• Sonuç bulunamadı

As razões que originaram esta pesquisa são de ordem pessoal, biográfica: uma advertência que consta na Introdução do presente trabalho, e que de novo faz-se explícita na hora de centrar a pesquisa. Estas razões são representadas por encontros que cristalizaram em motivações. Como foi extensamente descrito, cada um dos encontros gerou questionamentos que naturalmente redundaram em perguntas, terreno fértil para que a pesquisa germine. A pesquisa é, de um modo ou de outro, a tentativa de resposta às interrogações que a reflexão sobre um determinado tema nos coloca.

O encontro com o paciente estimulou a reflexão que amplia a vocação médica, na tentativa de compreender o paciente e o universo peculiar onde a doença o situa, e a partir do qual procura ajuda e cuidados. A pergunta emergente deste encontro é evidente e poderia ser assim formulada: que recursos empregar para aproximar-se do mundo do paciente, para compreendê-lo adequadamente? O encontro seguinte, com o aluno, segue uma lógica análoga que de algum modo complementa a primeira, e provoca um questionamento similar: Como entender o mundo do aluno para poder ajudar na sua formação como médico? São portanto perguntas cujas respostas poderão ser construídas num caminho que atinge medularmente a atitude do médico-professor: o itinerário da compreensão.

Surge a Medicina de Família como um guia possível que nos ajude a trilhar este percurso. A experiência elaborada por aqueles que nos antecederam, hoje consubstanciada em metodologia, vem em nosso auxílio como um corpo próprio e sistemático de respostas para a compreensão do paciente e do aluno. A reflexão à qual o método da Medicina de Família nos conduz, desemboca na pessoa, como sujeito único que solicita a compreensão do médico, também professor, e que hoje é pesquisador que busca respostas. O método centrado no paciente e a dimensão educadora do médico de família, tem seu complemento necessário e natural na

vertente humanística, instrumento imprescindível para conhecer o ser humano, objeto último dos nossos questionamentos.

O encontro com a pessoa pede uma reflexão maior, provocando o quarto e último encontro, com o universo do Humanismo médico, e das Humanidades como recurso para melhor conhecer a pessoa, nosso objeto de pesquisa. Mas por pouco que nos demoremos nesta reflexão sobre o Humanismo, logo percebemos que ela não é uma novidade, um passo a mais que foi necessário dar, no itinerário dos encontros descritos. O Humanismo esteve presente, desde o primeiro momento, em todos eles, de modo mais ou menos explícito, já que sem Humanismo não existe propriamente reflexão. É a atitude humanista que leva a refletir sobre as atitudes no encontro com pacientes e com alunos, ampliando o espectro vocacional do médico-professor. É também a reflexão –agora sistemática e metodológica- que permite percorrer o caminho traçado pela Medicina de Família, como disciplina acadêmica. Este último encontro –com o Humanismo- não é portanto uma novidade, mas a concretização de uma atitude que desde o início esteve presente. Tratar-se-ia de uma explicitação clara e aberta dessa atitude que, no final do caminho, decide recorrer às humanidades –pisando as mesmas pegadas dos humanistas- como ajuda na elaboração das respostas que se procuram na compreensão da pessoa.

As pegadas dos humanistas compõem o universo das manifestações artísticas, essa necessária secreção do espírito humano que lembra ao homem a sua condição e tenta impedir, de algum modo, que seja absorvido pela matéria. Como foi comentado no capítulo sobre o Humanismo Médico, uma lembrança particularmente importante para quem, como o médico, trabalha com a materialidade do ser humano e deve ter presente, ao mesmo tempo, que a pessoa não se esgota na matéria. O universo das artes é para o médico uma companhia necessária que assegura sua identidade vocacional. Para o estudante, médico em formação, é auxilio na construção dessa identidade; para o profissional, torna-se instrumento de trabalho, fonte de conhecimentos, barreira que protege de desvios. A arte é nutrição para o espírito, têmpera que lhe permite tratar com a dor, a morte, e toda a gama de limitações que a condição material humana impõe, sem perder a perspectiva transcendente. A arte não

é simples refúgio que consola quando se apalpa a caducidade da matéria, como um sonho que ajudasse a fugir da realidade. Humanismo e arte são verdadeiras couraças que nos permitem mergulhar em cheio na materialidade, misturar-nos com ela –pois é com ela que os médicos lidamos diariamente- para dando o melhor de nós como médicos, ajudar até onde nos é possível, sem infectar-nos com o germe do materialismo que conduz, antes ou depois, à decepção e a perda do entusiasmo profissional.

O último encontro com as humanidades trouxe uma carga biográfica especial. Remexendo nas lembranças sempre vivas da infância e adolescência, nos deparamos com as manifestações artísticas que serviram para construir a própria identidade como pessoa. E estas, como todos os hábitos da infância, aprendidos na escola da família, se encontram firmemente arraigados. O cinema representou no nosso caso uma dimensão significativa no caminho da educação. E com a mesma naturalidade que foi aprendida, procuramos utilizá-la agora como educadores na escola médica. Primeiramente de modo informal, como recurso que conferisse maior claridade a conceitos que procurávamos ensinar; posteriormente, de modo mais sistemático, quando notamos o impacto produzido nos alunos com as primeiras tentativas.

Neste ponto, parece lógico perguntar se o cinema poderia contribuir para a solução das questões que foram emergindo até o momento e que convergem para um objetivo comum: o esforço para melhor compreender a pessoa. Compreender o paciente, para cuidar dele; compreender o aluno, para poder ensina-lo. E compreender-se a si mesmo, que é condição que permite crescer, e, principalmente, garante a preservação da identidade como médico, como professor, como pessoa. O cinema é uma forma de arte, e como tal, parece razoável pensar que deve fazer parte dessa série de despertadores da condição humana que são as humanidades e as manifestações artísticas. As motivações convergem sobre o cinema, e é nele que o impulso para a pesquisa toma forma concreta, pontual, e surgem os objetivos que a trabalho de pesquisa se propõe desenvolver.

O processo de avaliação é condição de credibilidade na pesquisa, e ponto de partida para desdobramentos posteriores que venham integrar uma linha de pesquisa. Trata-se neste caso de avaliar o poder educacional do cinema e o impacto produzido nos alunos. É o momento de recorrer de novo à biografia para observar o que foi vivido, e onde o cinema tomou parte em tudo isto. Percebe-se que o que se tem nas mãos é um conjunto de experiências –variadas em circunstâncias, em público, e em contexto- que tem como denominador comum estudantes de medicina, recursos provenientes do cinema, e ocasiões educacionais também variadas. Avaliar estas experiências, que são, antes de mais nada, vivências dos próprios alunos, requererá instrumentos apropriados que contemplem este universo. Impõe-se, por tanto, recorrer a ferramentas de avaliação que sejam capazes de lidar com a variedade do contexto e com a riqueza das vivências, sem perder o rigor metodológico, conferindo credibilidade e solidez científica à pesquisa. A metodologia de abordagem qualitativa surge como um instrumento possível de avaliação da experiência. Completa-se assim o itinerário biográfico das motivações, delineam-se os objetivos, perfilham-se os métodos de avaliação: a pesquisa pode comecar.

Benzer Belgeler