradouro de navios , na costa ou junto à foz de um

[...] pedia a sesmaria por ser já habitante antigo e ter as terras que considerava devolutas povoadas de gado bovino e cavalar com alguns ranchos na margem da

“lagoa” para seus agregados e demais gente da tropa (SPALDING, 1967, p.22). 170

Em 1740, seu requerimento é deferido, recebe a concessão das terras compreendidas entre o Rio Gravataí, o Morro Santana, o Arroio Jacareí e o Lago de Viamão.

Obtida, por essa forma, a posse definitiva, tratou o arguto tropeiro de estabelecer nessas terras não apenas sua família, mas também as de sua gente, genros, parentes e agregados, formando um núcleo colonizador inicial de mais ou menos cem almas (SPALDING, 1967, p.16).

O porto denominado de Viamão, às margens do Lago Guaíba, passa, a partir da concessão da sesmaria, a ser chamado de Porto do D’Ornelas. Sobre a localização de tal porto, o historiador Walter Spalding afirma que:

O Porto de Viamão, depois Porto do Dorneles estava no ponto extremo da sesmaria, ao sul da península – a Ponta das Pedras – que ficava fora da sesmaria, de acordo com as leis de então – mais ou menos na altura da antiga foz do riacho Dilúvio [...] (SPALDING, 1967, p.20).

Porém o autor não apresenta a fonte de onde tirou esta informação. Contudo, em seu favor, a datação relativa dos vestígios arqueológicos, em particular das louças, apresenta para aquela área a datação mais recuada. Tal datação, para o maior período de acúmulo dos descartes entre as últimas estruturas de casas evidenciadas e o trecho extinto da Rua Vasco Alves, na Praça Brigadeiro Sampaio, ficou entre os anos de 1765 e 1805 (prancha 40). Período posterior à existência da sesmaria de Jerônimo de Ornelas, mas que indica a antiguidade da ocupação daquele espaço. Também, devemos considerar que a datação refere- se ao período de maior acúmulo, e não ao período inicial de formação do depósito. Podendo a data de início da formação do mesmo ser muito anterior ao ano de 1765. Os vestígios arqueológicos encontrados sob as estruturas das casas, no caso em particular das cerâmicas simples não torneadas, como os fragmentos de cerâmica guarani e cerâmica afro-brasileira podem indicar o período recuado de ocupação da extremidade da península (prancha 41c).

170Segundo Macedo, na imensa área formada pela sesmaria de Jerônimo de Ornelas, “havia, apenas a beira

d’água, na ponta da península, um punhado de posteiros, aplicados à pesca e à navegação fluvial. Foi ali que se

iniciou um pequeno aglomerado de ranchos cobertos de palha e o primeiro edifício semi-público – uma capela – tosca e pobre como a morada dos crentes, de pau a pique e coberta de palha tendo como orago São Francisco das

A localização do porto na extremidade da península, no local denominado Ponta das Pedras, explica-se pelo fato desta ponta adentrar o lago junto ao canal de navegação. Local propício para a instalação de atracadouro, sem a necessidade da criação de estruturas para facilitar o embarque e desembarque171.

O fato de a área, na extremidade oeste da sesmaria, às margens do lago Guaíba, legalmente não pertencer à área concedida a Jerônimo de Ornelas permitira, anos mais tarde, o assentamento temporário, depois definitivo, dos colonos açorianos. A área junto aos cursos dos principais rios navegáveis era de propriedade exclusiva do Estado português, como áreas de uso público172. Adiciona-se a isto, segundo Rhoden, que:

Desde 1697 se tornou freqüente nas cartas de sesmarias a cláusula de reserva das madeiras e paus-reais para o real serviço. Tratava-se de se preservarem as madeiras nobres para a construção naval, principalmente (RHODEN, 1999, p.147).

Neste intervalo de tempo, entre a instalação da estância de Ornelas e sua legalização com a obtenção da carta de sesmaria, a disputa pela Colônia do Sacramento agrava-se. Entre os anos de 1735 e 1737, a Colônia do Sacramento foi cercada por exército comandado pelo governador de Buenos Aires, dom Miguel de Salcedo. Armada enviada por Portugal consegue desbaratar o cerco, porém o clima de indefinição das fronteiras faz com que a Corte Portuguesa mude sua política para a região, a fim de garantir a posse das áreas já ocupadas entre Laguna e Colônia do Sacramento. Segundo Couto, “as tréguas foram aproveitadas para iniciar um programa de fortificações da região meridional, intensificar a sua colonização [...]”. Este contexto de tentativa, pela Coroa Portuguesa, de garantir suas possessões do extremo sul ajuda-nos a entender a política de distribuição de sesmarias, que se intensifica a partir da década de 1730 e o início da política de colonização com pequenos produtores de origem açoriana.

Frente à ameaça castelhana vinda do sul, a partir de Buenos Aires, mas também representada pelas Missões a oeste, que colocava em risco as possessões portuguesas que, à época, se restringiam, comprimidas, à faixa litorânea, tornava-se necessário um ponto

171

A ponta imediatamente a sul da Ponta das Pedras foi utilizada, durante quase todo o século XIX, como ponto de passagem do gado da margem oeste do lago para abastecer a cidade. Era denominada de Ponta da Passagem.

Não foi encontrada referência à sua utilização para o período em que o porto “pertencia” a Jerônimo de Ornelas,

contudo, considerando que Ornelas era tropeiro e dono de estância de criação, não se descarta a possibilidade deste uso como passagem de gado recuar a sua época.

172Segundo Riopardense de Macedo, citando Paulo Xavier, “as concessões de sesmarias obrigavam o sesmeiro à

fortificado, intermediário entre Laguna e Colônia de Sacramento. Necessário também como ponto de apoio para sustentação da disputa pela Colônia do Sacramento.

O melhor local para instalação deste ponto fortificado era a foz da Lagoa dos Patos, porta de entrada para o interior do continente. Entrando pela foz pode-se seguir pela Lagoa dos Patos até sua extremidade setentrional, onde, a oeste, se acessa, pelo Lago Guaíba, o Rio Jacuí, que permite seguir até as imediações das Missões Jesuítas. Segundo Couto:

O governo joanino aprovou, por carta régia de 23 de março de 1736, a edificação da Fortaleza de Jesus, Maria, José, na entrada da lagoa dos Patos, no Rio Grande [do Sul], cometendo essa missão ao brigadeiro José da Silva Pais. Essa iniciativa foi prosseguida pelo mestre-de-campo André Ribeiro Coutinho, que dirigiu a construção de fortalezas e de outras instalações militares, designadamente no Passo do Chuí (Forte de São Miguel), No Viamão e no Tramandaí (COUTO, 2007, p.311).

Apesar da localização escolhida para o estabelecimento da fortificação, na margem direita do canal, não corresponder a um local propício à atracação de embarcações, um porto natural, cumpria o propósito de manter uma possessão lusa junto à Banda Oriental do Rio Uruguai, oferecendo ponto de apoio às ações de Portugal no Rio da Prata (BARRETO, apud TORRES, 2010, p.27). Segundo Rodrigo Torres, a articulação da povoação da península com o ancoradouro de São José do Norte permitia o controle do canal de acesso à Lagoa dos Patos (TORRES, 2010, p.27).

Com a fundação da Nova Colônia do Sacramento (como Rio Grande era denominada à época), o Porto de Viamão, ou Porto do Dorneles, passa a ter uma importância estratégica maior para a comunicação entre o sudeste e nordeste da Comandância Militar do Rio Grande de São Pedro.173 Porém, antes do início da década de 1750, poucas são as referências ao Porto de Viamão. Os relatos de viajantes, compilados por Guilhermino Cesar (1981), que estiveram no Rio Grande de São Pedro na primeira metade do século XVIII, em nenhum momento se referem a tal porto, indicando a importância menor do mesmo. Em um destes relatos, Cristovão Pereira de Abreu, em 1738, ao descrever as características do Rio Grande, diz desconhecer a Lagoa dos Patos ao norte da fortificação Jesus, Maria e José. As informações que obtém recebe de “pessoas antigas na Vila da Laguna”; porém afirma que:

Bom desejo tive de examinar a sua grandeza, mas faltaram-me os meios para o poder fazer, sendo o principal de que se necessita, embarcação capaz, porém qual ela seja,se pode considerar dum corpo que tem semelhantes braços.

Afirmação que deixa transparecer a dificuldade de navegação na Lagoa dos Patos à época, pelo menos a montante da mesma. Porém a situação parece ter sido solucionada em uma década pelo que se pode concluir da criação do Porto de Viamão.

O dado exposto por Paul Singer quanto à colheita do trigo no Rio Grande de São Pedro, no ano 1748, mostra que já existia uma produção considerável do cereal nos quatro núcleos iniciais de povoamento, incluindo o Porto de Viamão (os outros três são: Capela Grande de Viamão, Rio Grande de São Pedro e Santo Antônio da Patrulha). Segundo Singer, “a colheita de trigo teria atingido 220.299 alqueires” (SINGER, 1977, p.147), impressionante número, se considerado que somente mais de meio século depois seria ultrapassado pela colheita de 1813, 342.087 alqueires, ápice da produção do cereal no Rio Grande do Sul à época. O número surpreende, por outro lado, pela produção de trigo de 1748, preceder a chegada dos açorianos, os “Casais Del Rey”, em 1752, a quem se reputa o período de produção tritícola.

A considerável produção de trigo, para a época, provavelmente tenha exigido algum afeiçoamento do litoral para facilitar o transporte do cereal, com algum tipo de trapiche. Contudo, até o momento, não foram identificados vestígios de qualquer estrutura que possa ter tido esta função na época. E mesmo que tenha existido, é pouco provável que tenha resistido à ação do tempo e às modificações urbanas da cidade ao longo de mais de dois séculos.

As primeiras povoações, antes da chegada dos açorianos, ao que tudo indica, já recebiam um crescente número de colonizadores vindos do sudeste do país, das ilhas atlânticas dos açores e madeira, como também da Colônia do Sacramento. O próprio incentivo dos sesmeiros pode ser aventado, uma vez que a produtividade e o povoamento das terras era uma das condições para a manutenção das sesmarias. O sesmeiro do Morro Santana, Jerônimo de Ornelas, provavelmente teve papel importante para o início do povoamento do núcleo que deu origem à cidade de Porto Alegre.

Ao final da primeira metade do século XVIII, as “cidades do gado”, como as denominou Walter Spalding, também se tornaram, em menor grau é verdade, em cidades da agricultura.

Benzer Belgeler