• Sonuç bulunamadı

% " # ) & C + C ' # Frank Capra

Chega ao fim o itinerário de encontros e motivações, raiz vital deste trabalho. E, no final, justo é voltar-se para um encontro peculiar: o encontro com cinema. Ele será o ponto de partida da nossa pesquisa, o cenário sobre o qual será desenhada a experiência educacional. Mas se o cinema pode ser origem do trabalho de pesquisa, é porque antes foi raiz na vida do pesquisador. Por isso o encontro com o cinema e sua contextualização como elemento formador, não é propriamente uma descoberta, mas uma redescoberta; ou se preferirmos, um re-encontro. Se a primeira parte do trabalho, onde tratamos de fundamentar os motivos que nos impulsionaram para a experiência e resultaram na pesquisa, é permeada pelas vivências de quem escreve, neste momento final, as raízes da própria história são o sustento lógico e natural das considerações que aqui se seguem. Valha esta sumária explicação para justificar o tom, completamente biográfico, deste breve capítulo.

Começou cedo o gosto pelo cinema. Na família, no lar; onde começam todos os gostos que perduram. São nutrientes que mamamos e crescem conosco, em identidade que acompanha o desenvolvimento biológico. Ao desabrochar da juventude, sucede-se a maturidade. Tornamo-nos homens e a vida nos leva por caminhos variados. Mas somos, felizmente, marcados pela infância, presos ao berço por raízes vitais.

O cinema foi ingrediente importante dessa seiva nutritiva. Foi e continua sendo; um traço fundo e marcante, gravado a golpe de vivências, na superfície, ainda quente e branda, de uma personalidade em formação. Pode-se contorná-lo,

prescindir dele, até tentar ignorá-lo. Mas não é possível apagar o que já tem seu próprio viver, autonomia . Os múltiplos afazeres com que a vida nos solicita parecem empilhar as vivências no esquecimento. Mas não morrem nunca. Permanecem latentes, em silencioso pulsar, no íntimo do nosso ser, fazendo parte de nós. E, por isso, surgem, uma vez e outra, cruzando-se no palco da vida com as realidades -diferentes e variadas- nas quais nos vamos enfronhando.

A educação na família tinha frequentemente modos cinematográficos. Em primeiro lugar os pais, em quem justo é reconhecer os formadores que nos introduziram neste gosto: eles foram os verdadeiros professores que souberam usar a metodologia que agora utilizamos. Os irmãos, companheiros de vivências com sabor de televisão em branco e preto, jantares às pressas, e doces que se esfarelavam sobre o pijama. Família são também os avós, que gastavam inúmeras horas de sábado à tarde nas sessões contínuas no cinema. Entrávamos às quatro e saíamos, já noite, depois das oito. Pipocas, balas e lanches que, com dedicação, minha avó levava numa sacola para todos os netos, até prestigiando os gostos de cada um. Eram clima indispensável para os mutirões cinematográficos, que nunca cansavam, embora não raramente assistíssemos duas vezes ao mesmo filme. E os tios, e amigos, e tantos que entremeavam as conversas e conselhos com diálogos -quase textuais- deste ou daquele filme. Sempre como modelo, recorrendo a um idioma que todos compreendíamos. Era todo um jeito especial de se relacionar com o cinema. Os filmes eram, para nós crianças, um convidado a mais nas conversas do lar.

Podería citar muitos exemplos para mostrar os modos cinematográficos da educação familiar que tivemos. Anotarei apenas um que, por força da circunstância, é suficientemente esclarecedor. Quando meu pai faleceu, há alguns anos, minha mãe me confidenciou: “Quando estava no velório vieram-me à cabeça as palavras que Errol Flynn, naquele filme em que personifica o General Custer, dirige à esposa antes de entrar em combate: ‘Foi um prazer passear com você pela vida’. Isso mesmo pensava eu e dizia a teu pai”. Naqueles momentos de dor, minha mãe recorria à linguagem do cinema para exprimir o seus sentimentos mais profundos. Se nunca tive dúvida da “educação em versão cinematográfica” que tínhamos recebido na família, aquele comentário foi para mim uma confirmação absoluta.

Mas não foi, a nossa, uma educação teórica sobre o cinema. Foi formação durante as vivências com o cinema, filmes assistidos em conjunto, comentados, esperados, sonhados. Domingo à tarde, quantas vezes, em evento anunciado desde o começo da semana. Até nos distraíamos em alguma aula pensando no cinema que tinha sido prometido para o domingo. Finalmente, chegávamos no cinema, começava o filme. A expectativa era grande pois muitas vezes alguém ja o tinha visto; e nem digamos se era um filme antigo que estava novamente em cartaz. Reparei então que o “filme-família” nunca é completamente desconhecido para todos; sempre havia quem o tinha visto –faz muitos anos!!!- ou o recomendava alguém por outro motivo. Não era um mergulho coletivo no desconhecido, mas uma vivência orientada num clima peculiar. O ambiente, os sentimentos, as expectativas, o filme enfim que se gravava fotograficamente no álbum das lembranças entranháveis e que o tempo realça depois, sem as amarelecer, tornando-as gigantes. O tempo é um ampliador genial das emoções.

O “filme-família” era isso, o evento que marca, que se registra nos sentimentos, que pede “bis” quando os anos passam. Mas um "bis" familiar; se não, perde o encanto. Não se revê um filme-família a modo de lembrança pessoal, individualmente. Há que revê-lo para os outros, com os outros. As sensações dos outros -da família- despertam em nós as vibrações antigas do evento de outrora.

A literatura -comenta MARIAS (1992), filósofo e também crítico de cinema- é instrumento formidável para interpretar as formas de vida humana. A vida torna-se transparente na ficção. O cinema é também um elemento humanizador, um modo de explicar a vida humana, sendo como é arte. Mas não simples estética, um ídolo monolítico erigido pelo apurado gosto do cinéfilo requintado. O cinema é mais do que isso. É um jeito de ver a vida, os homens, de aproximar-nos deles para entendê-los. Uma lente que nos ajuda a explicar o acontecer humano e, mais do que explicar, sentir com os homens, em concórdia -que é coração junto a coração, como dizia ORTEGA.(1927). Uma lente que deve ser clara, cristalina, positiva.

Os filmes foram na nossa educação verdadeiro livro de vivências, motivo continuado para voltar-se sobre o ser humano e o universo com ele relacionado. Quer dizer, um humanismo vivido desde a infância, sem perceber. E nesse humanismo familiar podem se descobrir os valores impressos nos filmes, valores que nos sustentam levando-nos a viver com intensidade; e despertam, com a plasticidade das imagens, ideais altos, horizontes elevados. O cinema foi no lar um idioma que falava à cabeça e ao coração, verdadeira educação da afetividade em tantos e tão variados temas e modos que os filmes oferecem. Uma verdaderia pista de decolagem para vôos mais altos.

O cinema precisa de atmosfera propícia para gerar vivências. Ambiente externo e meio interior. Um recinto que , com o aconchego da companhia seleta, permita a expansão afetiva, livre de acanhamentos, sem medo das próprias emoções. Porque o filme que será depois experiência de vida deve ser vivido, sentido, com alguém por perto. O isolamento, o cinema em versão individual, limita o paladar das emoções, torna-se insosso. É como degustar o vinho da boa safra a sós, em desamparo de convivência. Por isso, já adulto, a gratidão se volta para os amigos, os colegas, a família que divide o nosso teto, os que viveram os filmes conosco. Em participação vital que abarca o comentário acertado na mudança de cena, a exclamação que desnuda o espírito, o sorriso e as lágrimas, mudos testemunhos de uma afetividade em sintonia. Quantas vezes são os comentários, no café da manhã, os que revelam os negativos que a película estampou na alma a noite passada. Companheiros de vivências, todos eles, são por justo mérito raízes e motivação desta experiência.

Nas raízes do cinema também professores, mestres, amigos desfilam pela memória. E os outros mestres, os escritores, filósofos, poetas, que em silencioso rumor cultivam nosso espírito, nos ajudam a entender o ser humano. E os alunos com quem estabelecemos, através da linguagem que o cinema nos brinda, uma comunicação eficaz, que também fala à cabeça e ao coração, e nos educa mutuamente, e nos faz aprender. E até os pacientes –quantas vezes falo com eles através de filmes, utilizo a linguagem do cinema para explicar algum detalhe, ou

recebo presentes em forma de filmes! Os pacientes, sem querer ensinar acabam educando nossos sentimentos. É grande o poder educador de quem, polido com o sofrimento, ressuma humanidade pelos poros. É como se a necessidade descortinasse a essência do homem, desviando o nosso olhar das frivolidades, do epidérmico.

Presente nas raízes biográficas também se encontra um empreendimento de anos atrás, no qual fui convidado a participar: o projeto Video& Cultura, em cujas reuniões do conselho editorial tive oportunidade de escrever sobre o cinema e, mais importante, de repensar no cinema e prende-lo às minhas raizes formativas, enquanto revia e revivia os filmes, para levar as idéias até o papel, e me re-encontrava com valores impressos na infância.

Estas são as raizes biográficas que explicam o motivo desta experiência vital sobre o cinema. Uma experiência que tem como bússola a procura dos valores, com a profunda convicção de que são estes o elemento educativo, formador. O cinema pode vir a ser usina de personalidades, promotor de atitudes nobres, guindaste que nos levanta e faz crescer, quando aproveitado convenientemente. É por isso, uma experiência franca, de coração aberto. E como sempre que colocamos à mostra o que é parte da nossa alma, o fazemos com a intenção de que possa ajudar outros. Eis o nosso tributo necessário de amor ao cinema, de paixão pelo homem. Uma tentativa sincera de ser útil.

2.4 INTEGRANDO MOTIVAÇÕES: CONVERGINDO PARA

Benzer Belgeler